terça-feira, 11 de agosto de 2015

O ADVOGADO DA MINHA INFÂNCIA


Hoje é dia do advogado. Parabéns ao povo do Direito. No dia da efeméride, justíssima, eu adoraria saber por onde anda o advogado que marcou a minha infância, o Dr. Oswaldo Valadão. 


Lembro-me de uma ocasião em que os moradores da vila em que minha tia-avó morava resolveram fazer um Réveillon. Foi quando vi o Dr. Valadão, um advogado sério, calado, metido a intelectual, se transformar completamente. O homem, que tinha fama de reserva moral, emburacou na sidra de macieira de terceiro escalão e perdeu as estribeiras. É justo dizer que a esposa do esnobe, prenunciando a catástrofe, fez vários alertas no estilo: “Valadão, você não está acostumado.”

Pois houve finalmente um momento em que o homem pirou. Aos primeiros acorde de ‘Sinhá Pureza’, um carimbó de Pinduca que fez um sucesso estrondoso nos anos setenta (“vou ensinar a Sinhá Pureza, a dançar o meu sirimbó / Sirimbó que remexe, mexe/ sirimbó da minha vovó”), Sua Excelência deu um grito, jogou a sidra para o alto e começou a tirar a roupa.

Enquanto ameaçava ficar pelado, o homem gritava algo como “eu sou a Sinhá Pureza; nesse ano que está começando, eu só quero ser chamado assim”. Incontrolável, o doutor só acabou contido pela entidade de uma vizinha. Apesar de católica (apostólica romana, como gostava de frisar) e detestar macumba, a dona invariavelmente recebia um caboclo na noite de Réveillon que urrava e saía dando consultas, passes com baforadas de charuto e esporro em todo mundo. O caboclo enquadrou o doutor Valadão.

A festa passou e o distinto voltou a vestir a carranca de advogado sério e impenetrável, além de ameaçar meter um processo em todo mundo que o chamasse pelo mimoso apelido de Sinhá. Ameaçou também processar a fábrica da sidra de macieira, mas desistiu. Seis meses depois daquele Réveillon, Sinhá Pureza mudou-se de mala e cuia com a família para destino ignorado. Ninguém mais soube dele.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

O BODE E O MARECHAL

Relato verídico de 2007, que reproduzo atendendo a pedidos de uma amiga do personagem
O homem de imprensa Álvaro Costa e Silva, vulgo Marechal, defende curiosa tese sobre os cemitérios do Rio de Janeiro. Marechal prefere o Caju ao São João Batista, por uma questão de caráter e dignidade pessoal. A opção do meu amigo pelo Caju tem uma origem que, revelo agora , testemunhei . Aos fatos, pois.
Em certa ocasião, Costa e Silva cumpriu a dolorosa tarefa de ir ao enterro de uma figura queridíssima. Destruído pela morte do amigo, Marechal não conseguiu ficar cinco minutos no velório e foi beber umas geladas numa birosca em frente ao Caju. Arregimentou um grupo para a tarefa.
Lá pela décima ampola, Marecha resolveu tirar uma água do joelho. Ao iniciar os procedimentos da mijada, sentiu a presença , ao lado do vaso, de um bode preto, impoluto, silencioso, barba à Pedro II e olhar penetrante. O caprino manjava fixamente o jornalista .
Assustado com a presença do bicho, Marechal concluiu que se tratava de um óbvio fenômeno sobrenatural. O bode era uma aparição, não havia dúvidas. De volta aos trabalhos etílicos, Alvinho comunicou, em sussurrante gaguejar, aos amigos:
- Minha gente. O lugar aqui é sério. Não é pra apavorar ninguém, mas tem um bode preto perto da privada. É o espírito de alguém, não tenho dúvidas.
Intrigadíssimos, os bebuns começaram a ir, um por um para não disseminar o pânico , ao mictório verificar o fenômeno. Cada um que voltava tecia considerações sobre o bode, que de fato lembrava o caprino do Livro de Capa de Aço da Magia de São Cipriano
Alguém sugeriu que um Pai Nosso bem rezado poderia afastar a assombração. Marechal assumiu a tarefa de mandar o bicho de volta ao além. Entrou no banheiro, lembrou dos tempos de congregado mariano, fechou os olhos e mandou ver.
Marecha acabou a oração mais tranquilo, crente que o animal tinha desaparecido. Não funcionou. O bode continuava firme e forte, paradão, com pose de Capricórnio da Revista do Horóscopo da Zora Yonara. Marechal olhou nos olhos do bicho e apelou:
- Vai em paz. Deixa esse mundo, meu velho.
O bode finalmente se manifestou. Deu um berro profundo , longo, aterrorizante, que fez o nosso Marecha sair em desabalada carreira. O bicho foi atrás , enfurecido.
Marechal passou varado pelo salão, gritando, e o bode na cola dele . Atravessaram a rua e entraram pela alameda principal do campo santo, seguidos por uma legião de pinguços e pelo dono do boteco, que bradava em direção ao caprino :
- Volta aqui, Luiz Armando. Volta aqui, Luiz Armando. Quem foi o filho da puta que soltou você. Luiz Armando, porra ...
Marechal escalou , com impressionante agilidade, a sepultura do Barão do Rio Branco e colocou-se em um lugar a salvo do animal. Luiz Armando atendeu aos apelos do dono e acalmou-se, capturado por um coveiro que , diante da pequena multidão que se formara, esclareceu o fato:
- Esse negócio de criar bicho no quintal pra vender pra curimba em porta de cemitério é coisa séria. Tem que ser profissional. Semana passada foi a galinha d´angola que entrou bicando todo mundo num velório.
Após ser resgatado do cume da tumba do Barão (um espetáculo de sepultura - o homem de imprensa garante que conseguiu ver , lá de cima, as praias oceânicas de Niterói) Marechal declarou perante testemunhas - sou uma delas - que o Caju é o único cemitério viável para um carioca.
O episódio do bode Luiz Armando é a prova contundente disso. Concordamos todos e firmamos, ali mesmo, um pacto: o cemitério da Zona Portuária será a nossa derradeira morada.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

O BALUARTE E O SAMBA DE FUNDAMENTO: A MENINA DOS OLHOS DE OYÁ

As Escolas de samba surgiram, em larga medida, como instituições associativas de invenção, construção, dinamização e manutenção de identidades comunitárias, redefinidas no Brasil a partir da fragmentação que a diáspora negreira impôs. Cada escola de samba construiu, dentro de um território de referências comuns, elementos próprios de identidade, através das características das baterias, dos sambas-enredo, dos sambas de terreiro, etc.

Não há quem conheça as características identitárias da Estação Primeira de Mangueira como Tantinho, baluarte nascido e criado no morro e compositor consagrado da Verde e Rosa. 

É neste sentido que o samba de Tantinho e parceiros para o Carnaval de 2016 se apresenta como uma obra de identidade mangueirense. Ele escapa da armadilha de encarar a tradição como algo estático e trabalha o legado dos ancestrais de forma dinâmica, que aponta para novas possibilidades.

O samba em questão se estrutura a partir de uma linha melódica típica da Mangueira, adequando a melodia à batida do surdo de primeira e aos desenhos do surdo-mór, que normalmente tem a função de fazer o “corte”, realizando contratempos nos refrãos. Tal característica se evidencia, por exemplo, no trecho "ôô ô ô - abram caminhos pra filha de Dona Canô", com uma construção melódica que nos remete a José Ramos, um dos maiores melodistas da história da agremiação, e talhada para os desenhos do peculiar surdo-mór mangueirense.


É nítido também o diálogo que o samba de Tantinho estabelece com as linhas de composição de outros gigantes da agremiação, como Zagaia, Comprido, Cícero, Pelado, Hélio Turco, Darcy e Jurandir. Percebe-se isso, por exemplo, no recurso de não se deixar grandes espaços entre as frases melódicas, alongando as notas para que a melodia se encaixe com a batida característica dos surdos da escola, e na entrada da segunda parte, que nos remete a sambas marcantes da escola na década de 1960.


A melodia vai praticamente do início ao fim em tonalidade maior (como a grande parte dos melhores sambas mangueirenses), escapando disso apenas em uma pequena passagem no acorde relativo no trecho "seu canto reza”, como a enfatizar sutilmente a introspecção da oração. É a riqueza do detalhe.


Do ponto de vista da letra, Tantinho mais uma vez reinventa a tradição em diálogo constante com ela. Tal fato já se manifesta na opção por uma construção poética mais interpretativa do que descritiva do enredo. À exceção do clássico “O Grande Presidente”, de Padeirinho, os sambas da Mangueira sempre se caracterizaram por uma abordagem mais solta do enredo, não se atendo à narração de fatos e datas. Essa perspectiva interpretativa se apresenta em vários enredos nos quais a escola prestou homenagens a grandes personagens: Gonçalves Dias, Villa-Lobos, Jorge de Lima, Braguinha, Dorival Caymmi, Chico Buarque, Tom Jobim, etc.


Tantinho também utiliza o recurso das rimas emparelhadas, consagrado por grandes compositores da história do samba-enredo (desenvolvido notadamente pelo mestre imperiano Silas de Oliveira em sambas como Aquarela Brasileira e Heróis da Liberdade), e marca de grandes clássicos mangueirenses, como “Exaltação a Villa-Lobos” (1966). Ao invés da previsível e quadrada estrutura das rimas em A/B/A/B, as rimas emparelhadas, com uma estrutura A/A/B/B, garantem mais fluência e maior alternância na abertura e na conclusão das frases melódicas.


O início do samba se estrutura a partir da proposta da escola de abrir o enredo sobre Maria Bethania falando da fé e da religiosidade da artista. Os primeiros versos (Sopra o vento de Iansã / Folhas verdes pelo céu / Cor de rosa da manhã) aludem ao mito iorubá em que os ventos de Iansã espalharam as folhas de Ossain, difundindo assim o segredo das plantas que curam. A Mangueira difundirá a beleza da arte de Bethania. Há ainda a referência ao amanhecer do dia, momento em que a Mangueira entrará na passarela. Vale lembrar que Iansã é a orixá que comanda o amanhecer e o entardecer; os horários em que o céu está rosado.


O trecho seguinte, evocando as baianas com colares e guias, bebe na fonte de José Ramos, ao fazer referência aos versos de “Capital do samba”, um dos maiores hinos de exaltação à escola: “Chegou a capital do samba / dando boa noite com alegria / viemos apresentar o que a Mangueira tem / Mocidade, samba e harmonia / Nossas baianas com seus colares e guias / Até parece que estou na Bahia”. A romaria citada neste ponto da letra estabelece a ligação com as procissões católicas e louvações a Nossa Senhora, elementos presentes no conjunto de devoções brasileiras da artista.


A letra evoca ainda as três mães de Bethania (a orixá-mãe de cabeça Iansã, a mãe carnal Dona Canô e a mãe espiritual Menininha do Gantois).


Depois do refrão do meio, que propõe a mudança do sujeito da narrativa, trazendo Bethania para a avenida, a letra passa a abordar a relação da cantora com duas de suas referências mais importantes: a poesia (a voz morena traz a flor da poesia), e o universo das culturas tradicionais (o Brasil criança das cantigas e o Brasil do voo do carcará – ave sertaneja na lembrança).


A terceira parte da letra introduz a força do Recôncavo, aludido a partir da ancestralidade da “Velha Bahia” (não custa lembrar que é Iansã também que comanda o bailado dos eguns – os espíritos ancestrais). A preparação para o refrão vem expressa nos versos que consagram a força do canto dramático e a evocação a Oxum, orixá de Mãe Menininha – ela borda de ouro a melodia – e homenageiam a artista, com a belíssima referência ao mar de fantasia (o mar baiano, o mar do mundo, o mar verde e rosa no asfalto), e a citação aos pés descalços (maneira como Bethania se apresenta). Tudo desemboca na afirmação do desejo da dupla conquista do Carnaval: o título na avenida e o reconhecimento do público.


O refrão final alude ao samba de roda, com a referência ao mote tradicional “entra na roda, oh Maria”. Na aparente simplicidade da conclusão da obra, Tantinho apresenta uma linha de refrão puxada para o partido-alto; gênero tradicional do samba que guarda relações profundas, em suas características definidoras, com o samba de roda baiano.


Temos um samba, enfim, que encara a tradição mangueirense com a perspectiva da metáfora famosa da árvore dos ancestrais: por ter as raízes mais profundas, é ela que tem os galhos mais altos; por estar sedimentada e revigorada pela profundidade do solo, é ela que aponta para novos horizontes e conquistas. Quem sabe de onde vem, ensinam os mais velhos, normalmente sabe para onde ir.



terça-feira, 21 de julho de 2015

MACUMBA É RITO E EXU É MATEMÁTICO

MACUMBA

A palavra "macumba" guarda diferentes sentidos. Já escrevi sobre isso, mas é impressionante como o próprio povo da curimba comete um equívoco - um erro básico de etimologia - sobre a expressão macumba. Confundem o instrumento musical com os cultos religiosos. Não aguento mais escutar a frase "macumba na verdade é um instrumento". Para esclarecer: macumba é instrumento e designa também um conjunto de rituais religiosos que bebem na fonte dos complexos culturais bantos. Parece até que o povo tem vergonha de dizer que é macumbeiro. Eu sou macumbeiro e ponto.Tento explicar.
O instrumento macumba designa uma espécie de reco-reco que se toca com duas varetas,uma fazendo o grave e outra o agudo. O termo tem provavel origem no quimbundo "mukumbu"; que significa som. Foi relativamente popular na época dos pioneiros do samba e eu nunca vi um.
Já a macumba como expressão que designa, algumas vezes de forma pejorativa, cultos afro-brasileiros e coisas que o envolvem, gera bons debates. Antenor Nascentes segue Raymundo Jacques (que escreveu a obra de referência "O elemento afro-negro na língua portuguesa", em 1933), e acha que vem do quimbundo "dikumba" - cadeado ou fechadura - referindo-se a cerimônias secretas de fechamento dos corpos. Nei Lopes - profundo conhecedor do assunto - acha que vem do quicongo "kumba"; feiticeiro (o prefixo "ma", no quicongo, forma o plural). Outros estudos indicam que a origem é mesmo essa, como menciona Robert Slenes em seu estudo sobre o jongo. Daí a expressão macumba designar tanto uma espécie de reco-reco como as cerimônias, por exemplo. A etimologia, porém, é distinta nos dois casos: uma deriva do quimbundo e outra do quicongo. Muda tudo.
Para as amizades sentirem como o bicho pega, dou mais um exemplo: kumba no quicongo, como citei, é feiticeiro. Já em umbundo, designa tanto o conjunto de serviçais domésticos como um grupo de familiares que moram num mesmo cercado. Kumbi é sol no quimbundo e gafanhoto no quioco, lingua que também forma o plural com o prefixo ma. Makumbi, portanto, designa um bando de gafanhotos. O complexo cultural banto não é mole.
Povo da curimba, vamos parar de repetir este equívoco. Macumba tanto pode designar o instrumento que ninguém mais conhece (termo de origem quimbundo), como os ritos religiosos (termo de origem quicongo). É nesse sentido que eu uso e afirmo meu pertencimento. Sou da macumba, vou para a macumba, faço macumba e não toco reco-reco.

EXU, O TEÓRICO DA MATEMÁTICA
O meu camarada Marco Carvalho, escritor da pesada, me passou dia desses o liame da ótima entrevista do matemático russo Edward Frenkel ao Globo. Na entrevista, o repórter trava o seguinte diálogo com o matemático:
"- Conte algo que não sei
- Entendíamos que a percepção de tempo é linear: um evento leva a outro. Isso está completamente errado. Experimentos recentes em mecânica quântica mostram que você pode mudar retroativamente o que você observa. De alguma maneira, eventos futuros podem influenciar o passado. Então a noção de tempo é mais sofisticada. A ciência diz isso, não é algo místico."
Acontece que isso que a ciência anda descortinando é coisa que muita gente já sabia, nos arrepiados do mistério, por causa de um oriki iorubá de Exu: Ele acertou o pássaro ontem com a pedra que atirou hoje.
Elegbara deve ter se amarrado na declaração insinuante do russo e pensado, com um gingado sacana, na encruza: eu não disse?
Certa feita escrevi, no texto do livro Pedrinhas Miudinhas em que falo de Xangô e do Círio de Nazaré, o seguinte: “A razão, quando observa a natureza, produz ciência. A poesia, quando faz a mesma coisa, vê deuses e orixás - e esses olhares para mim não se excluem”. É por aí que a minha banda toca.
E assim, ao lado de outras malungas e malungos de jornada, vou tentando mostrar, dentro dos limites do bocadinho que conheço e Ifá determinou, a complexidade de culturas vistas pejorativamente como instintivas, em oposição ao pensamento complexo europeu.
Aliás, chutemos o balde: cultura instintiva é uma ova! Há um repertório complexo e sofisticado de possibilidades de interpretação do mundo, nas fronteiras entre o saber, o espanto e a beleza, se insinuando na nossa cara. Ou continuaremos circulando apenas nos arcabouços teóricos viciados por um pensamento colonizado, mesmo quando se quer libertador?
Laroiê! Ou seria "Laroiovisk", no mais puro russo das esquinas?

sexta-feira, 19 de junho de 2015

BRANCO NA CANJIRA


Recentemente escrevi um texto sobre a pedra lançada contra a menina Kaylanne, adepta do candomblé, que teve alguma repercussão. Por causa dele recebi um pedido complicado, mas não escaparei pela tangente: escrever algo simples sobre a minha experiência de ser branco, criado por uma avó yalorixá, entre o xambá e a encantaria, e ter seguido um caminho até a consagração como babalaô; a partir do meu contato com a religiosidade afro-caribenha.

Não tomem esse depoimento como um texto teórico. Algumas referências, todavia, são necessárias. No livro “Pele negra, máscaras brancas”, Frantz Fanon chama atenção para um fato fundamental: o racismo herdado do colonialismo se manifesta explicitamente - e com mais furor - a partir de características físicas, mas não apenas aí. A discriminação também se estabelece a partir da inferiorização de bens simbólicos daqueles a quem o colonialismo tenta submeter: crenças, danças, comidas, visões de mundo, formas de celebrar a vida, enterrar os mortos, educar as crianças, etc.

O discurso do colonizador europeu em relação ao índio e ao africano consagrou a ideia de que estes seriam naturalmente atrasados, despossuídos de história. Apenas elementos externos a eles – a ciência, o cristianismo, a democracia representativa, a economia de mercado, a escola ocidental, etc. – poderiam inseri-los naquilo que imaginamos ser a história da humanidade. É a tentativa, em suma, de impor um olhar homogêneo sobre o mundo. 

A partir desses pressupostos, vamos aos fatos. É evidente que quando falo em raça não uso o conceito biológico. Penso, e não há novidade nisso, a raça como categoria política-social-cultural historicamente constituída. Em resumo: para a biologia eu pertenço a uma única raça, a humana. A maioria da polícia, todavia, me trata como branco mesmo e não me cria problemas.

A minha posição é, portando, ambígua: eu sou potencial vítima de discriminação naquele segundo sentido que Fanon aborda. Criado numa casa de santo, partilho de bens simbólicos considerados bárbaros ou, na melhor das hipóteses, exóticos. Não sou um simples simpatizante do culto aos orixás (conheço inúmeros simpatizantes e muita gente que gosta de bater um tambor na encolha): tenho meus ritos iniciáticos feitos, sou consagrado ao orixá e, posteriormente, a Orunmilá. Tenho meus igbás em casa e cuido deles. Escrevo sobre isso porque Orunmilá determinou. Não tive a experiência da conversão, já que cresci com essas referências desde o berço. 

Vejamos o outro lado. Se sou um potencial discriminado no sentido dos bens simbólicos que compartilho, do ponto de vista das características físicas sou eu que me encontro na posição do potencial discriminador. Não sou, afinal, apenas filho do tambor. Sou também filho de uma sociedade escravocrata, que naturalizou a violência das senzalas e é marcada até hoje por aquilo que Joaquim Nabuco chamou de obra da escravidão. Dentro de mim – branquinho azedo apelidado de russinho nas peladas de infância - certamente mora um sinhozinho; minha luta é contra ele. Saber que ele existe é fundamental para que, com a espada de Ogum, eu possa ao menos intimidá-lo.  Estou sempre alerta e a tarefa é árdua.

Alguns negros do candomblé – poucos - já me lançaram olhares desconfiados (e acho isso absolutamente compreensível). Muitos brancos já desconfiaram dos meus fios de contas e dos meus dias de vestir branco. Há quem ache que sou um intruso falando de legados que não me pertencem. Há quem ache que sou intelectualmente frágil e não considere o que escrevo porque conheço mais os mitos de Ifá que o cânone ocidental.

Não posso fazer nada além de dar a cara a tapa. Inscrito na História como potencial opressor do ponto de vista físico e potencial oprimido do ponto de vista simbólico, me amparo nas lições de Exu. Inimigo das dualidades e essencialismos, poderoso e brincalhão senhor das encruzilhadas, Bará me guia para que eu viva bem o meu odu: eu escrevo e falo para mostrar que os bens simbólicos e percepções de mundo que chegaram nos tumbeiros, e aqui se reinventaram nas florestas, são os legados que me constituem desde sempre. Por eles eu fui moldado e civilizado. Branco na canjira, é pela gramática dos corpos que dançam ao discurso do tambor que aprendo a mirar, da encruzilhada em que moro, a vida. 

terça-feira, 16 de junho de 2015

COM O ALFANJE ESCREVO

(Texto dedicado a uma menina apedrejada na Vila da Penha, no dia 14 de junho, porque estava com o traje branco e os fios de conta do seu orixá.)
Essa é a minha tessitura de olhar o mundo, como historiador, escritor, amigo, filho e pai.
Nós divinizamos os homens e humanizamos os deuses para construir uma civilização amorosa nos confins do ocidente. Em nome do oxê de Xangô, do pilão de Oxaguiã, do xaxará de Omolu e do ofá de Oxossi não há um só genocídio perpetrado na face da terra.
Nunca houve qualquer guerra religiosa em que se massacraram centenas de milhares de seres humanos em nome da fé nos encantados e orixás. A insígnia de nossos deuses nunca foi a mortalha de homens comuns - nós apenas batemos tambor e dançamos, não morremos ou matamos pela nossa fé.
O que faço é política, como já escrevi alhures. Eu faço política quando canto, toco, danço, imolo animais, respeito os mistérios do rio, evoco meus ancestrais na casa de egun, e digo aos arrogantes de plantão que cultuo os deuses que atravessaram o Atlântico, nos porões imundos dos tumbeiros, para inventar a vida onde amiúde ela não poderia existir. Eu faço política quando rezo as folhas e encanto com meu canto a jurema da matas do Brasil.
Orunmilá, o senhor do Ifá, conhecedor dos destinos, determinou que assim fosse. Ogum autorizou. Obatalá é o dono da minha casa - meu ilê. Exu, o compadre, mora na minha varanda, vive na minha esquina e me acompanha nas cervejas e batuques; ele bate comigo palmas ritmadas no compasso do partido-alto. É dele, sempre será dele, Exu Odara, o senhor da alegria, o primeiro gole de cada entardecer da minha vida.
E não admito andar de cabeça baixa e nem me envergonhar do legado dos meus avós (quando criança, tive em certa ocasião vergonha de dizer no colégio que era do santo; dessa fala que não saiu da minha boca eu nunca mais esqueci e o silêncio constrangido do menino ainda grita no homem que sou).
Que cada um tenha o direito de encontrar o mistério do que lhe é pertencimento, em gentileza e gestos de silêncio, toques de tambor e cantos de celebração da vida.
Eu conheci e (me) reconheci (no) meu deus enquanto ele dançava, no corpo de uma yaô, ao ritmo do vento que balançava as folhas sagradas do mariô, amansando o chão de terra batida à virada do rum. Meu general, com a majestade dos seus passos, fazia farfalhar a copa do dendezeiro com a destreza de sua adaga africana. Foi o alfanje de Ogum que alumiou meu mundo. É com ele que escrevo agora.
Olorum Modupé!

sexta-feira, 12 de junho de 2015

OGUM, O SENHOR DE TÉCNICAS E ARTES


Dentre os orixás africanos mais populares no Brasil e em Cuba, países em que o conhecimento de Ifá se estabeleceu com significativa força, está certamente Ogum. Creio também que Ogum é, por incrível que pareça, um orixá mal compreendido do lado de cá do Atlântico.

Ogum ocupa, na mitologia dos iorubás, a função do herói civilizador e senhor das tecnologias. Foi ele, por exemplo, que ensinou o segredo do ferro aos demais orixás e mostrou a Oxaguiã como fazer a enxada, a foice, a pá, o enxadão, o ancinho, o rastelo e o arado. Desta maneira permitiu que o cultivo em larga escala do inhame salvasse da fome o povo de Ejigbô. Em agradecimento ao ferreiro, Oxaguiã passou a usar em seu axó funfun [a roupa imaculadamente branca da corte de Obatalá] um laço azul - a cor de Ogum.

Ogum também ensinou aos orixás como moldar na forja os adornos mais bonitos e os utensílios que enfeitam as danças dos deuses entre os homens. Desprovido de ambições materiais, recusou a coroa e entregou toda a riqueza que acumulara a uma simples vendedora de acaçá que lhe pedira esmola.

Ogum é irmão dileto de Exu. Recusou, em um dos poemas do Ifá, oferendas suntuosas. Mandou que os presentes fossem entregues a Exu e disse: quem agrada e cuida do meu irmão é aquele que verdadeiramente me agrada. Ao burburinho das cortes, preferiu a solidão das matas e das grandes  caçadas ao lado de Odé. Aos trajes suntuosos, preferiu a simplicidade da roupa feita com as franjas das folhas do dendezeiro.

Ogum virou general para acabar com as guerras. Em um mito de extrema beleza, Ajagunã brigava sem parar  e não atendia aos apelos de nenhum orixá. Ogum se aproximou de Ajagunã e disse: Babá, me entregue as suas armas e o seu escudo; eu faço a guerra para que o senhor descanse. Ajagunã entregou os utensílios de batalha a Ogum - que prometeu jamais usá-los em um conflito desnecessário.

O mito de Ogum mais difundido no Brasil, entretanto, é outro. Me refiro ao episódio em que ele volta, após uma longa temporada de caça e guerra, ao povoado de Irê. Ogum chega a Irê no dia dedicado, segundo a tradição, ao silêncio absoluto. Em virtude desse dia do silêncio, Ogum não foi saudado pela população da forma como esperava. Enfurecido, se considerando injustamente desprestigiado, pegou sua espada, destruiu as casas, ruas, praças e mercados, massacrou todo o povo e tomou banho com o sangue dos que acabara de matar - amigos, inimigos, familiares e desconhecidos.

Pouco tempo depois, um único sobrevivente reverenciou Ogum e disse que o povo não o saudara em virtude da tradição do silêncio. Ogum ficou inconsolável e admitiu que se esquecera do ritual. Profundamente arrependido do banho de sangue - pelo qual jamais se perdoou - resolveu desistir de caçadas e guerras, cravar sua espada no solo e sumir na terra, virando para sempre um orixá. Desde então Ogum respeita o silêncio dos homens e não gosta de gritarias.

Um dos versos mais famosos de Ogum - aquele que tendo água em casa se lava com sangue - se refere exatamente a este episódio emblemático, o mais lamentável na trajetória do grande herói civilizador do povo iorubá, e do qual o ferreiro se arrependeu com todas as suas forças. Esse verso, retirado do contexto do mito, perde todo o sentido que a sabedoria de Ifá estabeleceu - está aí, na reação intempestiva, a negatividade, a perda do axé, da energia de Ogum.

A partir dessas histórias, as mais emblemáticas e que fundamentam o culto a Ogum, chego ao ponto que me parece crucial. No Novo Mundo, especialmente no Brasil e em Cuba, a face mais marcante do orixá - a do ferreiro, patrono da agricultura, professor de Babá Oxaguiã, inventor do arado, desligado de bens materiais, senhor das tecnologias que mataram a fome do povo e permitiram a recriação de mundos como arte - praticamente desapareceu.

A explicação não é nova: a agricultura nas Américas estava diretamente ligada aos horrores da escravidão. Como querer que um escravo, submetido ao infame cativeiro e aos rigores da lavoura, louvasse os instrumentos do cultivo como dádiva? Como enxergar no arado, na enxada e no ancinho instrumentos de libertação, quando os mesmos representavam a submissão ao senhor e o fruto da colheita não pertencia a quem arava o solo?

Ogum foi perdendo, então, o perfil fundamental de herói civilizador - a maior de suas tantas belezas. Seu culto entre nós, cada vez mais, se ligou apenas aos mitos do guerreiro. Ogum é o general da justiça e da reparação contra o horror do cativeiro, mas pode ser também o guerreiro louco e implacável que, assim como salva, é capaz de destruir àqueles que ama e viver na solidão absoluta.

Prevaleceu na diáspora, portanto, o Ogum do qual o próprio Ogum, em larga medida, se arrependeu: o intempestivo guerreiro que, em um momento de incontrolável acesso de fúria, foi capaz de se lavar com o sangue do  próprio povo. Envergonhado desse banho, preferiu deixar a terra e viver no Orum. 

Faço essas observações porque sobre elas reflito constantemente. A razão é simples: sou filho de Ogum, iniciado no culto ao grande orixá. Passei pela cerimônia que me permite usar a faca consagrada do meu pai. Os que são do santo sabem o que quero dizer com isso, e é suficiente.

Ogum é meu pertencimento mais profundo. Mora dentro de mim como mora no magma da terra. Sei que sou capaz da criação - Ogum é antes de mais nada um criador - mas sei também que sou capaz da fúria. Sou filho do deus que criou a civilização com o arado e destruiu a civilização com a espada. Posso ser capaz, como meu pai,  da canção e do martírio. Flor e afiada faca.

Um grande babalô, em certa ocasião, recitou para mim um poema de Ifá com a seguinte trama: um filho de Ogum perguntou ao oráculo quem era o seu maior inimigo e como fazer para encontrá-lo e destruí-lo. Orunmilá determinou que esse homem fizesse sacrifícios com galos e caramujos e seguisse determinado caminho. No final da vereda o inimigo o estaria aguardando para o combate. Assim foi feito.

Após longa caminhada, o homem atingiu o fim da estrada e encontrou apenas um pequeno lago de águas cristalinas. Julgando que o algoz ainda não chegara, resolveu lavar as mãos no lago. Ao se agachar o homem viu, com nitidez impressionante, a sua própria imagem refletida no espelho d´água.

Era a resposta de Ifá.

A arte da criação e o exercício da simplicidade generosa é, para os filhos de Ogum, o descanso na loucura e a única maneira de domar o inimigo que (me) espreita ao final de cada jornada.

Ogunhê !!