domingo, 6 de julho de 2014

A ALMA DA TIJUCA

Pertinho das águas caudalosas do Trapicheiro, na encruza da São Francisco Xavier com o ponto em que a Conde de Bonfim vira Hadocck Lobo, estende-se o Largo da Segunda-Feira, um dos centros de referência da Tijuca.


Naquele ponto, em 1762, existia um canavial, herança dos tempos em que os jesuítas ocuparam o pedaço, cortado por um riachinho sobre o qual havia uma ponte. Em certa segunda-feira, ao lado da ponte, mataram um sujeito (coisa de traição à sorrelfa), jogaram a cabeça do presunto nas águas e enterraram o corpo no local. Uma cruz foi erguida para encomendar o defunto (foi retirada em 1880) e o larguinho passou a ser chamado pelo dia do crime: da Segunda-Feira.


Considero o Largo da Segunda-Feira um ponto ideal para feitiços e mandingas de todos os tipos: encruzilhada, assassinato, defunto enterrado, olhos vazados, cabeça jogada no arroio. É tiro e queda, como diria minha avó.


Há quem afirme que o defunto em questão vaga pela Tijuca com a maior desfaçatez, ignorando a morte e se comportando como se estivesse vivinho da silva. Come sambiquira no bar do Joel e cabrito no Chico; escolhe sapatos no Figueiredo, o Rei das Chinelas; saboreia ostras no Britânia; bebe chá de macaco no Bode Cheiroso; traça sardinhas na Casa da Vila da Feira e Terras de Santa Maria; dança o vira na Casa dos Açores. Quando quer fazer umas saliências com defuntas frescas, o egum do Largo da Segunda-Feira sassarica no Hotel Bariloche.

A assombração tijucana é nostálgica. Tem saudades do mercadinho Berengo, do Bonde 66, da saideira no Eden; da Fábrica das Chitas; dos cines Olinda, Madri, América; e das porrancas no Divino. Como sabe das coisas, o presunto adora vagar pela Caruso, a única rua art-decô da cidade, cheia de fantasmas habitando seus casarões. Cansou de admirar o desfile das colegiais do Lafayette descendo a Conde de Bonfim.

Conviveu com os marinheiros, varredores de rua, vendedores de frutas, lavadeiras, domésticas e operários que ocuparam o morro do Salgueiro. Jogou ronda com Antenor Gargalhada, vigia da Fábrica de Cerveja Hanseática, foi na onda do Anescar, gostou do vozeirão do Noel Rosa de Oliveira, brincou carnaval no Flor dos Camiseiros e lustrou sapatos com o Bala. Benzeu-se nos capuchinhos e firmou ponto no gongá de Maria Romana.

É por isso que dou aos amigos uma dica preciosa. Passeie e jogue conversa fora nos botequins da Tijuca. O desconhecido que puxa o papo pode ser o fantasma do Largo da Segunda-Feira; alma perene que por amor ao chão da aldeia ignorou a morte e permanece, tijucanamente, entre nós.  

 

 

segunda-feira, 23 de junho de 2014

O DIA EM QUE TEIXEIRINHA MATOU CHACRINHA

(Texto publicado na coluna Coisas Nossas, do jornal O Dia, de 22/06/2014)
Em seus primeiros tempos no Rio de Janeiro (era pernambucano de Surubim) Abelardo Barbosa foi locutor de vendas da loja "O Toalheiro".  Descoberto por um diretor da Rádio Clube de Niterói, emissora que tinha como sede uma chácara em Icaraí, comandou um programa de carnaval cujo nome fazia referência ao local de onde era transmitido: O Rei Momo na Chacrinha. A pequena chácara de onde a Rádio Clube transmitia sua programação virou o apelido definitivo de Abelardo.
 
O programa fez sucesso em razão das extravagâncias de Chacrinha, que recebia convidados de toalhas de banho, fraldas e babador. Dependendo da marchinha que estivesse nas paradas, aparecia de árabe, colombina, índio, pirata ou tirolês. Certa feita ameaçou tirar a roupa na frente da atriz Zezé Macedo. A polícia invadiu a chácara para evitar o streaptease. Vêm desta época alguns bordões (Terezinha! Vocês querem bacalhau?) que posteriormente marcaram a atuação de Chacrinha na televisão.
 
Curioso foi o papel exercido pelo comunicador nos anos de chumbo do regime militar. Os críticos do regime acusavam Chacrinha de promover a alienação política das massas, jogando bacalhaus para a platéia, buzinando calouros e divulgando astros da música cafona.
 
O regime, por sua vez, investigou Chacrinha, que prestou esclarecimentos ao departamento de censura federal sobre a acusação de que promovia pornografia barata, expunha mulheres seminuas no palco e fazia macumba ao vivo (referiam-se ao dia em que o exu Seu Sete da Lira baixou no programa, deu passes na plateia e foi entrevistado).
 
Minha história predileta do Chacrinha é dos tempos da rádio. Um dia, enquanto o gaúcho Teixeirinha cantava Coração de Luto, canção popularmente conhecida como “churrasquinho de mãe”, Chacrinha simulou um enfarto sob forte emoção.
 
Boatos sobre a morte de Chacrinha no ar - fulminado pelo impacto da música, que contava a história de uma mãe morta num incêndio na ótica do filho órfão - levaram uma multidão à sede da emissora. O próprio apresentador ligou clandestinamente para uma funerária para que enviassem um caixão para o "comunicador Chacrinha". A confusão terminou com a rádio patrulha levando o menino levado da breca para a delegacia, por subversão da ordem.
 
Chacrinha, como se percebe, fundiu a cuca dos revolucionários de esquerda e dos reacionários de direita. Não era fácil mesmo entender o maluco genial que preferia confundir; velho guerreiro e palhaço do pastoril, síntese ambulante das nossas cafonices bacanas. 

 

terça-feira, 10 de junho de 2014

A SARAMANDAIZAÇÃO CHACRINIANA E SUCUPIRESCA DO JOGO

Eu já vi coisas no Brasil da rebimboca da parafuseta. O fato de ser nascido e criado num terreiro me fez, desde pequeno, achar que as coisas mais extraordinárias são perfeitamente normais neste extremo ocidente. Cresci na encruzilhada das maravilhas. Vi um curupira incorporado numa dona; vi turista japonês virado no seu Sete Cachoeiras; vi seu Zezé Macumba imitar bode para amarrar time adversário na várzea; cruzei com presunto desovado pelo Mão Branca que, soube  depois, ressuscitou e pediu um chá de macaco; assisti Toninho Itabaiana incorporar o Barão Langsdorff; tive uma tia carola (única católica praticante da família) que deixou expresso em testamento que queria ser enterrada com um bonequinho de seu Tranca Rua; vi um padre parapsicólogo alemão exorcizar um filé de peixe depois de tomar  uns birinaites e ser aplaudido.
 
Não me surpreendem, portanto, as maluquices extraordinárias que já ocorreram na Copa do Mundo, antes mesmo de o certame começar: índios pataxós cantaram parabéns para Miroslav Klose; três pés de cana fizeram Manoel Neuer e Bastien Schweinsteiger gritarem, dando saltinhos, Bahêa! durante o hino do tricolor; baianos foram a um amistoso da Croácia levando toalhas de mesa como bandeiras; um aracnídeo atacou um australiano; um maníaco sacou a peixeira durante o treino da Colômbia.
 
Tem mais. Cinco mil gaúchos, vestidos como se fossem para a Guerra dos Farrapos, receberam a delegação do Equador dançando o "bota aqui o seu pezinho"; um português ciclista, descrito por quem o conhece como completamente maluco, comunicou que vai se atirar de bicicleta na frente do ônibus de Portugal; Arjeen Robin quase se afogou na praia de Ipanema; o bebê Drogbinha invadiu o treino da Costa do Marfim para conhecer Drogba.
 
Não parou aí: Eto´o citou Obina; os mexicanos usaram 99 táxis para ir ao treino em Santos; chilenos trouxeram terra de uma mina soterrada para estimular a seleção; os ingleses esqueceram um jogador trancado no hotel; a Rússia pediu um amistoso e arrumou um jogo contra o Ituano; os croatas perderam a hora do treino porque foram à praia; um mineiro disse que ia envenenar a seleção argentina; hondurenhos resolveram acampar em um cemitério e quase mataram um coveiro de susto; Mário Balotelli, inspirado pelo cenário de Mangaratiba, pediu a namorada em casamento; o cara de pau do tradutor da seleção espanhola revelou finalmente, depois de surtar num coletiva, que tem uma limitação para o trabalho, a de não falar espanhol.
 
Desde já defini este momento como o de "sucupirização saramandaiesca e chacriniana" do padrão FIFA. No meio da venalidade do capo Blatter e seus comparsas, é perfeita a definição do Impedimento, o melhor blog de futebol que conheço. Cito:  Antes mesmo de o torneio começar já temos uns causos tão sensacionais que fazem lembrar que por trás dos cartolas, dos desmandos e das politicagens ainda persistem o futebol e as pessoas.
 
É essa dimensão humana, ponto de viração do mundo, que sempre me interessou. Os que me conhecem sabem que meu olhar é o da fabulação das miudezas; distante das análises sociológicas (não tenho instrumental para fazê-las), das exortações nacionalistas furiosas (não tenho convicção para calçar as chuteiras da pátria), das militâncias diretas contra os canalhas que roubaram o jogo; e posturas similares.
 
Relevem. Cresci na fronteira do extraordinário, conversando com pretos velhos de duzentos anos, malandros do início do século XX, prostitutas sevilhanas assassinadas a facadas que viraram pombagiras no Brasil; bugres combatentes da Guerra do Paraguai, mestres juremeiros e personagens do gênero.
 
Minha avó, quando nasci, entregou-me no meio de uma noite grande aos cuidados da dindinha lua, para que ela cuidasse dos meus passos. É a dindinha (ela nunca me faltou) que ilumina com a luz que não tem as coisas que clareiam o mundo deste que vos digita.

Termino profetizando: em breve, se o ritmo dos acontecimentos continuar assim, teremos algum craque alemão virando na Padilha em alguma arena afrescalhada .

Tomara.
 
 

segunda-feira, 2 de junho de 2014

ALTOS!

Várias brincadeiras de criança envolvem algum tipo de perseguição. Penso no pique pega (há quem diga que a brincadeira vem da Idade Média européia, chega ao Brasil com os portugas e é popularizada pelos escravos, simulando no fuzuê a fuga do feitor). Fulano sai correndo atrás dos beltranos com o intuito de pegar alguém. O bocó alcançado troca de função com quem o capturou e passa a correr atrás dos outros. Os perseguidos, entretanto, têm uma alternativa para se safar: pedir altos e sair de fininho.
 
Existem várias maneiras de se pedir altos. Levantar a mão fazendo o V da vitória e anunciar que ninguém pode te pegar é a mais comum. O altos também é conseguido colocando-se em um plano superior em relação ao oponente (a expressão viria daí). É só subir num banco, numa pedra ou pendurar-se num galho de árvore.
 
O altos está para as folganças infantis como o cessar fogo para os conflitos militares. Ao sair da condição, com a bateria recarregada, é hora de meter bronca, engatar a quarta marcha e continuar a brincadeira.
Lembro-me que nos meus tempos de moleque rolava a polêmica no meio de um polícia e ladrão. Sempre havia o cara de pau que dava o migué de pedir altos no momento de ser capturado e saía caminhando como se nem estivesse aí. Começava, então, o clássico diálogo:
 
- Altos!
 
- Que? Não vale!
 
- Vale! Ninguém toca em mim.
 
- Mas eu toquei antes!
 
- Não tocou nem a pau. Eu pedi altos primeiro.
 
Penso nas brincadeiras infantis para defender que todo ser humano tenha o direito de pedir altos de vez em quando. Não há quem aguente os atropelos da vida sem a pausa para o cochilo, a pelada de fim de semana, a roda de samba, a novela, a fofoca de portão, a paquera, o amasso apaixonado, o churrasquinho, o jogo de damas, o bolo de fubá e o chá de macaco no boteco.
 
Somos diariamente espremidos por uma lógica maluca que nos faz trabalhar muito, dormir pouco, mofar em engarrafamentos e não brincar mais. O pique é sério na cidade desencantada. Corremos em círculos para escapar do monstrinho da vida urbana, cheio de braços para nos alcançar, nessa fábrica de insanos movida a antidepressivos e bordoadas diárias. O bicho assusta. Há, porém, uma solução para recuperar o fôlego: vez por outra é bom fazer cara de paisagem e ficar um pouquinho de flozô, passeando nos aros da lua.
 
Quando a angústia do perrengue quer pegar sem piedade, nada melhor que levantar o braço, parar de correr, abrir o sorriso malandro e a cerveja gelada, dar uma banana para os compromissos, chutar o balde dos deveres e dizer para o tempo que escraviza, o trabalho que acorrenta e os chatos que incomodam:
 
- Altos!

 

 

 

sábado, 31 de maio de 2014

A HONESTIDADE DO LELÉ DA CUCA

Gosto de andar de táxi no banco da frente, para ir conversando com o motorista. Há algumas figuras impagáveis que trabalham na praça; gente que tem histórias da rebimboca da parafuseta para contar.

Outro dia fui conduzido por um coroa que viveu, certa feita, um perrengue dos diabos. Contou-me ele que, quando ainda estava começando na praça, ao pegar a Avenida Pasteur, na Urca, foi parado por um senhor grisalho, vestido com impecável uniforme branco. O distinto pediu para ir ao hospital Souza Aguiar. Dava a pinta de ser um médico da melhor qualidade.

No que o táxi desceu o Aterro do Flamengo, melhor caminho para se chegar ao centro, o motorista reparou que um furgão seguia o carro. Para piorar, assim que o táxi se aproximou do monumento aos mortos da Segunda Guerra Mundial , no final do Aterro, o passageiro, até então gentil e pacífico como um periquitinho de realejo, bateu continência e gritou:

- Sentido! Avante! Avante! Repita comigo, motorista. Repita comigo.

Acuado, o taxista foi obrigado a dirigir com uma única mão, enquanto a outra batia continência, conforme as determinações do passageiro. O sujeito continuou :

- Agora, paisano, eu vou dizer uns nomes e você, batendo sempre a continência, responde "presente"!

E começou a gritar :

- Marechal Mascarenhas de Moraes; Marechal Zenóbio da Costa; Marechal Cândido Mariano Rondon; Marechal Floriano Peixoto; Marechal Deodoro... E desfilou uma cacetada de nomes de milicos de alta patente.

Só aí, enquanto respondia presente, o taxista reparou que o furgão que seguia o carro era uma ambulância do Pinel, o hospício da Praia Vermelha.

Numa manobra arriscada, ligou o alerta, diminuiu a velocidade e parou o carro no acostamento. A ambulância do Pinel encostou atrás, já com uns camaradas saltando com a camisa de força. O doido, aos berros, exigia a presença do chefe do Estado-Maior das tropas inimigas para negociar a rendição.

Passado o susto, o taxista foi comunicado da fuga espetacular que o tantã, que roubara o jaleco de um médico, executou. Na hora de entrar na ambulância, o da pá virada, recomposto e com modos de um perfeito gentleman, disse:

- Minhas escusas, motorista. O ataque frontal das colunas inimigas impede que eu honre agora meus compromissos e pague pelo serviço o preço justo. Decorei, porém, a placa do seu veículo e farei o possível para quitar, em futuro próximo, a dívida que contraí. Fique tranquilo.

Três semanas depois o motorista recebeu pelo correio um envelope com o dinheiro da corrida e uns caraminguás como gorjeta.

A honestidade do lelé da cuca, e repito aqui as palavras do taxista, foi a prova de que o ser humano tem jeito.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

MEDALHA PEDRO ERNESTO

Acabei de saber que, por iniciativa do Vereador Eliomar Coelho , me foi concedida, em sessão legislativa da última quinta-feira, o conjunto de Medalhas do Mérito Pedro Ernesto por serviços prestados à cultura carioca. Virei oficialmente Comendador. É mole?
O que posso dizer? Agradeço ao Eliomar, ao Dudu Botelho e ao Tiago Prata , conspiradores sacanas dessa ideia maluca, sobretudo porque suspeito que estou recebendo a homenagem por conta das coisas que publico em livros e jornais, recuperando certa memória sentimental do Rio, e das aulas que ando inventando nas ruas cariocas, com apoio de uma rapaziada malunga. Agradeço também porque nenhum deles perguntou, alguma vez na vida, em quem eu voto, votei ou pretendo votar. Não tenho filiação partidária e minhas maneiras de interagir com a cidade são outras, ao largo da política formal. Eu canto na rua.
Aceito a homenagem, ainda, porque terei a oportunidade, na entrega da medalha, de fazer um fuzuê e dedicá-la, como faço agora aos meus heróis: João Cândido, Donga, Pixinguinha, Paulo da Portela, Cartola, Cunhambebe, Noel Rosa, Bide, Caboclo das Sete Encruzilhadas, Tia Ciata, Meia-Noite, Madame Satã, Lima Barreto, Candeia, Paula Brito, Marques Rebelo, Manduca da Praia, Silas de Oliveira, Anescar, Dona Fia, os judeus da Praça Onze, a pombagira cigana, a escrava Anastácia, o Cristo de Joãozinho Trinta, os árabes da Alfândega, o vendedor de mate, o apontador do bicho, os líderes anarquistas da greve de 1919, o professor, o aluno, o gari, o pinguço cheio das filosofias de botequim e mais um bando de cariocas que inventam a vida dando nó na caninana, batendo asas na fogueira e gargalhando subversivas alegrias nos infernos.
Afora isso, no meio de cada figura estranha e das politicagens mais descabidas que andaram envolvendo o babado, receberam a Pedro Ernesto os orixás Nei Lopes, Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro e o meu amigo querido Rodrigo Ferrari .
Aceitei ainda por três razões fundamentais: terei a oportunidade de gritar um Laroiê e cantar um samba do Luiz Carlos da Vila ao receber a comenda; os bebuns do Bode Cheiroso adorarão sacanear um comendador; e tirarei onda com a minha mãe, certamente preocupada com o meu futuro desde o dia em que resolvi virar professor de História. A velha há de delirar que tem um filho com alguma relevância e fofocará isso com as amigas.
Só uma exigência faço aos que me concederam a homenagem: quero receber a medalha no meio da rua, entre a Ouvidor e a Rosário, nas cercanias da Folha, do Al-Farabi e da Toca do Baiacu; lá onde bebem afetuosamente os meus amigos das encruzilhadas cariocas.
Me permitam a confissão final: virei comendador, mas meu sonho mesmo, absolutamente fracassado, era ser um Barão das Cabrochas do Largo do Estácio.
Saravá!

sexta-feira, 2 de maio de 2014

BARBA

Quando eu era um moleque com o diabo no corpo [apud minha tia Lita], passava uma propaganda da Gillette na televisão que me perturbava profundamente. Um sujeito aparecia em frente ao espelho do banheiro, besuntava creme no rosto e pegava a lâmina para começar a se barbear. Subitamente aparecia, de maneira fantasmagórica, uma loura gostosíssima, daquelas de fechar o comércio. O pedaço de mau caminho acariciava o caboclo por trás, agarrava o cabra pela nuca e dizia, com voz de relações públicas de lupanar da belle époque, algo do tipo:
- Você sabe quem sou eu? Eu sou a Platina da Platinum Plus. É graças a mim que você faz melhor a sua barba.
Era demais para meus dez anos. Comecei a delirar - e tome de cinco contra um - com a possibilidade de encontrar a loura da Platinum Plus em frente ao espelho. Movia-me, inclusive, a convicção de que a boazuda estava pelada. Até então, a única loura que um sujeito da minha idade arriscava encontrar no banheiro era a morta com algodões ensanguentados nas narinas.
Dotado de coragem tamanha, tomei uma daquelas decisões que transformam os meninos em homens: resolvi que era a hora de fazer a minha primeira barba, evidentemente com a lâmina platinum plus. Não tinha ainda um único pêlo no rosto, mas algo me dizia que o momento era aquele.
Juntei uns caraminguás que ganhava para ir ao colégio [cheguei a passar fome] e comprei numa farmácia de esquina meu primeiro aparelho de barbear; uma Gillette Platinum Plus.
Tranquei-me no banheiro. Tive o cuidado de avisar antes pra minha tia Lita :
- Vou demorar muito. Estou com uma dor de barriga terrível.
Emocionado, báculo episcopal ereto, enfiei o creme de barbear do meu avô no rosto, passei o pincel, abri a Gillette e, trêmulo, tive a certeza de que alguma coisa aconteceria. Eu, no mínimo, sentiria a presença da Platina de Platinum Plus.
Foi devastador. Passei o aparelho de forma demasiada, com a fúria de uma vara de javalis. Acho que me inspirei nos aparadores de grama. Era a minha primeira barba, tão escondida quanto a primeira punheta. Por pouco, muito pouco, não retalhei inteiramente meu rosto e precisei de uma plástica. Apavorado diante do sangue que jorrava, abri a porta e pedi socorro. Minha tia e minha avó correram para ver o que tinha ocorrido e lá estava eu, cheio de cortes na carinha de bunda.
As duas resolveram então me inundar com a loção após barba do meu avô - vagabundíssima. Nunca, confesso aos amigos, senti algo arder tanto como aquela loção de cangaceiro no meu rosto. Minha tia, previdente, ainda deu um banho de mertiolate nos cortes para evitar inflamações. Quem se lembra como ardia o mertiolate em antanhos sabe o que isso significa.
Foi um fiasco essa escanhoada inaugural. Tomei verdadeiro horror ao ato de fazer a barba, que desde então me parece de um primitivismo atroz. Não é coisa de gente civilizada.
Ao chegar do trabalho, meu avô soube da lambança e me deu um esporro básico. Com o vô, porém, abri o verbo. Falei da esperança de sentir a carícia da loura fatal e outros salamaleques. Ele entendeu e acho até que se orgulhou da merda que fiz; a causa era nobre.
Algumas pessoas identificam a perda da inocência no momento em que descobrem a inexistência do Papai Noel. Eu pouco me importei quando descobri que o Bom Velhinho era apenas uma conversa mole pra boi dormir e deixar a criançada na ilusão de que a vida é boa.
O que destruiu mesmo minhas fantasias mais inocentes foi saber - de forma dolorosa - que a Platina da Platinum Plus era uma ilusão sem vergonha, fomentada por uma propaganda desonesta. Eu nunca seria atacado no banheiro por uma mulher daquela.
Quero crer que foi ali, no meio do Amazonas de sangue que jorrou no rosto do moleque, que nasceu esse careca barbado que hoje sou.