quarta-feira, 6 de maio de 2020

VIDA, MORTE E TRADIÇÃO NAS CULTURAS DE AXÉ


Na encruzilhada, espaço dos cruzos que ritualizam a vida, as culturas de axé encontram as culturas de arkhé. Em síntese, entendo cultura de axé (expressão iorubá) como aquela que designa um modo de relacionamento com o real fundamentado na crença em uma energia vital - que reside em cada um, na coletividade, em objetos sagrados, alimentos, elementos da natureza, práticas rituais, na sacralização dos corpos pela dança, no diálogo dos corpos com o tambor, etc. - que deve se constantemente potencializada, restituída e trocada para que não se disperse. 
As culturas de arkhé (o termo é grego) são aquelas culturas tradicionais que se baseiam na ritualização da ancestralidade, na modelação de condutas estabelecida pelo conjunto de mitos e na transmissão dinâmica de matrizes simbólicas. A tradição, nesta perspectiva, não é imutável, mas entendida como um impulso inaugural da força de continuidade do grupo, conforme diz Muniz Sodré em seu “O terreiro e a cidade: a forma social negro-brasileira”. O ocidente, viciado na monocultura do racionalismo como maneira de compreensão do mundo, às considera primitivas, em um recorte de conotação racista.
Penso aqui em um racismo herdado do colonialismo que se manifesta explicitamente a partir de características físicas, mas não apenas aí. A discriminação também se estabelece a partir da inferiorização de bens simbólicos daqueles a quem o colonialismo tenta submeter: crenças, danças, comidas, visões de mundo, formas de celebrar a vida, enterrar os mortos, educar as crianças, etc.
Seguindo esses pressupostos, suspeito que é possível pensar as questões que envolvem tradição, ancestralidade, práticas rituais e concepções de mundo a partir da ideia de que a morte (encarada mais como espiritualidade que como conceito) dinamiza a vida, em um ciclo contínuo e necessário de restituição e potência. Quero crer que essa visão apresenta também uma fonte para que pensemos nas culturas brasileiras oriundas do diálogo com as tradições africanas, inscritas em ritos, danças, batuques, celebrações, sacralizações, libertações dos corpos, etc. Desenvolvo abaixo o tema.

 O mito  

Diz Ifá que Olodumare, o Deus maior, um dia deu a Obatalá a tarefa da criação dos homens e mulheres, para que eles povoassem o Ayê. Obatalá moldou os seres a partir de um barro primordial; para isso pediu a autorização de Nanã, a venerável senhora que tomava conta daquele barro. Os humanos, depois de moldados, recebiam o emi - sopro da vida - e vinham para a terra. Aqui viviam, amavam, plantavam, colhiam, se divertiam e cultuavam as divindades.
Aconteceu, porém, que o barro do qual Obatalá moldava as pessoas foi acabando. Em breve não haveria a matéria primordial para que novos seres humanos fossem feitos. Os casais não poderiam ter filhos e a terra mergulharia na tristeza trazida pela esterilidade. A questão foi levada a Olodumare.
Ciente do dilema da criação, Olodumare convocou os Orixás para que eles apresentassem uma alternativa para o caso. Como ninguém apresentasse uma solução, e diante do risco da interrupção do processo de criação, Olodumare determinou que se estabelecesse um ciclo. Depois de certo tempo vivendo no Ayê, as mulheres e homens deveriam ser desfeitas, retornando à matéria original, para que novos seres pudessem, com parte da matéria restituída, existir.
Resolvido o dilema, restava saber de quem seria a função de tirar dos seres o sopro da vida e conduzi-los de volta ao todo primordial - tarefa necessária para que outras mulheres e homens viessem ao mundo.
Obatalá esquivou-se da tarefa. Vários outros Orixás argumentaram que seria extremamente difícil reconduzir as pessoas ao barro original, privando-as do convívio com a família, os amigos e a comunidade. Foi então que Iku, até então calado, ofereceu-se para cumprir o designo do Deus maior. Olodumare abençoou Iku. A partir daquele momento, com a aquiescência de Olodumare, Iku tornava-se imprescindível para que se mantivesse o ciclo da criação.
Desde então Iku vem todos os dias ao Ayê para escolher os homens e mulheres que devem ser reconduzidos ao Orum, depois de terem vivido a longa vida, aquela que merece ser celebrada. Seus corpos devem ser desfeitos e o sopro vital retirado para que, com aquela matéria, outras pessoas possam ser feitas - condição imposta para a renovação da existência. Dizem que, ao ver a restituição dos homens ao barro, Nanã chora. Suas lágrimas amolecem a matéria-prima e facilitam a tarefa da moldagem de novas vidas.
Esse ciclo é ritualizado nas cerimônias de axexê, realizadas quando morre algum iniciado no candomblé e que basicamente busca desfazer o que foi feito nas cerimônias de consagração da yaô ao orixá. Na iniciação, o orixá é feito. No axexê, ele é desfeito, abrindo espaço para que o morto volte, sem amarras, ao todo primordial, sustentando assim os ritos de continuidade da vida. Ao mesmo tempo em que retorna, o morto permanece vivo na lembrança e nas celebrações que aqueles que ficam lhe dedicarão.
A tradição
Esse mito iorubá, poderosa síntese da ideia da morte como condição necessária para que exista a vida, comporta uma fabulosa variante de leituras. Quero crer, por exemplo, que resida nele um manancial para que reflitamos sobre questões que envolvem outros olhares a respeito da tradição como fundamento da cultura de axé. É inevitável refletir sobre este mito de vida e morte para compreender, por exemplo, o samba, tema de meu interesse particular, não apenas como ritmo e coreografia, mas como um complexo cultural dinamizado, em seu processo histórico de configuração, pela ideia mais ampla de uma cultura de axé.  
Primeiro é preciso dizer que os saberes não brancos, afro-indígenas, normalmente se referem a uma ideia de tradição que não é estática. Nas culturas orais, o conhecimento se fundamenta no ato de se transmitir ou entregar algo para que o receptor tenha condições de colocar mais um elo numa corrente, dinâmica e mutável. Passar adiante, enfim.  
O conjunto de invenções do mundo que constitui o campo da cultura se apresenta como a capacidade de criar e recriar a vida a partir do legado dos ancestrais. A percepção da cultura, neste caso, refere-se à  maneira como um grupo cria ou reelabora formas de [re]invenção da vida e estabelece significados complexos sobre a realidade que o cerca. As formas de falar, vestir, comer, rezar, punir, matar, nascer, enterrar os mortos, chorar, festejar, envelhecer, dançar, não dançar, fazer música, silenciar, gritar... Tudo isso é componente da cultura de um grupo e, para as áfricas que nos formam, dialoga necessariamente – no campo simbólico e ritual - com a ancestralidade.
A metáfora do barro que constantemente se renova, é moldável, ganha novas formas a partir de saberes ancestrais, engendra possibilidades ilimitadas de recriação e aponta para a continuidade a partir da dinamização da tradição; é o fundamento mesmo do que os nagôs entendem por vida com axé (energia vital).
As culturas de axé são, sobretudo, afirmativas da vida. Por isso celebram a morte. Para alguns pode parecer um paradoxo, mas elas só são dinâmicas porque são tradicionais. É como a vida, que só é possível em virtude da possibilidade criadora alimentada pelo papel da morte; signo vigoroso de renovação ancestral continuamente celebrada.
Não há nada de novo (nada pode nascer) que não precise recorrer ao fundamento (o barro) para existir. A função da matéria, por sua vez, é se reconfigurar e se renovar como possibilidade de criação de outras vidas. A tradição que não se renova é destituída de axé. Matéria morta e sem potência, em suma; simulacro de uma vida que já não existe.
Recordo aqui, e coloco na encruzilhada a referência, a bela reflexão que Guimarães Rosa faz em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras: De repente, morreu: que é quando um homem vem inteiro pronto de suas próprias profundezas. Morreu, com modéstia. Se passou para o lado claro, fora e acima de suave ramerrão e terríveis balbúrdias. Mas - o que é um pormenor de ausência. Faz diferença? “Choras os que não devias chorar. O homem desperto nem pelos mortos nem pelos vivos se enluta" - Krishna instrui Arjuna, no Bhágavad Gita (...). As pessoas não morrem, ficam encantadas.
Orunmilá consultou Ifá. O oráculo respondeu que o novo que não vem do velho e o velho que não vira novo sucumbirão ao mais duro dos aniquilamentos: o esquecimento. As histórias deles não farão nenhum sentido e não mais serão lembradas pelas mulheres, os homens e as crianças que cantam e dançam, celebrando na morte a força incomensurável da vida, nos terreiros das encantarias do mundo.  

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

A CIDADE É TERREIRO

Luiz Antonio Simas/Luiz Rufino
A cidade é aquilo que praticamos. Essa é a defesa da noção de cidade mirada pelo alinhave das múltiplas sabedorias que dão o tom daquilo que reivindicamos como epistemologias das macumbas. Assim, a cidade é aquilo que é inventado cotidianamente enquanto terreiro. Lembremos que os terreiros são as saídas inventivas, a partir da prática do tempo/espaço por aqueles que rasuram as lógicas da desterritorialização. Dessa forma, a experiência do desterro se dá via a retirada compulsória e também pelas vias da descredibilização do ser e de seus saberes enquanto possibilidades. Para a maioria dos seres que não repousaram nas cadeiras dos privilégios arranjadas sobre os alpendres da Casa Grande, resta a invenção dos terreiros como ato de desobediência, transgressão e invenção.
Pensemos o Rio por essa perspectiva: um enredamento de terreiros encravados entre as montanhas e o mar. Por aqui corre a gira falanges ameríndias e africanas que na relação com os europeus rodopiaram na mesma canjira. De vez em quando, diríamos até que muito frequentemente, os encantados de falanges diferentes saem no cacete e a curimba esquenta. Eventualmente, porém, vira-se mundo e o povo no corre da gira cruzada e firma ponto para inventar a vida enquanto possibilidade.
A perspectiva riscada no encante da pemba nos revela uma cidade que é tempo/espaço em disputa; em um jogo que nem sempre se desenrola de forma igualitária para os seus praticantes e que em muitas das vezes o uso do artifício do desencante é artimanha dos poderosos. Ler a cidade do Rio na perspectiva do encante é tarefa para aqueles que aprenderam a versar na língua do povo do congo e bradaram alto no campo de batalha, feito guerreiro tupinambá. É tarefa para aqueles que sabem a potência da diversidade, dos diálogos e dos trabalhos feitos na artimanha do transitar pelas diferenças.
Lendo em múltiplos dizeres e entenderes, vamos mais longe na canjira carioca: Pereira Passos está encantado numa águia daquelas do Theatro Municipal. Cartola ajuremou-se numa pedra miúda da subida do Pendura Saia. Noel encantou-se em alguma garrafa de cerveja, com maestria. Jamelão virou Jequitibá do samba. Estão todos por aí, prontos para baixar, dançar, dar conselhos, passes e o escambau. Registre-se que a cidade inventada enquanto terreiro é também cheia de encosto de capitão do mato, de fardas e ternos bem cortados, empunhados verdades únicas, querendo atrapalhar a firmeza do riscado da pemba.
Percebemos que é no baixar dessas presenças, almas obcecadas pela intransigência, que nascem as demandas e marafundas que precisamos desatar. Agora é hora de firmar a banda de todas as pertenças daqueles que estabelecem relação de identificação com a cidade praticada enquanto terreiro. Sambistas, capoeiras, curimbeiros, professores, biriteiros, peladeiros de fim de semana, camelôs, navegantes do Santa Cruz ao Japeri, torcedores, feirantes, vadios, trabalhadoras e trabalhadores de toda estirpe, desse ou de outros mundos: nos lancemos nessa peleja. 
A gerência de uma cidade praticada pluralmente por uma perspectiva contrária a diversidade produz um efeito de desencante, perda de potência vital, que reifica as raízes mais profundas do colonialismo. A grande peleja que se trava nesse momento veste o véu das purezas dos “homens de bem” para descredibilizar o nosso pluralismo e nossas sabedorias táticas operadas nas frestas.
O risco dos efeitos da demonização, dos absolutismos- reivindicados por seja qual for a banda- se dá no fortalecimento das lógicas monolinguístas. Contrários a esses efeitos, reivindicando as sabedorias de frestas inventivas dos nossos terreiros mundos, propomos firmar o fuzuê correndo a gira cruzada que é a cidade. A cidade simulacro ergue-se feito um edifício entoado por único dizer, cresce por cima de corpos e saberes múltiplos. A cidade terreiro corre gira, fala em vários dizeres para múltiplos entenderes, firma o encante no cruzado dos quatro cantos.
Haveremos de firmar uma toada duradoura, essa há de enunciar/comunicar em todas as línguas. O que nos espreita como demanda, marafunda de tempos atrás, opera na via contrária de nossa mirada, sendo fortalecida e perpetuada até os dias de hoje pelos mesmos modelos de catequese colonial. 
O (re)encanto urge.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

ESCOLA SEM PARTIDO

Eu entrei em uma faculdade de História com um objetivo profissional: dar aulas para crianças e adolescentes. Não entrei pensando em fazer carreira acadêmica ou pesquisa; entrei para ser professor de escola e isso é o que mais gosto de fazer. Com o tempo, percebi que gosto de ver a rua na escola e a escola na rua. Já dei aulas em praças públicas, feiras livres, universidades, quadras de escolas de samba, botequins, clubes, cemitério, cinema, casa abandonada, acampamento de sem terras, tenda espírita, terreiro de macumba, livraria, restaurante, museu, barracão de escola de samba, festa de São João, chegada de Papai Noel e campinho de futebol. Dei palestra na Academia Brasileira de Letras, na UFRJ, na UERJ, na PUC e na Vila Mimosa. E sempre, sempre, concebendo isso como extensão da escola.
Minha experiência é de bicho de sala de aula. Afirmo, portanto, que não existe escola democrática sem a ideia de negociação permanente. A escola sem conflitos é uma instituição defunta. Neste sentido, a interação nas escolas se estabelece, entre conflitos e consensos, entre pessoas com visões de mundo e culturas diferentes que se posicionam.
Eu aprendo e ensino nas escolas que não há detentores do monopólio do saber, da inteligência, da beleza estética ou da verdade. As sociedades contemporâneas são complexas e heterogêneas. A escola, por isso mesmo, deve pensar permanentemente o dissenso criativo e o convívio entre diferentes com direitos correlatos. E para isso, a escola precisa discutir, debater e fomentar ideias.
Charles Taylor dizia que um indivíduo e um grupo de pessoas podem sofrer um dano irreparável se a gente ou a sociedade que os rodeiam lhes mostram como reflexo, uma imagem degradante, limitada e depreciada sobre eles. Fanon falava do racismo simbólico, que desqualifica saberes dos subalternos e incute neles a noção da inferioridade de suas culturas como verdade indiscutível. Nesta perspectiva, nada é pior para trabalhar a diversidade que o modelo de escola determinista, individualista e privatista: aquele que destaca mais o que a pessoa não sabe do que aquilo que ela é capaz de saber e ornamenta isso com o discurso da neutralidade, como se ela fosse possível. Esse modelo é especialista em destroçar a estima dos educandos e realizar a tarefa da degradação dos corpos. É a escola como fábrica de gentes doentes e desencantadas.
A escola como instituição está em crise. Ela é hoje, no Brasil, estruturalmente seletiva e inimiga da diversidade. Com exceções, continuamos nos baseando na avaliação de resultados (e não na avaliação de processos) sobre critérios supostamente objetivos (provas e testes convencionais, por exemplo). Esse modelo esconde a não aceitação da diversidade ao usar critérios fechados para avaliar diferentes.
O modelo educacional exclusivamente centrado na sala de aula é uma instituição falida (a sala de aula, de novo com exceções, é um espaço estruturado para domesticar e controlar os corpos), o processo de aprendizagem tem que dialogar com a rua, o ensino baseado em avaliações convencionais fracassou, o excesso de conteúdo é um disparate, os currículos normativos produziram conhecimentos vazios e a imposição do cânone ocidental na educação brasileira - como recorte quase exclusivo do saber - é fomentadora de preconceito, intolerância, violência e dor contra os que não se enquadram no padrão uniforme que o cânone preconiza como modelo a ser seguido.
A cereja do bolo da destruição da escola no Brasil é essa boçalidade da escola sem partido, que desqualifica o professor e, sobretudo, as alunas e alunos, imaginando que eles sejam marionetes no processo de aprendizagem. A turma da escola sem partido é aquela que vê a educação, que eu sempre concebi como um campo de experiências inventivas de libertação dos mundos pela cultura, como um espaço de adestramento para o mercado e produção em larga escala de pessoas adoentadas.
A aprovação de uma barbaridade dessas complementará o projeto colonial brasileiro de adestramento dos corpos na lógica do corpo contido pelo medo do pecado, do corpo-arado feito para o trabalho, do corpo viril feito para o estupro, e do corpo feminino feito para ser currado. E a minha profissão estará irremediavelmente destruída.
Sempre haverá, todavia, a praça, o cemitério, a birosca, o boteco, a quitanda, a casa, a rua tensionada, o terreiro e o tesão para ensinar e aprender. Na fresta, porque estes espaços públicos também estão sob ataque das cidades pensadas como empresas. Eu nasci e cresci na macumba: sou do tambor na brecha e sempre haverei de encontrar um lugar para denunciar o projeto colonial, racista, misógino, preconceituoso, mesquinho, viril e doente destes filhos (jamais das putas) das boas famílias brasileiras, aquelas que desde a Casa-Grande não conseguem se conceber sem os seus feitores e capitães do mato. 

terça-feira, 12 de julho de 2016

SOBRE RAÇA (OU A BARBÁRIE DA CIVILIZAÇÃO)

A morte de Luiza Bairros, a ex-ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, abriu as portas do inferno nos comentários dos sites que noticiaram o falecimento. De novo chovem os argumentos mais estúpidos: raça não existe, se o Brasil tem ação afirmativa para pretas e pretas tem que ter para brancos (a falsa simetria predileta dessa turma), e outras baboseiras do tipo. Nada de diferente do velho caldo, enfim, de racismo enraizado, preconceito e falsas simetrias, mostrando que a obra da escravidão continua atuante. 

Quase não tenho mais paciência para responder aos argumentos primários de que raça não existe, mas vamos lá. Recorrerei a um gigante, o senegalês Cheikh Anta Diop, provavelmente o maior intelectual africano do século XX. Pensador potente e descolonizado, Diop insistia na necessidade de firmarmos questão em um ponto crucial: “raça” não é uma condição biomolecular, mas é uma poderosa construção fenotípica e cultural. Neste sentido (uso o exemplo que Diop gostava de utilizar) é possível que um banto sul-africano e um sueco sejam geneticamente mais próximos entre si que entre aqueles de seu próprio grupo. A questão, Diop coloca, é que, nos anos de 1980, na África do Sul, o banto seria vitimado pela violência do apartheid e o sueco seria um homem livre.

Trazendo para o Brasil: sou branco, passei parte da minha vida na Baixada Fluminense e tenho amigos negros. É possível que geneticamente eu tenha muita proximidade com alguns deles. É possível que alguns deles tenham proximidades genéticas com italianos. Não obstante, a polícia nunca me parou nas dezenas de batidas em que amigos meus foram parados, já que para a polícia (e para a esmagadora maioria da sociedade) é a noção fenotípica e cultural das raças que prevalece. Quando falamos de raça, portanto, nos referimos a esta construção que opera na dimensão do racismo e me faz ter, cotidianamente, a proteção da cor da pele. 

A desconstrução disso é processo que ainda anda de gatinhas e pressupõe ações urgentes em vários campos, inclusive no epistemológico. A invenção do eurocentrismo – entendido aqui como a impressão de que a Europa moderna representou o ápice civilizatório da humanidade e de que toda a história da humanidade só pode ser contada a partir dos marcos e códigos que o ocidente produziu – é uma aberração que demanda constante trabalho de enfrentamento e desconstrução.

O poder econômico, a supremacia bélica e o controle das estruturas jurídicas e pedagógicas do colonialismo são os alicerces desta centralidade reducionista, obtusa, desonesta e limitadora.

Eu estudo o samba, e ando cada vez mais convencido que acontece com ele o mesmo processo que aconteceu com o discurso produzido pelo ocidente sobre a civilização egípcia: desafricanizar é a condição e estratégia para reconhecer valor e sofisticação, marcando um recorte com aquilo que seria a barbárie. 

Lendo os comentários bizarros sobre a morte de Luiza Bairros, lembrei-me até de um famoso trecho de Kant sobre negros e brancos: " Os negros da África não possuem, por natureza, nenhum sentimento que se eleve acima do ridículo(...) Não se encontrou um único sequer que apresentasse algo grandioso na arte ou na ciência, ou em qualquer outra aptidão; já entre os brancos, constantemente arrojam-se aqueles que, saídos da plebe mais baixa, adquirem no mundo certo prestígio, por força de dons excelentes."

Enquanto acharmos que " visão de mundo" é a visão ocidental de mundo, e apenas ela, estaremos fritos. A civilização européia, como qualquer outra, é um monumento ao sublime, pois que humana, e um atestado contundente de barbárie, inclusive saida da pena e das crenças de seus maiores representantes.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

PEDIDO A SÃO LONGUINHO

Adoro o cristianismo popular brasileiro, de fundamento ibérico, que gosto de chamar de "cristianismo do fantástico" e mora nas encruzilhadas afro-indígenas temperando a nossa maneira de viver o arrebatamento do mistério. Sendo assim, é evidente que sou devoto de São Longuinho.
A hagiografia diz que São Longuinho se chamava Cássio e foi um soldado romano presente na cena da crucificação de Cristo. Algumas versões sobre a paixão indicam que teria sido ele o centurião que perfurou o nazareno com uma lança (relíquia que teria sido encontrada nos tempos da primeira cruzada e está exposta em Viena, na Áustria). O sangue de Cristo respingou nos olhos do centurião, que naquele momento foi tocado pela graça e se converteu. Cássio passou a ser conhecido como Longinus - latinização do grego lonke; lança.
Por ter aderido ao cristianismo e renegado o poder de Roma, Longinus foi torturado, teve os dentes e língua arrancados, e foi decapitado em Jerusalém.
São Longinus foi canonizado pelo Papa Silvestre II, no ano de 999. A tradição popular afirma que parte importante da documentação do processo, em dado momento, se perdeu. O Papa teria, então, rogado ao próprio santo para que os documentos fossem encontrados; o que acabou ocorrendo. Viria daí a fama que o santo tem de atender aos pedidos dos fiéis que querem encontrar objetos perdidos.
Na cultura popular brasileira, Longinus (muito venerado na Espanha) virou mesmo Longuinho, ou Lancinha, que eu acho extremamente simpático. É tradicional ainda o hábito de se fazer uma promessa ao santo para se encontrar o que foi perdido. A promessa deve ser feita mediante os seguintes dizeres: São Longuinho, São Longuinho, se eu achar o que está perdido, dou três pulinhos e três gritos.
São Longuinho é representado como um centurião com uma lança, a que ele teria usado para furar o corpo de Cristo, e é representado com uma lanterna acesa, símbolo de seu poder de encontrar objetos perdidos.
Existem duas imagens do santo no Brasil: na Capela de Nossa Senhora da Escada, em Guararema (SP), esculpida em madeira por índios das missões, e na Igreja de Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas (MG).
Eu gostaria muito, depois dessa breve descrição sobre o santinho querido, de pedir a São Longuinho para que ele me ajudasse a encontrar o Brasil. Aquele que eu não sei se existiu algum dia - acho que não - ou se viveu apenas nos meus afetos e afeições de menino e projeções de moleque; o país que navegava o Rio Doce, dobrava o rum para Ossain dramatizar o encantamento das folhas, se banhava na volta grande do XIngu, arreliava o tempo no ronco do fole de Gonzaga, adormecia João Valentão no manto da noite e comemorava o gol na geral do maior do mundo.
Eu continuo procurando, doido para dar três pulos - discretos, para não ficar travado - saudando o santinho querido do povo.

terça-feira, 5 de julho de 2016

CARTA AOS MEMBROS DO COMITÊ OLÍMPICO BRASILEIRO

Foi com profunda preocupação que recebi a notícia de que as religiosidades brasileiras afro-indígenas não foram incluídas pelo COB no Centro Ecumênico do Rio, que a rigor nem deveria existir, montado para as Olimpíadas de 2016. Em um contexto em que demonstrações de intolerância religiosa se tornam cada vez mais costumeiras, o "esquecimento" não se coaduna com os princípios da tolerância e do respeito ao pluralismo das diferenças, elementos básicos para o convívio fraterno da comunidade, que deveriam pautar os jogos de  2016.

Certa feita escrevi um texto sobre a religiosidade brasileira e a relação de nosso povo com as divindades, coisa que o COB parece desconhecer. Cito alguns trechos, nesse momento em que nossos ritos sofrem toda sorte de ataques, do que então expressei:

“Somos as filhas e filhos do mais improvável dos casamentos, entre o compadre Exu e a Senhora Aparecida – a prova maior de que o amor existe. E Tupã, que se vestiu com o cocar mais bonito para a ocasião, celebrou a cerimônia entre a cachaça e a água benta.

Uma das nossas mãos está calejada pelo contato com a corda santa do Círio de Nazaré – a outra tem os calos gerados pelo couro do atabaque que evoca as entidades. As mãos do Brasil e do seu povo.

Nossos ancestrais passeiam pela vastidão da praia sagrada dos índios de Morená, retornam à Aruanda nas noites de lua cheia, silenciam no Orum misterioso das almas e florescem encantados nas folhas da Jurema. 

Os guerreiros de nossas tropas trazem a bandeira do Humaitá, o escudo de Ogum e o estandarte da pomba branca do Divino Espírito Santo – a mesma pomba que pousou na ponta do opaxorô de Obatalá. São essas as nossas divisas de guerra e paz; exércitos do Brasil.”

Escrevi isso porque nasci e cresci dentro de um terreiro de macumba. Falo dessa procedência com orgulho tremendo. Minha avó era mãe de santo na Baixada Fluminense do Rio de Janeiro, versada nos segredos do candomblé, da jurema e da encantaria. Fui, por isso mesmo, batizado nos conformes da curimba – protegido pelo caboclo Pery e pelo Exu Tranca Rua das Almas e oferecido aos cuidados da lua velha, num terreiro grande de Nova Iguaçu. 

Os empresários do COB talvez desconheçam, mas os deuses que vieram dos porões dos tumbeiros e das florestas do Brasil amenizaram séculos de dor e sofrimento e forjaram a armadura da resistência e da dignidade de um povo. Os deuses do Brasil nos ensinaram a olhar a natureza com os contornos da poesia e a delicadeza dos ritos imemoriais. Essa é uma tessitura de olhar o mundo que uma Olimpíada deveria prezar.

Divinizamos os homens e humanizamos os deuses para construir uma civilização amorosa nos confins do ocidente. Em nome do oxê de Xangô, do pilão de Oxaguiã, do xaxará de Omolu e do ofá de Oxossi não há um só genocídio perpetrado na face da terra. Nunca houve qualquer guerra religiosa em que se massacraram centenas de milhares de seres humanos em nome da fé nos encantados e orixás. A insígnia de nossos deuses nunca foi a mortalha de homens comuns – nós apenas batemos tambor e dançamos, não morremos ou matamos pela nossa fé.

Espero que os senhores saibam que engana-se quem acha que o racismo se limita ao campo da percepção social das características físicas; certamente a sua manifestação mais odiosa. Ele é um fenômeno que se desdobra em outros campos de percepção. Uma das mais frequentes, praticadas e menos percebida manifestações do racismo, se estabelece a partir da inferiorização dos bens simbólicos daqueles a quem o colonialismo submeteu. Quando consideramos que as crenças, danças, comidas, visões de mundo, formas de celebrar a vida, enterrar os mortos, educar as crianças, etc. de determinados grupo são inferiores, estamos operando no campo do racismo. É exatamente isso que está sendo feito neste momento. 

Que cada um tenha o direito de encontrar o mistério do que lhe é pertencimento, em gentileza e gestos de silêncio, toques de tambor e cantos de celebração da vida. Tudo aquilo, enfim, que se esperaria de um evento de congraçamento entre os povos. 

Olorum Modupé, Nzambi-ampungu!

quarta-feira, 29 de junho de 2016

COZINHA SAGRADA: CULTURA E CRUZAMENTOS


A culinária do Pará, fortemente marcada pela cultura indígena, aparece também em algumas rodas de encantadas e juremeiros, com seus temperos feitos com as folhas e frutas amazônicas. O fascinante é que os alimentos também podem ser encantados, entes que foram arrebatados em vida: tucumã, muruci, cupuaçu, castanha, bacuri, bacaba, taperebá, ervas e pimenta de cheiro, temperando peixes, patos, camarões e caranguejos. E tem tucupi - caldo amarelo extraído da mandioca -, tacacá - mingau feito à base de tucupi, goma de tapioca, camarão seco e jambu -, chibé – mingau de farinha de mandioca e água - e maniçoba. Este último é o prato que exige maiores rigores em sua preparação, já que a maniçoba é feita com a folha venenosa da maniva (mandioca). A folha é moída e cozida por aproximadamente uma semana, para perder o ácido cianídrico. A maniçoba é então preparada como se fosse uma feijoada paraense: adiciona-se paio, costela, pé de porco, charque, etc. Pronta a iguaria, é só servi-la acompanhada de arroz, farinha de mandioca, pimenta de cheiro e molho de tucupi. 

A feijoada carioca, por sua vez, se insere também na tradição de pratos que misturam tipos diferentes de carnes, legumes e verduras: o saber da mistura é milenar (a fábula da comida inventada nas senzalas com restos do porco não se sustenta). O cozido português e o cassoulet francês partem deste fundamento de preparo. O feijão preto é originário da América do Sul. De uso bastante conhecido pelos guaranis, seu cultivo disseminou-se pela África e Ásia a partir dos navegadores europeus que chegaram ao Novo Mundo. A farinha de mandioca também é de origem americana e fez percurso similar.

Controvérsias à parte, o fato é que a feijoada desenvolveu-se no Brasil como um prato cotidiano que chegou aos terreiros e passou a ser ofertado a Ogum, divindade do ferro, da guerra e das tecnologias. A feijoada de Ogum é normalmente acompanhada de cerveja, bebida aqui vinculada ao orixá. 
Mesma coisa pode ser dita sobre o milho, um cereal hoje cultivado em boa parte do mundo que, segundo especialistas, têm origem americana. Inúmeros povos nativos da América - como os astecas, toltecas, maias – atribuíam ao milho origem divina. Os mitos envolvendo o milho o vinculam diretamente à própria criação dos homens. 

Ao circular pelo mundo, o milho americano foi apropriado por inúmeras culturas e sacralizado por muitas delas. Ele é hoje base de alimentos importantíssimos da culinária dos candomblés. Está presente no axoxô de Oxossi, na pipoca de Obaluaiê, na canjica de Oxalá e nos alimentos de Ossain, dentre outros.

Resumo da ópera: as cozinhas sagradas oferecem belíssimas possibilidades para que questionemos os essencialismos que insistem em ver purezas onde o que existe é dinâmica de encruzilhadas, trocas, apropriações e invenções constantemente reinventadas. Macumba, em suma.