segunda-feira, 16 de março de 2015

REFERÊNCIA EPISTEMOLÓGICA

Os acontecimentos de ontem - passeatas, panelaços e que tais - geraram análises em jornais, redes sociais e televisões. Sobre versão dos fatos, questionamento da verdade histórica, disputa pela narrativa; já li boas reflexões do povo daqui citando Nietzsche, Derrida, Foucault, etc. Quero contribuir citando a minha maior referência no campo da teoria da História, já que sou adepto da epistemologia da macumba: Elegabara, mais conhecido como Exu. Meu compadre.
O fato é que Exu - um craque nas questões epistemológicas que coloca - já tinha exposto antes dos alemães e dos franceses esses problemas do conhecimento do fato com grande competência, em um dos mitos mais famosos do corpo literário de Ifá; o monumental conjunto dos poemas da criação entre os iorubás, revelado aos homens e mulheres pelo sábio Orunmilá.
Refiro-me ao dia em que Exu resolve desafiar os sabichões que garantiam portar a verdade sobre determinado acontecimento. O compadre, então, diz que a verdade está com aquele que consegue dizer qual é a cor do filá que ele levará na cabeça no próximo dia do mercado.
O poema é longo e aqui vai o resumo: Exu propõe o desafio, coloca os sabichões em lados diferentes do mercado e passa pelo meio dos dois grupos. Acontece que a carapuça do grande orixá é vermelha de um lado e preta do outro. Quem olha pela direita enxerga o preto; quem olha pela esquerda observa o vermelho.
Um sábio grita "é preta!" , o outro afirma que é vermelha. Os dois acabam se matando em nome da versão verdadeira, enquanto Exu solta a gargalhada zombeteira e continua seu caminho, em busca de um bode para descarnar, realizando assim uma de suas funções mais sofisticadas: a de gerar a confusão que, no fim das contas, nos redime e ensina.
A polêmica que envolve a verdadeira cor da carapuça de Exu, o andarilho, destrói a pretensão dos sábios em relação ao domínio da verdade e expõe a sofisticada e ancestral visão de Ifá sobre os fatos; é a ela que também recorro quando penso a História.
Quem quiser saber mais sobre esse mito - e não tem acesso ao corpo literário dos poemas da criação - fica aqui uma dica: leiam “Os sábios de Tombuctu”, conto que faz parte de Elegbara, o livro em que Alberto Mussa, escritor e babalaô (sacerdote do segredo), profundo conhecedor de mitologias diversas, recria e reinventa, com imaginação prodigiosa, essa famosa história do corpo literário de Ifá. Esse conto magistral propõe o enigma que perpassa a fascinante literatura de Mussa, sintetizada na frase de Elegbara (penso nela sempre como um recado de Exu para mim, no trabalho com a História):
- Como julgam dominar a verdade se não podem acordar sequer sobre a cor de uma carapuça?
Exu é a grande referência epistemológica da minha vida.

domingo, 15 de março de 2015

ENCRUZILHADAS (Publicado no jornal O Dia, em 15/03/2015)

Luís da Câmara Cascudo ensina que as encruzilhadas são lugares de encantamentos para todos os povos.   Basta beber na fonte do conhecimento do mestre para se perceber que as encruzas sempre espantaram e seduziram as mulheres e os homens. E dariam, fica a dica, um ótimo enredo para qualquer escola de samba.
Os gregos e romanos ofertavam a Hécate, a deusa dos mistérios do fogo e da lua nova, oferendas nas encruzilhadas. No Alto Araguaia, era costume indígena oferecer-se comidas propiciatórias para a boa sorte nos entroncamentos de caminhos. O padre José de Anchieta menciona presentes que os tupis ofertavam ao curupira nas encruzilhadas dos atalhos. O profeta Ezequiel viu o rei da Babilônia consultando a sorte numa encruzilhada. Gil Vicente, no Auto das Fadas, conta a história da feiticeira Genebra Pereira, que vivia pelas encruzilhadas evocando o poder feminino.
Para os africanos, o Aluvaiá dos bantos, aquele que os iorubás conhecem como Exu e os fons como Legbá, mora nas encruzas. Conta o povo do Congo que Nzazi imolou em uma encruzilhada um carneiro para fazer, esticando a pele do bicho num tronco oco, Ingoma, o primeiro tambor do mundo.
No universo fabuloso da música, dizem que Robert Johnson, um lenda do blues, negociou a alma com o Tinhoso numa encruzilhada do Mississipi. No Brasil caipira, há mitos sobre a destreza que alguns violeiros conseguiam ao evocar o sobrenatural num cruzamento de caminho.
O violeiro Paulo Freire (músico e  historiador do instrumento) conta que um dos babados era enfiar a mão no buraco de uma parede de taipa de uma igreja deserta, localizada em uma encruzilhada, à meia-noite. Bastava então invocar o Sete Peles e sentir uma mão agarrar e quebrar todos os seus dedos. Após a recuperação das fraturas, o dom para fazer miséria com o instrumento iria aflorar.  Para quebrar o pacto, o violeiro deveria virar devoto de São Gonçalo do Amarante, enfeitar o instrumento com fitas coloridas e mandar o Coisa Ruim de volta às profundas.
O fato é que a humanidade sempre encarou os caminhos cruzados com temor e encantamento. A encruzilhada, afinal, é o lugar das incertezas das veredas e do espanto de se perceber que viver pressupõe o risco das escolhas. Para onde caminhar? A encruzilhada desconforta; esse é o seu fascínio.  
O que posso dizer dessa historia toda é que minha vida eu mesmo encanto. Ritualizo; peço licença ao invisível e sigo, herdeiro miúdo do espírito humano, fazendo do espanto o fio condutor da sorte. Eu, que sou das encruzilhadas, desconfio é das gentes do caminho reto.


sábado, 28 de fevereiro de 2015

A ENCRUZILHADA DOS 450 ANOS

O conceito de gentrificação é controverso e pode render boas conversas em botequins e universidades. Eu costumo mesmo usá-lo no sentido dado ao termo pelos estudos pioneiros de Ruth Glass e Neil Smith; aquele que, grosso modo, designa um processo de aburguesamento de espaços nas grandes metrópoles e gera o afastamento das camadas populares do local modificado. O espaço gentrificado passa a ser gerido prioritariamente pelos interesses do mercado financeiro, do grande capital e quejandos. Este processo de submissão ao capital é, em geral, acompanhado por discursos legitimadores que vão desde o "tratamento ecologicamente correto" até o da "gestão financeira responsável".

Exemplifico: não acho que o futebol seja um espetáculo, uma brincadeira, um jogo ou uma guerra; ele pode ser tudo isso e muito mais. Futebol no Brasil é cultura, pois consolidou-se como um campo de elaboração de símbolos, projeções de vida, construção de laços de coesão social, afirmação identitária e tensão criadora, com todos os aspectos positivos e negativos implicados neste processo. Nossas maneiras de jogar bola e assistir aos jogos dizem muito sobre as contradições, violências, alegrias, tragédias, festas e dores que nos constituíram.

O processo de morte do futebol como cultura reduz o jogo ao patamar de mero evento. Contamina, inclusive, o vocabulário, que perde as características peculiares do boleiro e se adequa ao padrão aparentemente neutro do jargão empresarial. O craque se tranforma em "jogador diferenciado", o reserva é a "peça de reposição", o passe vira "assistência", o campo é a "arena multiuso" e o torcedor é o "espectador". As conquistas não são mais comemoradas em campo; mas em eventos fechados, sob a chancela de patrocinadores e com a participação do "torcedor virtual", aquele chamado a se manifestar pelas redes sociais a partir do que verifica nas telas da televisão.

Mais grave é constatar que o exemplo do futebol não é a exceção. A regra é gentrificar. Como carioca, este é um processo que talvez me espante e entristeça mais nos nossos 450 anos de História. Penso nas arenas futebolísticas e acho inevitável comparar com o famoso Parque Madureira, com o elevador do Cantagalo, com o projeto de revitalização da zona portuária e similares. O discurso do embelezamento urbano, do ecologicamente correto, da dignidade do morador, é acompanhado da especulação vigorosa e proposital do solo urbano e da ruptura criminosa de laços comunitários, com a saída de uma população que não consegue mais pagar o aluguel ou não tem como adquirir o imóvel na área embelezada. Há ainda um discurso hegemônico na mídia que glorifica o embelezamento e esconde as contradições sociais que ele traz. A limpeza social é silenciosa, enquanto a limpeza urbana toca seus tambores, se apropria de códigos do que ela mesma destrói e domina, pela propaganda, os corações e mentes.

Já escrevi sobre isso e tenho me referido a este processo nocivo como "perversidade do bem"; ele hoje é uma das mais ardilosas estratégias de submissão do homem aos ditames dos grandes interesses corporativos. É bom ver o jogo confortavelmente na Arena Maracanã; é bom ter um camarote climatizado no sambódromo; é bom ter uma área verde no coração de Madureira; é bom um elevador que facilite a acessibilidade ao Cantagalo; é bom ter bicicletas disponibilizadas por bancos (uso, propositalmente, os jargões empresariais deste processo); é bom ver o porto maravilha ser a porta de entrada do Rio de Janeiro...

Mas tudo isso pode ser cruel, castrador, higienista, desarticulador de laços comunitários, frio como um museu virtual, adequado ao delírio dos corretores de imóveis. É bom e não é para todos. Pode ser perverso quando se apropria dos ícones de um local e louva estes ícones para destruí-los ou submetê-los aos interesses do mercado. O grande dilema carioca hoje é esse.

Sou, todavia, otimista, em virtude de algumas coisas que observo, especialmente na Zona Norte, onde vivo e circulo com mais frequência. As ruas estão de fato ocupadas por movimentos com uma vitalidade cultural que me surpreende e que estão sabendo dialogar com o poder público municipal e a iniciativa privada de forma soberana e cada vez mais amadurecida. Quando tomo conhecimento do trabalho do Leão Etíope, do Norte Comum, do Boi de Lucas, da Roda Cultural do Méier, do Fuzuê de Aruanda, do Samba de Benfica, do Viva Honório!, do Rap na Reta, do Guerreiros da Guia, do Loucura Suburbana, do Cidadania Black, do Lobo Guará (dentre tantos outros); lanço sobre a minha cidade um olhar esperançoso. O Rio de Janeiro tem uma dívida enorme com os seus subúrbios; as Zonas Norte e Oeste: a potência criadora da cidade hoje pulsa vigorosamente por essas bandas.

Por outro lado, admito o meu receio em relação ao discurso identitário do carioca cordial. O seu arcabouço nos impele a vestir a fantasia do mito, como clientes satisfeitos de um futebol-produto, de um bairro-playground, de uma cidade-condomínio, de um jogo-espetáculo. Temo por um futuro em que, vestidos com a carapuça do mito, aplaudiremos apenas como platéia a simulacros festivos do que não é mais o nosso pertencimento; seduzidos pelas fanfarras alegres do nosso próprio - e lindíssimo - velório.

Há que se refletir sobre isso nesses tempos de efemérides. Nós somos uma cidade, na mesma proporção, de flor e faca e temos que ousar pensá-la, também, a partir da voz, do grito ou do canto de quem está na rua.

Viva o Rio de Janeiro!

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

UM MÉDIUM NO CARNAVAL

Em Nova Iguaçu, no Lins e em Laranjeiras todo mundo sabia que o Manoelzinho Motta era dotado de impressionante mediunidade. A fama cresceu na ocasião em que o cabra recebeu o espírito de um profeta de pedra sabão do Aleijadinho - Jeremias - quando foi flagrado por sua senhora, Dona Alcione, em trajes sumários, no lupanar de Consuelo "La Índia" Paraguaia, a famosa Casa dos Amores Urgentes.
Acontece que a mediunidade do cabra, depois da primeira manifestação, não parou mais. Manoelzinho virou cavalo de mais de cinquenta entidades, de todos os tipos e linhas. O que mais impressiona, do ponto de vista estritamente espiritual, é entender como as entidades chegavam no Motta em momentos decisivos.
Houve, por exemplo, uma ocasião em que Dona Alcione convenceu o Manoelzinho a passar o carnaval fora do Rio de Janeiro. O destino traçado era Araruama, na modesta casinha de praia da Dona Saquarema Marta, que gentilmente convidou as amigas do Lins de Vasconcelos e adjacências para curtir um solzinho e fazer torneios de buraco, com comes e bebes, durante o tríduo momesco.
Há que se ressaltar, em nome da veracidade do relato, que a casa de praia de Dona Saquarema não era exatamente próxima à orla de Araruama. Ficava num loteamento um pouco distante - coisa de uns quarenta minutos caminhando sem pressa.
O Manoelzinho, que nunca discordava da Dona Alcione, aceitou o convite e se mostrou o mais entusiasmado com a programação.
Meu avô não entendeu picas. O Manoelzinho era folião lendário, sócio remido do Bola Preta, compadre do Tião Maria Carpinteiro -o fundador do Bafo da Onça- , ativo participante do Berro da Paulistinha e organizador, ao lado do zagueiro Moisés Xerife, do bloco das piranhas de Madureira. Como se não bastasse, fechava a quarta-feira de cinzas brigando com a polícia durante o desfile do Chave de Ouro.
Uma emocionada Dona Alcione ouviu o marido argumentar a favor da ideia de que numa relação de companheirismo era necessário abrir mão de algumas coisas em nome de outras mais importantes. Em tom de discurso, Manoelzinho encerrou o assunto em grande estilo e levou a mulher às lagrimas:
- Alcione significa mais para mim do que qualquer carnaval. Parto feliz para o melhor carnaval da minha vida!
Acontece que é difícil controlar algumas espiritualidades mais fortes. Na hora da partida, com as malas devidamente preparadas, o Caladril, o Vic Vaporubi , a Minâncora, o sal de frutas Eno e o Colobiasol formando a linha de frente da sacolinha de remédios, o Manoelzinho deu três murros fortes no peito, um brado de levantar defunto e caiu de joelhos na clássica posição de um índio preparado para flechar alguém.
O Nilson, que era uma espécie de cambono pra toda obra do Manoelzinho e também estava na trupe da folia em Araruama, imediatamente gritou ao ver a cena:
- Okê, caboclo!
Assim que o caboclo do Manoelzinho chegou, com urros impactantes de bugre, todos estenderam as mãos espalmadas à frente e abaixaram levemente a cabeça em forma de reverência.
A entidade indígena continuou gritando por uns cinco minutos. Nesse espaço de tempo a fila de gente para tomar passes se formou e os palpites sobre que caboclo era aquele começaram. A lista de possibilidades era enorme: Seu Tupiara, Seu Tupaíba, Seu Aimoré, Caboclo Roxo, Seu Sete Flechas, Seu Cachoeirinha, Seu Tupinambá, Caboclo Lírio, Seu Junco Verde, Seu Rompe Mato, Seu Peri, Caboclo Sultão das Matas, Seu Mata Virgem, Seu Sete Pedreiras... Houve quem apostasse até num boiadeiro, apesar da pinta de bugre com que a entidade se apresentou.
O Nilson, cumprindo com a maior seriedade as funções de cambono, aproximou-se do índio e fez a clássica pergunta:
- Qual é a sua graça, meu pai? O senhor quer dizer o seu nome aos filhos de Zâmbi? Quer riscar seu ponto com a pemba de fé?
O caboclo murmurou alguma coisa incompreensível. O Nilson se aproximou e o índio cochichou algo ao cambono, que anunciou ao povo:
- Ele disse que se chama Seu Cacique de Ramos.
Meu avô retrucou na lata, com a habitual elegância da gente de Guararapes:
- Seu Cacique de Ramos? Não fode que isso nunca foi caboclo nem aqui nem na casa do caralho.
Na mesma hora o índio se ofendeu, deu um berro enfurecido, começou rodopiar feito doido e deu flechadas imaginárias em todo mundo, com cara de puto dentro da tanga. Alguém sugeriu cantar um ponto pra acalmar a entidade. Mas qual? Uma voz desconhecida mandou de prima:
- Sim, é o Seu Cacique de Ramos/ Planta onde em todos os ramos/ Cantam os passarinhos da manhã... O caboclo gostou e ficou mansinho.
Dona Alcione, nessa altura do campeonato, só queria que o índio fosse oló para retomar os planos do carnaval em Araruama. O bugre, então, pediu silêncio e anunciou:
- Caboclo só vai deixar cavalo na quarta-feira de cinzas. Num sobe antes, que caboclo vai salvar seus filho de Aruanda na fé de Zâmbi. Caboclo veio traze axé de pemba no carnaval.
- Não faz isso, meu pai. Seu cavalo tem que viajar. Retrucou o cambono.
Seu Cacique de Ramos não quis conversa. Armou uma beiçola enfurecida, enrugou a testa, cruzou os braços e balançou a cabeça em forma de negação. E arrematou:
- Mulé de cavalo vai, que caboclo não quer ver mulé triste. Caboclo fica com cambono nas encruzas. Caboclo vai fazê trabalho forte, vai riscá ponto em mil e duzentas esquinas e depois vai embora. Ordem de Zâmbi. E caboclo quer cocar e tanga!
Dona Alcione fez de tudo para demover a entidade. Chorou, ameaçou se separar do cavalo, duvidou da mediunidade do marido, se arrependeu da dúvida, pediu desculpas ao Seu Cacique, acabou tomando passe e o escambau. Ficou até comovida quando a entidade disse algo como meu cavalo ama muito mizifia e acabou partindo para Araruama com a trupe.
Do jeito que Seu Cacique veio, ficou. Ficou e cumpriu a promessa: durante os dias de carnaval trabalhou duro, percorreu mil e duzentas esquinas com a pemba de fé - de cocar e tanga em vermelho, preto e branco - bebeu marafo e cerveja na cuia da jurema, comeu feijoada para louvar Seu Ogum Beira Mar, fumou charuto e bateu o recorde de passes nas filhas de pemba em toda a história da Aruanda. Foi oló na quarta feira de cinzas, depois de cumprir com êxito sua missão de paz na terra.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

BAR LUIZ: CRÔNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA.

Em 2006 escrevi um trecho afirmando que a cidade do Rio de Janeiro acabaria perdendo o Bar Luiz, fundado em 1887, na rua da Carioca, que dava evidentes sinais de decadência e patinava na administração. Agora soube que o estabelecimento será administrado pela rede que comanda o Belmonte, especializada (a expressão não é minha) em repaginar os botequins e restaurantes cariocas. Continua a nossa sina de cidade nos tempos do desencantamento do mundo; em que os botequins são reformulados por programadores visuais, a rua colonial é asfaltada, o velho sobrado é vendido para a imobiliária, a camisa do time de futebol ganha novo desenho para valorizar a marca do patrocinador, a panificadora vira butique de pães, o açougue vira butique de carnes, a pequena livraria é engolida pela megastore, o cinema de rua vira igreja, o barbeiro da esquina fica obsoleto, a quitanda é engolida por redes de hortifrutis, e o lambe-lambe some da pracinha. Em breve , do jeito que a coisa anda, a pracinha sumirá também. Somos os sacralizadores do carro e os profanadores do Rio. O Carioca morre.
O perverso de tudo isso é que se bobear, anotem, a nova fase do Bar Luiz - instituição carioca com quase 130 anos que dava sinais há tempos de que iria para as cucuias - será anunciada com um baile em que todos estarão a caráter, com roupas do Rio antigo e o escambau. É a tradição não mais como legado que se transmite e renova, mas como a alma do negócio (rompa-se a tradição com o aval dela mesma, em suma). O Bar Luiz continuará recebendo dezenas de amestrados frequentadores em busca de um simulacro do Rio antigo, encherá as burras e é isso que interessa.
Diante dessa notícia, não me comovem os antigos administradores, que devem ter recebido uma grana alta e vinham esculhambando o bar. Só me resta mesmo pensar no cliente tradicional; aquele que, como escrevi certa feita, no fim de tarde cumpria, numa mesa de canto, diante de um chope gelado, um ritual dos tempos do avô de seu avô.
Mas isso é cultura, não enche o caixa do bar ou os cofres das redes, franquias e similares. Em breve ninguém falará mais do caso e plantarão duas ou três notinhas nos jornais elogiando o novo empreendimento. Que o velho frequentador bote a viola no saco, se acostume com um bar repaginado ou procure outro canto para cumprir os rituais cotidianos dos homens comuns.
Eu esperarei por ele, com uma cerveja gelada, um samba no peito e ao lado dos meus camaradas, em algum botequim de esquina, daqueles bem vagabundos, para celebrar nossos avós, chorar um pouco e recriar a vida.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

CRIANÇAS TRISTES EM RUAS MORTAS


Ultimamente ando matutando nos remansos sobre como a loucura do nosso tempo de indelicadezas maltrata as crianças. Estranho tempo em que a “adultização” das crianças anda ao lado da infantilização dos adultos. E tome de tranquilizantes e sedativos.

Tempo em que estamos (adultos e crianças) um passo além da sociedade de consumo. Já mergulhamos de cabeça, afinal, na sociedade do desejo do consumo, aquele que se esgota quando algo é consumido (o carro, o celular de última geração, o brinquedo eletrônico, o corpo do outro, o próprio corpo...) e outro objeto (coisas e pessoas coisificadas) é imediatamente desejado. Um ciclo de frustração, euforia e morte.

Tempo em que a agonia da rua como lugar de encontro – derrotada pela rua vista como ponto de passagem e circulação de bens– redefine até os padrões das amizades infantis. Sem a rua para brincar, as crianças acabam construindo amizades circunscritas ao ambiente das famílias, creches e escolas.

A limitação das amizades de escola é a seguinte: os alunos de uma mesma turma são submetidos ao mesmo padrão de aprendizagem. A escola ocidental, fundamentada no ensino seriado e na fragmentação de conteúdos, é normativa sempre e padroniza comportamentos mesmo quando adota linhas alternativas. O alternativo aí, afinal, vira padrão para o grupo. E a diferença? A rua poderia resolver isso.

Se a escola normatiza, a rua deveria ser o ponto de encontro capaz de permitir o convívio entre os diferentes, desestabilizando o padrão. Em tempos menos afoitos, cada criança trazia as bagagens de experiências distintas, na casa e na escola, que eram trocadas na rua de forma lúdica e docemente descompromissada, em um processo enriquecedor, a partir do ato de brincar.  Mas isso simplesmente não é possível nesse padrão de cidade desencantada que nos engole sem piedade.

Para brincar, afinal, há que se ter disponibilidade de tempo e espaço e há que se ter a escassez que permite a invenção. As crianças de hoje não têm nada disso; atoladas em múltiplas atividades, reféns do consumo do objeto vendido pronto, e confinadas entre muros concretos e/ou imaginários; erguidos de cimentos e medos.

A cidade que deveria proporcionar a circulação de saberes é cada vez mais a cidade que proporciona só a circulação de mercadorias e monstros sobre rodas (estranha sociedade a nossa, que sacraliza o carro e profana o rio). Nela, a rua como espaço de interação social entre crianças está morrendo. Eu fiz nas ruas grandes amigos; meu filho provavelmente não os fará.

O fenômeno, ao menos no Rio de Janeiro, minha circunstância, não é restrito a setores da classe média. Alguns fatores - como a gentrificação que envolve os grandes eventos; as remoções que desarticulam vivências; o trânsito caótico; a normatização estabelecida, com nuances, por milícias, igrejas neo-pentecostais, tráficos e upps - alteraram profundamente a dinâmica das brincadeiras de rua nas favelas e na hinterlândia carioca.


A cidade em que a criança não brinca é o sanatório dos adultos. A cidade em que os adultos só trabalham é um presídio de crianças. E poucos parecem considerar essa questão como de fato ela é: urgente e necessária; antes que às crianças restem apenas aplicativos de última geração, presenteados por pais ausentes, que rodem o pião que não tem mais chão e empinem a pipa que não tem mais céu.

domingo, 5 de outubro de 2014

ROCINANTE DE PEDAIS


(Texto publicado no jornal O Dia, edição de 05/10/2014)

Dia desses acordei com a disposição de escrever uma daquelas confissões que só cogitava fazer depois de morto, diretamente do beleléu, usando como aparelho um médium de mesa espírita. Admito que a coisa seja impactante: tenho particulares saudades do período do milagre econômico brasileiro, na década de 1970.

 Antes que me acusem de conivência com as barbaridades do regime militar (eu era um moleque que ainda tomava mamadeiras enquanto o pau quebrava), esclareço a razão de minha afetuosa relação com aqueles tempos. Graças ao milagre a minha família teve condições de presentear-me com o meu primeiro e inesquecível veículo: um velotrol de última geração. E o primeiro velotrol, é claro, ninguém esquece.

 Foi com ele, o meu valente Rocinante de pedais, que sonhei atravessar a ponte Rio-Niterói. Nem a pororoca amazônica mostrada no programa do Amaral Neto seria páreo para meu possante vermelho com encosto móvel. Para completar o quadro, ganhei de aniversário imensos óculos escuros iguais aos do Emerson Fittipaldi, um capacete com meu nome e um macacão verde e amarelo de piloto.

 O velotrol estava presente, inclusive, em meus devaneios sentimentais. Era com ele que eu pretendia fugir com minha primeira paixão - a mocinha do Tivoli Parque que se transformava na Konga, a mulher gorila. Quando a mocinha, vestida com um sensual maiô cheio de lantejoulas douradas, fechava os olhos para virar a macaca, meu bilau de menino ensaiava um crescimento similar ao dos índices da economia brasileira. Imaginei um dia colocá-la na garupa do velotrol e me empirulitar pela Transamazônica, para que ela só virasse a Konga para mim e mais ninguém.

 Entre os sonhos românticos com a Konga e a vida de piloto de velocidade, a minha infância corria feliz. João Nogueira louvava o mar das duzentas milhas, Zé Ketti fazia samba para o Mobral, Jorge Ben louvava o país abençoado por Deus, Benito di Paula mostrava ao Charlie Browm as maravilhas da Bahia de Caetano e a Beija Flor desfilava com um samba de exaltação aos milicos.

 Sem desconfiar que o país vivesse anos de chumbo, delirando a vida feliz sem conceber a dor dos porões, eu acreditava mesmo que ninguém segura a juventude do Brasil, ainda mais a bordo de um velotrol mais rápido que o Concorde.

 Noves fora os delírios do menino que fui, hoje é dia de eleição e meu filho ganhou recentemente o primeiro velotrol dele. E que bom saber que, ao contrário do pai, o moleque poderá inventar um mundo encantado em tempos de democracia.

 Bons votos.