segunda-feira, 11 de maio de 2015

O DESENCANTO EM CAMPO

Acho que o hino de time de futebol mais bonito da cidade do Rio de Janeiro é o do São Cristovão, composto pelo Lamartine Babo (o mais bonito do mundo é o do Canto do Rio, de Niterói, também obra do Lalá). O hino do São Cri-Cri cita Dom Pedro II, louva a Zona Norte e o escambau.
Confesso, todavia, que escutar o hino do São Cristovão hoje em dia me causa uma melancolia danada em relação ao Rio de Janeiro. A sensação que tenho é a de que a cidade se desencantou. Pode estar melhor ou pior do que era; cada um que tire sua conclusão; o que me parece inquestionável é que ela está desencantada.
(Texto publicado no jornal O Dia, edição de 10/05/2015)

Os clubes de futebol de bairro - como o São Cristovão, Olaria, Bonsucesso, Portuguesa, Bangu, Campo Grande e Madureira - têm uma trajetória muito similar a das escolas de samba. Mais do que times de futebol, eles representavam espaços em que as comunidades dos bairros conviviam, expressavam anseios, festejavam e se integravam em espaços muitas vezes esquecidos pelo poder público. Não tinham a intenção prioritária de conquistar títulos; a vitória maior era simplesmente existir e proporcionar o encontro.
Os desfiles de carnaval chegaram ao ponto em que as alegorias e fantasias se transformam em parafernálias e o componente virou garoto-propaganda do patrocinador; além de coadjuvante do delírio visual de alguns carnavalescos. O futebol se transformou em negócio milionário, controlado por empresários, holdings, etc.
A identificação entre jogador e clube desapareceu e a paixão perdeu espaço para as estratégias de mercado. Os clubes que não apresentam potencial de retorno financeiro e capacidade de projeção na mídia (já que não possuem torcedores, ou melhor, clientes numerosos) correm o risco de acabar ou, quando muito, penar em campeonatos de divisões intermediárias.
 Para quem acha que falo apenas de futebol, aviso que o buraco é mais embaixo: é a vida de bairro que agoniza. Vivemos tempos estranhos, em que é mais fácil o sujeito saber o que está acontecendo em Londres do que descobrir o que ocorre na esquina, na feira, no bairro, no botequim, no açougue e no clube da localidade.
A míngua dos pequenos clubes, como o São Cristovão do lindo hino, é a perda de um modelo civilizatório mais humano, afável, destinado ao festejo e ao compartilhamento da alegria e da dor. Na cidade desencantada, agoniza o cotidiano dividido com o jornaleiro, a rezadeira, o barbeiro, a feirante, o portuga da birosca, o amolador de facas e o velho torcedor; aquele que frequenta sempre, até que morra ele ou o clube, o mesmo lugar na arquibancada.


domingo, 26 de abril de 2015

FRAGMENTOS DO MENINO

(Texto publicado no jornal O Dia, de 26/04/2015)

Sou daqueles que acham que somos moldados pelos espantos da infância. Trago comigo aqueles impactos que o menino sentiu e reverberam hoje nas implicâncias, delírios, gostos, temores, afetos e dissabores do adulto.

Lembro-me, por exemplo, que nos jogos de futebol eu era daqueles que acreditavam na resposta do balão. Não havia grandes jogos, com o Maraca entupido de gente, em que as torcidas não soltassem balões antes da peleja. Todo torcedor sabia que se o balão passasse da marquise a vitória seria certa. Se o balão lambesse antes de ganhar os céus, a má sorte estava mais que firmada.  O teste do balão era infalível e causava euforia e pânico em quem estava no estádio.  

Fui também um menino impressionado com a estátua do Cristo do Porto das Caixas, que sangrava e realizava prodígios fabulosos. Íamos em família, numa espécie de romaria farofeira que cruzava a Niterói-Manilha, reverenciar a imagem. As dezenas de cabeças, braços e pernas de cera, depositadas numa sala em louvor às graças alcançadas, causavam-me uma mistura de fascínio e temor. Ainda hoje a profusão dos ex-votos me espanta e a tapioca vendida numa barraquinha na entrada da igreja é insuperável.

O Cristo de Porto das Caixas convivia muito bem com as excursões que a umbanda da minha avó realizava a uma cachoeira em Japeri, perto da estação de trens onde o bando do Tião Medonho assaltou o trem pagador. Foi numa curimba na cachoeira que o caboclo Sete Flechas, com autoridade e cocar assombroso, me deu um esporro, entre baforadas de charuto, porque coloquei purgante no café de uma vizinha fofoqueira.

Fui ainda um menino apaixonado pela moça que virava a Konga, a mulher-gorila do parque de diversões. Ela é ainda hoje a minha referência dramática. Nenhuma atriz causou-me mais impacto que aquela moça de maiô cheio de lantejoulas que fechava os olhos e transformava-se em macaca feroz. O bilau do menino crescia enquanto a fera urrava.

Da infância trago, portanto, esse mosaico dos alumbramentos que me acompanham: o tibum na piscina Tone; a consistência do Calcigenol; o medo de encontrar o sujeito da propaganda gritando que ninguém segura o Kalil M. Gebara; a palma da mão cortada pela linha com cerol; o gol de bicicleta na pelada; o primeiro desfile de escola de samba; o primeiro baião que escutei na voz de Luiz Gonzaga; a epifania com um LP do Cartola.

A mesma infância, enfim, que ainda me faz buscar nos céus um balão japonês que vá além das marquises, anunciando as novidades da sorte em um Maracanã que já não há.


terça-feira, 21 de abril de 2015

UMA HISTÓRIA DA PRAÇA TIRADENTES

O Brasil é um oxímoro em forma de país: um português proclamou a independência; um monarquista proclamou a República; a revolução contra as oligarquias em 1930 foi feita pelas próprias oligarquias; o presidente da redemocratização em 1985, Zé Sarney, foi homem dos milicos; o Oeste Novo Paulista não fica no Oeste de São Paulo; a terra roxa nunca foi roxa; um beato asceta e reacionário, que esperava a volta de um rei morto mais de trezentos anos antes para anunciar o fim do mundo, virou ícone da esquerda revolucionária e uma espécie de Lênin do sertão. 

 Não bastasse isso,  na Praça Tiradentes - aqui no Rio - a estátua é a de D. Pedro I; fato mais inusitado ainda quando lembramos que foi a avó do primeiro Pedro, Dona Maria, a Louca, que mandou matar o alferes Joaquim José da Silva Xavier. É mole?

Para esse último fato, ao menos, cabe explicação. Acontece que a figura do alferes praticamente desaparece da memória histórica brasileira após sua execução, pertinho da atual praça Tiradentes. 

Tiradentes era republicano e conspirou contra os Bragança - família de Dona Maria, Dom João VI e dos dois Pedros que governaram o Brasil. Enquanto fomos monarquia e tivemos Bragança no poder, necas de pitibiribas de homenagear o enforcado. Quando muito, era mencionado como vil traidor ou como homem de caráter fraco, incapaz de liderar qualquer movimento mais articulado contra a ordem estabelecida.

Quando a República foi proclamada, cem anos depois da Inconfidência Mineira, os novos donos da cocada preta resolveram escolher um herói nacional representativo do novo regime. Houve polêmica entre dois candidatos - Tiradentes e Frei Caneca, o líder da Confederação do Equador de 1824. O barbudo levou a melhor. Quem quiser saber mais disso pode catar o Formação das Almas, livro do Zé Murilo de Carvalho sobre esses babados.

Disse barbudo, mas faço a emenda. Tiradentes nunca teve um visual daquele - barba à Antônio Conselheiro e cabelo à Bufalo Bill. O pintor Décio Villares, por exemplo, que recebeu a encomenda de retratar o herói nacional republicano, não tinha referência nenhuma sobre como seria o alferes quando foi executado. Ninguém tinha, aliás. Villares não teve dúvidas - pintou Jesus Cristo e substituiu a cruz pela forca; como a comparar o sacrifício do Filho do Homem pela humanidade ao sacrifício de Tiradentes pela República e pelo Brasil.

Assim como fez Villares, Pedro Américo, Eduardo Sá, João Turin e Virgílio Cestari pintaram ou esculpiram o alferes com ares cristãos. Sabemos, porém, que à época os condenados tinham cabelos e barbas raspados. Tiradentes foi enforcado carequinha da Silva.

Voltemos ao tema central, até porque não sou a pessoa mais indicada para falar de assuntos capilares. Quando os republicanos resolveram fazer de Tiradentes o herói nacional, a praça mais próxima do local da execução do alferes - o velho Largo do Rocio, perto do Campo da Lampadosa - recebeu a denominação do herói. Havia, porém, um probleminha. A estátua de D. Pedro I já estava ali desde 1862, num marco em louvor ao Grito do Ipiranga.

A coisa ganhou contornos de provocação entre republicanos e monarquistas. Nesse Fla X Flu pelo controle da memória nacional, os primeiros insistiam em derrubar a estátua equestre do Imperador; os outros ameaçavam fazer um furdunço memorável se a demolição ocorresse. Após muita polêmica, chegou-se a uma solução brasileiríssima: a estátua de D. Pedro I foi mantida e a praça passou mesmo a se chamar Tiradentes.

Agora, experimentem explicar a um turista por que a praça que homenageia o mártir da independência tem uma estátua do neto da velha que mandou executar o herói. Sou capaz mesmo de apostar que, numa pesquisa com cem cariocas que cruzem a praça em uma tarde, a maioria vai dizer que a estátua é a de Tiradentes.

Quanto a este que vos digita, confesso: a referência emocional (infantil, portanto, que é quando essas coisas se consolidam no cabra) que tenho de Tiradentes é a de Francisco Cuoco representando o mártir na novela Saramandaia. Da Inconfidência Mineira, levo uma lição que tento praticar com sagrada obediência - após um dia intenso de trabalho nos trópicos, há que se tomar civilizadamente umas cervejas geladas quando o sol se põe. É a manjada liberdade, ainda que à tardinha.

domingo, 19 de abril de 2015

A VOZ DO BANGU


(Texto publicado no jornal O Dia, de 19/04/2015)

Na última sexta-feira, dia 17 de abril, o Bangu Atlético Clube, o alvirrubro da Zona Oeste, completou 111 anos de serviços prestados ao futebol e ao Rio de Janeiro. Sou daqueles que acham que o bairro de Bangu está para o futebol brasileiro como certa estrebaria de Belém para os cristãos; tudo começou ali. Há referências de que partidas de futebol já eram disputadas em Bangu desde 1894, de forma pioneira no Brasil.
Das inúmeras histórias – épicas, trágicas, engraçadas ou comoventes – que marcam o Bangu, uma das minhas prediletas envolve o empresário zoológico Castor de Andrade, que durante muito tempo bancou o time pelo qual era apaixonado.
Conto o milagre, mas não dou o nome do santo. O sujeito era juiz de futebol e apitava um Bangu e Goytacaz em Moça Bonita. Estádio vazio, final de tarde em uma quarta-feira de sol, a charanga tocando "Maria Sapatão"; tudo nos conformes no Proletário Guilherme da Silveira. O Bangu ganha por um gol e o jogo está perto de acabar. Gilmar, goleiro banguense, enseba na hora de bater um tiro de meta. O árbitro ordena da intermediária:
- Vamos, Gilmar. Não complica. Repõe essa merda.
Diante da demora, Sua Senhoria levanta o amarelo e corre de peito estufado, cartão em riste e cabeleira ao vento, em direção ao goleiro. Nisso ressoa assombrosa, berrada e certeira, a voz do Doutor Castor de Andrade, que assistia ao jogo à beira do campo, na agradável companhia de dois capangas trepados:
- Cartão pra ele não. Ele tem dois e vai ser suspenso, porra. Domingo é contra o Fluminense. Ele não.
O árbitro escuta a voz de dublador de Deus no filme Os Dez Mandamentos (aquele do Cecil B. DeMille) e muda, com destreza, o curso da corrida, partindo em direção ao zagueiro. Não deu certo:
- Esse também não pode! Tem dois.
E Sua Senhoria passa a girar feito caboclo de umbanda em cavalo novo, com o cartão na mão, até parar na frente do lateral esquerdo. Doutor Castor manda de prima:
- Esse pode. Amarela ele, que além de tudo não joga nada.
E assim foi feito. Cartão para o lateral, que entrou nessa de gaiato, como Pilatos no credo e fruta no cardápio do Comida Di Buteco. Aguardava-se apenas a súmula do juiz rodante para saber a razão da advertência.

Precavido, e com grande talento literário, o árbitro não teve dúvidas e escreveu cheio das convicções: “Aos 88 minutos de jogo fui acometido de grave crise de labirintite e comecei a rodar em campo. Ofendido pelo atleta de camisa número 6 do Bangu, que zombou do meu súbito problema de saúde, apliquei a regra e dei ao referido jogador, assim que me recuperei, o cartão amarelo”.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

A ECOLOGIA DAS BRINCADEIRAS DE RUA - BOTÃO E PREGUINHO


Façam uma pesquisa com a seguinte pergunta: quem foi o maior inventor brasileiro? A esmagadora maioria vai, provavelmente, cravar na bucha o bom e velho Santos Dumont. Eu não, até porque continuo a não acreditar que um avião seja de fato capaz de voar.

O maior inventor brasileiro de todos os tempos é Geraldo Décourt - o mítico pai do futebol de botão.

Dizem que Décourt desenvolveu o jogo, no final da década de 1920, arrancando botões de cuecas [cueca naquele tempo tinha botão, vejam só] e de uniformes escolares. Chamou o troço de Celotex, um material usado para fazer as primeiras mesas, e mandou ver.

Registro que há os que negam a paternidade de Décourt e afirmam  que o jogo foi inventado por D. Pedro I, nos tempos do Império. O primeiro time foi feito, nessa versão, com os botões de um vestido da Marquesa de Santos. Outros vão mais longe e afirmam que os índios temiminós, liderados por Araribóia,  disputaram a primeira partida da história, com botões feitos com ossos de tupinambás, os seus inimigos. A  polêmica é natural, em se tratando de um esporte que seduziu multidões.

Sempre achei o futebol de botão o mais democrático dos esportes mundiais, seguido pelo cuspe a distância e pela purrinha. Já se fez botão de tudo quanto foi jeito no Brasil - osso, tampa de relógio, paletó, plástico, galalite, coco e outros babados. Lembro bem do caso de um vizinho que arrancou os botões do paletó do avô durante o velório, ao perceber que o velho ia ser enterrado com um material de excelente qualidade para o futebol de mesa. A frase do capeta na hora de surrupiar os botões do velho foi inesquecível:

- Aquele segundo botão, que tem um buraco parecido com um bigode, é o Rivelino. Não vou deixar enterrarem o Riva.

Qualquer lugar era válido para a disputa. Jogava botão, quando era moleque, no chão da casa, na mesa da cozinha e, evidentemente, no Estrelão, a mesa sem cavalete que a Estrela produziu. Goleiros? Chumbinho, caixa de fósforos grande, o famoso Olhão, pedaço de madeira, plástico. Até dentadura de avó eu vi defendendo o gol em partidas improvisadas.

Quando falo em jogar botão, não me refiro ao futebol de mesa - cheio de regras e salamaleques pré-estabelecidos. Botão tem que ser misturado, a bola pode ser até - na falta de coisa melhor - de meleca dura (cansei de fazer bolinhas de meleca quando era moleque) e as regras são decididas na hora. Botão é feito a pelada de rua e ponto.

Outro jogo absolutamente democrático era o pregobol, mais conhecido como preguinho. Esfolava-se o dedo de forma retumbante ao meter os petelecos na moeda que, entre pregos, deveria entrar no gol - e aí era só cantar o que bonito é a torcida delirando.

Essas rápidas recordações, na verdade, me ocorreram por conta de um detalhe. Os garotos de hoje, com raríssimas exceções, não jogam mais preguinho e botão. Na minha adolescência jogar botão era tão natural quanto, para ficar no exemplo básico, descabelar o palhaço. Todo mundo tinha seu time.

Desconfio que a culpa pela agonia do botão e do preguinho entre os moleques é desses jogos eletrônicos malucos que reproduzem com certa fidelidade partidas de futebol. Os garotos ficam agora fazendo tabelinha virtual em computadores e televisões e, seduzidos pela parafernália desses trecos, abandonam as coisas mais simples, que exigem mais talento, têm maior poder de sociabilização, são muito mais divertidas e inventivas.

Defendo, como humanista que sou, os animais em extinção, como o urso panda, o sagui-da-serra, a ararinha azul, o mono-carvoeiro, o macaco-prego, o mico leão, o cachorro do mato de orelha curta, a onça parda, o gato do mato, o tamanduá bandeira e a baleia jubarte. Não posso esquecer de citar os reis momos balofos, a pomada Minâncora, as mulatas do Sargentelli e o Bafo da Onça, em cujas causas pela preservação sempre me engajei.

Lanço aqui, por tudo isso, outra campanha preservacionista: abaixo os jogos virtuais e viva o futebol de botão e o preguinho. É urgente, Brasil!

Abraços

terça-feira, 14 de abril de 2015

O MAIOR CLÁSSICO DA AMÉRICA LATINA

Nos tempos  em que Collor de Melo foi presidente do Brasil, no inicio da década de 1990, eu era um esforçado e incompetente aluno da Aliança Francesa, incapaz de exercitar o biquinho necessário para falar a língua de Napoleão Bonaparte, da Madame Pompadour, do queijo Roquefort e do Gerard, meu professor francês que fedia bem mais que o queijo. Minha turma contava com a presença de uma argentina, Beatriz,  que era excelente aluna. Nunca mais vi a moça depois que me escafedi da Aliança.

Com ela, a argentininha, fiz uma aposta inusitada: ganharía um jantar quem tivesse o presidente da República mais estrambólico. Eu me sentia um vitorioso evidente, já que é difícil pensar em alguém capaz de superar Collor nesse quesito. Ela  apostava todas as fichas no mandatário argentino Carlos Menem, o Kid Costeleta. O embate, tenho que admitir,  foi marcado pelo equilíbrio entre os oponentes.

Do lado de cá da fronteira Collor de Mello estava com a macaca. Andava de jet-sky, rompia a barreira do som duas vezes por semana pilotando aviões de caça, dirigia Ferraris a 250 quilômetros por hora, jogava futebol com a seleção brasileira, se metia em safaris na Amazônia, mergulhava de escafandro em Fernando de Noronha e dava entrevistas coletivas durante corridas matinais.

Não satisfeito com as fanfarronices mencionadas no parágrafo acima, o intrépido presidente dançava com índios do Xingu e lutava karatê com câmeras de televisão. Ainda promovia toda semana a cerimônia de subida da rampa do Planalto - um hábito criado nos tempos de JK e abandonado desde que no primeiro governo militar uma rapaziada ameaçara atacar o Marechal Castelo Branco com uma chuva de hortifrutigranjeiros.


O presidente, ao lado da primeira dama Rosane Collor - irmã do famoso Joãozinho Malta, mais conhecido como Búfalo Malta, um sujeito com cento e tantos quilos que se envolvia semanalmente em tiroteios e cenas de pugilato - inovou ao convidar personalidades de diversas áreas para participar da subida da rampa. Quero crer que isso deu início a uma espécie de maldição. Quem subiu a rampa com Collor morreu algum tempo depois.

A lista dos que subiram a rampa com o casal Collor de Mello e foram comer o capim pela raiz inclui Zacarias, Mussum, Ayrton Senna, os cantores sertanejos Leandro e João Paulo e o apresentador de televisão Edson Bolinha Cury. 

É difícil escolher o momento mais constrangedor da gestão Collor. Suponho que tenha sido o dia em que o presidente chegou ao Palácio do Planalto ao lado de duplas sertanejas, índios e atores infantis, enquanto a banda marcial dos Dragões da Independência tocava, durante o hasteamento da bandeira nacional, a canção Pense em mim. A primeira dama, uma espécie de Maria Padilha do sertão, cantava emocionada o clássico daqueles anos, ideal mesmo para substituir o hino nacional em cerimônias oficiais: Invés de você viver pensando nele / Invés de você viver chorando por ele...

Enquanto eu contava vantagem sobre o ridículo que caracterizava Collor, minha amiga propagava os feitos menemistas. O argentino pintou as costeletas de acaju, jogou basquete com uma faixa na cabeça [ele mede um metro e meio e ficaria melhor como goleiro de futebol de botão] , andou em carrinhos de bate-bate com menores carentes em parques de diversões, tentou seduzir a apresentadora Xuxa na Casa Rosada e levou uma poodle como acompanhante numa cerimônia oficial. Participou também de um programa de televisão em que desceu de escorrega numa piscina de piche e, em seguida, mergulhou num barril cheio de penas de galinha e cacarejou balançando os braços para o  público.


Menem chegou a dar uma histórica entrevista ao apresentador brasileiro Gugu Liberato, na qual aprendeu os passos da "dança do passarinho". Collor também compareceu ao Show do Gugu e cantou Galopeira com Donizet, um astro juvenil da música sertaneja que se apresentava fantasiado de caubói. O rapaz dava um agudo que durava cinco minutos:galopeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeira... Collor tentou acompanhá-lo e quase terminou num balão de oxigênio.

Não houve vencedor na aposta que fizemos. Era impossível escolher o pascácio-mor. Até mesmo em termos de rapinagem Collor e Menem empataram. Ambos os governos começaram nas colunas políticas dos jornais, passaram pelos cadernos de fofoca e terminaram nas páginas policiais.


segunda-feira, 13 de abril de 2015

O COMIDA DI BUTECO E O CARIOQUINHA DE 2015

Volto ao tema, a pedidos. Respeito quem participa do Comida Di Buteco porque acha que a vida não está mole; é um mês para ganhar uma boa grana, gerar empregos, consolidar a marca, etc. Respeito, mas não gosto e acho que os próprios participantes devem escutar e propagandear os elogios, é claro, mas também ouvir as críticas. O cri-cri normalmente é mais sincero que o puxa-saco e ajuda mais neste sentido. 
Não gosto do concurso pelas razões que também me levam a não gostar do Maracanã reformado, elitizado e sem geral. Não gosto porque botequim não é só comida, assim como o futebol não é só o que ocorre dentro de campo. Como escrevi certa feita, o botequim é o país onde não há grifes, não há o corpo-máquina, o corpo em si mesmo, a vitrine, o mercado pairando como um deus a exigir que se cumpram seus rituais.
O meu boteco é a casa do mau gosto, do disforme, do arroto, da barriga indecente, da grosseria, do afeto, da gentileza, da proximidade, do debate, da exposição das fraquezas, da dor de corno, da festa do novo amor, da comemoração do gol, do exercício, enfim, de uma forma de cidadania muito peculiar. É a República de fato dos homens e mulheres comuns, como eu sou e como eram os avós que me criaram e me levaram pela primeira vez a uma birosca.
É nessa perspectiva que vejo a luta pela preservação dinâmica da cultura do boteco como algo com uma dimensão muito mais ampla do que o simples exercício de combate aos bares bem transados que, como praga, pululam pela cidade e se espalham como metástase urbana, enquanto verdadeiros monumentos cariocas, como o restaurante 28, agonizam e morrem sem choro nem vela.
Ainda citando um velho texto que escrevi, ali, no velho boteco, entre garrafas vazias, chinelos de dedo, copos americanos, pratos feitos e petiscos gordurosos, no mar de barrigas indecentes, onde São Jorge é o protetor e mercado é só a feira da esquina, a vida resiste aos desmandos da uniformização e somos restituídos ao que há de mais valente e humano na nossa trajetória - a capacidade de sonhar delírios, festejar e afogar as dores nas ampolas geladas feito cu de foca.
Esse combate, amigos, é muito mais significativo do que imaginam os arautos modernosos e seus programadores visuais. Este festival, cheio de mídia, grife, patrocinadores, caravanas, semântica afrescalhada, etc, para usar o termo da moda, se insere em um processo mais amplo de gentrificação da cidade. Sobem os preços, sofisticam ingredientes, excluem pela semântica requintada os que não dominam seus códigos e afastam dos botecos aqueles que cotidianamente buscam ali as suas maneiras de suportar a vida.
O conceito de gentrificação é controverso e pode render boas conversas em botequins e universidades. Eu costumo mesmo usá-lo no sentido dado ao termo pelos estudos pioneiros de Ruth Glass e Neil Smith; aquele que, grosso modo, designa um processo de aburguesamento de espaços nas grandes metrópoles e gera o afastamento das camadas populares do local modificado. O espaço gentrificado passa a ser gerido prioritariamente pelos interesses do mercado financeiro, do grande capital e quejandos. Este processo de submissão ao capital é, em geral, acompanhado por discursos legitimadores que vão desde o "tratamento ecologicamente correto" até o da "gestão financeira responsável".
Exemplifico, para chegar aos botequins: não acho que o futebol seja um espetáculo, uma brincadeira, um jogo ou uma guerra; ele pode ser tudo isso e muito mais. Futebol no Brasil é cultura, pois consolidou-se como um campo de elaboração de símbolos, projeções de vida, construção de laços de coesão social, afirmação identitária e tensão criadora, com todos os aspectos positivos e negativos implicados neste processo. Nossas maneiras de jogar bola e assistir aos jogos dizem muito sobre as contradições, violências, alegrias, tragédias, festas e dores que nos constituíram. A cultura de botequim é a mesma coisa.
O processo de morte do futebol e do botequim como cultura reduz o jogo e a ida ao bar aos patamares de meros eventos; para delírio das caravanas. Destroça, inclusive, o vocabulário, que perde as características peculiares do boleiro e do bebum (o correto agora é chamar de "butequeiro") e se adequa ao padrão aparentemente neutro do jargão empresarial. O craque se tranforma em "jogador diferenciado", o reserva é a "peça de reposição", o passe vira "assistência", o campo é a "arena multiuso" e o torcedor é o "espectador". Ir ao bar virou "butecar" e agora temos "lascas", "reduções", "camas de rúcula", "confit", "toques cítricos" e outros salamaleques semânticos, que os velhos frequentadores de biroscas jamais saberão do que se trata; já que isso não é feito para eles.
Boa sorte aos participantes; boas tardes e noites aos butequeiros em suas incursões gastronômicas e etílicas. Peço aos envolvidos apenas que fujam do discurso fácil de achar que quem está contra o modelo do festival não quer que os donos de bares prosperem. O papo aqui é uma defesa da economia da cultura - que deveria considerar botequins como patrimônios cariocas efetivos - contra a cultura da economia - aquela que mensura as coisas prioritariamente pelo retorno financeiro que elas podem proporcionar. Eu fico na minha, desconfiado de que tem gato na tuba. Botequim e futebol - eventos da cultura carioca - estão sendo resumidos à lógica da cultura do evento.
Enche os bolsos, mas esvazia tanta coisa...