domingo, 22 de maio de 2016

A PELEJA DE CLEMENTINA DE JESUS CONTRA O SAMBA DESMACUMBADO

O canto maior e ancestral de Clementina de Jesus sugere reflexões sobre o processo de "desafricanização" e "desmacumbização" que o samba sofreu ao longo de sua história. Ao ser expropriado de seus criadores, a partir da década de 1930, pela indústria fonográfica e pelo estado brasileiro, e domesticado para virar uma música acessível ao gosto dos consumidores de disco e para virar símbolo da identidade nacional, o samba foi perdendo a ligação explícita que tinha com os batuques centro-africanos e com a macumba carioca. O samba deixou de ser macumba - e ele era - para continuar sendo samba. 
 A antropóloga norte-americana Ruth Landes conta que em 1939, ao chegar ao Brasil para fazer a pesquisa que resultou no clássico A cidade das mulheres, ouviu o seguinte de um ministro da ditadura do Estado Novo: "Devo lhe dizer que o nosso atraso político, que tornou essa ditadura necessária, se explica perfeitamente pelo nosso sangue negro. Infelizmente. Por isso estamos tentando expurgar esse sangue, construíndo uma nação para todos, limpando a raça brasileira". 
O jornal "O Globo" publicou um editorial, no dia 06 de janeiro de 1954, sobre as religiosidades brasileiras originadas da redefinição na diáspora dos saberes africanos. O jornal afirmava explicitamente que as religiosidades africanas eram infecções difundidas por negros ignorantes e mentalmente desequilibrados. Cito um trecho: "É essa infecção que queremos apontar com alarme. É essa traição que queremos denunciar com veemência. É preciso que se diga e que se proclame que a macumba, de origem africana, por mais que apresente interesse pitoresco para os artistas, por mais que seja um assunto digno para o sociólogo, constitui manifestação de uma forma primitiva e atrasada da civilização e a sua exteriorização e desenvolvimento são fatos desalentadores e humilhantes para nossos foros de povo culto e civilizado. Tudo isso indica a necessidade de uma campanha educativa para a redução desses focos de ignorância e de desequilíbrio mental, com que se vêm conspurcando a pureza e a sublimidade do sentimento religioso." 
Percebemos aí uma dupla manifestação do racismo.Esclareço que penso aqui em um racismo herdado do colonialismo. Ele se manifesta explicitamente a partir de características físicas, mas não apenas aí. A discriminação também se estabelece a partir da inferiorização de bens simbólicos daqueles a quem o colonialismo tenta submeter: crenças, danças, comidas, visões de mundo, formas de celebrar a vida, enterrar os mortos, educar as crianças, etc. Ao se separar da macumba, vista como foco de desequilíbrio mental e exemplo da ignorânica dos negros, para ser aceito nos salões da sociedade, o samba despiu-se de boa parte de sua potência. 
Clementina de Jesus, todavia, veio como contraponto a este processo, sobretudo em seus primeiros registros fonográficos (nos últimos a indústria do disco já tinha conseguido tirar parte da potência do canto de Mãe Quelé para torná-lo palatável aos ouvidos normativos). Candeia radicalizou esse reencontro entre macumba e samba no seminal LP Samba de Roda. Clara Nunes e Martinho da Vila trilharam o mesmo caminho, com maior ou menos intensidade. Uma turma da pesada, e aí não posso deixar de citar Wilson Moreira e Nei Lopes, por exemplo, também fez e continua fazendo essa costura. Oxalá mais gente embarque nessa macaia.
 Ao negar a macumba - e o auge desse processo se estabelece na bossa nova, quando o samba nega até o próprio tambor - o samba caiu no gosto do brasileiro, em um processo dinâmico que não comporta leituras estreitas ou simplificadas na dicotomia do bom e ruim. A questão que levanto encara mais o samba como fato social completo que como fenômeno musical apenas. A questão é complexa e reflete boa parte de nossos dilemas. O samba, cem anos depois do Pelo telefone,continua aí. Permanece porque é potente e soube se adaptar às circunstâncias e, paradoxalmente, porque foi despotencializado pelo nosso racismo cordial. Permanece, em alguma medida, não porque não somos racistas. Permanece também exatamente porque somos.

sábado, 21 de maio de 2016

O BRASIL COMO PROJETO

A exclusão social no Brasil foi um projeto de estado. A afirmação simples apenas constata que, com momentos raros de relativização deste processo, nós temos um Brasil que articulou estratégias em relação à pobreza fundadas na experiência que é o maior marco da nossa formação: a escravidão. A dominação do outro articulava-se em estratégias de controle dos corpos com inúmeras variantes: o corpo amansado pela catequese, pelo trabalho bruto, pela chibata e pela confinação em espaços precários: porões de negreiros, senzalas, canaviais e cadeias.

O fim da escravidão exigiu redefinições nas estratégias de controle dos corpos e coincidiu com os projetos modernizadores que buscaram estabelecer, a partir da segunda metade do século XIX, caminhos de inserção do Brasil entre os povos ditos civilizados. Tomo o Rio de Janeiro, minha cidade, como horizonte dessas reflexões.

A relação das elites e do poder público, dentro dessa aventura modernizadora, com os pobres era paradoxal. Os "perigosos" maculavam, do ponto de vista da ocupação e reordenação do espaço urbano, o sonho da cidade moderna e cosmopolita. Ao mesmo tempo, falamos dos trabalhadores urbanos que sustentavam - ao realizar o trabalho braçal que as elites não cogitavam fazer - a viabilidade  desse mesmo sonho: operários, empregadas domésticas, seguranças, porteiros, soldados, policiais, feirantes, jornaleiros, mecânicos, coveiros, floristas, caçadores de ratos, desentupidores de bueiros... A velha máxima da escravidão se redefinia: é o senhor que depende do escravo, e não o inverso. 

Novas e velhas estratégias de confinamento dos corpos então se articulam, agora em favelas, subúrbios, vagões lotados e, sempre elas, cadeias. O ideal é que os pobres não estivessem nem tão perto, a ponto de macular a cidade restaurada e higienizada, e nem tão longe, a ponto de obrigar a madame a realizar os serviços domésticos que, poucas décadas antes, eram tarefas das mucamas de Sinhá.

Aqui vem a questão que pretendo levantar com mais clareza: o controle dos corpos se articula permanentemente ao projeto de desqualificação das camadas subalternas como agentes incessantes de invenção de modos de vida. Produtoras de cultura, enfim. Esse projeto de desqualificação da cultura atua em algumas frentes. Dentre elas, posso citar a criminalização de batuques, sambas, macumbas, capoeiras; e a repressão aos elementos lúdicos do cotidiano dos pobres (o jogo do bicho, reprimido por ser, no início do século XX, uma loteria dos mais humildes, é exemplo disso). Tudo aquilo, enfim, que resiste ao confinamento dos corpos criando potências de vida.

Essa prevenção contra a pobreza articulou-se também no campo do discurso em que atua a História como espaço de produção de conhecimento. Apenas elementos externos aos pretos, índios e pobres em geral – a ciência, o cristianismo, a democracia representativa, a economia de mercado, a inclusão pelo consumo de bens, a escola ocidental, etc. – poderiam inseri-los, ainda que precariamente e como subalternos, naquilo que imaginamos ser a história da humanidade. 

É nesse recorte que eu procuro, no meu trabalho como um historiador de rua, produtor de conhecimento fora do espaço normativo e necessário da acadêmia, combater essa "negação da história" que invibiliza os que não se enquadram no processo civilizatório excludente projetado no Brasil.

Eu sou um historiador de sambistas. foliões anônimos, bêbados líricos, jogadores de futebol de várzea, clubes pequenos, putas velhas, caminhoneiros, retirantes, devotos, iaôs, ogãs, ajuremados, feirantes, motoristas, capoeiras, jongueiros, pretos velhos, violeiros, cordelistas, mestres de marujada, moças do Cordão Encarnado, meninos descalços, goleiros frangueiros, namorados de subúrbio, baianas do samba, catimbozeiros, encantadas do Lençol, capangueiros da jurema, donos e fregueses de botequins, apontadores do bicho, alabês, runtós e xicarangomos dos tambores de santo.

Me interessam as histórias de todos aqueles, enfim, que escapam ao acolhedor espaço de privilégios de um Brasil pensado em gabinetes, casas grande, salões imperiais, articulações empresariais e coisas do gênero. Nesta toada busco evitar, e nem sempre consigo, o risco da romantização do precário, e tensionar as relações sociais em um campo de articulações muito distante do discurso apaziguador e cordial que nega aquilo que, em boa parte, o Brasil é: um país projetado pela lógica da chibata, do pelourinho, do extermínio de índios e da submissão dos pobre a partir da domesticação dos corpos e da negação das culturas.

Esse pequeno texto, de resto, pretende apenas, numa circularidade, terminar como começou: o problema brasileiro passa, em larga medida, pela manutenção do traço mais profundo da nossa formação, aquele que se revela ou se esconde em inúmeras variantes que, todavia, obedecem ao mesmo mote desde o século XVI: confinar, afastar, normatizar, negar, domar, usar, punir e descartar todas e todos que ameaçam o projeto predator e civilizatório das elites do Brasil continua sendo a pedra de toque da ordem e do progresso nesse canto do mundo.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

CAMPO DE BATALHA

Amanheceremos no Brasil que escureceu. Deliro yaôs cobrindo com folhas de pitangas o nosso solo fértil, macaia das solidões compartilhadas. Ogãs preparam o balaio das iabás, aquele que será ofertado às moças na quebrada do sol, onde o mar afaga o céu e o mundo acaba. O presente encontrará seu destino naquela hora em que os valentes sonham, feito o sinhozinho que escuta de Zefa as histórias da coca do mato.
Ossain preparará um banho com as jinsabas mais cheirosas; Vunji convidará as crianças; Angorô, que é também Oxumarê, inventará improváveis arco-íris; Gongobira encherá de peixinhos coloridos a lagoa de águas escuras, densa como as florestas de onde Odé trará a carne saborosa das caças. O senhor da guerra forjará no ferro em brasa cimitarras, adagas e, sobretudo, ferramentas de inventar o mundo. Um cortejo de cabras, pombas e caramujos precederá o afoxé anunciado pelo pano branco de Lemba-Dilê, Obatalá dos Nagôs. Tem amalá no fogo.
E começará o ritual: os corpos terão que ser fechados ao projeto domesticador, normatizador e disciplinador que se inscreve no domínio colonial, aquele que exige corpos adequados para o consumo e para a morte em vida.
Falaremos com outras vozes ou nos calaremos pra sempre: elas serão musicadas, atravessadas de batuques-toques e tarantantans. E evocaremos a sabedoria dos “cumbas”, poetas do feitiço das palavras do Congo velho, e suas artimanhas de viver produzindo encantarias libertadoras no precário.
Nossa guerra não pode ser travada exclusivamente no campo deles. Ela precisa ser levada, como vivência, reflexão e ação macumbada, para o campo dos saberes onde os desencantadores, não sabem jogar. Para cada discurso empedernido, uma gargalhada zombeteira de Eleguá soará no vento marafando três letras, corporificando a palavra como encruzilhada de três caminhos: não.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

VENCENDO A DEMANDA


Luiz Antonio Simas / Luiz Rufino

O mês de maio nos lembra de que é necessário aprendermos a lição dos pretos velhos: toda demanda lançada há de ser devidamente desatada; essa é a forma que temos de garantir a sustentação de nossas toadas. Afinal, nos constituímos através da linguagem e através dela é que firmamos e encantamos nossos terreiros/mundo. A astúcia de praticar a dobra na linguagem é a forma que temos de não nos subordinarmos diante a imposição de normas que nos violentam e nos negam enquanto possibilidade. Assim, se diz para não dizer e não se diz para falar. É desse jeito que se dá o nó no rabo da caninana, coisa de amarração. São as mumunhas dos “negos véios” que expulsam as marafundas do obscurantismo político que nos obsedia.

A sabedoria dos velhos cumbas, poetas feiticeiros, mestres do poder e do encantamento das palavras, perpetuaram-se ao longo do tempo e firmaram ponto para nos ensinar a lição que há de ser incorporada urgentemente nos dias de hoje. É cada vez mais necessário desatar os nós que insistem em nos estrangular e enunciar versos que comuniquem múltiplos entenderes em alguns poucos dizeres. Assim, o que pode parecer uma redução, uma simplificação do verso, pode ser transformado em mandinga: quando menos se espera é que se dá o bote.

Muitos daqueles que eram tidos como boçais pela ordem dominante encantaram seus senhores em uma única palavra lançada. Os doutores e sinhozinhos passavam a noite perdidos nas matas na viração das luas, ou sofriam de esfriamento do corpo. O que nos é soprado nos ouvidos é o que diz o verso: o leite tá fervido, o café já está coado, jongueiro que é jongueiro não chora o leite derramado. É hora de firmamos nossos pontos no riscado da pemba, afinal, os pretos velhos são aqueles que plantam bananeiras na boca da noite e comem seus frutos na boca da madrugada. A demanda nos está sendo lançada; há que se vencer-demanda.

Se a amarração educação/cultura nos foi lançada como um feitiço cuspido da boca da Casa-Grande chegou a hora de improvisarmos um novo verso que não só desate a demanda amarrada, mas também aponte o curso de uma toada a ser mantida. No Brasil, com exceções brilhantes de gente que raspou o tacho, a educação é pensada como uma instância normativa e padronizadora. A cultura, por sua vez, pode ser, como um conjunto de práticas e dimensões simbólicas de invenção constante da vida, o espaço de possibilidade de transgressão do padrão normativo. Neste sentido, a educação prende e a cultura liberta.

Constatando isso, quando se une um ministério da educação ao da cultura, imaginamos o seguinte: ou a educação vai ser pensada com o caráter transgressor que ela deveria ter, potencializando a perspectiva do encontro dela com a cultura, ou a cultura vai se acorrentada pelo viés normatizador, conservador e adestrador da educação. É evidente que na demanda é a segunda possibilidade que vai vigorar. Educação e cultura a serviço de um Brasil tacanho, doente, mesquinho, reacionário, intransigente, misógino, colonizado, homofóbico e fundamentalista.

A nosso ver, tanto a educação, quanto a cultura devem ser percebidas como mumunhas de preto-velho: um repertório infinito de invenções, práticas, modos de sociabilidade, de conhecimento, de arte e de vida. Tanto a educação, quanto a cultura são fenômenos inerentes à condição humana. Assim, são tão diversos e inacabados quanto a própria presença e interação dos sujeitos que a incorporam. Toda educação é também cultura e toda cultura compreende-se como um contexto que tece suas experiências de saber ao mesmo tempo em que trança também pedagogias que lhe são próprias. A educação, porém, para ser percebida como cultura, deve se colocar como tributária da potência dos enlaces culturais e integrante deles. Se for ela, todavia, em sua face instrutora e burocrática, que conduz os modos de vida, esta se esvazia das possibilidades de mandinga e se transforma em mera reprodutora de valores vigentes institucionalizados.

Precisamos pensar a educação como prática que reconheça e credibilize a experiência humana na sua diversidade. A sugestão é encarná-las feito mumunha de preto velho, amarração de múltiplos entenderes em um único dizer. Educação como cultura, prática emancipatória que transgrida com toda e qualquer perspectiva obcecada por cursos únicos e por tutelas de bom comportamento. Há de nos lançarmos no cruzo das flechas atiradas por outras sabedorias, produtoras de efeitos de cura, encanto, vigor e abertura de caminhos. Os repertórios de saber alinhavados nas contas do rosário são inacabados, conta a conta nos é revelado um novo segredo. Dessa forma, nos cabe curar-se na fumaça pitada do cachimbo para irmos à luta de um mundo que considera a diversidade como fonte de vida.

Assim, atar a potência dos fenômenos da educação e da cultura a um único verso é prática que quase sempre tende para a normatização e para o conservadorismo. O alvo é o aprisionamento dos sujeitos envolvidos, o desmantelamento de seus esquemas cognitivos e a orientação de um modo único de racionalidade que reflete os investimentos de um projeto de dominação política.  A escola ocidental, fundamentada no ensino seriado e na fragmentação de conteúdos, é normativa sempre e padroniza comportamentos mesmo quando adota linhas alternativas. O alternativo aí, afinal, vira padrão para o grupo. E as diferenças? A rua como espaço poderoso de práticas culturais, a rua das possibilidades exusíacas, poderia resolver isso.

Se a escola normatiza, a rua deveria ser o ponto de encontro capaz de permitir o convívio entre os diferentes, desestabilizando o padrão. Em tempos menos afoitos, cada criança trazia as bagagens de experiências distintas, na casa e na escola, trocadas na rua de forma lúdica e descompromissada, em um processo enriquecedor, a partir do ato de conhecer pelo brincar.  Mas isso simplesmente não é possível nesse padrão de cidade desencantada que nos engole sem piedade, a não ser que encaremos a rua como escola e pratiquemos a subversão da escola em rua, encruzilhando experiências de alargamento das percepções do mundo.

Assim, já que o desafio é tomar a lição dos "negos-véios" simbora desatar o nó do rabo da maldita e explanar a marafunda que nos foi lançada: o Ministério da Educação normalmente foi pensado na “plantation Brasil” como um ministério curricular da agenda política colonial, enquanto o Ministério da Cultura seria um ministério dos modos civilizatórios brancos-machos-cristãos, em detrimento do primitivismo animista-fetichista. Alguns avanços na atuação do Ministério da Cultura nos últimos tempos apontaram a possibilidade de se quebrar essa lógica. Eles, estes avanços, agora serão solapados, sob controle dos brancos-machos-cristãos que assumiram o poder.

Para vencer essa demanda, convém talvez pensar no que nos aponta o Gao, uma árvore africana do Sahel, região de transição entre a savana e o deserto; nas encruzilhadas entre a água e a secura. O Gao é uma espécie de árvore do contra, capaz de subverter o padrão normativo do grupo. Na estação das chuvas, quando o verde toma conta da vegetação e as árvores vivem a florada, o Gao perde as folhas, se acinzentamurcha estropiado. Quando a seca chega arrepiando e a estiagem é inclemente, só essa acácia esverdeia; florescendo exuberante em meio ao cinza que parece mundo morto.

Os africanos do Sahel veneram o Gao, visto como uma árvore sagrada, silenciosa e capaz de ensinamentos prodigiosos, inclusive para a conduta das comunidades. A acácia africana tem a ousadia de ser cinza quando o que se espera dela é o verde e verdejar quando tudo se acinzenta. Nos tempos difíceis, é ela que dá a sombra para os rebanhos e alimenta o gado com as folhas das extremidades de seus galhos.

Enjaulados em hospícios de concreto, desencantados do mundo sem terreiro, condecorados com tarjas pretas, eufóricos desmedidos e silenciosos deslocados, nós andamos precisados de ouvir os gaos.  Educados na lógica normativa - incapazes de atentar para as culturas que subvertem ritmos, rompem constâncias, acham soluções imprevisíveis e criam maneiras imaginativas de se preencher o vazio, com corpos, vozes e cantos - padecemos prenhes de razões. 

Acinzentou no Brasil. É a hora de verdejar dinâmicas novas, feito os gaos, saindo do conforto dos sofás epistemológicos, aqueles em que morreremos tristes e conscientes da nossa suposta superioridade, e morar na encruzilhada da alteridade, menos como mecanismo de compreensão e mais como vivência compartilhada. Atentemos para a sabedoria das árvores do Sahel; aquelas que florescem quando tudo é cinza e se recolhem quando tudo canta, com a força e a beleza da diferença, porque o canto já se fez presente no mundo.

Como ensinou o cumba de Bracuí no vencimento das demandas e no brado para as invenções necessárias, deixamos inscrita a nossa gira de encantamento dos mundos pela cultura:

“Da flor do jambo 
à raiz do cambucá,
nasce Congo,
morre Congo 
e tem Congo no lugar.”

quarta-feira, 11 de maio de 2016

CONTINUAREMOS

Em um país em transe, a ampliação potente da democracia — indo muito além da frágil falácia da transformação social como simples ampliação do acesso a bens de consumo — pressupõe o falar de muitas vozes, o descortinar de miradas e a ousadia de experimentar rumos que libertem as mulheres e os homens da nossa crônica doença do desencanto, nascida na negação da potência do que podemos ser.

Somos um país forjado em ferro, brasa, mel de cana, pelourinhos, senzalas, terras concentradas, aldeias mortas pelo poder da grana e da cruz, tambores silenciados, arrogância dos bacharéis, inclemência dos inquisidores, truculência das oligarquias, chicote dos capatazes, cultura do estupro, naturalização de linchamentos e coisas do gênero.

Acontece que, no meio de tudo isso e ao mesmo tempo, produzimos formas originais de inventar a vida onde amiúde só a morte poderia triunfar. Um Brasil forjado nas miudezas de sua gente, alumbrado pela subversão dos couros percutidos, capaz de transformar a chibata do feitor em baqueta que faz o atabaque chamar o mundo. Um Brasil produtor incessante de potência de vida, no arrepiado das horas e no chamado de uma pluralidade de deuses bonitos como as mulheres e os homens. A luta por esse segundo Brasil, ao meu juízo, não me enreda porque acho que ela será vitoriosa: eu estou na briga porque acho que ela é necessária. 

Continuarei na rinha pela revolução do despacho na encruza, do reconhecimento do poder das senhoras e da alteridade da fala: língua do congo, canto nagô, virada de bugre na aldeia. Escrevo pela necessidade de outras gramáticas de compreensão do Brasil. Minha arma é o alfange do deus que é meu pertencimento, o senhor do mariô que mora em mim, iluminando, ao cortar os intolerantes, o meu mundo na viração da vida plena.

É hora de temperar a porta brasileira com dendê e apimentar o padê dessa canjira.

terça-feira, 10 de maio de 2016

DESAFIO PRA DESAMARRAR A VIDA

Quando finalmente proibirem os meus deuses, os meus porres e os meus amores corriqueiros, além de matarem a minha profissão de ensinar aprendendo,  já sei como agir. Vou montar um estoque de velas de sete dias e com elas tentarei reconhecer, com um fiapo de luz que me guiará nos escuros, a minha turma. Buscarei os que batem cabeça nos gongás, sabem das gumas e catimbozeiam fuzuês nas tabocas severinas, alumiando o breu para que algum mestre do babaçuê beba a jurema no coco e me fale de outro mundo.

À supremacia dos ternos bem cortados e roupas de grife, sei que ainda haverá gente capaz de vestir o mistério com manto do Divino e o filá de Obaluaiê. Malocados nas roças escondidas, acharei no fundo de algum armário os brincos de Tóia Jarina, o cocar do bugre, um quepe de marujada, o linho S-120 dos pilintras, camisas de times de várzea, gibões de couro e saiotes femininos, feitos com as folhas da jussara e enfeitados com miçangas coloridas. Eles estarão ali para adornar os corpos que insistirão em dançar livremente.

O projeto de normatização da vida na cidade encarada como empresa pressupõe, para que seja bem sucedido, estratégias de desencantamento do mundo e aprofundamento da colonização dos corpos. É o corpo, afinal, que sempre ameaçou, mais do que as palavras, de forma mais contundente o projeto colonizador fundamentado na catequese, no trabalho forçado, na submissão da mulher e na preparação dos homens para a virilidade expressa na cultura do estupro e da violência: o corpo convertido, o corpo escravizado, o corpo domesticado e o corpo poderoso. Todos eles doentes.

Para combater um projeto que necessita do adoecimento das gentes, regado a muita água benta e caixas de tranquilizantes, só nos resta fazer o simples: tudo. A vida terá que ser reinventada no vazio, que pode ser o do desânimo mas pode ser também o da criação do sincopado. Discursos não verbalizados, burladores das cultas gramáticas, terão cada vez mais que se manifestar a partir dos corpos que transitam na desafiadora negação da morte, como são os corpos-cavalos das canjiras de santo e giras de lei.

Aqueles comprometidos com a tarefa da reinvenção do país que morre não poderão se esconder mais apenas em seus aparatos teóricos, leituras clássicas, ideologias redentoras das vítimas da fome e outros babados. O que tinha de ser, como diria um samba do velho Mauro Bolacha, já era.

Aqui falaram aguerés, cabulas, muzenzas, barraventos, avamunhas, satós, ijexás, ibins e adarruns. As folhas foram encantadas pelo korin-ewé que chamou o mestre condutor de Arôni, o Katendê dos bantos, e Malunguinho anunciou o juremá quilombola nas praias de Alhandra. Morená é encantaria e as urnas marajoaras são, paradoxalmente, exaltações vigorosas da vida ao pensar que o lugar de repouso e revitalização dos nossos mortos é o insondável da criação humana: arte. Os toques do tambor são idiomas que criaram, nos cantos mais inusitados, espaços de encantamento do cotidiano; terreiros de todos os tipos.  Ou se fala disso como estratégia de luta ou nós estaremos de fato fodidos.

Nossa tarefa não é apenas resistir a alguma coisa. Resistir apenas é permitir que o colonizador nos paute dentro de seu projeto de normatização pela chibata, pelas sagradas escrituras, pelos diplomas e pelos remédios que entorpecem o corpo para adequar as almas.

Quando falo de saberes das macumbas (sambadas, gingadas, funkeadas, carnavalizadas, dribladas na linha de fundo), mergulho na etimologia controversa da expressão. Para alguns, macumba vem do quimbundo “dikumba”: cadeado ou fechadura. A expressão se referiria às cerimônias de fechamento dos corpos diante das artimanhas do inimigo. Macumba pode ser também um instrumento musical (uma espécie de reco-reco), com a provável origem no quimbundo “mukumbu”: som. E macumba é, sobretudo, a reunião dos “cumbas”, expressão do quicongo para definir os grandes feiticeiros encantadores de mundo. O prefixo “ma”, no quicongo, designa o plural.

A luta é essa: precisamos de corpos fechados ao projeto domesticador, normatizador e disciplinador que se inscreve no domínio colonial dos corpos adequados para o consumo e para a morte em vida. Precisamos de outras vozes, musicadas, atravessadas de batuques-toques e tarantantans. E precisamos da sabedoria dos “cumbas” e de suas artimanhas de viver produzindo encantarias libertadoras no precário.

Só os corpos entendidos como assentamentos animados, gongás feitos de sangue, músculos e ossos, carregados de pulsão da vida, poderão sobreviver. Nós estamos perdendo e meu estoque de velas está preparado para o segundo tempo. Resta agir e apostar que nas frestas, entre as gigantescas torres empresariais e arenas multiuso, os couros percurtidos continuarão cantando, mesmo proibidos, a vitória da vida sobre a morte no terreiro grande. 

Pairando sobre o desencanto, estejamos atentos para escutar no vento a gargalhada zombeteira dos exus. Eles, os desencantadores, não sabem reconhecê-la e morrem de medo das sonoridades que os desafiam.  Ela é, também por isso, o nosso “uni-vos” mais que necessário. 

sexta-feira, 6 de maio de 2016

TAMBOR É LIVRO E LIVRO É TAMBOR

Houve um tempo na minha vida em que eu ficava meio constrangido quando me perguntavam sobre os livros que marcaram a minha infância e adolescência e criaram em mim o hábito de gostar de histórias. Chegava mesmo a inventar os livros fundamentais na minha formação. Precisei de tempo e de coragem para admitir que na minha formação os livros, infelizmente, não foram fundamentais; meu amor por eles é tardio e imenso. Hoje. certamente, a minha vida sem os livros não teria a mesma graça. Não me imagino sem eles.

Eu aprendi, todavia, a gostar de histórias com uma senhora que não tinha nem o primário completo, a minha avó. E não foi em uma biblioteca; foi em um terreiro na Rua Castor, no Jardim Nova Era, nos confins de Nova Iguaçu. O maravilhoso se manifestou para mim no rufar dos tambores misteriosos, na dança desafiadora do Obá dos Obás, no bailado sensual de Oyá e no xaxará do senhor da varíola. Eu vi o curupira nas encantarias dançar pelo corpo preto de Maria dos Anjos; eu vi Tóia Jarina e Mariana; ouvi de Catita a história de seu encantamento em um cipó de jitirana; reverenciei o brado de Japetequara, caboclo do Brasil, nas floradas da sucupira.

E aí, por tudo isso, me peguei assim. Fui de banzar nos salões, mergulhar nos tratados e dissimular nas festas suntuosas. Um dia, na crise braba, desencanei e achei o rumo. Sou o menino assombrado de Nova Era. É dele, o menino repreendido um dia pelo caboclo Pery porque fez besteira, o olhar que lanço aos homens. 

Gosto de rua, mercado, gente miúda como eu. Sou do porre, da bola, da troça, do beijo, do sol, da cachaça, do dendê, da perna torta, do português torto, do flozô e da viração do mundo. Sou de observar o saber das miudezas e reverenciar o sentido da vida onde aparentemente ele não está. Não acredito em iluminados; eu acredito em encantados; homens, mulheres e crianças que não morreram. Viraram vento, pedra, flor e areia de rio.

Hoje tenho uma dificuldade tremenda em crer nas verdades desencantadas e abraçar as causas e coisas visíveis, aquelas que não cantam e dançam ao sabor dos ventos que me ensinaram, enquanto tambores batiam, o pouco do que sei. Eu amo os livros que soam como os tambores e amo os tambores que parecem livros: eles contaram, e ainda contam, para mim grandes histórias.