sexta-feira, 24 de junho de 2016

VIVA SÃO JOÃO!

A aventura civilizatória brasileira, no terreno fértil das crenças, é fortemente marcada pelo catolicismo ibérico. É também, frequentemente, dinamizada, reinventada, particularizada, pela circulação de informações e crenças ameríndias, das múltiplas áfricas e das outras europas que se encontraram no extremo ocidente para inventar o Brasil.
Desenvolveram-se aqui celebrações profundamente sincréticas. O sincretismo, afinal, é fenômeno de mão dupla, pode ser entendido como estratégia de resistência e controle – com variável complexa de nuances – e pode ser entendido como fenômeno de fé. A incorporação de deuses e crenças do outro é vista, por muitos povos, como acréscimo de força vital; e não diluição dela.
As festas católicas normalmente transitam em torno dos eventos da vida, da paixão e da ressurreição de Jesus Cristo; do culto aos santos e beatos e da adoração da Virgem Maria. Já os fundamentos das celebrações indígenas e africanas celebram a força da ancestralidade e a divinização da natureza. Da interseção entre esses fundamentos e da circulação das culturas que o tempo todo se influenciam, surgiram os nossos modos de celebrar o mistério: a fé é festa.
A tradição cristã afirma que São João batizou Jesus Cristo nas águas do Rio Jordão, sendo por isso conhecido como Batista. Seria filho de Isabel, prima de Maria, a mãe de Jesus. Seu culto, introduzido pelos portugueses, é muito forte no Nordeste, onde é evocado com símbolos como a fogueira e o mastro.
A tradição do cristianismo popular conta que Isabel e Maria estavam grávidas na mesma época. Com dificuldades de locomoção, combinaram que aquela que tivesse o filho primeiro mandaria acender uma fogueira para avisar da boa nova. Isabel mandou, então, que se acendesse uma grande fogueira no dia 24 de junho, quando nasceu João.
O mito da fogueira foi certamente uma maneira que o cristianismo encontrou de redefinir os ritos do fogo que marcavam o solstício nas festas da colheita herdadas do paganismo, durante a Idade Média. Registre-se que na tradição popular as fogueiras juninas deve ser feitas de formas diferentes: a de São João deve ter base arredondada, a de Santo Antônio deve ser quadrada e a de São Pedro, triangular.
O mastro das festas tradicionais de São João, com o estandarte do santo na ponta, é também uma ressignificação cristã de ritos ancestrais. Representa as rogações pela fecundidade e é muito comum que sejam erguidos no Brasil com espigas de milho amarradas; para propiciar a boa colheita. São João é representado no estandarte como um menino segurando um carneiro; referência à doutrina católica de que ele teria anunciado ao mundo a chegada do cordeiro de Deus. 

quinta-feira, 23 de junho de 2016

CAMPO DE BATALHA

1-  É evidente que quando falo em raça em textos ou aulas não uso o conceito biológico. Penso, e não há novidade nisso, a raça como categoria política-social-cultural historicamente constituída. Em resumo: para a biologia eu pertenço a uma única raça, a humana. A maioria da polícia, todavia, me trata como branco mesmo e não me cria problemas. Eu tenho a armadura explícita de proteção da pele branca em um país escravocrata, onde a questão da percepção da raça me parece fundante do que somos.

2- O racismo opera de três maneiras: na impressão mais direta da cor da pele; na desqualificação dos bens simbólicos daqueles a quem o colonialismo tenta submeter e no trabalho cruel de liquidar a autoestima dos submetidos, fazendo com que estes introjetem a percepção da inferioridade de suas culturas.


3- É baseado nestas duas últimas percepções de como opera o racismo que insisto na ideia de que as ações afirmativas não podem se limitar a cotas que facilitem o acesso de minorias aos bancos acadêmicos, por exemplo. Precisamos de ações afirmativas no campo da episteme; para estabelecer formas de luta que disputem o campo simbólico e afirmem a sofisticação de saberes não canônicos. 


4- A colonização (e penso em colonização como fenômeno de longa duração, que está até hoje aí operando suas artimanhas), gera "sobras viventes", gentes descartáveis, que não se enquadram na lógica hipermercantilizada e normativa do sistema. Algumas "sobras viventes" conseguem virar sobreviventes. Outras, nem isso. Os sobreviventes podem virar "supraviventes"; conceito que ando matutando para definir aqueles que foram capazes de driblar a própria condição de exclusão (as sobras viventes), deixaram de ser apenas reativos ao outro (como sobreviventes) e foram além, inventando a vida como potência (supraviventes). Uma disputa operada apenas no campo da política e da economia pode gerar ganhos efetivos, é claro. Mas o salto crucial entre a sobrevivência e a supravivência demanda um enfrentamento epistêmico e batalhas árduas e constantes no campo poderoso da elaboração de símbolos.


5- Cada vez mais me convenço do seguinte: a esquerda também precisa, urgentemente, se descolonizar se quiser pensar em alguma coisa para o país que escape dessa  ideia limitadíssima de inclusão pelo consumo como finalidade de um projeto transformador.


sábado, 11 de junho de 2016

NOTAS BÁSICAS PARA UM FICHÁRIO DOS ENCANTOS

Reproduzo aqui pequenas anotações que faço sobre alguns saberes que estudo. Já são mais de cem fichas com informações do tipo.
ALHANDRA: Cidade no litoral sul da Paraíba; é a representação dos reinos do Juremá na terra. Reza a tradição que em Alhandra os poderes dos Mestres da Jurema teriam sido anunciados.
CATIMBÓ: Conjunto de práticas rituais abrangendo atividades místicas que envolvem desde a pajelança indígena até elementos do catolicismo popular; com origem no Nordeste. Tem como seus fundamentos mais gerais a crença no poder da bebida sagrada da Jurema e no transe de possessão, em que os mestres trabalham tomando o corpo dos catimbozeiros. As versões mais difundidas sobre a origem da expressão evocam desde o tupi antigo (caa - floresta + timbó - torpor causado por fumaça), até variações da expressão cachimbo, apetrecho muito usado pelos catimbozeiros.        
ENCANTARIA: Conjunto de ritos fundamentados na crença em caboclos encantados e encantadas. O encantado não é o espírito de um ser humano que morreu. Ele é o ser arrebatado, que superou a morte e a vida como conceitos biológicos e passou a viver transformado em árvore, pedra, acidente geográfico, planta, vento, areia, flor, pássaro. Sem deixar de ser ele mesmo e aquilo em que se transformou, o encantado interage ritualísticamente com os viventes através do transe.
CABOCLOS DE ENCANTARIA: Ao contrário do catimbó, na encantaria o termo caboclo não é sinônimo de entidade ameríndia, podendo ser genericamente utilizado para designar entidades de variadas origens. Os caboclos encantados, se reúnem em famílias, com um chefe e suas linhagens, que abrangem turcos, índios, reis, nobres, marujos, princesas, etc.
CABOCLOS E MESTRES DA JUREMA: Os mestres foram pessoas que, em vida, desenvolveram habilidades no uso de ervas curativas. Com a morte, passaram a habitar um dos reinos místicos do Juremá. Lá são auxiliados pelos Caboclos da Jurema, espíritos de indígenas que conheceram em vida as artes da guerra e da cura.
FAMÍLIA DE ENCANTADOS: A encantaria se organiza em famílias de entidades encantadas, unidas por laços de afinidade ou parentesco.
FAMÍLIA DO LENÇOL: A família mais famosa de encantados. No fundo do mar da praia dos Lençois - em Curupupu - mora o Rei Dom Sebastião, que encantou-se durante a batalha de Alcácer-Quibir. Essa família é formada apenas por reis e fidalgos. A vinda do Rei Dom Sebastião ao corpo de uma sacerdotisa é muito rara, alguns afirmam que ocorre de sete em sete anos. Da família fazem parte ainda, dentre outros, Dom Luís, o Rei de França; Dom Manoel, conhecido como o Rei dos Mestres; a Rainha Bárbara Soeira; Dom Carlos, filho de Dom Luís, e o Barão de Guaré. Em alguns ramos da encantaria fala-se na FAMÍLIA DA GAMA , que também seria formada por reis, rainhas e fidalgos.
FAMÍLIA DA TURQUIA: É chefiada por um rei mouro, Dom João de Barabaia, que lutou contra os cristãos. É a esta família que pertencem as irmãs Mariana, Jarina e Herondina, as princesas que vêm ao mundo não apenas na forma de turcas, mas também como marinheiras, ciganas, índias ou aves de belas plumagens. Em algumas casas, a Família da Turquia é incorporada à Família do Lençol.
FAMÌLIA DA BAHIA: Família de encantados farristas, que gostam de beber, têm a sexualidade aflorada e vivem arrebatados em mundanidades, como em esquinas, bares, rodas de samba e capoeiras.
FAMÌLIA SURRUPIRA: Família composta por índios que não foram catequizados; versados nos segredos da pajelança. Trabalham com as artes da cura e são profundos conhecedores das plantas.
FAMÍLIA DA MATA: Também conhecida como "família de Codó", é formada por vaqueiros, boiadeiros, índios e negros que saíram do litoral maranhense e forma arrebatados nas matas próximas à cidade de Codó.
FAMÍLIA DA BANDEIRA: Formada por desbravadores das matas, bandeirantes, caçadores de onça, mateiros e pescadores que se encantaram durante suas atividades.
 JUREMÁ: Espaço invisível em que habitam os mestres da jurema e seus subordinados. Há, dependendo da linha do Catimbó, quem trabalhe com cinco ou sete reinos, formados por aldeias ou cidades e habitados pelos Mestres. Para a linha de cinco, os reinos são os do Vajucá, Urubá, Josafá, Juremal e Tenemé (ou Tenema). Para a linha de sete, temos os reinos de Vajucá, Juremal, Urubá, Tigre, Canindé, Josafá e Fundo do Mar.
JUREMA: Bebida tirada da árvore do mesmo nome; bastante utilizada nos ritos de pajelança dos tupis. Chegou aos catimbós, aos candomblés de caboclo, ao Xangô do Recife e a algumas linhas da umbanda. Existem as árvores da jurema-branca e da jurema-preta. A bebida ritual é feita, na maioria das vezes, com a jurema-branca. É muito usada na linha de cura, fortalecida por cantos de evocação.
CORTE DE ESPÍRITOS ANCESTRAIS: Vertente da encantaria venezuelana, com ramificações na Colômbia. Os espíritos ancestrais se dividem em 21 cortes, lideradas por uma trindade formada por María Lionza, o Negro Felipe e o indio Guacaipuro. Temos, dentre outras, as cortes de malandros (onde se destacam o malandro Ismael, o malandro Ratón e Isabelita, a moça das esquinas); índios; africanos; chineses; médicos; jovens; vikings (sim, formada por espíritos de navegadores escandinavos que por aqui se encantaram em tempos imemoriais); libertadores (espíritos dos que lutaram nas guerras de libertação nas Américas); etc. A corte chamarrera, a mais famosa, é aquela formada por espíritos que conhecem os segredos das folhas e das mandingas diversas, liderada por Don Nicanor Ochoa Pinto, o "viejo amado". É uma corte muito ligada a dos "juanes" (a corte de "juanes encantados", os curandeiros dos males, como don Juan de los cuatro caminos, don Juan del tabaco, don Juan de los cuatro vientos, don Juan de los suspiros, don Juan de la calle, don Juan del amor, don Juan de las aguas, don Juan del dinero, don Juan del progreso, don Juan de la fuerza,don Juan del pensamiento, don Juan del chaparro etc.).

sexta-feira, 10 de junho de 2016

O BRASIL NÃO ESTÁ NUMA ENCRUZILHADA (MAS DEVERIA)

Acabei de ler em um site de jornalão que o Brasil está numa encruzilhada. Sei não. Me parece que o problema é exatamente o inverso: o Brasil não está numa encruzilhada. Explico rapidinho, cá do meu modo, essa matutação. Encruzilhemos o ponto. 
Os gregos e romanos ofertavam aos humores de Hécate, a senhora dos mistérios da lua nova, oferendas nas encruzilhadas. No Alto Araguaia, era costume indígena oferecer-se comidas propiciatórias para a boa sorte nos entroncamentos de caminhos. Anchieta menciona os "deixados" indígenas ofertados ao curupira nas encruzilhadas dos atalhos. O profeta Ezequiel viu o rei da Babilônia consultando a sorte numa encruzilhada. Gil Vicente, no Auto das Fadas, conta a história da feiticeira Genebra Pereira, que vivia pelas encruzilhadas evocando o poder feminino. 
Macumbemos: o Aluvaiá dos bantos, o Exu dos iorubás e o Legbá dos fons, divindades propiciadoras do movimento e dos saberes do corpo, moram nas encruzas e passeiam nos mercados. Em quimbundo, um dos idiomas do imenso complexo banto, encruzilhada é "pambu-a-njila"; provável origem da expressão Bombogira e o local de seu culto. Daí abre-se o caminho para se chegar às pombagiras, com toda a dinamização que os contatos sugerem nas praias americanas (e que acabam nos levando, inclusive, às tabernas da Andaluzia, com o acréscimo de força vital trazido pelos ciganos). Nzazi imolou em uma encruzilhada do Congo o bode branco para fazer, esticando a pele do bicho num tronco oco, Ingoma, o primeiro tambor do mundo. Os legbasi do antigo Daomé penduravam cabaças e esculturas fálicas, símbolos do feminino e do masculino, nas encruzilhadas. Foi numa encruzilhada também que Robert Johnson teria pactado com o diabo e o cachorro do mito de Irosun Ogbe, no corpus de Ifá, tería se distraído pelas atrações mundanas, a ponto de perder o cargo que poderia exercer para uma serpente.
Com tudo isso, quero crer, o problema do Brasil não é estar numa encruzilhada. É não estar nela, desprezando nas linhas retas da normatividade de seus políticos, sabichões, doutos mestres, chefes de família, homens de bem, bem-sucedidos, revolucionários e conservadores, a enorme potência descolonizatória e de desregramento dos mundos que o cruzo das encruzas, pensado potentemente, poderia trazer. Padecemos de desencanto. Ir para as encruzilhadas pode ser, quem sabe, um ponto de viração. Eu, que sou da encruzilhadas, escrevi certa feita e repito: desconfio e tenho medo é dessas gentes dos caminhos retos.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

QUEM PODE NOS TIRAR DA MORTE?

Perguntas complicadas não faltam nos dias turbulentos. Fui inquirido - eu e um grupo de convivas - sobre se haveria algum político capaz de apontar direções para o Brasil neste momento. Minha resposta foi quase imediata e levada a princípio como galhofa pelo grupo. Mas falei sério e explico.

Nas "Cartas do Rei de Ardra e do Rei do Daomé para Sua Alteza Real, Documentos dos Arquivos Portugueses que Importam ao Brasil, n. 12", está dito que em 1804, o rei do Daomé, Adandozam, escreveu uma carta a D. João, príncipe de Portugal, que seria depois o nosso D. João VI. Cito: 

"Meu adorável mano: há muito tempo que fiz patente ao meu grande deus Legbá, que pelos seus grandes poderes, lá no lugar onde habita, que levasse em gosto e louvasse a amizade que eu desejava ter com os portugueses, e juntamente o oferecimento e trato que queria fazer...". 

Legbá aparece nesse trecho da carta de Adandozam em algumas de suas potências mais intensas: o de vodum fazedor das relações, trançador e traçador de caminhos, dinamizador dadivoso das relações sociais e diplomático firmador das capacidades de humanas de estar nele mesmo e no outro, como dínamo transformador e incessante inventor de existências. 

Legbá não é o anulador tirânico das diferenças; ele é o comunicador que possibilita o convívio fecundo entre elas. Gosta de fluxos, é inimigo do conforto e vez por outra desarticula tudo para estabelecer a necessidade de se fundar a experiência em bases diferentes. 

Legbá é a criação incessante e ininterrupta do mundo pela construção permanente de significados para as coisas. É perigoso, já que escapa das limitações do raciocínio conformista que tem pânico do inesperado e não compactua com fórmulas que reduzem a vida a um jogo de cartas marcadas, com desfecho previsível.

Não bastasse isso, é Legbá a própria vivacidade. A ausência de Legbá é a morte, e a morte, para a turma do Daomé, é um estado de despotência dos viventes; uma impossibilidade de vida. Há mortos muito mais vivos que os vivos e vivos muito mais mortos que os mortos. Vive quem está disponível para Legba (prometo qualquer hora dessas escrever sobre o dia em que Heidegger fez uma oferenda a Legbá numa encruzilhada entre a Alemanha e o Daomé e o vodum soprou para ele, com seu assovio contador de histórias, o estar-aí)

Legbá é, também, sem deixar de ser indivíduo, um ser coletivo (o Agbo-Legba), homem e mulher (Legbayonu e Minona, o secreto maior do feminino). Em suma: mediador entre mundos.

Legbá, o político que pode nos tirar dessa, é a potência da transformação encarnada na ação das mulheres e dos homens. Ele é, como costumo definir, um estado de disponibilidade para transformar o mundo que está potencialmente em cada um de nós. 

Em resumo: nós somos, em estado de Legbá, os que podemos nos conduzir para os terreiros mais amplos da alegria.

Un j’avalu hùn Legbá!

segunda-feira, 6 de junho de 2016

A LIÇÃO DA ARARINHA

Uma das maiores aventuras civilizatórias do Brasil é a do encontro entre a tradição do culto aos voduns do Maranhão, na linha do tambor de mina, e a pajelança indígena do Pará. O tambor de mina ganhou outras cores, absorvendo novas entidades ao seu panteão. Essa é a força arrebatadora da encantaria de caboclo.
Não custa lembrar que na encantaria o termo caboclo não é sinônimo de indígena, podendo ser genericamente utilizado para designar entidades de variadas origens. Os caboclos, ou encantados, se organizam em famílias, com um chefe e suas linhagens, que abrangem turcos, índios, reis, nobres, marujos, princesas, etc.
As encantadas e encantados não são espíritos desencarnados; são pessoas, ou animais, que viveram, mas não chegaram a morrer; sofreram antes a experiência do arrebatamento: foram morar no invisível. De vez em quando saem de lá, pegam carona na asa do vento e vêm à terra, no corpo das iniciadas, para dançar, dar conselhos, curar doenças, jogar conversa fora e matar as saudades do povo que continua por aqui.
Mariana é encantada. Uma turca que passou pelo arrebatamento ao chegar ao Brasil, com suas irmãs Rondina e Jarina. Desde então, cruza caboclamente as nossas terras, se apresentando como índia, cigana, marinheira e até mesmo como uma arara de plumagem esplêndida.  
Tomando Mariana como exemplo, percebo que, mais do que fenômeno religioso, a encantaria é um campo fecundo para se pensar as artes da alteridade, do trânsito pelo transe, da necessidade de se relacionar com o outro, da aventura de pensar as linguagens do corpo como campo de possibilidade plurais para experiências de liberdade.
A encantaria traz o cruzamento entre as diferenças que se encontram no arrebatamento. O arrebatado é aquele que se colocou disponível para mudar, alterar o corpo, transformar a experiência, atravessar e enxergar de outras formas a vida como caminho de negação peremptória da morte.
Quem não vê nisso um manancial para a elaboração reflexões descolonizadas é porque está mesmo normatizado pelas gramáticas enfadonhas do desencanto. Para mim, neste aspecto, não há saída para a crise em que estamos mergulhados até o pescoço se nossas perspectivas de reconhecimento do outro não forem alargadas, inclusive no terreno fértil da teoria do conhecimento e das reflexões sobre o ser.
Urge a batalha em todos os humaitás que aparecerem pela frente. Urge o enfrentamento no campo das representatividades formais e na disputa política imediata. Mas isso não contradiz, muito pelo contrário, a tarefa de arrebatar cotidianamente o mundo pela mirada das alterações das gramáticas de percepção da vida, para que não sejamos os cachorros que perseguem os próprios rabos. 
A saída está na nossa cara. Ela exige, todavia, que a resistência seja só um aspecto do ato maior da retomada da existência como potência transformadora de mundo. Reexistir: isso é coisa que Mariana faz em sua trajetória descolonizada e sublime de cabocla da Turquia e, ao mesmo tempo, ararinha nossa. Ela é pássara que, ao burlar a morte, alça o voo maior que a vida que lhe fora reservada.


  (Pai Francelino de Xapanã, sacerdote de vodun que encantou-se em 2007, canta para a cabocla Mariana)

quarta-feira, 1 de junho de 2016

O RACISMO NOSSO DE CADA DIA

Os dias recentes escancararam com dureza o racismo sedimentado na sociedade brasileira. Em curto espaço de tempo um clube de ricaços estabeleceu que babás não podem frequentar os mesmos banheiros que as patroas, uma madame mandou um funcionário de um supermercado voltar para a senzala e uma técnica de enfermagem foi chamada de macaca do cabelo duro dentro de um hospital da marinha.
O racismo é um preconceito que só pode ser compreendido se pensarmos a raça como uma categoria sócio-política-cultural historicamente constituída. É nas nossas praias um fenômeno colonialista, que se manifesta com mais intensidade a partir de percepções das características físicas que denotariam inata inferioridade de alguns grupos sociais; em especial, entre nós, negros e índios.
Engana-se quem acha, porém, que o racismo se limita ao campo da percepção social das características físicas. Ele é um fenômeno que se desdobra em outros campos de percepção. Uma das mais frequentes, praticadas e menos percebida manifestações do racismo, se estabelece a partir da inferiorização dos bens simbólicos daqueles a quem o colonialismo submeteu. Quando consideramos que as crenças, danças, comidas, visões de mundo, formas de celebrar a vida, enterrar os mortos, educar as crianças, etc. de determinados grupo são inferiores, tomando como referência o padrão canônico da tradição ocidental, estamos operando no campo do racismo.
Quando achamos que apenas elementos externos aos índios e africanos podem inseri-los no que supomos ser a história da humanidade – a ciência, o cristianismo, a democracia representativa, a economia de mercado, a escola ocidental, etc. – estamos sendo cordialmente racistas, ainda que cheios de genuína boa vontade. As universidades, com as louváveis e cada vez mais vigorosas exceções que infelizmente ainda confirmam a regra, são centros por excelência de um tipo muito sofisticado de racismo: o epistemológico. Em poucos espaços o saber como projeção de poder é mais intenso e cruel.
Muitas vezes as próprias ações afirmativas – que defendo veementemente – apenas reproduzem o racismo. Quando incluímos os historicamente excluídos nas universidades, sem pensar, todavia, em ampliar o arco de saberes que a universidade ensina, não estaremos apenas corroborando com a desqualificação simbólica das culturas daqueles que tentamos incluir? Índias e negras devem entrar nas universidades para aprender a pensar como europeias deslocadas e confirmar que só é possível filosofar em alemão? Não custa lembrar, como alertava Fanon, que um dos mais cruéis e bem-sucedidos desdobramentos do racismo colonialista é a capacidade de fazer a vítima do preconceito acreditar que a sua cultura é mesmo inferior.
A conclusão desse arrazoado é uma só: a chance de o Brasil lutar contra o racismo é inverter a máxima simplória e desonesta de Ali Khamel e admitir que somos profundamente racistas. Mesmo aqueles que execram o racismo inscrito na impressão física podem ser profundamente racistas nas dimensões simbólicas e mais minuciosas em que o racismo se inscreve como prática.
Você jamais chamaria alguém de macaco, mas acha que macumba é barbárie ou manifestação pitoresca, que batuque é coisa inferior, que só o ocidente produziu formas sofisticadas de se pensar o mundo, que a maracá do pajé é folclore e a cruz é potência encarnada da fé, que uma ópera é grande arte e um desfile de escola de samba é apenas carnaval, que Zeus pode ser ensinado em escolas mas Xangô não pode, que um livro conta histórias e um tambor só faz barulho...? Não se sinta confortável por não achar que um ser humano é um macaco e me permita dizer com todas as letras: isso é racismo também.