terça-feira, 14 de outubro de 2014

CRIANÇAS TRISTES EM RUAS MORTAS


Ultimamente ando matutando nos remansos sobre como a loucura do nosso tempo de indelicadezas maltrata as crianças. Estranho tempo em que a “adultização” das crianças anda ao lado da infantilização dos adultos. E tome de tranquilizantes e sedativos.

Tempo em que estamos (adultos e crianças) um passo além da sociedade de consumo. Já mergulhamos de cabeça, afinal, na sociedade do desejo do consumo, aquele que se esgota quando algo é consumido (o carro, o celular de última geração, o brinquedo eletrônico, o corpo do outro, o próprio corpo...) e outro objeto (coisas e pessoas coisificadas) é imediatamente desejado. Um ciclo de frustração, euforia e morte.

Tempo em que a agonia da rua como lugar de encontro – derrotada pela rua vista como ponto de passagem e circulação de bens– redefine até os padrões das amizades infantis. Sem a rua para brincar, as crianças acabam construindo amizades circunscritas ao ambiente das famílias, creches e escolas.

A limitação das amizades de escola é a seguinte: os alunos de uma mesma turma são submetidos ao mesmo padrão de aprendizagem. A escola ocidental, fundamentada no ensino seriado e na fragmentação de conteúdos, é normativa sempre e padroniza comportamentos mesmo quando adota linhas alternativas. O alternativo aí, afinal, vira padrão para o grupo. E a diferença? A rua poderia resolver isso.

Se a escola normatiza, a rua deveria ser o ponto de encontro capaz de permitir o convívio entre os diferentes, desestabilizando o padrão. Em tempos menos afoitos, cada criança trazia as bagagens de experiências distintas, na casa e na escola, que eram trocadas na rua de forma lúdica e docemente descompromissada, em um processo enriquecedor, a partir do ato de brincar.  Mas isso simplesmente não é possível nesse padrão de cidade desencantada que nos engole sem piedade.

Para brincar, afinal, há que se ter disponibilidade de tempo e espaço e há que se ter a escassez que permite a invenção. As crianças de hoje não têm nada disso; atoladas em múltiplas atividades, reféns do consumo do objeto vendido pronto, e confinadas entre muros concretos e/ou imaginários; erguidos de cimentos e medos.

A cidade que deveria proporcionar a circulação de saberes é cada vez mais a cidade que proporciona só a circulação de mercadorias e monstros sobre rodas (estranha sociedade a nossa, que sacraliza o carro e profana o rio). Nela, a rua como espaço de interação social entre crianças está morrendo. Eu fiz nas ruas grandes amigos; meu filho provavelmente não os fará.

O fenômeno, ao menos no Rio de Janeiro, minha circunstância, não é restrito a setores da classe média. Alguns fatores - como a gentrificação que envolve os grandes eventos; as remoções que desarticulam vivências; o trânsito caótico; a normatização estabelecida, com nuances, por milícias, igrejas neo-pentecostais, tráficos e upps - alteraram profundamente a dinâmica das brincadeiras de rua nas favelas e na hinterlândia carioca.


A cidade em que a criança não brinca é o sanatório dos adultos. A cidade em que os adultos só trabalham é um presídio de crianças. E poucos parecem considerar essa questão como de fato ela é: urgente e necessária; antes que às crianças restem apenas aplicativos de última geração, presenteados por pais ausentes, que rodem o pião que não tem mais chão e empinem a pipa que não tem mais céu.

domingo, 5 de outubro de 2014

ROCINANTE DE PEDAIS


(Texto publicado no jornal O Dia, edição de 05/10/2014)

Dia desses acordei com a disposição de escrever uma daquelas confissões que só cogitava fazer depois de morto, diretamente do beleléu, usando como aparelho um médium de mesa espírita. Admito que a coisa seja impactante: tenho particulares saudades do período do milagre econômico brasileiro, na década de 1970.

 Antes que me acusem de conivência com as barbaridades do regime militar (eu era um moleque que ainda tomava mamadeiras enquanto o pau quebrava), esclareço a razão de minha afetuosa relação com aqueles tempos. Graças ao milagre a minha família teve condições de presentear-me com o meu primeiro e inesquecível veículo: um velotrol de última geração. E o primeiro velotrol, é claro, ninguém esquece.

 Foi com ele, o meu valente Rocinante de pedais, que sonhei atravessar a ponte Rio-Niterói. Nem a pororoca amazônica mostrada no programa do Amaral Neto seria páreo para meu possante vermelho com encosto móvel. Para completar o quadro, ganhei de aniversário imensos óculos escuros iguais aos do Emerson Fittipaldi, um capacete com meu nome e um macacão verde e amarelo de piloto.

 O velotrol estava presente, inclusive, em meus devaneios sentimentais. Era com ele que eu pretendia fugir com minha primeira paixão - a mocinha do Tivoli Parque que se transformava na Konga, a mulher gorila. Quando a mocinha, vestida com um sensual maiô cheio de lantejoulas douradas, fechava os olhos para virar a macaca, meu bilau de menino ensaiava um crescimento similar ao dos índices da economia brasileira. Imaginei um dia colocá-la na garupa do velotrol e me empirulitar pela Transamazônica, para que ela só virasse a Konga para mim e mais ninguém.

 Entre os sonhos românticos com a Konga e a vida de piloto de velocidade, a minha infância corria feliz. João Nogueira louvava o mar das duzentas milhas, Zé Ketti fazia samba para o Mobral, Jorge Ben louvava o país abençoado por Deus, Benito di Paula mostrava ao Charlie Browm as maravilhas da Bahia de Caetano e a Beija Flor desfilava com um samba de exaltação aos milicos.

 Sem desconfiar que o país vivesse anos de chumbo, delirando a vida feliz sem conceber a dor dos porões, eu acreditava mesmo que ninguém segura a juventude do Brasil, ainda mais a bordo de um velotrol mais rápido que o Concorde.

 Noves fora os delírios do menino que fui, hoje é dia de eleição e meu filho ganhou recentemente o primeiro velotrol dele. E que bom saber que, ao contrário do pai, o moleque poderá inventar um mundo encantado em tempos de democracia.

 Bons votos.

 

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

LEVY FIDELIX E O CURUPIRA

Eu conheci uma senhora do santo que trabalhava em rodas de encantaria com o Curupira. Maria dos Anjos, era esse o seu nome, não só incorporava o encantado das matas como também recebia a princesa Toia Jarina, tremenda entidade da guma brasileira [ o ponto de Dona Jarina, aliás, é lindíssimo: Jarina é flor, é flor do mar / ela é flor de laranjeira / é flor do mar...] . É, meus velhos, eu vi Jarina dançar e o caboclinho das matas pular serelepe numa roda de encantados.
Outro dia mesmo me lembrei da Dos Anjos. É que ando clamando pela participação do Curupira no processo eleitoral. O Curupira está fazendo falta no atual e decisivo momento político brasileiro. Explico, para não acharem que endoidei de vez.
O Curupira é matreiro. Gosta de pinga e fumo e costuma iludir os caçadores que entram na floresta e esquecem de lhe oferecer agrados. Quem entra na mata sem agradar ao Curupira termina mais perdido que cebola em salada de fruta. É também o protetor de todas as árvores das florestas. Quando arma-se alguma tempestade, o caboclinho verifica árvore por árvore, percute-lhes o tronco e as sapopemas, para saber se resistirão aos tormentos do temporal. Câmara Cascudo registra que no Alto Amazonas ele bate com o calcanhar ; no rio Tapajós, bate com o machado feito de casco de jabuti; no Baixo Amazonas, bate com o pênis imenso!
Ando matutando na possibilidade de dar um jeito de mandar Levy Fidelix para os confins do Baixo Amazonas. Como o sujeito entende tanto de cultura brasileira como eu de física quântica - necas de pitibiribas - certamente esquecerá de levar fumo e pinga para agradar ao Curupira. Enganado por um enfurecido ente fabuloso , Fidelix irá se perder para todo o sempre nas imensidões amazônicas. Eu apoio.
Pensei, inclusive, em um final perfeito, mais que desejado, para esse projeto político. Imaginem a ameaça de um temporal arrasador nos confins da mata. O Curupira, de pau duro, sai batendo com a assombrosa jeba nas árvores para verificar se elas resistirão. Nesse instante, Fidelix, o paladino da família brasileira, está, desavisado e perdidinho da silva, bancando a estátua ao lado de uma sapopema gigantesca. O encantado vem chegando, com o báculo episcopal em ponto de bala...
Erra o alvo, Curupira, erra...

POLÍTICA

Ando convencido faz tempo da necessidade de ao menos ousarmos questionar os modelos ocidentais de interpretação do mundo, aqueles que produzem um radical desencantamento da vida. É disso que falo e escrevo no meu ofício.

Nasci em uma família que cultuava os orixás e encantados. A avó que me criou era uma yalorixá pernambucana radicada no Rio de Janeiro e comandava um terreiro de xambá e encantaria em Nova Iguaçu. Para os que não sabem, o xambá é um culto de origem nagô, como os candomblés da Bahia, fortemente mesclado com elementos bantos e ameríndios.

Cresci no terreiro, fascinado pela dança magnífica dos orixás, impressionado pela imponência dos caboclos e seduzido pelo toque misterioso dos tambores que enchiam de encantamento as minhas madrugadas.

Quando entrei para a faculdade de História, com a arrogância clássica de alguns estudantes das ciências humanas, achei que eu seria capaz de entender o mundo, compreender os anseios do povo e apresentar soluções políticas messiânicas para os males sociais negando o legado da minha avó ( o ópio do povo, ora bolas). Declarei com vigor meu ateísmo.

Um dia reencontrei o toque dos tambores. Mergulhei sem receios, compartilhei da mesa farta das comidas de santo e fui consagrado, sob a condução de Ogum, meu pai, sacerdote de Ifá na tradição afro-caribenha, reestruturando o elo de ancestralidade que a minha velha avó teceu.

Se eu faço política? Claro que sim. Eu faço política quando canto, toco, danço, imolo animais, respeito os mistérios do rio, evoco meus ancestrais na casa de egun e digo aos arrogantes de plantão que cultuo os deuses que atravessaram o Atlântico nos porões imundos dos tumbeiros para inventar a vida onde amiúde ela não poderia existir. Eu faço política quando rezo as folhas e encanto com meu canto a jurema da matas do Brasil.

Orunmilá, o senhor do Ifá, conhecedor dos destinos, determinou que assim fosse. Ogum autorizou. Obatalá é o dono da minha casa - meu ilê. Exu, o compadre, mora na minha varanda, vive na minha esquina e me acompanha nas cervejas e batuques; ele bate comigo palmas ritmadas no compasso do partido alto. É dele, sempre será dele, Exu Odara, o senhor da alegria, o primeiro gole de cada entardecer da minha vida.

E não admito andar de cabeça baixa e nem me envergonhar do legado dos meus ancestrais (quando criança, tive em certa ocasião vergonha de dizer no colégio que era do santo; dessa fala que não saiu da minha boca eu nunca mais esqueci e o silêncio constrangido do menino ainda grita no homem que sou).

Como escrevi dia desses, a minha vida eu mesmo encanto. Ritualizo. Nas encruzilhadas, peço licença ao invisível e sigo, herdeiro miúdo do espírito humano, fazendo do espanto o fio condutor da boa sorte.

Eu, que sou de encruzilhadas, desconfio é das gentes do caminho reto.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

TEMPO DE PIPA

Amizades, já estão abertas as incrições para a aula cantada que darei no Al-Farabi no dia 11 de outubro. Infelizmente temos poucas vagas. O crescimento das cidades e o avanço da urbanização, com as decorrências desse processo, alteraram profundamente as maneiras como as crianças se divertem. A falta do espaço público para as brincadeiras infantis redefiniu com rapidez as maneiras de a molecada interagir, fabular, pular, dançar, correr e inventar o mundo. Tentarei traçar um painel afetivo desse processo. A pipa, a carniça, a bola de gude, os balões e os piques podem fornecer pistas interessantes para que pensemos a cidade e suas contradições.

sábado, 13 de setembro de 2014

PÁTRIA

O menino me pergunta o que é a pátria. Fosse numa mesa de cientistas sociais, dissecaríamos o conceito e os perigos que dele emanam. Quem pergunta, todavia, é um menino de calças curtas.  E logo para mim, pouco afeito aos hinos, bandeiras, heróis e fronteiras defendidas.

A pátria, o menino quer saber, é o que me arrepia e pinga de luz incerta a escuridão do mundo. E aí eu digo ao menino que tenho pátria, como não? A pátria é o chão em que piso, a língua que falo e a canção que ouço. O menino entende.

O que fazer, senhores, se fui picado por essa víbora irracional do amor pelo meu chão modesto e sua gente miúda? A minha razão é internacionalista; meu coração, todavia, balança numa redinha da terra da minha avó, lá nos cafundós das Alagoas. O que fazer se escuto ainda os pregoeiros de Caruaru e sinto o cheiro do fumo de rolo, exatamente como da primeira vez que cruzei a feira nos braços do meu pai?

O que fazer se o encanto com os ijexás, o assombros com os transes dos caboclos de pena e as mãos calejadas que seguram a corda de Nossa Senhora de Nazaré produzem em mim a inarredável sensação de pertencimento?

O que fazer quando o repique anuncia a entrada da bateria, quando o sax fraseia Pixinguinha, quando o baque virado dos tambores misteriosos desperta a hora grande, quando o rum vira para Oyá domar o afefé e pairar, soberana entre relâmpagos, sobre o resto do mundo?

Vez por outra desconfio que a humanidade fracassou. Basta, todavia, uma simples canção de Caymmi para que se restaure em mim a espantosa crença na vida. Basta Luiz Gonzaga para que a beleza intangível do fole de Lua me reconcilie com o Espírito do Homem, aquele mesmo que se perdeu na noite que não se acaba.

A minha pátria, bem distante do patriotismo tonto, último reduto dos canalhas, é o delírio que me conforta. É aquilo que ilumina meus olhos, rega meu peito e acaricia as minhas palavras, para que eu conte as histórias que ouvi do meu avô ao meu filho, no contínuo descortinar da vida; arte maior de tremer o chão com o ixan sagrado e reverenciar o mistério intuído dos ancestrais.

A minha pátria, menino, é a Légua Tirana.

 

sábado, 6 de setembro de 2014

DECLARAÇÃO DE VOTO


Já que os amigos insistem numa declaração pública sobre quem eu apoio nessas eleições, resolvi sair do muro: sempre fui e continuarei sendo Emilinha Borba. Não, eu não vivi a Era do Rádio, mas cresci numa família que me deu boas referências musicais; suficientes para que a Favorita da Marinha seja a minha cantora de Carnaval predileta. E a coisa é séria.

Ganhe Dilma ou Marina, é Emilinha que continuará presente em todos os dias da minha vida. Quando menos espero, alguma marchinha que a Emilinha cantou atravessa meu caminho. Exemplifico com uma história curtinha.

Toda vez que subo num avião tenho a firme convicção de que o bicho vai cair. Me preparo para fazer algumas orações aos deuses. Ocorre, porém, estranho fenômeno, daqueles que o sujeito só deveria confessar ao médium de mesa branca depois da morte: invariavelmente, na hora em que tento rezar, esqueço as palavras sagradas e troco o pai nosso, a oração do livro da capa de aço de São Cipriano, o ponto de caboclo, o mantra indiano, pelo refrão :

Se a canoa não virar
Olê Olê Olá
Eu chego lá

Houve uma ocasião em que o bicho pegou. Estava indo à Cuba - missão macumbal - em um avião da Cubana de Aviacion que mais parecia o irmão do meio do 14 Bis. A geringonça, um Antonov de fabricação soviética, era, para usar o termo apropriado, uma banheira. Embarquei motivado por uma quantidade industrial de álcool, que eu não sou trouxa de chegar de cara limpa pro acerto de contas com o Zé Maria.

Mal aquela espécie de carro de boi alado começou a se preparar para a decolagem, veio o sinal de alerta. Problemas no combustível. Saiu todo mundo. Mais bebida, que ninguém é de ferro.

Voltamos ao avião. O piloto, com voz de dublador de filme de vampiro, anunciou uma pane no sistema de refrigeração. Aeromoças que mais pareciam personagens do Almodóvar se entreolhavam. Descemos novamente. Fui tomar um negocinho pra descontrair.

Voltamos ao avião mais uma vez, depois de algumas horas. O clima entre os passageiros era de comoção absoluta. Pairava entre as poltronas a sombra da indesejada das gentes. Uma dona, que tentava manter a calma, sugeriu que os passageiros orassem pelo sucesso da empreitada. Ela mesma puxou um pai nosso e uma ave maria.

Me pareceu, confesso, que aquilo estava mais para extrema-unção coletiva que outra coisa. Em desespero, um cidadão ao meu lado jurou que a velha tinha terminado a reza com um profético "agora é a hora de nossa morte, amém".

Ela perguntou, então, se alguém gostaria de orar representando algum outro credo religioso. Cheio de goró, considerei minha função evocar os orixás, caboclos e encantados. Com o arrojo de um Garrincha deixando o João estatelado, gritei: eu rezo!

Concentrei-me e mandei na lata. Quem disse que saiu alguma rogação? Nem a pau. Como por encanto, da minha boca saíram os versos da Marcha do Remador, cantados, inclusive, com a modificação singela que as torcidas faziam no Maracanã:

Se essa porra não virar
Olê Olê Olá
Eu chego lá!

Subitamente, em completo descontrole e impactado pela lembrança da voz da Emilinha, comecei a pular como se estivesse na matinê do baile do Municipal aos sete anos de idade, cantando a marcha aos berros. Pensam que fui seguido por um coro? Nadica. Pelo contrário. Fracasso absoluto.

A senhora ficou puta dentro da roupa, os passageiros me chamaram de palhaço pra baixo e eu, solitário, encolhido como pinto no ovo, afundei-me na poltrona e fechei os olhos. Um sujeito ao meu lado disse apenas: você tem sérios problemas.

É, talvez tenha. Como acredito, porém, que maiores são os poderes do povo, desisti de lutar contra o que é mais forte que eu. Hoje, se a onça ameaça beber água, não tem pai nosso, ave maria, ponto de macumba, pajelança ou coisa que o valha. Mando logo uma pra dentro em honra do compadre, seguro firme a guia do azulão e digo na lata, caprichando no gogó, a Marcha do Remador.

É que nem São Longuinho, rapaziada. Ninguém leva fé, mas funciona que é uma beleza.


Abraços.