quinta-feira, 18 de setembro de 2014

TEMPO DE PIPA

Amizades, já estão abertas as incrições para a aula cantada que darei no Al-Farabi no dia 11 de outubro. Infelizmente temos poucas vagas. O crescimento das cidades e o avanço da urbanização, com as decorrências desse processo, alteraram profundamente as maneiras como as crianças se divertem. A falta do espaço público para as brincadeiras infantis redefiniu com rapidez as maneiras de a molecada interagir, fabular, pular, dançar, correr e inventar o mundo. Tentarei traçar um painel afetivo desse processo. A pipa, a carniça, a bola de gude, os balões e os piques podem fornecer pistas interessantes para que pensemos a cidade e suas contradições.

sábado, 13 de setembro de 2014

PÁTRIA

O menino me pergunta o que é a pátria. Fosse numa mesa de cientistas sociais, dissecaríamos o conceito e os perigos que dele emanam. Quem pergunta, todavia, é um menino de calças curtas.  E logo para mim, pouco afeito aos hinos, bandeiras, heróis e fronteiras defendidas.

A pátria, o menino quer saber, é o que me arrepia e pinga de luz incerta a escuridão do mundo. E aí eu digo ao menino que tenho pátria, como não? A pátria é o chão em que piso, a língua que falo e a canção que ouço. O menino entende.

O que fazer, senhores, se fui picado por essa víbora irracional do amor pelo meu chão modesto e sua gente miúda? A minha razão é internacionalista; meu coração, todavia, balança numa redinha da terra da minha avó, lá nos cafundós das Alagoas. O que fazer se escuto ainda os pregoeiros de Caruaru e sinto o cheiro do fumo de rolo, exatamente como da primeira vez que cruzei a feira nos braços do meu pai?

O que fazer se o encanto com os ijexás, o assombros com os transes dos caboclos de pena e as mãos calejadas que seguram a corda de Nossa Senhora de Nazaré produzem em mim a inarredável sensação de pertencimento?

O que fazer quando o repique anuncia a entrada da bateria, quando o sax fraseia Pixinguinha, quando o baque virado dos tambores misteriosos desperta a hora grande, quando o rum vira para Oyá domar o afefé e pairar, soberana entre relâmpagos, sobre o resto do mundo?

Vez por outra desconfio que a humanidade fracassou. Basta, todavia, uma simples canção de Caymmi para que se restaure em mim a espantosa crença na vida. Basta Luiz Gonzaga para que a beleza intangível do fole de Lua me reconcilie com o Espírito do Homem, aquele mesmo que se perdeu na noite que não se acaba.

A minha pátria, bem distante do patriotismo tonto, último reduto dos canalhas, é o delírio que me conforta. É aquilo que ilumina meus olhos, rega meu peito e acaricia as minhas palavras, para que eu conte as histórias que ouvi do meu avô ao meu filho, no contínuo descortinar da vida; arte maior de tremer o chão com o ixan sagrado e reverenciar o mistério intuído dos ancestrais.

A minha pátria, menino, é a Légua Tirana.

 

sábado, 6 de setembro de 2014

DECLARAÇÃO DE VOTO


Já que os amigos insistem numa declaração pública sobre quem eu apoio nessas eleições, resolvi sair do muro: sempre fui e continuarei sendo Emilinha Borba. Não, eu não vivi a Era do Rádio, mas cresci numa família que me deu boas referências musicais; suficientes para que a Favorita da Marinha seja a minha cantora de Carnaval predileta. E a coisa é séria.

Ganhe Dilma ou Marina, é Emilinha que continuará presente em todos os dias da minha vida. Quando menos espero, alguma marchinha que a Emilinha cantou atravessa meu caminho. Exemplifico com uma história curtinha.

Toda vez que subo num avião tenho a firme convicção de que o bicho vai cair. Me preparo para fazer algumas orações aos deuses. Ocorre, porém, estranho fenômeno, daqueles que o sujeito só deveria confessar ao médium de mesa branca depois da morte: invariavelmente, na hora em que tento rezar, esqueço as palavras sagradas e troco o pai nosso, a oração do livro da capa de aço de São Cipriano, o ponto de caboclo, o mantra indiano, pelo refrão :

Se a canoa não virar
Olê Olê Olá
Eu chego lá

Houve uma ocasião em que o bicho pegou. Estava indo à Cuba - missão macumbal - em um avião da Cubana de Aviacion que mais parecia o irmão do meio do 14 Bis. A geringonça, um Antonov de fabricação soviética, era, para usar o termo apropriado, uma banheira. Embarquei motivado por uma quantidade industrial de álcool, que eu não sou trouxa de chegar de cara limpa pro acerto de contas com o Zé Maria.

Mal aquela espécie de carro de boi alado começou a se preparar para a decolagem, veio o sinal de alerta. Problemas no combustível. Saiu todo mundo. Mais bebida, que ninguém é de ferro.

Voltamos ao avião. O piloto, com voz de dublador de filme de vampiro, anunciou uma pane no sistema de refrigeração. Aeromoças que mais pareciam personagens do Almodóvar se entreolhavam. Descemos novamente. Fui tomar um negocinho pra descontrair.

Voltamos ao avião mais uma vez, depois de algumas horas. O clima entre os passageiros era de comoção absoluta. Pairava entre as poltronas a sombra da indesejada das gentes. Uma dona, que tentava manter a calma, sugeriu que os passageiros orassem pelo sucesso da empreitada. Ela mesma puxou um pai nosso e uma ave maria.

Me pareceu, confesso, que aquilo estava mais para extrema-unção coletiva que outra coisa. Em desespero, um cidadão ao meu lado jurou que a velha tinha terminado a reza com um profético "agora é a hora de nossa morte, amém".

Ela perguntou, então, se alguém gostaria de orar representando algum outro credo religioso. Cheio de goró, considerei minha função evocar os orixás, caboclos e encantados. Com o arrojo de um Garrincha deixando o João estatelado, gritei: eu rezo!

Concentrei-me e mandei na lata. Quem disse que saiu alguma rogação? Nem a pau. Como por encanto, da minha boca saíram os versos da Marcha do Remador, cantados, inclusive, com a modificação singela que as torcidas faziam no Maracanã:

Se essa porra não virar
Olê Olê Olá
Eu chego lá!

Subitamente, em completo descontrole e impactado pela lembrança da voz da Emilinha, comecei a pular como se estivesse na matinê do baile do Municipal aos sete anos de idade, cantando a marcha aos berros. Pensam que fui seguido por um coro? Nadica. Pelo contrário. Fracasso absoluto.

A senhora ficou puta dentro da roupa, os passageiros me chamaram de palhaço pra baixo e eu, solitário, encolhido como pinto no ovo, afundei-me na poltrona e fechei os olhos. Um sujeito ao meu lado disse apenas: você tem sérios problemas.

É, talvez tenha. Como acredito, porém, que maiores são os poderes do povo, desisti de lutar contra o que é mais forte que eu. Hoje, se a onça ameaça beber água, não tem pai nosso, ave maria, ponto de macumba, pajelança ou coisa que o valha. Mando logo uma pra dentro em honra do compadre, seguro firme a guia do azulão e digo na lata, caprichando no gogó, a Marcha do Remador.

É que nem São Longuinho, rapaziada. Ninguém leva fé, mas funciona que é uma beleza.


Abraços.



domingo, 6 de julho de 2014

A ALMA DA TIJUCA

Pertinho das águas caudalosas do Trapicheiro, na encruza da São Francisco Xavier com o ponto em que a Conde de Bonfim vira Hadocck Lobo, estende-se o Largo da Segunda-Feira, um dos centros de referência da Tijuca.


Naquele ponto, em 1762, existia um canavial, herança dos tempos em que os jesuítas ocuparam o pedaço, cortado por um riachinho sobre o qual havia uma ponte. Em certa segunda-feira, ao lado da ponte, mataram um sujeito (coisa de traição à sorrelfa), jogaram a cabeça do presunto nas águas e enterraram o corpo no local. Uma cruz foi erguida para encomendar o defunto (foi retirada em 1880) e o larguinho passou a ser chamado pelo dia do crime: da Segunda-Feira.


Considero o Largo da Segunda-Feira um ponto ideal para feitiços e mandingas de todos os tipos: encruzilhada, assassinato, defunto enterrado, olhos vazados, cabeça jogada no arroio. É tiro e queda, como diria minha avó.


Há quem afirme que o defunto em questão vaga pela Tijuca com a maior desfaçatez, ignorando a morte e se comportando como se estivesse vivinho da silva. Come sambiquira no bar do Joel e cabrito no Chico; escolhe sapatos no Figueiredo, o Rei das Chinelas; saboreia ostras no Britânia; bebe chá de macaco no Bode Cheiroso; traça sardinhas na Casa da Vila da Feira e Terras de Santa Maria; dança o vira na Casa dos Açores. Quando quer fazer umas saliências com defuntas frescas, o egum do Largo da Segunda-Feira sassarica no Hotel Bariloche.

A assombração tijucana é nostálgica. Tem saudades do mercadinho Berengo, do Bonde 66, da saideira no Eden; da Fábrica das Chitas; dos cines Olinda, Madri, América; e das porrancas no Divino. Como sabe das coisas, o presunto adora vagar pela Caruso, a única rua art-decô da cidade, cheia de fantasmas habitando seus casarões. Cansou de admirar o desfile das colegiais do Lafayette descendo a Conde de Bonfim.

Conviveu com os marinheiros, varredores de rua, vendedores de frutas, lavadeiras, domésticas e operários que ocuparam o morro do Salgueiro. Jogou ronda com Antenor Gargalhada, vigia da Fábrica de Cerveja Hanseática, foi na onda do Anescar, gostou do vozeirão do Noel Rosa de Oliveira, brincou carnaval no Flor dos Camiseiros e lustrou sapatos com o Bala. Benzeu-se nos capuchinhos e firmou ponto no gongá de Maria Romana.

É por isso que dou aos amigos uma dica preciosa. Passeie e jogue conversa fora nos botequins da Tijuca. O desconhecido que puxa o papo pode ser o fantasma do Largo da Segunda-Feira; alma perene que por amor ao chão da aldeia ignorou a morte e permanece, tijucanamente, entre nós.  

 

 

segunda-feira, 23 de junho de 2014

O DIA EM QUE TEIXEIRINHA MATOU CHACRINHA

(Texto publicado na coluna Coisas Nossas, do jornal O Dia, de 22/06/2014)
Em seus primeiros tempos no Rio de Janeiro (era pernambucano de Surubim) Abelardo Barbosa foi locutor de vendas da loja "O Toalheiro".  Descoberto por um diretor da Rádio Clube de Niterói, emissora que tinha como sede uma chácara em Icaraí, comandou um programa de carnaval cujo nome fazia referência ao local de onde era transmitido: O Rei Momo na Chacrinha. A pequena chácara de onde a Rádio Clube transmitia sua programação virou o apelido definitivo de Abelardo.
 
O programa fez sucesso em razão das extravagâncias de Chacrinha, que recebia convidados de toalhas de banho, fraldas e babador. Dependendo da marchinha que estivesse nas paradas, aparecia de árabe, colombina, índio, pirata ou tirolês. Certa feita ameaçou tirar a roupa na frente da atriz Zezé Macedo. A polícia invadiu a chácara para evitar o streaptease. Vêm desta época alguns bordões (Terezinha! Vocês querem bacalhau?) que posteriormente marcaram a atuação de Chacrinha na televisão.
 
Curioso foi o papel exercido pelo comunicador nos anos de chumbo do regime militar. Os críticos do regime acusavam Chacrinha de promover a alienação política das massas, jogando bacalhaus para a platéia, buzinando calouros e divulgando astros da música cafona.
 
O regime, por sua vez, investigou Chacrinha, que prestou esclarecimentos ao departamento de censura federal sobre a acusação de que promovia pornografia barata, expunha mulheres seminuas no palco e fazia macumba ao vivo (referiam-se ao dia em que o exu Seu Sete da Lira baixou no programa, deu passes na plateia e foi entrevistado).
 
Minha história predileta do Chacrinha é dos tempos da rádio. Um dia, enquanto o gaúcho Teixeirinha cantava Coração de Luto, canção popularmente conhecida como “churrasquinho de mãe”, Chacrinha simulou um enfarto sob forte emoção.
 
Boatos sobre a morte de Chacrinha no ar - fulminado pelo impacto da música, que contava a história de uma mãe morta num incêndio na ótica do filho órfão - levaram uma multidão à sede da emissora. O próprio apresentador ligou clandestinamente para uma funerária para que enviassem um caixão para o "comunicador Chacrinha". A confusão terminou com a rádio patrulha levando o menino levado da breca para a delegacia, por subversão da ordem.
 
Chacrinha, como se percebe, fundiu a cuca dos revolucionários de esquerda e dos reacionários de direita. Não era fácil mesmo entender o maluco genial que preferia confundir; velho guerreiro e palhaço do pastoril, síntese ambulante das nossas cafonices bacanas. 

 

terça-feira, 10 de junho de 2014

A SARAMANDAIZAÇÃO CHACRINIANA E SUCUPIRESCA DO JOGO

Eu já vi coisas no Brasil da rebimboca da parafuseta. O fato de ser nascido e criado num terreiro me fez, desde pequeno, achar que as coisas mais extraordinárias são perfeitamente normais neste extremo ocidente. Cresci na encruzilhada das maravilhas. Vi um curupira incorporado numa dona; vi turista japonês virado no seu Sete Cachoeiras; vi seu Zezé Macumba imitar bode para amarrar time adversário na várzea; cruzei com presunto desovado pelo Mão Branca que, soube  depois, ressuscitou e pediu um chá de macaco; assisti Toninho Itabaiana incorporar o Barão Langsdorff; tive uma tia carola (única católica praticante da família) que deixou expresso em testamento que queria ser enterrada com um bonequinho de seu Tranca Rua; vi um padre parapsicólogo alemão exorcizar um filé de peixe depois de tomar  uns birinaites e ser aplaudido.
 
Não me surpreendem, portanto, as maluquices extraordinárias que já ocorreram na Copa do Mundo, antes mesmo de o certame começar: índios pataxós cantaram parabéns para Miroslav Klose; três pés de cana fizeram Manoel Neuer e Bastien Schweinsteiger gritarem, dando saltinhos, Bahêa! durante o hino do tricolor; baianos foram a um amistoso da Croácia levando toalhas de mesa como bandeiras; um aracnídeo atacou um australiano; um maníaco sacou a peixeira durante o treino da Colômbia.
 
Tem mais. Cinco mil gaúchos, vestidos como se fossem para a Guerra dos Farrapos, receberam a delegação do Equador dançando o "bota aqui o seu pezinho"; um português ciclista, descrito por quem o conhece como completamente maluco, comunicou que vai se atirar de bicicleta na frente do ônibus de Portugal; Arjeen Robin quase se afogou na praia de Ipanema; o bebê Drogbinha invadiu o treino da Costa do Marfim para conhecer Drogba.
 
Não parou aí: Eto´o citou Obina; os mexicanos usaram 99 táxis para ir ao treino em Santos; chilenos trouxeram terra de uma mina soterrada para estimular a seleção; os ingleses esqueceram um jogador trancado no hotel; a Rússia pediu um amistoso e arrumou um jogo contra o Ituano; os croatas perderam a hora do treino porque foram à praia; um mineiro disse que ia envenenar a seleção argentina; hondurenhos resolveram acampar em um cemitério e quase mataram um coveiro de susto; Mário Balotelli, inspirado pelo cenário de Mangaratiba, pediu a namorada em casamento; o cara de pau do tradutor da seleção espanhola revelou finalmente, depois de surtar num coletiva, que tem uma limitação para o trabalho, a de não falar espanhol.
 
Desde já defini este momento como o de "sucupirização saramandaiesca e chacriniana" do padrão FIFA. No meio da venalidade do capo Blatter e seus comparsas, é perfeita a definição do Impedimento, o melhor blog de futebol que conheço. Cito:  Antes mesmo de o torneio começar já temos uns causos tão sensacionais que fazem lembrar que por trás dos cartolas, dos desmandos e das politicagens ainda persistem o futebol e as pessoas.
 
É essa dimensão humana, ponto de viração do mundo, que sempre me interessou. Os que me conhecem sabem que meu olhar é o da fabulação das miudezas; distante das análises sociológicas (não tenho instrumental para fazê-las), das exortações nacionalistas furiosas (não tenho convicção para calçar as chuteiras da pátria), das militâncias diretas contra os canalhas que roubaram o jogo; e posturas similares.
 
Relevem. Cresci na fronteira do extraordinário, conversando com pretos velhos de duzentos anos, malandros do início do século XX, prostitutas sevilhanas assassinadas a facadas que viraram pombagiras no Brasil; bugres combatentes da Guerra do Paraguai, mestres juremeiros e personagens do gênero.
 
Minha avó, quando nasci, entregou-me no meio de uma noite grande aos cuidados da dindinha lua, para que ela cuidasse dos meus passos. É a dindinha (ela nunca me faltou) que ilumina com a luz que não tem as coisas que clareiam o mundo deste que vos digita.

Termino profetizando: em breve, se o ritmo dos acontecimentos continuar assim, teremos algum craque alemão virando na Padilha em alguma arena afrescalhada .

Tomara.
 
 

segunda-feira, 2 de junho de 2014

ALTOS!

Várias brincadeiras de criança envolvem algum tipo de perseguição. Penso no pique pega (há quem diga que a brincadeira vem da Idade Média européia, chega ao Brasil com os portugas e é popularizada pelos escravos, simulando no fuzuê a fuga do feitor). Fulano sai correndo atrás dos beltranos com o intuito de pegar alguém. O bocó alcançado troca de função com quem o capturou e passa a correr atrás dos outros. Os perseguidos, entretanto, têm uma alternativa para se safar: pedir altos e sair de fininho.
 
Existem várias maneiras de se pedir altos. Levantar a mão fazendo o V da vitória e anunciar que ninguém pode te pegar é a mais comum. O altos também é conseguido colocando-se em um plano superior em relação ao oponente (a expressão viria daí). É só subir num banco, numa pedra ou pendurar-se num galho de árvore.
 
O altos está para as folganças infantis como o cessar fogo para os conflitos militares. Ao sair da condição, com a bateria recarregada, é hora de meter bronca, engatar a quarta marcha e continuar a brincadeira.
Lembro-me que nos meus tempos de moleque rolava a polêmica no meio de um polícia e ladrão. Sempre havia o cara de pau que dava o migué de pedir altos no momento de ser capturado e saía caminhando como se nem estivesse aí. Começava, então, o clássico diálogo:
 
- Altos!
 
- Que? Não vale!
 
- Vale! Ninguém toca em mim.
 
- Mas eu toquei antes!
 
- Não tocou nem a pau. Eu pedi altos primeiro.
 
Penso nas brincadeiras infantis para defender que todo ser humano tenha o direito de pedir altos de vez em quando. Não há quem aguente os atropelos da vida sem a pausa para o cochilo, a pelada de fim de semana, a roda de samba, a novela, a fofoca de portão, a paquera, o amasso apaixonado, o churrasquinho, o jogo de damas, o bolo de fubá e o chá de macaco no boteco.
 
Somos diariamente espremidos por uma lógica maluca que nos faz trabalhar muito, dormir pouco, mofar em engarrafamentos e não brincar mais. O pique é sério na cidade desencantada. Corremos em círculos para escapar do monstrinho da vida urbana, cheio de braços para nos alcançar, nessa fábrica de insanos movida a antidepressivos e bordoadas diárias. O bicho assusta. Há, porém, uma solução para recuperar o fôlego: vez por outra é bom fazer cara de paisagem e ficar um pouquinho de flozô, passeando nos aros da lua.
 
Quando a angústia do perrengue quer pegar sem piedade, nada melhor que levantar o braço, parar de correr, abrir o sorriso malandro e a cerveja gelada, dar uma banana para os compromissos, chutar o balde dos deveres e dizer para o tempo que escraviza, o trabalho que acorrenta e os chatos que incomodam:
 
- Altos!