quarta-feira, 20 de julho de 2016

ESCOLA SEM PARTIDO

Eu entrei em uma faculdade de História com um objetivo profissional: dar aulas para crianças e adolescentes. Não entrei pensando em fazer carreira acadêmica ou pesquisa; entrei para ser professor de escola e isso é o que mais gosto de fazer. Com o tempo, percebi que gosto de ver a rua na escola e a escola na rua. Já dei aulas em praças públicas, feiras livres, universidades, quadras de escolas de samba, botequins, clubes, cemitério, cinema, casa abandonada, acampamento de sem terras, tenda espírita, terreiro de macumba, livraria, restaurante, museu, barracão de escola de samba, festa de São João, chegada de Papai Noel e campinho de futebol. Dei palestra na Academia Brasileira de Letras, na UFRJ, na UERJ, na PUC e na Vila Mimosa. E sempre, sempre, concebendo isso como extensão da escola.
Minha experiência é de bicho de sala de aula. Afirmo, portanto, que não existe escola democrática sem a ideia de negociação permanente. A escola sem conflitos é uma instituição defunta. Neste sentido, a interação nas escolas se estabelece, entre conflitos e consensos, entre pessoas com visões de mundo e culturas diferentes que se posicionam.
Eu aprendo e ensino nas escolas que não há detentores do monopólio do saber, da inteligência, da beleza estética ou da verdade. As sociedades contemporâneas são complexas e heterogêneas. A escola, por isso mesmo, deve pensar permanentemente o dissenso criativo e o convívio entre diferentes com direitos correlatos. E para isso, a escola precisa discutir, debater e fomentar ideias.
Charles Taylor dizia que um indivíduo e um grupo de pessoas podem sofrer um dano irreparável se a gente ou a sociedade que os rodeiam lhes mostram como reflexo, uma imagem degradante, limitada e depreciada sobre eles. Fanon falava do racismo simbólico, que desqualifica saberes dos subalternos e incute neles a noção da inferioridade de suas culturas como verdade indiscutível. Nesta perspectiva, nada é pior para trabalhar a diversidade que o modelo de escola determinista, individualista e privatista: aquele que destaca mais o que a pessoa não sabe do que aquilo que ela é capaz de saber e ornamenta isso com o discurso da neutralidade, como se ela fosse possível. Esse modelo é especialista em destroçar a estima dos educandos e realizar a tarefa da degradação dos corpos. É a escola como fábrica de gentes doentes e desencantadas.
A escola como instituição está em crise. Ela é hoje, no Brasil, estruturalmente seletiva e inimiga da diversidade. Com exceções, continuamos nos baseando na avaliação de resultados (e não na avaliação de processos) sobre critérios supostamente objetivos (provas e testes convencionais, por exemplo). Esse modelo esconde a não aceitação da diversidade ao usar critérios fechados para avaliar diferentes.
O modelo educacional exclusivamente centrado na sala de aula é uma instituição falida (a sala de aula, de novo com exceções, é um espaço estruturado para domesticar e controlar os corpos), o processo de aprendizagem tem que dialogar com a rua, o ensino baseado em avaliações convencionais fracassou, o excesso de conteúdo é um disparate, os currículos normativos produziram conhecimentos vazios e a imposição do cânone ocidental na educação brasileira - como recorte quase exclusivo do saber - é fomentadora de preconceito, intolerância, violência e dor contra os que não se enquadram no padrão uniforme que o cânone preconiza como modelo a ser seguido.
A cereja do bolo da destruição da escola no Brasil é essa boçalidade da escola sem partido, que desqualifica o professor e, sobretudo, as alunas e alunos, imaginando que eles sejam marionetes no processo de aprendizagem. A turma da escola sem partido é aquela que vê a educação, que eu sempre concebi como um campo de experiências inventivas de libertação dos mundos pela cultura, como um espaço de adestramento para o mercado e produção em larga escala de pessoas adoentadas.
A aprovação de uma barbaridade dessas complementará o projeto colonial brasileiro de adestramento dos corpos na lógica do corpo contido pelo medo do pecado, do corpo-arado feito para o trabalho, do corpo viril feito para o estupro, e do corpo feminino feito para ser currado. E a minha profissão estará irremediavelmente destruída.
Sempre haverá, todavia, a praça, o cemitério, a birosca, o boteco, a quitanda, a casa, a rua tensionada, o terreiro e o tesão para ensinar e aprender. Na fresta, porque estes espaços públicos também estão sob ataque das cidades pensadas como empresas. Eu nasci e cresci na macumba: sou do tambor na brecha e sempre haverei de encontrar um lugar para denunciar o projeto colonial, racista, misógino, preconceituoso, mesquinho, viril e doente destes filhos (jamais das putas) das boas famílias brasileiras, aquelas que desde a Casa-Grande não conseguem se conceber sem os seus feitores e capitães do mato. 

terça-feira, 12 de julho de 2016

SOBRE RAÇA (OU A BARBÁRIE DA CIVILIZAÇÃO)

A morte de Luiza Bairros, a ex-ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, abriu as portas do inferno nos comentários dos sites que noticiaram o falecimento. De novo chovem os argumentos mais estúpidos: raça não existe, se o Brasil tem ação afirmativa para pretas e pretas tem que ter para brancos (a falsa simetria predileta dessa turma), e outras baboseiras do tipo. Nada de diferente do velho caldo, enfim, de racismo enraizado, preconceito e falsas simetrias, mostrando que a obra da escravidão continua atuante. 

Quase não tenho mais paciência para responder aos argumentos primários de que raça não existe, mas vamos lá. Recorrerei a um gigante, o senegalês Cheikh Anta Diop, provavelmente o maior intelectual africano do século XX. Pensador potente e descolonizado, Diop insistia na necessidade de firmarmos questão em um ponto crucial: “raça” não é uma condição biomolecular, mas é uma poderosa construção fenotípica e cultural. Neste sentido (uso o exemplo que Diop gostava de utilizar) é possível que um banto sul-africano e um sueco sejam geneticamente mais próximos entre si que entre aqueles de seu próprio grupo. A questão, Diop coloca, é que, nos anos de 1980, na África do Sul, o banto seria vitimado pela violência do apartheid e o sueco seria um homem livre.

Trazendo para o Brasil: sou branco, passei parte da minha vida na Baixada Fluminense e tenho amigos negros. É possível que geneticamente eu tenha muita proximidade com alguns deles. É possível que alguns deles tenham proximidades genéticas com italianos. Não obstante, a polícia nunca me parou nas dezenas de batidas em que amigos meus foram parados, já que para a polícia (e para a esmagadora maioria da sociedade) é a noção fenotípica e cultural das raças que prevalece. Quando falamos de raça, portanto, nos referimos a esta construção que opera na dimensão do racismo e me faz ter, cotidianamente, a proteção da cor da pele. 

A desconstrução disso é processo que ainda anda de gatinhas e pressupõe ações urgentes em vários campos, inclusive no epistemológico. A invenção do eurocentrismo – entendido aqui como a impressão de que a Europa moderna representou o ápice civilizatório da humanidade e de que toda a história da humanidade só pode ser contada a partir dos marcos e códigos que o ocidente produziu – é uma aberração que demanda constante trabalho de enfrentamento e desconstrução.

O poder econômico, a supremacia bélica e o controle das estruturas jurídicas e pedagógicas do colonialismo são os alicerces desta centralidade reducionista, obtusa, desonesta e limitadora.

Eu estudo o samba, e ando cada vez mais convencido que acontece com ele o mesmo processo que aconteceu com o discurso produzido pelo ocidente sobre a civilização egípcia: desafricanizar é a condição e estratégia para reconhecer valor e sofisticação, marcando um recorte com aquilo que seria a barbárie. 

Lendo os comentários bizarros sobre a morte de Luiza Bairros, lembrei-me até de um famoso trecho de Kant sobre negros e brancos: " Os negros da África não possuem, por natureza, nenhum sentimento que se eleve acima do ridículo(...) Não se encontrou um único sequer que apresentasse algo grandioso na arte ou na ciência, ou em qualquer outra aptidão; já entre os brancos, constantemente arrojam-se aqueles que, saídos da plebe mais baixa, adquirem no mundo certo prestígio, por força de dons excelentes."

Enquanto acharmos que " visão de mundo" é a visão ocidental de mundo, e apenas ela, estaremos fritos. A civilização européia, como qualquer outra, é um monumento ao sublime, pois que humana, e um atestado contundente de barbárie, inclusive saida da pena e das crenças de seus maiores representantes.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

PEDIDO A SÃO LONGUINHO

Adoro o cristianismo popular brasileiro, de fundamento ibérico, que gosto de chamar de "cristianismo do fantástico" e mora nas encruzilhadas afro-indígenas temperando a nossa maneira de viver o arrebatamento do mistério. Sendo assim, é evidente que sou devoto de São Longuinho.
A hagiografia diz que São Longuinho se chamava Cássio e foi um soldado romano presente na cena da crucificação de Cristo. Algumas versões sobre a paixão indicam que teria sido ele o centurião que perfurou o nazareno com uma lança (relíquia que teria sido encontrada nos tempos da primeira cruzada e está exposta em Viena, na Áustria). O sangue de Cristo respingou nos olhos do centurião, que naquele momento foi tocado pela graça e se converteu. Cássio passou a ser conhecido como Longinus - latinização do grego lonke; lança.
Por ter aderido ao cristianismo e renegado o poder de Roma, Longinus foi torturado, teve os dentes e língua arrancados, e foi decapitado em Jerusalém.
São Longinus foi canonizado pelo Papa Silvestre II, no ano de 999. A tradição popular afirma que parte importante da documentação do processo, em dado momento, se perdeu. O Papa teria, então, rogado ao próprio santo para que os documentos fossem encontrados; o que acabou ocorrendo. Viria daí a fama que o santo tem de atender aos pedidos dos fiéis que querem encontrar objetos perdidos.
Na cultura popular brasileira, Longinus (muito venerado na Espanha) virou mesmo Longuinho, ou Lancinha, que eu acho extremamente simpático. É tradicional ainda o hábito de se fazer uma promessa ao santo para se encontrar o que foi perdido. A promessa deve ser feita mediante os seguintes dizeres: São Longuinho, São Longuinho, se eu achar o que está perdido, dou três pulinhos e três gritos.
São Longuinho é representado como um centurião com uma lança, a que ele teria usado para furar o corpo de Cristo, e é representado com uma lanterna acesa, símbolo de seu poder de encontrar objetos perdidos.
Existem duas imagens do santo no Brasil: na Capela de Nossa Senhora da Escada, em Guararema (SP), esculpida em madeira por índios das missões, e na Igreja de Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas (MG).
Eu gostaria muito, depois dessa breve descrição sobre o santinho querido, de pedir a São Longuinho para que ele me ajudasse a encontrar o Brasil. Aquele que eu não sei se existiu algum dia - acho que não - ou se viveu apenas nos meus afetos e afeições de menino e projeções de moleque; o país que navegava o Rio Doce, dobrava o rum para Ossain dramatizar o encantamento das folhas, se banhava na volta grande do XIngu, arreliava o tempo no ronco do fole de Gonzaga, adormecia João Valentão no manto da noite e comemorava o gol na geral do maior do mundo.
Eu continuo procurando, doido para dar três pulos - discretos, para não ficar travado - saudando o santinho querido do povo.

terça-feira, 5 de julho de 2016

CARTA AOS MEMBROS DO COMITÊ OLÍMPICO BRASILEIRO

Foi com profunda preocupação que recebi a notícia de que as religiosidades brasileiras afro-indígenas não foram incluídas pelo COB no Centro Ecumênico do Rio, que a rigor nem deveria existir, montado para as Olimpíadas de 2016. Em um contexto em que demonstrações de intolerância religiosa se tornam cada vez mais costumeiras, o "esquecimento" não se coaduna com os princípios da tolerância e do respeito ao pluralismo das diferenças, elementos básicos para o convívio fraterno da comunidade, que deveriam pautar os jogos de  2016.

Certa feita escrevi um texto sobre a religiosidade brasileira e a relação de nosso povo com as divindades, coisa que o COB parece desconhecer. Cito alguns trechos, nesse momento em que nossos ritos sofrem toda sorte de ataques, do que então expressei:

“Somos as filhas e filhos do mais improvável dos casamentos, entre o compadre Exu e a Senhora Aparecida – a prova maior de que o amor existe. E Tupã, que se vestiu com o cocar mais bonito para a ocasião, celebrou a cerimônia entre a cachaça e a água benta.

Uma das nossas mãos está calejada pelo contato com a corda santa do Círio de Nazaré – a outra tem os calos gerados pelo couro do atabaque que evoca as entidades. As mãos do Brasil e do seu povo.

Nossos ancestrais passeiam pela vastidão da praia sagrada dos índios de Morená, retornam à Aruanda nas noites de lua cheia, silenciam no Orum misterioso das almas e florescem encantados nas folhas da Jurema. 

Os guerreiros de nossas tropas trazem a bandeira do Humaitá, o escudo de Ogum e o estandarte da pomba branca do Divino Espírito Santo – a mesma pomba que pousou na ponta do opaxorô de Obatalá. São essas as nossas divisas de guerra e paz; exércitos do Brasil.”

Escrevi isso porque nasci e cresci dentro de um terreiro de macumba. Falo dessa procedência com orgulho tremendo. Minha avó era mãe de santo na Baixada Fluminense do Rio de Janeiro, versada nos segredos do candomblé, da jurema e da encantaria. Fui, por isso mesmo, batizado nos conformes da curimba – protegido pelo caboclo Pery e pelo Exu Tranca Rua das Almas e oferecido aos cuidados da lua velha, num terreiro grande de Nova Iguaçu. 

Os empresários do COB talvez desconheçam, mas os deuses que vieram dos porões dos tumbeiros e das florestas do Brasil amenizaram séculos de dor e sofrimento e forjaram a armadura da resistência e da dignidade de um povo. Os deuses do Brasil nos ensinaram a olhar a natureza com os contornos da poesia e a delicadeza dos ritos imemoriais. Essa é uma tessitura de olhar o mundo que uma Olimpíada deveria prezar.

Divinizamos os homens e humanizamos os deuses para construir uma civilização amorosa nos confins do ocidente. Em nome do oxê de Xangô, do pilão de Oxaguiã, do xaxará de Omolu e do ofá de Oxossi não há um só genocídio perpetrado na face da terra. Nunca houve qualquer guerra religiosa em que se massacraram centenas de milhares de seres humanos em nome da fé nos encantados e orixás. A insígnia de nossos deuses nunca foi a mortalha de homens comuns – nós apenas batemos tambor e dançamos, não morremos ou matamos pela nossa fé.

Espero que os senhores saibam que engana-se quem acha que o racismo se limita ao campo da percepção social das características físicas; certamente a sua manifestação mais odiosa. Ele é um fenômeno que se desdobra em outros campos de percepção. Uma das mais frequentes, praticadas e menos percebida manifestações do racismo, se estabelece a partir da inferiorização dos bens simbólicos daqueles a quem o colonialismo submeteu. Quando consideramos que as crenças, danças, comidas, visões de mundo, formas de celebrar a vida, enterrar os mortos, educar as crianças, etc. de determinados grupo são inferiores, estamos operando no campo do racismo. É exatamente isso que está sendo feito neste momento. 

Que cada um tenha o direito de encontrar o mistério do que lhe é pertencimento, em gentileza e gestos de silêncio, toques de tambor e cantos de celebração da vida. Tudo aquilo, enfim, que se esperaria de um evento de congraçamento entre os povos. 

Olorum Modupé, Nzambi-ampungu!

quarta-feira, 29 de junho de 2016

COZINHA SAGRADA: CULTURA E CRUZAMENTOS


A culinária do Pará, fortemente marcada pela cultura indígena, aparece também em algumas rodas de encantadas e juremeiros, com seus temperos feitos com as folhas e frutas amazônicas. O fascinante é que os alimentos também podem ser encantados, entes que foram arrebatados em vida: tucumã, muruci, cupuaçu, castanha, bacuri, bacaba, taperebá, ervas e pimenta de cheiro, temperando peixes, patos, camarões e caranguejos. E tem tucupi - caldo amarelo extraído da mandioca -, tacacá - mingau feito à base de tucupi, goma de tapioca, camarão seco e jambu -, chibé – mingau de farinha de mandioca e água - e maniçoba. Este último é o prato que exige maiores rigores em sua preparação, já que a maniçoba é feita com a folha venenosa da maniva (mandioca). A folha é moída e cozida por aproximadamente uma semana, para perder o ácido cianídrico. A maniçoba é então preparada como se fosse uma feijoada paraense: adiciona-se paio, costela, pé de porco, charque, etc. Pronta a iguaria, é só servi-la acompanhada de arroz, farinha de mandioca, pimenta de cheiro e molho de tucupi. 

A feijoada carioca, por sua vez, se insere também na tradição de pratos que misturam tipos diferentes de carnes, legumes e verduras: o saber da mistura é milenar (a fábula da comida inventada nas senzalas com restos do porco não se sustenta). O cozido português e o cassoulet francês partem deste fundamento de preparo. O feijão preto é originário da América do Sul. De uso bastante conhecido pelos guaranis, seu cultivo disseminou-se pela África e Ásia a partir dos navegadores europeus que chegaram ao Novo Mundo. A farinha de mandioca também é de origem americana e fez percurso similar.

Controvérsias à parte, o fato é que a feijoada desenvolveu-se no Brasil como um prato cotidiano que chegou aos terreiros e passou a ser ofertado a Ogum, divindade do ferro, da guerra e das tecnologias. A feijoada de Ogum é normalmente acompanhada de cerveja, bebida aqui vinculada ao orixá. 
Mesma coisa pode ser dita sobre o milho, um cereal hoje cultivado em boa parte do mundo que, segundo especialistas, têm origem americana. Inúmeros povos nativos da América - como os astecas, toltecas, maias – atribuíam ao milho origem divina. Os mitos envolvendo o milho o vinculam diretamente à própria criação dos homens. 

Ao circular pelo mundo, o milho americano foi apropriado por inúmeras culturas e sacralizado por muitas delas. Ele é hoje base de alimentos importantíssimos da culinária dos candomblés. Está presente no axoxô de Oxossi, na pipoca de Obaluaiê, na canjica de Oxalá e nos alimentos de Ossain, dentre outros.

Resumo da ópera: as cozinhas sagradas oferecem belíssimas possibilidades para que questionemos os essencialismos que insistem em ver purezas onde o que existe é dinâmica de encruzilhadas, trocas, apropriações e invenções constantemente reinventadas. Macumba, em suma.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

VIVA SÃO JOÃO!

A aventura civilizatória brasileira, no terreno fértil das crenças, é fortemente marcada pelo catolicismo ibérico. É também, frequentemente, dinamizada, reinventada, particularizada, pela circulação de informações e crenças ameríndias, das múltiplas áfricas e das outras europas que se encontraram no extremo ocidente para inventar o Brasil.
Desenvolveram-se aqui celebrações profundamente sincréticas. O sincretismo, afinal, é fenômeno de mão dupla, pode ser entendido como estratégia de resistência e controle – com variável complexa de nuances – e pode ser entendido como fenômeno de fé. A incorporação de deuses e crenças do outro é vista, por muitos povos, como acréscimo de força vital; e não diluição dela.
As festas católicas normalmente transitam em torno dos eventos da vida, da paixão e da ressurreição de Jesus Cristo; do culto aos santos e beatos e da adoração da Virgem Maria. Já os fundamentos das celebrações indígenas e africanas celebram a força da ancestralidade e a divinização da natureza. Da interseção entre esses fundamentos e da circulação das culturas que o tempo todo se influenciam, surgiram os nossos modos de celebrar o mistério: a fé é festa.
A tradição cristã afirma que São João batizou Jesus Cristo nas águas do Rio Jordão, sendo por isso conhecido como Batista. Seria filho de Isabel, prima de Maria, a mãe de Jesus. Seu culto, introduzido pelos portugueses, é muito forte no Nordeste, onde é evocado com símbolos como a fogueira e o mastro.
A tradição do cristianismo popular conta que Isabel e Maria estavam grávidas na mesma época. Com dificuldades de locomoção, combinaram que aquela que tivesse o filho primeiro mandaria acender uma fogueira para avisar da boa nova. Isabel mandou, então, que se acendesse uma grande fogueira no dia 24 de junho, quando nasceu João.
O mito da fogueira foi certamente uma maneira que o cristianismo encontrou de redefinir os ritos do fogo que marcavam o solstício nas festas da colheita herdadas do paganismo, durante a Idade Média. Registre-se que na tradição popular as fogueiras juninas deve ser feitas de formas diferentes: a de São João deve ter base arredondada, a de Santo Antônio deve ser quadrada e a de São Pedro, triangular.
O mastro das festas tradicionais de São João, com o estandarte do santo na ponta, é também uma ressignificação cristã de ritos ancestrais. Representa as rogações pela fecundidade e é muito comum que sejam erguidos no Brasil com espigas de milho amarradas; para propiciar a boa colheita. São João é representado no estandarte como um menino segurando um carneiro; referência à doutrina católica de que ele teria anunciado ao mundo a chegada do cordeiro de Deus. 

quinta-feira, 23 de junho de 2016

CAMPO DE BATALHA

1-  É evidente que quando falo em raça em textos ou aulas não uso o conceito biológico. Penso, e não há novidade nisso, a raça como categoria política-social-cultural historicamente constituída. Em resumo: para a biologia eu pertenço a uma única raça, a humana. A maioria da polícia, todavia, me trata como branco mesmo e não me cria problemas. Eu tenho a armadura explícita de proteção da pele branca em um país escravocrata, onde a questão da percepção da raça me parece fundante do que somos.

2- O racismo opera de três maneiras: na impressão mais direta da cor da pele; na desqualificação dos bens simbólicos daqueles a quem o colonialismo tenta submeter e no trabalho cruel de liquidar a autoestima dos submetidos, fazendo com que estes introjetem a percepção da inferioridade de suas culturas.


3- É baseado nestas duas últimas percepções de como opera o racismo que insisto na ideia de que as ações afirmativas não podem se limitar a cotas que facilitem o acesso de minorias aos bancos acadêmicos, por exemplo. Precisamos de ações afirmativas no campo da episteme; para estabelecer formas de luta que disputem o campo simbólico e afirmem a sofisticação de saberes não canônicos. 


4- A colonização (e penso em colonização como fenômeno de longa duração, que está até hoje aí operando suas artimanhas), gera "sobras viventes", gentes descartáveis, que não se enquadram na lógica hipermercantilizada e normativa do sistema. Algumas "sobras viventes" conseguem virar sobreviventes. Outras, nem isso. Os sobreviventes podem virar "supraviventes"; conceito que ando matutando para definir aqueles que foram capazes de driblar a própria condição de exclusão (as sobras viventes), deixaram de ser apenas reativos ao outro (como sobreviventes) e foram além, inventando a vida como potência (supraviventes). Uma disputa operada apenas no campo da política e da economia pode gerar ganhos efetivos, é claro. Mas o salto crucial entre a sobrevivência e a supravivência demanda um enfrentamento epistêmico e batalhas árduas e constantes no campo poderoso da elaboração de símbolos.


5- Cada vez mais me convenço do seguinte: a esquerda também precisa, urgentemente, se descolonizar se quiser pensar em alguma coisa para o país que escape dessa  ideia limitadíssima de inclusão pelo consumo como finalidade de um projeto transformador.