sábado, 21 de novembro de 2009

PELO FIM DO FAIR PLAY: QUERO PORRADA NOS GRAMADOS

A primeira pancadaria no estádio a gente nunca esquece. A frase me ocorreu ao assistir as cenas de pugilato entre os times do Fluminense e do Cerro Porteño no jogo da semana passada pela copa sulamericana de futebol. Afirmo que a garotada tricolor que foi ao estádio nunca mais esquecerá do furdunço no gramado.

Assisti ao jogo pela televisão e depois escutei as resenhas das mesas redondas. Ouvi dezenas de comentários sobre o absurdo que foi o arranca-rabo: Um péssimo exemplo, mancha o futebol, é uma mácula no jogo limpo e quejandos.

Não sei não, mas quando eu era moleque, e não havia essa frescura politicamente correta, a torcida adorava quando o pau quebrava entre os jogadores dos dois times. Era só começar o qüiproquó que as arquibancadas gritavam:

- Porrada! Porrada!

E digo mais, no tempo em que os jogadores saiam com mais freqüência na porrada dentro de campo eram raríssimas as brigas nas arquibancadas. Alguém há de concordar comigo: A violência nas arquibancadas cresceu na medida oposta ao afrescalhamento do jogo nas quatro linhas. Quem quiser que explique as razões e faça suas sociologias; eu só constato isso.

Jogo de futebol não é espetáculo de ópera ou coisa parecida. É drama, epopéia, catarse coletiva e o escambau. Arquibancada é o melhor divã do mundo. Eu, se fosse dar um conselho a algum psicanalista, diria com absoluta convicção:

- Queres conhecer o inconsciente do fulano de tal ? Observe o comportamento dele numa arquibancada. A arquibancada é o único espaço do mundo que não comporta mentiras - o sujeito mostra efetivamente o que é. E o psicanalista, que no campo de futebol provavelmente deve se sentir tão confortável quanto um judeu ortodoxo na Faixa de Gaza, há de zombar da irrefutável verdade.

Sou, por isso, a favor de uma campanha contra o fair play da dona FIFA. Acho que precisamos incentivar a volta do conflito generalizado em campo - melhor estratégia para acalmar as coisas na arquibancada. Um gol escandalosamente ilegal como o da França contra a Irlanda na última quarta feira é muito mais nocivo ao jogo e incitador de violência que o telecatch Montilla que Flu e Cerro protagonizaram no fim da peleja - que aos olhos da garotada, podem crer, pareceu mais um espetáculo de circo.

Fiz essas observações todas para, na verdade, confessar algo que só pretendia depois de morto, a uma médium de mesa branca durante sessão de psicografia: Nunca esqueci a sensação de euforia - e alegria genuína - que experimentei ao assistir a uma pancadaria entre os jogadores de Brasil e Uruguai em um jogo pela Taça do Atlântico, disputado no Maracanã em 1976.

Estava no maraca, eu e meus oito anos, com o avô e o pai. Ganhamos dos grigos de 2 X1 , mas não me lembro dos gols. Jamais me esqueci, porém, das cenas de pugilato envolvendo jogadores, comissões técnicas, imprensa, gândulas, funcionários da SUDERJ e o diabo.

No auge da confusão, o lateral uruguaio Ramirez - que já tinha caçado Zico em campo - saiu correndo feito touro bravo em direção a Rivelino, que em desabalada carreira deu um elástico sem a bola no gringo e acabou descendo de bunda a escadaria de acesso ao vestiário, num dos maiores tombos da história do futebol. Eu aplaudi com o mesmo vigor com que aplaudia as fanfarronices do palhaço Carequinha. Meu pai e meu avô imediatamente entraram no coro de porrada que a massa, afinadíssima, começou a entoar. E eu, delirante, também comecei a gritar porrada - feliz como pinto no lixo [apud Jamelão] .

A nossa dupla Jairo [goleiro] e Orlando Lelé [lateral direito] estava possuída - os dois devem ter batido mais em uruguaios do que todo o exército brasileiro na malfadada Guerra da Cisplatina. Jairo, aos meus olhos de menino, parecia o King Kong em fúria dando sopapos em aviões no alto do Empire State; virou meu herói imediato.

Um ano depois dessa quizumba, o Ramirez foi contratado pelo Flamengo. Muitíssimo bem recebido na Gávea, jogou ao lado do Zico, brincou com o Rivelino e deu a lição: A briga foi só dentro de campo - depois fica tudo em paz, como deve ser.

Ouso afirmar categoricamente o seguinte: Naquele noite, ao assistir a confusão generalizada que o escrete canarinho e a celeste olímpica protagonizaram no Mário Filho, me tornei uma criança absolutamente pacífica - naqueles gritos de porrada descarreguei oito anos de agressividade e meus avós e pais economizaram fortunas em psicólogos. Sou hoje um professor de história que não vê graça nenhuma em estudar ou falar de guerras e nunca saí no tapa com ninguém.

Descobri em um estádio de futebol, e nisso acredito até hoje, que só há dignidade e honra nas pancadarias travadas dentro das quatro linhas. Fora dali, vira coisa de otário ou bandido.

Assistam abaixo a um compacto do jogo, nas imagens inesquecíveis do Canal 100, e reparem o furdunço nos segundos finais. O mais bonito: O texto do Canal 100, ao contrário do discurso desses carolas de hoje que ficam achando que gramado é sacristia, diz apenas o seguinte: Brasil dois, Uruguai um; com mais uma briguinha, para manter a tradição!

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

NA VOZ DO ANESCAR


[texto originalmente escrito no dia da Consciência Negra de 2007]


Não há nada mais triste para um carioca do que sentir-se exilado em sua própria cidade. Digo isso porque é essa a sensação que tenho toda vez que compromissos profissionais - aulas e mais aulas - me obrigam a visitar o bairro da Barra.

Gosto de muita gente que mora lá, mas o local é meio estranho; raras esquinas, sem botecos, repleto de casas comerciais com nomes em inglês, projetado para o deleite dos automóveis, uma réplica doida da estátua da liberdade, e outros babados. Não merece carregar o sacrossanto epíteto de Barra "da Tijuca".

Da Tijuca, que eu saiba, são o Eduardo Goldenberg, tombado em vida e no meu coração como patrimônio imaterial da cidade, a Confraria do Bode Cheiroso - um pé sujo de responsabilidade - e o Rodrigo Ferrari, o comerciante de carioquices que mais fez pelo Rio e por mim desde o Barão de Mauá.

Para exorcizar esse encosto de Miami que vez por outra me persegue, quero lhes contar uma história que tem como cenário um bairro carioquíssimo - São Cristovão, terra que viu nascer dois brasileiros máximos, D. Pedro II e Bruno Ribeiro.

Ali, pertinho do pavilhão, há um edifício desgastado pelo tempo que, para o bem da cidade, deveria ser imediatamente declarado patrimônio público, com placa na entrada e o escambau. Neste local trabalhou, como zelador e porteiro, o grande Anescarzinho do Salgueiro.

Humilde, sempre modesto, Anescar parecia não ter a consciência da grandiosidade de sua figura para a história do samba carioca. Foi ele um dos nossos heróis civilizadores. Compôs, com Noel Rosa de Oliveira, os antológicos Quilombo dos Palmares (1960) e Chica da Silva (1963), além de ter participado do show Rosa de Ouro , que lançou Clementina de Jesus. É mole ou quer mais ? Fez parte, ao lado de Paulinho da Viola, Nelson Sargento, Jair do Cavaquinho e Elton Medeiros, do grupo Cinco Crioulos , que marcou, apesar da curta duração, a história do samba.

Um dia um sujeito qualquer - com poucos cabelos que anunciavam a futura calva - soube que o Anescar era porteiro do tal prédio. Foi até lá para saudar o baluarte. Aproximou-se, tocou o interfone e perguntou pelo Anescarzinho do Salgueiro. Extremamente tímido, Anescar apresentou-se e saudou o fã. Parecia quase constrangido com a deferência. Não tinha, definitivamente não tinha, a noção do que representava para a música brasileira.

O autor de Chica da Silva, para alguns o maior samba da história da acadêmia tijucana, trabalhava anônimo e silencioso nas proximidades da Quinta Imperial. Será que os moradores daquele prédio tinham consciência da honra absoluta que o destino lhes reservara? Sabiam quem era aquele porteiro que morreu pobre de marré de si e sem o devido reconhecimento? Acho que não.

Lembro do Anescar porque hoje é dia 20 de novembro, marco da resistência maior de Zumbi dos Palmares. Ouço, como um brado magnífico de liberdade, a obra-prima que Anescar compôs para saudar os guerreiros da serra da Barriga e imagino que nenhuma homenagem que se faça ao quilombola superará em beleza o desfile salgueirense de 1960. Meninos, eu não vi, mas como queria ter visto.

É por isso que acendo minha vela de sete dias no altar da Pátria ao grande Anescarzinho do Salgueiro. Lá, na Aruanda ancestral, deliro que neste 20 de novembro o capitão palmarino estará comovido com as homenagens e o som dos tambores do Brasil. Imagino, também, que Zumbi olhará para o lado e dirá ao seu companheiro de noite grande: Anescar, canta de novo o meu samba, canta.



Saravá!

TUIUTI 2001 - A FIBRA DE PALMARES


O grande João Saldanha - que entendia pacas de futebol e carnaval - gostava de dizer, com um humor do cão, que os compositores das escolas de samba tiveram sorte com a construção da passarela de desfiles na Marquês de Sapucaí.

O argumento é simples: Fazer rima com Sapucaí é a coisa mais fácil do mundo. Basta escrever alguma coisa terminada em i , rimar com na Sapucaí e correr pra torcida. Saldanha completava o raciocínio com um desafio:

- Eu quero ver é se um dia os desfiles forem na Almirante Cochrane.

Pois bem, uma das escolas mais favorecidas com isso é a Paraíso do Tuiuti, a simpática agremiação de São Cristovão, nascida em 1954 a partir da fusão entre a Unidos do Tuiuti e a Paraíso das Baianas.

É raríssimo encontrar um samba da escola que não apresente uma solução do tipo Na Sapucaí / com a Tuiuti ; rima mais mole que pudim de minhoca.

Essa é uma das razões que me fazem gostar do samba da Tuiuti de 2001 - Um mouro no quilombo: Isto a história registra: O samba não rima Tuiuti com Sapucaí !

O enredo, baseado no livro "Capitão Mouro" de Georges Bourdoukan, conta a história de um certo Saifudin, muçulmano que, ao parar no Brasil depois de um naufrágio, teria construído as fortificações do Quilombo dos Palmares. Lembrei dele hoje quando um aluno me perguntou sobre muçulmanos no Brasil colonial.

O samba, de Eduardo Medrado e João Estevam, tem uma melodia arrojada pra diabo - cheia de detalhes que o cabra só percebe ouvindo com uma atenção da peste. O velho João Saldanha aplaudiria, tenho certeza.

Ouçam a Tuiuti sem a rima com Sapucaí - coisa mais difícil que achar cabelo em ovo - primeiro com a gravação de estúdio e, mais abaixo, com a entrada da escola na avenida [e, sou réu confesso, não consigo deixar de me emocionar com uma escola de samba entrando na pista; é a coisa mais comovente - impactante - do mundo ]



Saravá!

BANDEIRA DO BRASIL


Um desengano dói, a minh´alma tanto sente. É assim, pungente, dramático, que começa um samba de Aniceto, gravado pelo grande Monarco em um lp magnífico de 1976. Capa do mestre Lan, participação da Velha Guarda da Portela e lendas como Dino, Marçal, Jorginho, Abel Ferreira, Wilson das Neves e o escambau segurando cordas e ritmos. Obra-prima!

Ouvi ontem esse disco, em minha gloriosa vitrola, e lembrei-me, com precisão, de um dos maiores desenganos da minha vida. Diz respeito a um entrevero que tive com uma professora relacionado ao pavilhão da pátria, a gloriosa bandeira do Brasil. Explico melhor.

Estava, e bota tempo nisso, assistindo a uma aula de Estudos Sociais, quando a professora falou da necessidade do amor incondicional aos símbolos da pátria, especialmente ao auriverde pendão do poeta. Fez então, a megera, uma pergunta fatal:

- A estrela que está acima do Ordem e Progresso representa que estado do país?

E eu, altaneiro, augustíssimo da paz e certo da resposta, bradei com a autoridade de um caboclo de umbanda:

- É o Pará!

A dona me fuzilou com o peso inclemente da tirania:

- É o Distrito Federal! É o Distrito Federal!

Quase fui agredido. Minha resposta gerou uma catarse na mestra. Descabelada, dando socos no quadro, afirmou que não aguentava mais dar aulas a um peste como eu, endemoniado, malcriado e futuro marginal. Admito que meu comportamento em sala não era exatamente exemplar, mas ela exagerou. Me senti a última das crianças, um patinho feio antes de virar cisne.

(Pausa. Esse cisne da frase acima é o Capororoca, o famoso cisne branco brasileiro, que saiu de casa pra cantar na rua. Esse negócio de cisne europeu é meio esquisito.)

Nunca esqueci desse esporro e, por conta disso, tive sérios problemas em respeitar a bandeira do Brasil. Era ver o estandarte canarinho e o arrazoado da mestra rugia nos meus ouvidos.

Meu avô, que havia me garantido que a estrela representava o Pará, tentou me consolar de todas as formas, afirmando com delicadeza nordestina que a professora era, além de burra, uma vaca. E eu, amigos, duvidei do velho e cheguei a acreditar que ele tinha se enganado. A estrela devia mesmo representar o Distrito Federal.

Eis que o tempo passou e o velho cantou pra subir. Morreu manso, ele que sempre foi esporrento. Não deixou herança em dinheiro ou imóveis ( prova irrefutável de caráter e dignidade) mas legou aos seus uma caralhada de coisas aparentemente inúteis, como flâmulas de clubes, moedas da época do Império, álbuns de figurinhas incompletos, um chicote de cangaceiro e uma bandeira magnífica do Brasil, enroladinha como ela só. Dentro da bandeira, protegida, uma cartilha da época do Estado Novo com a explicação completa , minuciosa , sobre os símbolos nacionais. Sabem o que a cartilha diz?

A bandeira foi proposta pelo intelectual positivista Teixeira Mendes, com apoio do astrônomo Manuel Pereira Reis e do artista Décio Vilares. A posição das estrelas no lábaro representa o céu do Rio de Janeiro às 8:14 minutos do dia 15 de novembro de 1889, data e hora da proclamação da República, equivalente a 12 horas siderais - e já adianto que não faço idéia de que diabo é isso de hora sideral.

Diz ainda que cada estrela representa um estado. E, vejam vocês, que a única estrela acima da faixa com Ordem e Progresso é a Spica, representando o estado do Pará. À época da proclamação da República, Belém era a capital mais setentrional do país, ainda que abaixo do Equador.

O Distrito Federal, queridos, é representado pela Sigma do Oitante, que fica próxima ao pólo celeste, o que faz com que todas as estrelas visíveis nos céus do Brasil façam um arco em torno dela. E a Sigma está abaixo do Ordem e Progresso. Acima só está o Pará, cacete!

Hoje é o dia da bandeira, salve ela, e, em homenagem ao velho, vou repetir insistentemente, com a obsessão de um João Batista no deserto, que a única estrela acima da faixa do lábaro representa o Pará. Pe-a-erre-a : Pará.

Aproveito o ensejo e clamo ao poder público (entendam o simbolismo do gesto. É óbvio que não sou lido por nenhum representante do poder público) que troque imediatamente o trapo que está desfraldado na praça da Bandeira, pertinho da minha casa, por um pavilhão novo, bonito, decente.

Botem, por favor, uma bandeira nova na praça, para que eu possa olhá-la com orgulho quando parar no ponto onde pego o ônibus para trabalhar. E, mais do que isso, para que eu possa perguntar a todos - ao mendigo, ao garçom, ao trocador do ônibus e ao camelô que me fornece pilhas e formicidas - com a firme convicção de quem possui a verdade revelada:

- Sabem qual é o estado representado pela estrela acima do Ordem e Progresso ?


Abraços

Ps: Pensei em colocar o hino da bandeira no final desse texto. Seria muito óbvio. A música à bandeira que mais me comove é outra: Fibra de Herói, melodia do maestro Guerra Peixe e letra do poeta Teófilo de Barros Filho. É ela que vai abaixo:


quarta-feira, 18 de novembro de 2009

SEMANA DE PROVA

Estamos, eu e meus alunos, em semana de prova. Nesse exato momento tenho ao meu lado quatro simpáticos pacotes para corrigir. É divertido e trabalhoso.

Ao longo desses anos, li coisas monumentais, de que até Deus duvida e o capeta desconfia. Algumas, pela originalidade, mereciam ganhar o ponto. Exemplos que me ocorrem:

Cite dois acordos presentes no Tratado de Petrópolis de 1903.
R: O Brasil compra o Acre da Bolívia e vai construir a ferrovia Montanha-Maomé [esclareço para os menos versados no babado: A ferrovia é a Madeira-Mamoré].

Caracterize a Era Mauá.
R: Sim, era Mauá.

Cite dois grupos presentes na formação do Quilombo dos Palmares.
R: Judeus e bons samaritanos.

Caracterize os povos indígenas da América pré-colombiana.
R: Os incas, mouros e histéricos viviam na América desde o início do planeta e bem antes de Colombo.

Apresente duas razões para a crise que levou ao suicídio de Getúlio Vargas.
R: Nenhuma, já que ele não se matou. Foi assassinado enquanto dormia.

Cite duas medidas joaninas que tenham transformado a estrutura urbana da cidade do Rio de Janeiro.
R: D. João criou várias coisas. O jardim zoológico e a Ponte Rio-Niterói, por exemplo.

Aponte uma medida do governo Ernesto Geisel para o setor de energia, no contexto da primeira crise do petróleo.
R: A criação do Rio São Francisco.

Abraços

sábado, 14 de novembro de 2009

SEU TRANCA RUA, O ZAGUEIRO - A PROVA DO MILAGRE

[Originalmente publicado, de forma reduzida e sem a imagem do milagre, no Histórias do Brasil]

Minha família é, quase toda, chegada numa curimba. O que tem de macumbeiro não está no gibi. Fui criado pela minha avó, mãe de santo de um terreiro no Jardim Nova Era, em Nova Iguaçu, onde o coro comia quase todo sábado - com muita festa de encantaria e toque pros orixás [escrevi sobre essa infância na macumba aqui ].

Disse que quase toda família era do babado mas, em nome da verdade, preciso destacar que minha tia-avó , Dona Lita, era exceção. Católica fervorosa - de rezar o terço e assistir na sessão da tarde de todo dia 13 de maio um filme velho pra burro sobre o milagre de Fátima - queria porque queria que todas as crianças fizessem primeira comunhão e crisma.

Lembro, por exemplo, quando a tia tentou me ensinar a música tema do filme Marcelino Pão e Vinho e não se conformou quando eu disse que preferia cantar Perereca da Vizinha e Araruta, com o bunda bunda toma limonada pra cagar de madrugada no final.

A boa tia Lita também ficava chocada todo Natal, diante das porrancas formidáveis que meu avô tomava para comemorar o nascimento do menino Jesus. O dever de todo homem de bem, segundo ela, era estar com a família na missa do Galo, enquanto o vô preferia mandar bala na cana.

Parêntese: O argumento do velho para encher a caveira era teológico e infalível: Cristo, nas Bodas de Canaã, transformou água em vinho. Me aponte uma página da Bíblia em que ele tenha transformado vinho em água. E não havia como demover o Seu Luiz Grosso dessa convicção profunda - a de que o Filho do Homem era chegado nuns birinaites.

Fechado o parêntese, retomo o mote: A minha tia Lita era o clássico exemplo de beata. Suspeito até que fosse, e escrevo isso com o maior carinho, cabaço. Com todo respeito.

Qual não foi, portanto , minha surpresa com uma cena ocorrida durante a Copa do Mundo de 1978, envolvendo essa minha tia. Aos fatos.

Jogavam Brasil e Espanha. Jogo duro, o gramado mais parecendo um pasto, meu avô desfilando um repertório de palavrões contra o Coutinho -técnico do escrete -, quantidades industriais de cerveja, caldinho de feijão e, para quebrar o clima profaníssimo, tia Lita rezando o terço, pedindo aos céus pelo sucesso canarinho.

Segundo tempo, zero a zero nervoso, o Brasil sendo vergonhosamente pressionado, quando uma bola é alçada na nossa área. O Leão sai do gol catando borboletas e a bola sobra, cristalina , nos pés do centroavante adversário.

O espanhol se prepara para o arremate, num lance inapelável, com o goleiro batido. Subitamente, como num milagre, surge o Amaral, nosso zagueiro, que , postado debaixo do travessão, salva a nossa cidadela.

Meu avô ameaça infartar. Meu irmão faz, literalmente, cocô nas calças. O Manoelzinho Mota, aos prantos, repete - não entrou, não entrou. Minha vó faz breve comentário: Esse até eu faria. E minha tia, a beata, joga o terço pro alto e grita :

- Foi ele! Foi ele! Obrigado. Obrigado.

Eu, ainda sob efeito do lance, fiz a pergunta:

- Ele quem, tia Lita, Jesus Cristo?

- Que Jesus Cristo, menino. E Jesus Cristo quer lá saber de jogo? Jesus Cristo porra nenhuma.

- Quem foi então?

- O Exu Tranca Rua, é claro!

Meu avô quase infartou de novo:

- Foi quem, Lita?

- Seu Tranca Rua. Eu vi Seu Tranca Rua do lado da trave, protegendo o gol do Brasil. Eu vi!

E, dizendo isso, a velha começou a cantar, acompanhada, sem sacanagem, por todo mundo:

Seu Tranca Rua é homem
Promete pra não faltar
Catorze carros de lenha
Pra cozinhar gambá
A lenha já se acabou
E a gambá
Tá pra cozinhar


Senhoras e senhores, não estou mentindo, que eu não vou brincar com Seu Tranca nem a pau. A minha velha tia, beatíssima, afirmou de fato, com convicção, que Exu Tranca Rua tinha defendido a seleção brasileira.

Meu avô, impressionadíssimo, repetia :

- É coisa séria. É coisa séria. Traz um copo de cachaça pra botar do lado da televisão.

O Manoelzinho Mota, devoto do Homem da Rua, afirmava com absoluta certeza que Seu Tranca tinha baixado no Amaral, o zagueirão.

O fato é que o Brasil, com um zagueiro desse porte, não levou gol naquele jogo.

No dia seguinte, minha tia voltou a rezar o terço, me chamou num canto e disse a mesma lenga-lenga de sempre:

- Você tem que aprender a rezar, menino. Não vai atrás dessa família, não, que macumba não dá camisa a ninguém. Só existe uma verdade, Jesus Cristo.

Sem entender patavinas, perguntei pra velha:

- Mas tia, e Seu Tranca Rua?

E ela, de bate-pronto, na base do esporro:

- Lava essa boca, menino, que isso não existe! Fica andando com macumbeiro e dana de falar besteira.

Brasil-sil-sil !

O lance que originou o furdunço, o milagre de Amaral e do seu Tranca, é esse:


Saravá

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

DA SÉRIE "ESTÃO DE SACANAGEM"

A Beija Flor de Nilópolis anuncia uma grande atração para este sábado, dia nobre do samba, em sua quadra: Show com um bamba da pesada, rei do sincopado e do balacobaco, versado na arte do partido alto, grande conhecedor de sambas de enredo, homem que diz no miudinho como poucos. Como se não bastasse, vendeu mais de um milhão de cópias de seu último trabalho: Padre Fábio de Mello.
Meu comentário vai em forma de samba e sugestão de repertório, já que o padre e a Beija Flor merecem uma homenagem: