terça-feira, 21 de abril de 2015

UMA HISTÓRIA DA PRAÇA TIRADENTES

O Brasil é um oxímoro em forma de país: um português proclamou a independência; um monarquista proclamou a República; a revolução contra as oligarquias em 1930 foi feita pelas próprias oligarquias; o presidente da redemocratização em 1985, Zé Sarney, foi homem dos milicos; o Oeste Novo Paulista não fica no Oeste de São Paulo; a terra roxa nunca foi roxa; um beato asceta e reacionário, que esperava a volta de um rei morto mais de trezentos anos antes para anunciar o fim do mundo, virou ícone da esquerda revolucionária e uma espécie de Lênin do sertão. 

 Não bastasse isso,  na Praça Tiradentes - aqui no Rio - a estátua é a de D. Pedro I; fato mais inusitado ainda quando lembramos que foi a avó do primeiro Pedro, Dona Maria, a Louca, que mandou matar o alferes Joaquim José da Silva Xavier. É mole?

Para esse último fato, ao menos, cabe explicação. Acontece que a figura do alferes praticamente desaparece da memória histórica brasileira após sua execução, pertinho da atual praça Tiradentes. 

Tiradentes era republicano e conspirou contra os Bragança - família de Dona Maria, Dom João VI e dos dois Pedros que governaram o Brasil. Enquanto fomos monarquia e tivemos Bragança no poder, necas de pitibiribas de homenagear o enforcado. Quando muito, era mencionado como vil traidor ou como homem de caráter fraco, incapaz de liderar qualquer movimento mais articulado contra a ordem estabelecida.

Quando a República foi proclamada, cem anos depois da Inconfidência Mineira, os novos donos da cocada preta resolveram escolher um herói nacional representativo do novo regime. Houve polêmica entre dois candidatos - Tiradentes e Frei Caneca, o líder da Confederação do Equador de 1824. O barbudo levou a melhor. Quem quiser saber mais disso pode catar o Formação das Almas, livro do Zé Murilo de Carvalho sobre esses babados.

Disse barbudo, mas faço a emenda. Tiradentes nunca teve um visual daquele - barba à Antônio Conselheiro e cabelo à Bufalo Bill. O pintor Décio Villares, por exemplo, que recebeu a encomenda de retratar o herói nacional republicano, não tinha referência nenhuma sobre como seria o alferes quando foi executado. Ninguém tinha, aliás. Villares não teve dúvidas - pintou Jesus Cristo e substituiu a cruz pela forca; como a comparar o sacrifício do Filho do Homem pela humanidade ao sacrifício de Tiradentes pela República e pelo Brasil.

Assim como fez Villares, Pedro Américo, Eduardo Sá, João Turin e Virgílio Cestari pintaram ou esculpiram o alferes com ares cristãos. Sabemos, porém, que à época os condenados tinham cabelos e barbas raspados. Tiradentes foi enforcado carequinha da Silva.

Voltemos ao tema central, até porque não sou a pessoa mais indicada para falar de assuntos capilares. Quando os republicanos resolveram fazer de Tiradentes o herói nacional, a praça mais próxima do local da execução do alferes - o velho Largo do Rocio, perto do Campo da Lampadosa - recebeu a denominação do herói. Havia, porém, um probleminha. A estátua de D. Pedro I já estava ali desde 1862, num marco em louvor ao Grito do Ipiranga.

A coisa ganhou contornos de provocação entre republicanos e monarquistas. Nesse Fla X Flu pelo controle da memória nacional, os primeiros insistiam em derrubar a estátua equestre do Imperador; os outros ameaçavam fazer um furdunço memorável se a demolição ocorresse. Após muita polêmica, chegou-se a uma solução brasileiríssima: a estátua de D. Pedro I foi mantida e a praça passou mesmo a se chamar Tiradentes.

Agora, experimentem explicar a um turista por que a praça que homenageia o mártir da independência tem uma estátua do neto da velha que mandou executar o herói. Sou capaz mesmo de apostar que, numa pesquisa com cem cariocas que cruzem a praça em uma tarde, a maioria vai dizer que a estátua é a de Tiradentes.

Quanto a este que vos digita, confesso: a referência emocional (infantil, portanto, que é quando essas coisas se consolidam no cabra) que tenho de Tiradentes é a de Francisco Cuoco representando o mártir na novela Saramandaia. Da Inconfidência Mineira, levo uma lição que tento praticar com sagrada obediência - após um dia intenso de trabalho nos trópicos, há que se tomar civilizadamente umas cervejas geladas quando o sol se põe. É a manjada liberdade, ainda que à tardinha.

domingo, 19 de abril de 2015

A VOZ DO BANGU


(Texto publicado no jornal O Dia, de 19/04/2015)

Na última sexta-feira, dia 17 de abril, o Bangu Atlético Clube, o alvirrubro da Zona Oeste, completou 111 anos de serviços prestados ao futebol e ao Rio de Janeiro. Sou daqueles que acham que o bairro de Bangu está para o futebol brasileiro como certa estrebaria de Belém para os cristãos; tudo começou ali. Há referências de que partidas de futebol já eram disputadas em Bangu desde 1894, de forma pioneira no Brasil.
Das inúmeras histórias – épicas, trágicas, engraçadas ou comoventes – que marcam o Bangu, uma das minhas prediletas envolve o empresário zoológico Castor de Andrade, que durante muito tempo bancou o time pelo qual era apaixonado.
Conto o milagre, mas não dou o nome do santo. O sujeito era juiz de futebol e apitava um Bangu e Goytacaz em Moça Bonita. Estádio vazio, final de tarde em uma quarta-feira de sol, a charanga tocando "Maria Sapatão"; tudo nos conformes no Proletário Guilherme da Silveira. O Bangu ganha por um gol e o jogo está perto de acabar. Gilmar, goleiro banguense, enseba na hora de bater um tiro de meta. O árbitro ordena da intermediária:
- Vamos, Gilmar. Não complica. Repõe essa merda.
Diante da demora, Sua Senhoria levanta o amarelo e corre de peito estufado, cartão em riste e cabeleira ao vento, em direção ao goleiro. Nisso ressoa assombrosa, berrada e certeira, a voz do Doutor Castor de Andrade, que assistia ao jogo à beira do campo, na agradável companhia de dois capangas trepados:
- Cartão pra ele não. Ele tem dois e vai ser suspenso, porra. Domingo é contra o Fluminense. Ele não.
O árbitro escuta a voz de dublador de Deus no filme Os Dez Mandamentos (aquele do Cecil B. DeMille) e muda, com destreza, o curso da corrida, partindo em direção ao zagueiro. Não deu certo:
- Esse também não pode! Tem dois.
E Sua Senhoria passa a girar feito caboclo de umbanda em cavalo novo, com o cartão na mão, até parar na frente do lateral esquerdo. Doutor Castor manda de prima:
- Esse pode. Amarela ele, que além de tudo não joga nada.
E assim foi feito. Cartão para o lateral, que entrou nessa de gaiato, como Pilatos no credo e fruta no cardápio do Comida Di Buteco. Aguardava-se apenas a súmula do juiz rodante para saber a razão da advertência.

Precavido, e com grande talento literário, o árbitro não teve dúvidas e escreveu cheio das convicções: “Aos 88 minutos de jogo fui acometido de grave crise de labirintite e comecei a rodar em campo. Ofendido pelo atleta de camisa número 6 do Bangu, que zombou do meu súbito problema de saúde, apliquei a regra e dei ao referido jogador, assim que me recuperei, o cartão amarelo”.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

A ECOLOGIA DAS BRINCADEIRAS DE RUA - BOTÃO E PREGUINHO


Façam uma pesquisa com a seguinte pergunta: quem foi o maior inventor brasileiro? A esmagadora maioria vai, provavelmente, cravar na bucha o bom e velho Santos Dumont. Eu não, até porque continuo a não acreditar que um avião seja de fato capaz de voar.

O maior inventor brasileiro de todos os tempos é Geraldo Décourt - o mítico pai do futebol de botão.

Dizem que Décourt desenvolveu o jogo, no final da década de 1920, arrancando botões de cuecas [cueca naquele tempo tinha botão, vejam só] e de uniformes escolares. Chamou o troço de Celotex, um material usado para fazer as primeiras mesas, e mandou ver.

Registro que há os que negam a paternidade de Décourt e afirmam  que o jogo foi inventado por D. Pedro I, nos tempos do Império. O primeiro time foi feito, nessa versão, com os botões de um vestido da Marquesa de Santos. Outros vão mais longe e afirmam que os índios temiminós, liderados por Araribóia,  disputaram a primeira partida da história, com botões feitos com ossos de tupinambás, os seus inimigos. A  polêmica é natural, em se tratando de um esporte que seduziu multidões.

Sempre achei o futebol de botão o mais democrático dos esportes mundiais, seguido pelo cuspe a distância e pela purrinha. Já se fez botão de tudo quanto foi jeito no Brasil - osso, tampa de relógio, paletó, plástico, galalite, coco e outros babados. Lembro bem do caso de um vizinho que arrancou os botões do paletó do avô durante o velório, ao perceber que o velho ia ser enterrado com um material de excelente qualidade para o futebol de mesa. A frase do capeta na hora de surrupiar os botões do velho foi inesquecível:

- Aquele segundo botão, que tem um buraco parecido com um bigode, é o Rivelino. Não vou deixar enterrarem o Riva.

Qualquer lugar era válido para a disputa. Jogava botão, quando era moleque, no chão da casa, na mesa da cozinha e, evidentemente, no Estrelão, a mesa sem cavalete que a Estrela produziu. Goleiros? Chumbinho, caixa de fósforos grande, o famoso Olhão, pedaço de madeira, plástico. Até dentadura de avó eu vi defendendo o gol em partidas improvisadas.

Quando falo em jogar botão, não me refiro ao futebol de mesa - cheio de regras e salamaleques pré-estabelecidos. Botão tem que ser misturado, a bola pode ser até - na falta de coisa melhor - de meleca dura (cansei de fazer bolinhas de meleca quando era moleque) e as regras são decididas na hora. Botão é feito a pelada de rua e ponto.

Outro jogo absolutamente democrático era o pregobol, mais conhecido como preguinho. Esfolava-se o dedo de forma retumbante ao meter os petelecos na moeda que, entre pregos, deveria entrar no gol - e aí era só cantar o que bonito é a torcida delirando.

Essas rápidas recordações, na verdade, me ocorreram por conta de um detalhe. Os garotos de hoje, com raríssimas exceções, não jogam mais preguinho e botão. Na minha adolescência jogar botão era tão natural quanto, para ficar no exemplo básico, descabelar o palhaço. Todo mundo tinha seu time.

Desconfio que a culpa pela agonia do botão e do preguinho entre os moleques é desses jogos eletrônicos malucos que reproduzem com certa fidelidade partidas de futebol. Os garotos ficam agora fazendo tabelinha virtual em computadores e televisões e, seduzidos pela parafernália desses trecos, abandonam as coisas mais simples, que exigem mais talento, têm maior poder de sociabilização, são muito mais divertidas e inventivas.

Defendo, como humanista que sou, os animais em extinção, como o urso panda, o sagui-da-serra, a ararinha azul, o mono-carvoeiro, o macaco-prego, o mico leão, o cachorro do mato de orelha curta, a onça parda, o gato do mato, o tamanduá bandeira e a baleia jubarte. Não posso esquecer de citar os reis momos balofos, a pomada Minâncora, as mulatas do Sargentelli e o Bafo da Onça, em cujas causas pela preservação sempre me engajei.

Lanço aqui, por tudo isso, outra campanha preservacionista: abaixo os jogos virtuais e viva o futebol de botão e o preguinho. É urgente, Brasil!

Abraços

terça-feira, 14 de abril de 2015

O MAIOR CLÁSSICO DA AMÉRICA LATINA

Nos tempos  em que Collor de Melo foi presidente do Brasil, no inicio da década de 1990, eu era um esforçado e incompetente aluno da Aliança Francesa, incapaz de exercitar o biquinho necessário para falar a língua de Napoleão Bonaparte, da Madame Pompadour, do queijo Roquefort e do Gerard, meu professor francês que fedia bem mais que o queijo. Minha turma contava com a presença de uma argentina, Beatriz,  que era excelente aluna. Nunca mais vi a moça depois que me escafedi da Aliança.

Com ela, a argentininha, fiz uma aposta inusitada: ganharía um jantar quem tivesse o presidente da República mais estrambólico. Eu me sentia um vitorioso evidente, já que é difícil pensar em alguém capaz de superar Collor nesse quesito. Ela  apostava todas as fichas no mandatário argentino Carlos Menem, o Kid Costeleta. O embate, tenho que admitir,  foi marcado pelo equilíbrio entre os oponentes.

Do lado de cá da fronteira Collor de Mello estava com a macaca. Andava de jet-sky, rompia a barreira do som duas vezes por semana pilotando aviões de caça, dirigia Ferraris a 250 quilômetros por hora, jogava futebol com a seleção brasileira, se metia em safaris na Amazônia, mergulhava de escafandro em Fernando de Noronha e dava entrevistas coletivas durante corridas matinais.

Não satisfeito com as fanfarronices mencionadas no parágrafo acima, o intrépido presidente dançava com índios do Xingu e lutava karatê com câmeras de televisão. Ainda promovia toda semana a cerimônia de subida da rampa do Planalto - um hábito criado nos tempos de JK e abandonado desde que no primeiro governo militar uma rapaziada ameaçara atacar o Marechal Castelo Branco com uma chuva de hortifrutigranjeiros.


O presidente, ao lado da primeira dama Rosane Collor - irmã do famoso Joãozinho Malta, mais conhecido como Búfalo Malta, um sujeito com cento e tantos quilos que se envolvia semanalmente em tiroteios e cenas de pugilato - inovou ao convidar personalidades de diversas áreas para participar da subida da rampa. Quero crer que isso deu início a uma espécie de maldição. Quem subiu a rampa com Collor morreu algum tempo depois.

A lista dos que subiram a rampa com o casal Collor de Mello e foram comer o capim pela raiz inclui Zacarias, Mussum, Ayrton Senna, os cantores sertanejos Leandro e João Paulo e o apresentador de televisão Edson Bolinha Cury. 

É difícil escolher o momento mais constrangedor da gestão Collor. Suponho que tenha sido o dia em que o presidente chegou ao Palácio do Planalto ao lado de duplas sertanejas, índios e atores infantis, enquanto a banda marcial dos Dragões da Independência tocava, durante o hasteamento da bandeira nacional, a canção Pense em mim. A primeira dama, uma espécie de Maria Padilha do sertão, cantava emocionada o clássico daqueles anos, ideal mesmo para substituir o hino nacional em cerimônias oficiais: Invés de você viver pensando nele / Invés de você viver chorando por ele...

Enquanto eu contava vantagem sobre o ridículo que caracterizava Collor, minha amiga propagava os feitos menemistas. O argentino pintou as costeletas de acaju, jogou basquete com uma faixa na cabeça [ele mede um metro e meio e ficaria melhor como goleiro de futebol de botão] , andou em carrinhos de bate-bate com menores carentes em parques de diversões, tentou seduzir a apresentadora Xuxa na Casa Rosada e levou uma poodle como acompanhante numa cerimônia oficial. Participou também de um programa de televisão em que desceu de escorrega numa piscina de piche e, em seguida, mergulhou num barril cheio de penas de galinha e cacarejou balançando os braços para o  público.


Menem chegou a dar uma histórica entrevista ao apresentador brasileiro Gugu Liberato, na qual aprendeu os passos da "dança do passarinho". Collor também compareceu ao Show do Gugu e cantou Galopeira com Donizet, um astro juvenil da música sertaneja que se apresentava fantasiado de caubói. O rapaz dava um agudo que durava cinco minutos:galopeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeira... Collor tentou acompanhá-lo e quase terminou num balão de oxigênio.

Não houve vencedor na aposta que fizemos. Era impossível escolher o pascácio-mor. Até mesmo em termos de rapinagem Collor e Menem empataram. Ambos os governos começaram nas colunas políticas dos jornais, passaram pelos cadernos de fofoca e terminaram nas páginas policiais.


segunda-feira, 13 de abril de 2015

O COMIDA DI BUTECO E O CARIOQUINHA DE 2015

Volto ao tema, a pedidos. Respeito quem participa do Comida Di Buteco porque acha que a vida não está mole; é um mês para ganhar uma boa grana, gerar empregos, consolidar a marca, etc. Respeito, mas não gosto e acho que os próprios participantes devem escutar e propagandear os elogios, é claro, mas também ouvir as críticas. O cri-cri normalmente é mais sincero que o puxa-saco e ajuda mais neste sentido. 
Não gosto do concurso pelas razões que também me levam a não gostar do Maracanã reformado, elitizado e sem geral. Não gosto porque botequim não é só comida, assim como o futebol não é só o que ocorre dentro de campo. Como escrevi certa feita, o botequim é o país onde não há grifes, não há o corpo-máquina, o corpo em si mesmo, a vitrine, o mercado pairando como um deus a exigir que se cumpram seus rituais.
O meu boteco é a casa do mau gosto, do disforme, do arroto, da barriga indecente, da grosseria, do afeto, da gentileza, da proximidade, do debate, da exposição das fraquezas, da dor de corno, da festa do novo amor, da comemoração do gol, do exercício, enfim, de uma forma de cidadania muito peculiar. É a República de fato dos homens e mulheres comuns, como eu sou e como eram os avós que me criaram e me levaram pela primeira vez a uma birosca.
É nessa perspectiva que vejo a luta pela preservação dinâmica da cultura do boteco como algo com uma dimensão muito mais ampla do que o simples exercício de combate aos bares bem transados que, como praga, pululam pela cidade e se espalham como metástase urbana, enquanto verdadeiros monumentos cariocas, como o restaurante 28, agonizam e morrem sem choro nem vela.
Ainda citando um velho texto que escrevi, ali, no velho boteco, entre garrafas vazias, chinelos de dedo, copos americanos, pratos feitos e petiscos gordurosos, no mar de barrigas indecentes, onde São Jorge é o protetor e mercado é só a feira da esquina, a vida resiste aos desmandos da uniformização e somos restituídos ao que há de mais valente e humano na nossa trajetória - a capacidade de sonhar delírios, festejar e afogar as dores nas ampolas geladas feito cu de foca.
Esse combate, amigos, é muito mais significativo do que imaginam os arautos modernosos e seus programadores visuais. Este festival, cheio de mídia, grife, patrocinadores, caravanas, semântica afrescalhada, etc, para usar o termo da moda, se insere em um processo mais amplo de gentrificação da cidade. Sobem os preços, sofisticam ingredientes, excluem pela semântica requintada os que não dominam seus códigos e afastam dos botecos aqueles que cotidianamente buscam ali as suas maneiras de suportar a vida.
O conceito de gentrificação é controverso e pode render boas conversas em botequins e universidades. Eu costumo mesmo usá-lo no sentido dado ao termo pelos estudos pioneiros de Ruth Glass e Neil Smith; aquele que, grosso modo, designa um processo de aburguesamento de espaços nas grandes metrópoles e gera o afastamento das camadas populares do local modificado. O espaço gentrificado passa a ser gerido prioritariamente pelos interesses do mercado financeiro, do grande capital e quejandos. Este processo de submissão ao capital é, em geral, acompanhado por discursos legitimadores que vão desde o "tratamento ecologicamente correto" até o da "gestão financeira responsável".
Exemplifico, para chegar aos botequins: não acho que o futebol seja um espetáculo, uma brincadeira, um jogo ou uma guerra; ele pode ser tudo isso e muito mais. Futebol no Brasil é cultura, pois consolidou-se como um campo de elaboração de símbolos, projeções de vida, construção de laços de coesão social, afirmação identitária e tensão criadora, com todos os aspectos positivos e negativos implicados neste processo. Nossas maneiras de jogar bola e assistir aos jogos dizem muito sobre as contradições, violências, alegrias, tragédias, festas e dores que nos constituíram. A cultura de botequim é a mesma coisa.
O processo de morte do futebol e do botequim como cultura reduz o jogo e a ida ao bar aos patamares de meros eventos; para delírio das caravanas. Destroça, inclusive, o vocabulário, que perde as características peculiares do boleiro e do bebum (o correto agora é chamar de "butequeiro") e se adequa ao padrão aparentemente neutro do jargão empresarial. O craque se tranforma em "jogador diferenciado", o reserva é a "peça de reposição", o passe vira "assistência", o campo é a "arena multiuso" e o torcedor é o "espectador". Ir ao bar virou "butecar" e agora temos "lascas", "reduções", "camas de rúcula", "confit", "toques cítricos" e outros salamaleques semânticos, que os velhos frequentadores de biroscas jamais saberão do que se trata; já que isso não é feito para eles.
Boa sorte aos participantes; boas tardes e noites aos butequeiros em suas incursões gastronômicas e etílicas. Peço aos envolvidos apenas que fujam do discurso fácil de achar que quem está contra o modelo do festival não quer que os donos de bares prosperem. O papo aqui é uma defesa da economia da cultura - que deveria considerar botequins como patrimônios cariocas efetivos - contra a cultura da economia - aquela que mensura as coisas prioritariamente pelo retorno financeiro que elas podem proporcionar. Eu fico na minha, desconfiado de que tem gato na tuba. Botequim e futebol - eventos da cultura carioca - estão sendo resumidos à lógica da cultura do evento.
Enche os bolsos, mas esvazia tanta coisa...

sexta-feira, 3 de abril de 2015

SABORES SAGRADOS

Amizades, a Revista de História da Biblioteca Nacional, edição de abril de 2015, apresenta um texto meu, de caráter introdutório,  sobre a culinária dos terreiros de candomblé e umbanda. Vai abaixo, na íntegra.

Recentemente, em um programa de culinária na televisão, a apresentadora preparou uma comida para o cantor e compositor Arlindo Cruz que levava azeite de dendê. O artista recusou a iguaria com um argumento que, para muitos, pareceu inusitado: como praticante do candomblé, ele não poderia comer o alimento. O dendê é vetado para os filhos do orixá ao qual o músico foi consagrado.  Nos rituais afro-brasileiros, afinal, a comida é compartilhada entre os homens e os deuses, é portadora de energia e está presente em praticamente todas as atividades ritualísticas. Se o alimento certo fortalece o corpo e o espírito, o alimento errado age no sentido contrário. 
O ato de dividir alimentos com as divindades está presente em várias culturas e é parte constitutiva de importantes religiões. Ele manifesta-se no Brasil com especial força nos candomblés. Tal prática, um dos fundamentos litúrgicos mais significativos do culto aos orixás, há muito ultrapassou os limites dos terreiros rituais e rompeu as fronteiras entre o sagrado e o profano – que para essas religiosidades não são dimensões antagônicas. A comida de santo chegou às mesas com força suficiente para marcar a nossa culinária cotidiana e temperar de sabores a cozinha brasileira.
Uma lista simples com alguns pratos e temperos ofertados aos orixás pode exemplificar melhor isso: abará, caruru, pipoca, canjica branca, axoxô (prato feito com milho vermelho e lascas de coco), feijoada, acaçá, omolokum (iguaria preparada com feijão fradinho e ovos), acarajé, farofa, inhame, dendê, cará, pimenta, camarão seco, mel de abelhas, frutas diversas, etc.
Para se compreender melhor a importância dos alimentos nos rituais, é necessário entender o significado do axé para os seus praticantes. O axé é a energia vital que está presente em todas as coisas e pessoas. Para que tudo funcione a contento, a energia do axé deve ser constantemente potencializada. Nada acontece sem a reposição da energia, em um mundo dinâmico e sujeito a constantes modificações. Uma das formas mais eficazes de dinamizar o axé em benefício de nossas vidas é dando comida às divindades; que por sua vez retribuem a oferenda propiciando benefícios aos que ofertaram.
Cada divindade tem suas características, que em larga medida se expressam na personalidade de cada um de nós, os seus filhos, e encontram correspondência nos elementos da natureza; o vento, o fogo, a água, a terra, etc. Dentro desse contexto, um alimento que dinamiza a energia de um orixá pode, ao mesmo tempo, representar a perda de energia se for oferecido a outro.
As comidas de Oxalá, por exemplo, não levam azeite de dendê e a ele não se oferecem bebidas destiladas; elementos que não se coadunam com a energia do orixá e devem ser evitado pelos seus filhos. Essas restrições são observadas a partir de uma série de mitos primordiais sobre Oxalá que apontam o dendê e o álcool como desestabilizadores da energia vital de seus iniciados.  As comidas de Ogum, por sua vez, podem perfeitamente levar azeite de dendê, que para esse orixá é um elemento dinamizador da força vital. Conhecer e saber fazer a comida certa para determinada divindade é, portanto, fundamental.
Como o candomblé é uma religião iniciática e baseada na hierarquia, a preparação da comida deve ficar a cargo de uma sacerdotisa preparada especialmente para essa função, a Iabassê (a matriarca que cozinha). Tal cargo é exclusivamente feminino. Cabe a essa sacerdotisa conhecer as técnicas de preparo de cada comida, saber os alimentos certos para cada orixá e os alimentos vetados.
A cozinha em que os alimentos são preparados é um espaço ritual da maior relevância, minuciosamente sacralizado. Não são apenas os objetos utilizados – normalmente separados para preparar apenas as comidas de santo – que marcam essa sacralidade. A faca ou a colher de pau que caem no chão durante o preparo, a louça que quebra, o sal involuntariamente derramado, são sinais que indicam os rumos da preparação das comidas; capazes de determinar que tudo deve ser refeito em bases diferentes. Em uma religião em que o saber é transmitido oralmente, a cozinha é também um espaço para a contação de histórias, a lembrança dos mitos e a transmissão das lições de ancestralidade.
Podemos estabelecer, inclusive, uma comparação entre as funções das comidas e dos atabaques nos rituais. Os atabaques conversam o tempo inteiro. Cada toque guarda um determinado discurso, passa determinada mensagem, conta alguma história. O ogan (cargo iniciático masculino) tocador dos tambores precisa conhecer o toque adequado para cada divindade. O ritmo propiciador do transe para um orixá pode ser também o que afasta a energia de outro orixá naquele determinado momento; assim como a comida que fortalece o axé de uma entidade é capaz de enfraquecer o axé de outra.
Uma importante função da comida também é a de promover a integração entre a comunidade dos terreiros e o público externo. Numa religião marcada fortemente pelo segredo e pelos ritos fechados apenas aos iniciados, o xirê (a festa pública) é o momento em que os orixás baixam nos corpos das iaôs (as filhas de santo) para representar – através das danças, dos trajes e emblemas – passagens de suas trajetórias míticas.  Através da representação dramática, as histórias dos orixás são contadas, a comunidade se recorda do mito e dele tira um determinado modelo de conduta.
Todas as festas públicas, normalmente, se encerram com farta distribuição das comidas sagradas  para os presentes, em ampla comunhão que busca fortalecer o axé da coletividade e de todos os que se dispuseram, adeptos ou não da religião, a comparecer ao festejo.
Uma das questões mais interessantes nos estudos sobre as religiões afro-brasileiras e as comidas de santo, é investigar sobre as maneiras como, no Brasil, a culinária religiosa de base africana se adaptou, se transformou e se apropriou dos sabores locais; adequando os mesmos aos fundamentos da cozinha sagrada. O jogo é de mão dupla: receitas de comidas sagradas saíram das mesas rituais para as mesas de nossas casas e restaurantes. Receitas saídas do nosso cotidiano, por sua vez, chegaram, dotadas de novos sentidos e significados, às cozinhas dos terreiros.
A feijoada é exemplar neste caso. Historiadores especializados na história da culinária indicam que  tradição de pratos que misturam tipos diferentes de carnes, legumes e verduras, é milenar. O cozido português e o cassoulet francês partem deste fundamento de preparo. O feijão preto, por sua vez, é originário da América do Sul. De uso bastante conhecido, por exemplo, pelos guaranis, seu cultivo disseminou-se pela África e Ásia a partir dos navegadores europeus que chegaram ao Novo Mundo. A farinha de mandioca também é de origem americana e fez percurso similar.
Controvérsias à parte, o fato é que a feijoada desenvolveu-se no Brasil como um prato cotidiano que chegou aos terreiros e passou a ser ofertado a Ogum, divindade do ferro, da guerra e das tecnologias. A feijoada de Ogum é normalmente acompanhada de cerveja, bebida aqui vinculada ao orixá.
Mesma coisa pode ser dita sobre o milho, um cereal hoje cultivado em boa parte do mundo que, segundo especialistas, têm origem americana. Inúmeros povos nativos da América - como os astecas, toltecas, maias – atribuíam ao milho origem divina. Os mitos envolvendo o milho  o  vinculam diretamente à própria criação dos homens.
Ao circular pelo mundo, o milho americano foi apropriado por inúmeras culturas e sacralizado por muitas delas. Ele é hoje base de alimentos importantíssimos da culinária dos candomblés. Está presente no axoxô de Oxossi, na pipoca de Obaluaiê, na canjica de Oxalá e nos alimentos de Ossain, dentre outros.
Conversando certa feita com uma iabassê sobre a feijoada de Ogum, ela afirmou que todo alimento pode ser ofertado às divindades, bastando o conhecimento sobre as comidas e temperos que se coadunam melhor com algumas energias. A diferença entre a nossa feijoada de cada dia e a feijoada consagrada nos terreiros está, sobretudo, no modo de preparação; repleto de minúcias e evocações ao orixá.
Não há, portanto, como se tentar estabelecer uma fronteira rígida entre o sagrado e o profano, que não seja constantemente reelaborada e readequada pelos contatos entre os povos e as circunstâncias de suas histórias. Os adeptos do candomblé, afinal, costumam dizer que Exu, o orixá do movimento, é o senhor da boca que tudo come. Qualquer alimento humano pode ser, mediante a evocação por gestos e palavras, consagrado e ofertado a ele.
Este texto deveria ter começado com Exu, o princípio de tudo. Termina, todavia, rendendo-lhe reconhecimento para dizer que na mesa de santo o profano pode ser sacralizado; como dinâmica que potencializa e redefine tradição, sem negá-la, e permite que os cultos afro-brasileiros continuem profundamente vivos entre nós. Qualquer alimento pode ser portador do axé; basta que seja preparado por mãos sábias e oferecido, eis o detalhe crucial, às bocas certas.

(Luiz Antonio Simas)


BOX – O ACARAJÉ
Um dos pratos fundamentais do candomblé mais presentes no cotidiano dos brasileiros é o acarajé. A preparação em um terreiro costuma ser artesanal. O feijão-fradinho deve ficar de molho até soltar a casca. A massa, obtida ao se passar o feijão na pedra, pede um tempero com sal e cebola ralada; depois é misturada com paciência até dar a liga. Num tacho coloca-se o azeite de dendê. Na fervura do óleo de palma, os bolinhos devem ser preparados com capricho. Os grandes, de preferência redondos, são oferecidos a Xangô, orixá vinculado aos atributos do fogo e da realeza. Os pequenos são apreciados pelas iabás (as orixás femininas), em especial Iansã, orixá que comanda os ventos e foi, nos mitos, a grande paixão de Xangô.  Para que tudo esteja nos conformes, convém se deliciar com o acepipe ao som misterioso do ilú, o toque de atabaque predileto de Iansã. No ano de 2004 o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) reconheceu a importância dos saberes tradicionais aplicados na produção e comercialização dos acarajés e registrou o ofício das baianas do acarajé como Patrimônio Nacional Brasileiro.


SAIBA MAIS:
BARROS, José Flávio Pessoa de. Olubajé, o banquete do rei. Rio de Janeiro: Pallas, 2005.
BASTIDE, Roger. O candomblé da Bahia. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
LODY, Raul. Santo também come. Rio de Janeiro: Pallas, 1998.
PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
QUERINO, Manuel. A arte culinária na Bahia. São Paulo: Martins Fontes, 2011.




segunda-feira, 16 de março de 2015

REFERÊNCIA EPISTEMOLÓGICA

Os acontecimentos de ontem - passeatas, panelaços e que tais - geraram análises em jornais, redes sociais e televisões. Sobre versão dos fatos, questionamento da verdade histórica, disputa pela narrativa; já li boas reflexões do povo daqui citando Nietzsche, Derrida, Foucault, etc. Quero contribuir citando a minha maior referência no campo da teoria da História, já que sou adepto da epistemologia da macumba: Elegabara, mais conhecido como Exu. Meu compadre.
O fato é que Exu - um craque nas questões epistemológicas que coloca - já tinha exposto antes dos alemães e dos franceses esses problemas do conhecimento do fato com grande competência, em um dos mitos mais famosos do corpo literário de Ifá; o monumental conjunto dos poemas da criação entre os iorubás, revelado aos homens e mulheres pelo sábio Orunmilá.
Refiro-me ao dia em que Exu resolve desafiar os sabichões que garantiam portar a verdade sobre determinado acontecimento. O compadre, então, diz que a verdade está com aquele que consegue dizer qual é a cor do filá que ele levará na cabeça no próximo dia do mercado.
O poema é longo e aqui vai o resumo: Exu propõe o desafio, coloca os sabichões em lados diferentes do mercado e passa pelo meio dos dois grupos. Acontece que a carapuça do grande orixá é vermelha de um lado e preta do outro. Quem olha pela direita enxerga o preto; quem olha pela esquerda observa o vermelho.
Um sábio grita "é preta!" , o outro afirma que é vermelha. Os dois acabam se matando em nome da versão verdadeira, enquanto Exu solta a gargalhada zombeteira e continua seu caminho, em busca de um bode para descarnar, realizando assim uma de suas funções mais sofisticadas: a de gerar a confusão que, no fim das contas, nos redime e ensina.
A polêmica que envolve a verdadeira cor da carapuça de Exu, o andarilho, destrói a pretensão dos sábios em relação ao domínio da verdade e expõe a sofisticada e ancestral visão de Ifá sobre os fatos; é a ela que também recorro quando penso a História.
Quem quiser saber mais sobre esse mito - e não tem acesso ao corpo literário dos poemas da criação - fica aqui uma dica: leiam “Os sábios de Tombuctu”, conto que faz parte de Elegbara, o livro em que Alberto Mussa, escritor e babalaô (sacerdote do segredo), profundo conhecedor de mitologias diversas, recria e reinventa, com imaginação prodigiosa, essa famosa história do corpo literário de Ifá. Esse conto magistral propõe o enigma que perpassa a fascinante literatura de Mussa, sintetizada na frase de Elegbara (penso nela sempre como um recado de Exu para mim, no trabalho com a História):
- Como julgam dominar a verdade se não podem acordar sequer sobre a cor de uma carapuça?
Exu é a grande referência epistemológica da minha vida.