sexta-feira, 19 de junho de 2015

BRANCO NA CANJIRA


Recentemente escrevi um texto sobre a pedra lançada contra a menina Kaylanne, adepta do candomblé, que teve alguma repercussão. Por causa dele recebi um pedido complicado, mas não escaparei pela tangente: escrever algo simples sobre a minha experiência de ser branco, criado por uma avó yalorixá, entre o xambá e a encantaria, e ter seguido um caminho até a consagração como babalaô; a partir do meu contato com a religiosidade afro-caribenha.

Não tomem esse depoimento como um texto teórico. Algumas referências, todavia, são necessárias. No livro “Pele negra, máscaras brancas”, Frantz Fanon chama atenção para um fato fundamental: o racismo herdado do colonialismo se manifesta explicitamente - e com mais furor - a partir de características físicas, mas não apenas aí. A discriminação também se estabelece a partir da inferiorização de bens simbólicos daqueles a quem o colonialismo tenta submeter: crenças, danças, comidas, visões de mundo, formas de celebrar a vida, enterrar os mortos, educar as crianças, etc.

O discurso do colonizador europeu em relação ao índio e ao africano consagrou a ideia de que estes seriam naturalmente atrasados, despossuídos de história. Apenas elementos externos a eles – a ciência, o cristianismo, a democracia representativa, a economia de mercado, a escola ocidental, etc. – poderiam inseri-los naquilo que imaginamos ser a história da humanidade. É a tentativa, em suma, de impor um olhar homogêneo sobre o mundo. 

A partir desses pressupostos, vamos aos fatos. É evidente que quando falo em raça não uso o conceito biológico. Penso, e não há novidade nisso, a raça como categoria política-social-cultural historicamente constituída. Em resumo: para a biologia eu pertenço a uma única raça, a humana. A maioria da polícia, todavia, me trata como branco mesmo e não me cria problemas.

A minha posição é, portando, ambígua: eu sou potencial vítima de discriminação naquele segundo sentido que Fanon aborda. Criado numa casa de santo, partilho de bens simbólicos considerados bárbaros ou, na melhor das hipóteses, exóticos. Não sou um simples simpatizante do culto aos orixás (conheço inúmeros simpatizantes e muita gente que gosta de bater um tambor na encolha): tenho meus ritos iniciáticos feitos, sou consagrado ao orixá e, posteriormente, a Orunmilá. Tenho meus igbás em casa e cuido deles. Escrevo sobre isso porque Orunmilá determinou. Não tive a experiência da conversão, já que cresci com essas referências desde o berço. 

Vejamos o outro lado. Se sou um potencial discriminado no sentido dos bens simbólicos que compartilho, do ponto de vista das características físicas sou eu que me encontro na posição do potencial discriminador. Não sou, afinal, apenas filho do tambor. Sou também filho de uma sociedade escravocrata, que naturalizou a violência das senzalas e é marcada até hoje por aquilo que Joaquim Nabuco chamou de obra da escravidão. Dentro de mim – branquinho azedo apelidado de russinho nas peladas de infância - certamente mora um sinhozinho; minha luta é contra ele. Saber que ele existe é fundamental para que, com a espada de Ogum, eu possa ao menos intimidá-lo.  Estou sempre alerta e a tarefa é árdua.

Alguns negros do candomblé – poucos - já me lançaram olhares desconfiados (e acho isso absolutamente compreensível). Muitos brancos já desconfiaram dos meus fios de contas e dos meus dias de vestir branco. Há quem ache que sou um intruso falando de legados que não me pertencem. Há quem ache que sou intelectualmente frágil e não considere o que escrevo porque conheço mais os mitos de Ifá que o cânone ocidental.

Não posso fazer nada além de dar a cara a tapa. Inscrito na História como potencial opressor do ponto de vista físico e potencial oprimido do ponto de vista simbólico, me amparo nas lições de Exu. Inimigo das dualidades e essencialismos, poderoso e brincalhão senhor das encruzilhadas, Bará me guia para que eu viva bem o meu odu: eu escrevo e falo para mostrar que os bens simbólicos e percepções de mundo que chegaram nos tumbeiros, e aqui se reinventaram nas florestas, são os legados que me constituem desde sempre. Por eles eu fui moldado e civilizado. Branco na canjira, é pela gramática dos corpos que dançam ao discurso do tambor que aprendo a mirar, da encruzilhada em que moro, a vida. 

terça-feira, 16 de junho de 2015

COM O ALFANJE ESCREVO

(Texto dedicado a uma menina apedrejada na Vila da Penha, no dia 14 de junho, porque estava com o traje branco e os fios de conta do seu orixá.)
Essa é a minha tessitura de olhar o mundo, como historiador, escritor, amigo, filho e pai.
Nós divinizamos os homens e humanizamos os deuses para construir uma civilização amorosa nos confins do ocidente. Em nome do oxê de Xangô, do pilão de Oxaguiã, do xaxará de Omolu e do ofá de Oxossi não há um só genocídio perpetrado na face da terra.
Nunca houve qualquer guerra religiosa em que se massacraram centenas de milhares de seres humanos em nome da fé nos encantados e orixás. A insígnia de nossos deuses nunca foi a mortalha de homens comuns - nós apenas batemos tambor e dançamos, não morremos ou matamos pela nossa fé.
O que faço é política, como já escrevi alhures. Eu faço política quando canto, toco, danço, imolo animais, respeito os mistérios do rio, evoco meus ancestrais na casa de egun, e digo aos arrogantes de plantão que cultuo os deuses que atravessaram o Atlântico, nos porões imundos dos tumbeiros, para inventar a vida onde amiúde ela não poderia existir. Eu faço política quando rezo as folhas e encanto com meu canto a jurema da matas do Brasil.
Orunmilá, o senhor do Ifá, conhecedor dos destinos, determinou que assim fosse. Ogum autorizou. Obatalá é o dono da minha casa - meu ilê. Exu, o compadre, mora na minha varanda, vive na minha esquina e me acompanha nas cervejas e batuques; ele bate comigo palmas ritmadas no compasso do partido-alto. É dele, sempre será dele, Exu Odara, o senhor da alegria, o primeiro gole de cada entardecer da minha vida.
E não admito andar de cabeça baixa e nem me envergonhar do legado dos meus avós (quando criança, tive em certa ocasião vergonha de dizer no colégio que era do santo; dessa fala que não saiu da minha boca eu nunca mais esqueci e o silêncio constrangido do menino ainda grita no homem que sou).
Que cada um tenha o direito de encontrar o mistério do que lhe é pertencimento, em gentileza e gestos de silêncio, toques de tambor e cantos de celebração da vida.
Eu conheci e (me) reconheci (no) meu deus enquanto ele dançava, no corpo de uma yaô, ao ritmo do vento que balançava as folhas sagradas do mariô, amansando o chão de terra batida à virada do rum. Meu general, com a majestade dos seus passos, fazia farfalhar a copa do dendezeiro com a destreza de sua adaga africana. Foi o alfanje de Ogum que alumiou meu mundo. É com ele que escrevo agora.
Olorum Modupé!

sexta-feira, 12 de junho de 2015

OGUM, O SENHOR DE TÉCNICAS E ARTES


Dentre os orixás africanos mais populares no Brasil e em Cuba, países em que o conhecimento de Ifá se estabeleceu com significativa força, está certamente Ogum. Creio também que Ogum é, por incrível que pareça, um orixá mal compreendido do lado de cá do Atlântico.

Ogum ocupa, na mitologia dos iorubás, a função do herói civilizador e senhor das tecnologias. Foi ele, por exemplo, que ensinou o segredo do ferro aos demais orixás e mostrou a Oxaguiã como fazer a enxada, a foice, a pá, o enxadão, o ancinho, o rastelo e o arado. Desta maneira permitiu que o cultivo em larga escala do inhame salvasse da fome o povo de Ejigbô. Em agradecimento ao ferreiro, Oxaguiã passou a usar em seu axó funfun [a roupa imaculadamente branca da corte de Obatalá] um laço azul - a cor de Ogum.

Ogum também ensinou aos orixás como moldar na forja os adornos mais bonitos e os utensílios que enfeitam as danças dos deuses entre os homens. Desprovido de ambições materiais, recusou a coroa e entregou toda a riqueza que acumulara a uma simples vendedora de acaçá que lhe pedira esmola.

Ogum é irmão dileto de Exu. Recusou, em um dos poemas do Ifá, oferendas suntuosas. Mandou que os presentes fossem entregues a Exu e disse: quem agrada e cuida do meu irmão é aquele que verdadeiramente me agrada. Ao burburinho das cortes, preferiu a solidão das matas e das grandes  caçadas ao lado de Odé. Aos trajes suntuosos, preferiu a simplicidade da roupa feita com as franjas das folhas do dendezeiro.

Ogum virou general para acabar com as guerras. Em um mito de extrema beleza, Ajagunã brigava sem parar  e não atendia aos apelos de nenhum orixá. Ogum se aproximou de Ajagunã e disse: Babá, me entregue as suas armas e o seu escudo; eu faço a guerra para que o senhor descanse. Ajagunã entregou os utensílios de batalha a Ogum - que prometeu jamais usá-los em um conflito desnecessário.

O mito de Ogum mais difundido no Brasil, entretanto, é outro. Me refiro ao episódio em que ele volta, após uma longa temporada de caça e guerra, ao povoado de Irê. Ogum chega a Irê no dia dedicado, segundo a tradição, ao silêncio absoluto. Em virtude desse dia do silêncio, Ogum não foi saudado pela população da forma como esperava. Enfurecido, se considerando injustamente desprestigiado, pegou sua espada, destruiu as casas, ruas, praças e mercados, massacrou todo o povo e tomou banho com o sangue dos que acabara de matar - amigos, inimigos, familiares e desconhecidos.

Pouco tempo depois, um único sobrevivente reverenciou Ogum e disse que o povo não o saudara em virtude da tradição do silêncio. Ogum ficou inconsolável e admitiu que se esquecera do ritual. Profundamente arrependido do banho de sangue - pelo qual jamais se perdoou - resolveu desistir de caçadas e guerras, cravar sua espada no solo e sumir na terra, virando para sempre um orixá. Desde então Ogum respeita o silêncio dos homens e não gosta de gritarias.

Um dos versos mais famosos de Ogum - aquele que tendo água em casa se lava com sangue - se refere exatamente a este episódio emblemático, o mais lamentável na trajetória do grande herói civilizador do povo iorubá, e do qual o ferreiro se arrependeu com todas as suas forças. Esse verso, retirado do contexto do mito, perde todo o sentido que a sabedoria de Ifá estabeleceu - está aí, na reação intempestiva, a negatividade, a perda do axé, da energia de Ogum.

A partir dessas histórias, as mais emblemáticas e que fundamentam o culto a Ogum, chego ao ponto que me parece crucial. No Novo Mundo, especialmente no Brasil e em Cuba, a face mais marcante do orixá - a do ferreiro, patrono da agricultura, professor de Babá Oxaguiã, inventor do arado, desligado de bens materiais, senhor das tecnologias que mataram a fome do povo e permitiram a recriação de mundos como arte - praticamente desapareceu.

A explicação não é nova: a agricultura nas Américas estava diretamente ligada aos horrores da escravidão. Como querer que um escravo, submetido ao infame cativeiro e aos rigores da lavoura, louvasse os instrumentos do cultivo como dádiva? Como enxergar no arado, na enxada e no ancinho instrumentos de libertação, quando os mesmos representavam a submissão ao senhor e o fruto da colheita não pertencia a quem arava o solo?

Ogum foi perdendo, então, o perfil fundamental de herói civilizador - a maior de suas tantas belezas. Seu culto entre nós, cada vez mais, se ligou apenas aos mitos do guerreiro. Ogum é o general da justiça e da reparação contra o horror do cativeiro, mas pode ser também o guerreiro louco e implacável que, assim como salva, é capaz de destruir àqueles que ama e viver na solidão absoluta.

Prevaleceu na diáspora, portanto, o Ogum do qual o próprio Ogum, em larga medida, se arrependeu: o intempestivo guerreiro que, em um momento de incontrolável acesso de fúria, foi capaz de se lavar com o sangue do  próprio povo. Envergonhado desse banho, preferiu deixar a terra e viver no Orum. 

Faço essas observações porque sobre elas reflito constantemente. A razão é simples: sou filho de Ogum, iniciado no culto ao grande orixá. Passei pela cerimônia que me permite usar a faca consagrada do meu pai. Os que são do santo sabem o que quero dizer com isso, e é suficiente.

Ogum é meu pertencimento mais profundo. Mora dentro de mim como mora no magma da terra. Sei que sou capaz da criação - Ogum é antes de mais nada um criador - mas sei também que sou capaz da fúria. Sou filho do deus que criou a civilização com o arado e destruiu a civilização com a espada. Posso ser capaz, como meu pai,  da canção e do martírio. Flor e afiada faca.

Um grande babalô, em certa ocasião, recitou para mim um poema de Ifá com a seguinte trama: um filho de Ogum perguntou ao oráculo quem era o seu maior inimigo e como fazer para encontrá-lo e destruí-lo. Orunmilá determinou que esse homem fizesse sacrifícios com galos e caramujos e seguisse determinado caminho. No final da vereda o inimigo o estaria aguardando para o combate. Assim foi feito.

Após longa caminhada, o homem atingiu o fim da estrada e encontrou apenas um pequeno lago de águas cristalinas. Julgando que o algoz ainda não chegara, resolveu lavar as mãos no lago. Ao se agachar o homem viu, com nitidez impressionante, a sua própria imagem refletida no espelho d´água.

Era a resposta de Ifá.

A arte da criação e o exercício da simplicidade generosa é, para os filhos de Ogum, o descanso na loucura e a única maneira de domar o inimigo que (me) espreita ao final de cada jornada.

Ogunhê !!


segunda-feira, 1 de junho de 2015

FUTEBOL E CALDO DE CANA

O menino Alexandre de Carvalho é um herói nacional e está para a história de Pernambuco no mesmo patamar de um Frei Caneca, um Maurício de Nassau, um João Cabral. Não sabem de quem se trata? Explico.

No dia 3 de fevereiro de 1914, perto do furdunço do carnaval e meses antes da Guerra Mundial explodir,  onze garotos do Recife, entre quatorze e dezesseis anos, resolveram criar um time de futebol. Como a meninada costumava jogar bola no pátio da Igreja de Santa Cruz - para desespero dos padres e beatas que vez por outra viam uma pelota invadir a igreja durante a santa missa - o nome do time foi escolhido sem maiores polêmicas: Santa Cruz Football Club, com direito a sotaque britânico e o escambau.

O início da trajetória do time da garotada foi arrasador. O Santa obteve vitórias por goleadas contra o Rio Negro, respeitável equipe do Recife à época, e um surpreendente triunfo sobre os ingleses que trabalhavam na Western Telegraph Company de Pernambuco. Os súditos da rainha, cheios da marra típica dos inventores do futiba moderno, ostentavam até então categórica invencibilidade. Estava nascendo ali, nos pés daqueles garotos, uma das glórias do futebol brasileiro e paixão maior do povo que dribla no compasso do frevo.

Pouco depois da fundação, e apesar das vitórias iniciais, a situação financeira do time da meninada era desesperadora. O dinheiro em caixa, 6.000 réis, era insuficiente para a manutenção de uniformes, chuteiras e bolas da equipe. Um dos fundadores sugeriu, então, que eles desistissem da ideia do time, comprassem com a quantia uma máquina de fazer caldo de cana e vendessem a bebida na Rua da Aurora.

A sugestão - transformar o time de futebol na máquina de caldo de cana - vigoraria e o Santa Cruz iria para o beleléu,  se não fosse a intervenção heróica de Alexandre de Carvalho. O insurgente transformou a reunião em um fuzuê dos diabos, subiu na mesa, ameaçou jogar a geringonça de caldo de cana nas águas do Capibaribe, jurou envenenar a bebida para fazer todo mundo parar na polícia e outros babados. Usou um argumento irrefutável:

- Nós gostamos de jogar futebol e não de vender caldo de cana. 

Alexandre garantiu, com esse providencial ataque, que o Santa Cruz não se transformasse numa barraquinha de bebidas na Rua da Aurora em nome de uma engenharia financeira mais eficaz.

Alexandre de Carvalho é o símbolo que o Santa Cruz  e o próprio futebol brasileiro precisam canonizar. A grita do garoto contra a barraquinha de caldo de cana é nosso estandarte contra os engravatados de plantão, empresários da pelota, senhores dos grêmios de sei lá que porras, patrocinadores que transformam camisas gloriosas em trapos repletos de propagandas, apóstolos que usam o futebol para fazer proselitismo religioso e entidades que violam a tradição, a arquitetura e a história dos estádios em nome de empreendimentos milionários e mamatas superfaturadas.

O esporro do moleque nos companheiros, diga-se, vai além do futebol e vale mais como lição de vida do que duzentos livros de autoajuda produzidos por padres, psicanalistas, pastores, pais de santo, médiuns, empresários, atletas, educadores de titica, magos, fofos e fofas de plantão e biltres de todos os calibres. 

O garoto Alexandre, ao mandar o seu não fode! ao projeto que poderia ter feito do Santa Cruz do Recife uma barraquinha de caldo de cana, condensou em uma frase um verdadeiro tratado sociológico sobre o futebol, o Brasil, o dinheiro e a dimensão do que o homem está fazendo (ou deveria fazer) nessa travessia entre uma trave e outra do gramado:

- Nós gostamos de jogar futebol e não de vender caldo de cana. Que se dane o dinheiro, caralho!


quarta-feira, 27 de maio de 2015

SAMBA DE RODA PARA SÃO COSME

Agora danou-se! Acabei de abrir o email e tive uma alegria que me fez ficar comovido pra dedéu. Um menino de quatorze anos, que não conheço pessoalmente, me mandou uma mensagem linda dizendo que por causa de um texto meu perdeu a vergonha de assumir para as amizades do colégio que é umbandista. Os pais mandaram também um recado comovente. Só me resta abrir uma gelada, pensar que um dia, moleque ainda, também vivi esse dilema de assumir o meu chão diante de olhares desconfiados, e reproduzir o texto que nos proporcionou (ao garoto, aos pais e a mim) essa alegria. Foi escrito em um já distante dia de São Cosme e São Damião. Vai abaixo:
Sou devoto amoroso do Brasil e de seus encantamentos. Nesse ponto, e dou o braço a torcer, quem está certo é o velho compositor baiano: quem é ateu e viu milagres como eu. E nossos milagres, camará, são muitos, temperados por tambores e procissões; pela Virgem no andor, o caboclo na macaia e o preto velho no gongá.
Somos os filhos do mais improvável dos casamentos, entre o meu compadre Exu e a Senhora Aparecida - a prova maior de que o amor funciona. E Tupã, que se vestiu com o cocar mais bonito para a ocasião, celebrou a cerimônia entre a cachaça e a água benta.
Uma das nossas mãos está calejada pelo contato com a corda santa do Círio de Nazaré - a outra tem os calos gerados pelo couro do atabaque que evoca as entidades. As mãos do Brasil e do seu povo.
Nossos ancestrais passeiam pela vastidão da praia sagrada dos índios de Morená, retornam à Aruanda nas noites de lua cheia, silenciam no Orum misterioso das almas e florescem encantados nas folhas da Jurema.
Os guerreiros de nossas tropas trazem a bandeira do Humaitá, o escudo de Ogum e o estandarte da pomba branca do Divino Espírito Santo. A mesma pomba que pousou na ponta do opaxorô de Obatalá. São essas as nossas divisas de guerra e paz; exércitos do Brasil.
E digo isso porque está chegando o dia de Cosme e Damião. Dia brasileiro dos santos estrangeiros e orixás africanos. Dia de igreja aberta, missa campal, terreiro batendo, criança buscando doce, amigos bebendo saudades e aconchegos. Dia de comer caruru na rua.
A tradição brasileira de Cosme e Damião é a mais festiva do mundo. O bom, nessas horas que antecedem as folganças dos santos gêmeos, é vadiar no clima da folia, tomando pinga e ouvindo umas cantigas bonitas sobre os protetores das meninas e meninos.
E como gosto disso! Logo eu, que conversei com Seu Zé, recebi ordens de Seu Tranca Ruas, vi Tupinambá dançar encantado, fui seduzido pela beleza de Mariana e pela saudade de seu navio, temi a presença de Seu Caveira, cantei a delicadeza da pedrinha miudinha, respeitei o cachimbo velho de Pai Joaquim, me emocionei quando Cambinda estremeceu para segurar o touro bravo e amarrar o bicho no mourão. Os meus me entenderão.
É por isso, pelo meu encanto por Yara, pelo temor amoroso ao caboclo Japetequara - veterano bugre do Humaitá - pela reverência aos que correram gira pelo Norte, que me emociono com os santos brasileiros como nós. Por amor ao Brasil, camará! Amor bonito e dedicado, feito o cocar de Sete Flechas e o diadema da sucuri no limiar das luas.
Tenho, enfim, forte desconfiança de que ainda morro um dia de tanta belezura do lugar que é meu - um amor que não se explica, feito cachaça da boa, jabuticaba, sorvete de cupuaçu, beira de rio, gol do meu time, cerveja gelada, mulher amada, amigos do peito e caruru de Cosme.
A hora agora é de bater samba de roda pra Dois-Dois, na palma da mão e no ponteio da tirana. E que no dia de cantar pra subir, um samba de roda desses me carregue ao encontro dos meus pela Noite Grande.


A casa é sua, Dois-Dois, e a minha vida é essa!

terça-feira, 26 de maio de 2015

O SAMBA CORDIAL?

Recentemente o sociólogo Manuel Castells declarou, com grande repercussão, que a sociedade brasileira não é simpática; é uma sociedade que mata. Concordo em parte, ressaltando que o sociólogo arrematou com uma frase que, para muitos, passou desapercebida: “A sociedade  é bastante má. No Brasil e em todos os outros países”.  Sim, é claro que não é só aqui. A aventura da formação de Estados Nacionais é também – e em larga medida - uma matança e qualquer livro didático de ensino médio mostra isso.

Podemos em outra ocasião discutir os riscos de se quebrar um mito, o do brasileiro naturalmente simpático, para construir outro, o do brasileiro naturalmente violento. Eu já acho a expressão "naturalmente" complicadíssima. Por vício de formação acho que somos mais  históricos que naturais, mas isso é outro papo. Entre a flor e a faca, somos as duas coisas e tudo ao mesmo tempo: afago e porrada, festa e fuzil, Villa-Lobos e delegado Fleury, tortura e canto, horror e festa, roupa branca da libertação em Oxalá e roupa branca da repressão às babás, etc. E temos mesmo que falar sobre isso.

A Alemanha de Bach é a Alemanha de Hitler, a França das luzes é a França do Imperialismo, e por aí vai.  A sociedade brasileira é simpática, antipática, afaga e mata. Puxa a faca e toca a flauta, e a experiência do cativeiro está entranhada ainda em nós, seus algozes ou vítimas diárias. Produzimos beleza e violência (e que tal enfrentar a encrenca de entender a violência, em algumas instâncias, como forma de sociabilidade?). Mas não é isso que quero discutir aqui.

A tirada de Castells que, todavia, me incomodou foi outra: disse ele que “a imagem mítica do brasileiro simpático existe só no samba”. 

Ai, ai, ai. Aí o sociólogo demonstrou que conhece pouco da história do samba, complexa feito o diabo. Ao usá-lo como referência para contestar, justamente, o mito do brasileiro naturalmente afável, colabora para a perpetuação de outro; o do samba carnavalizado como a alegria do povão. Simplificação maior não há.

Neste ponto sou obrigado a dizer que a carnavalização do samba – aquele processo de vinculá-lo apenas ao perfil de música que borda a nossa suposta simpatia – foi e continua sendo em larga medida uma tentativa de domá-lo (seja por parte do Estado, da indústria fonográfica, da mídia, de alguns sambistas, etc.) exatamente, talvez, porque o samba é muito mais complexo e problemático - no sentido de não se domar a análises superficiais - do que isso.

Muito mais do que gênero musical ou bailado coreográfico, o samba é elemento de referência de um amplo complexo cultural que dele sai e a ele retorna, dinamicamente.   Nos sambas vivem saberes que circulam; formas de apropriação do mundo; construção de identidades comunitárias dos que tiveram seus laços associativos quebrados pela escravidão; hábitos cotidianos; jeitos de comer, beber, vestir, enterrar os mortos, amar, matar, celebrar os deuses e louvar os ancestrais. Reduzir o samba ao terreno imaginário onde mora o brasileiro afetuoso é um reducionismo perigoso e em nome da crítica a um mito se reforça outro.

Não custa recordar que o discurso do samba, e de toda a múltipla musicalidade oriunda da diáspora africana, também está no fundamento do tambor, que fala daquilo que nossas gramáticas não nos preparam para ler. O tambor - e são tantos! - vai buscar quem mora longe e isso é muito sério.

O samba - de cara podemos lembrar até da complexidade de experiências que o definem - é testemunho e fonte documental para constatar as nossas contradições poderosas; o nosso horror e as nossas escapadelas pelas frestas da festa. O beijo na cabrocha, o assassinato de Malvadeza Durão, a alvorada no morro, a prisão do Chico Brito que fuma a erva do norte, a ilusão de um olhar, o mulato calado que já matou um e se garante na inexistência do X-9 em Mangueira, os poderes do jongueiro cumba, o batizado do neguinho vestido de anjo em Pirapora, o preconceito racial no casamento do neguinho e da senhorita, as porradas que o delegado Chico Palha enfiava em macumbeiro nos tempos da vadiagem, a navalha no bolso, o revólver como maneira nossa de entrar no século do progresso, a mulher vitimada pela violência, submissa como Amélia, rebelde e altaneira como Gilda; o tiro de misericórdia no menino que cresceu correndo nos becos que nem ratazana e morreu como um cachorro, gemendo feito um porco... Tá tudo no samba.

Falo isso ressaltando que  não sou sambista. Também não sou – a despeito de ter lançado livros sobre o tema – exatamente um  pesquisador do samba.  Prefiro me definir como um pescador; fascinado pela dimensão oceânica dos batuques que unem, na vastidão do Atlântico Negro, praias das áfricas e do Brasil.

Reverente aos mestres das agulhas de marear, lanço no universo do samba minha rede para pescar peixes mais próximos da superfície e saboreá-los, na brasa, entre cervejas geladas e cangebrinas quentes. Não tenho a preparação e a vivência para mergulhos de maior fôlego, aqueles que permitem o acesso às profundidades escuras – como escuros eram os porões dos tumbeiros que cruzaram a calunga grande. Isso é coisa de fundamento. Por isso piso manso antes de falar sobre o samba. Escutemos a fala dos mestres.

Vem daí o meu estranhamento ao perceber que a frase do Castells, solta no meio de uma entrevista, passou batida. Afinal foram os sambistas que me ensinaram, exatamente ao contrário do que ele afirma,  que o brasileiro naturalmente simpático não passa de um mito.


segunda-feira, 11 de maio de 2015

O DESENCANTO EM CAMPO

Acho que o hino de time de futebol mais bonito da cidade do Rio de Janeiro é o do São Cristovão, composto pelo Lamartine Babo (o mais bonito do mundo é o do Canto do Rio, de Niterói, também obra do Lalá). O hino do São Cri-Cri cita Dom Pedro II, louva a Zona Norte e o escambau.
Confesso, todavia, que escutar o hino do São Cristovão hoje em dia me causa uma melancolia danada em relação ao Rio de Janeiro. A sensação que tenho é a de que a cidade se desencantou. Pode estar melhor ou pior do que era; cada um que tire sua conclusão; o que me parece inquestionável é que ela está desencantada.
(Texto publicado no jornal O Dia, edição de 10/05/2015)

Os clubes de futebol de bairro - como o São Cristovão, Olaria, Bonsucesso, Portuguesa, Bangu, Campo Grande e Madureira - têm uma trajetória muito similar a das escolas de samba. Mais do que times de futebol, eles representavam espaços em que as comunidades dos bairros conviviam, expressavam anseios, festejavam e se integravam em espaços muitas vezes esquecidos pelo poder público. Não tinham a intenção prioritária de conquistar títulos; a vitória maior era simplesmente existir e proporcionar o encontro.
Os desfiles de carnaval chegaram ao ponto em que as alegorias e fantasias se transformam em parafernálias e o componente virou garoto-propaganda do patrocinador; além de coadjuvante do delírio visual de alguns carnavalescos. O futebol se transformou em negócio milionário, controlado por empresários, holdings, etc.
A identificação entre jogador e clube desapareceu e a paixão perdeu espaço para as estratégias de mercado. Os clubes que não apresentam potencial de retorno financeiro e capacidade de projeção na mídia (já que não possuem torcedores, ou melhor, clientes numerosos) correm o risco de acabar ou, quando muito, penar em campeonatos de divisões intermediárias.
 Para quem acha que falo apenas de futebol, aviso que o buraco é mais embaixo: é a vida de bairro que agoniza. Vivemos tempos estranhos, em que é mais fácil o sujeito saber o que está acontecendo em Londres do que descobrir o que ocorre na esquina, na feira, no bairro, no botequim, no açougue e no clube da localidade.
A míngua dos pequenos clubes, como o São Cristovão do lindo hino, é a perda de um modelo civilizatório mais humano, afável, destinado ao festejo e ao compartilhamento da alegria e da dor. Na cidade desencantada, agoniza o cotidiano dividido com o jornaleiro, a rezadeira, o barbeiro, a feirante, o portuga da birosca, o amolador de facas e o velho torcedor; aquele que frequenta sempre, até que morra ele ou o clube, o mesmo lugar na arquibancada.