quarta-feira, 11 de novembro de 2009

RECORDAÇÕES DO ESCURO - A NOITE NO BICHO DA SEDA

Eu no escuro, quando moleque, fechava os olhos. Não abria os olhos dentro de trem fantasma, por exemplo - e por isso mesmo os monstros eram apavorantes.
Coisa curiosa, essa. Nunca deixei de entrar em trens fantasmas nos parques de diversões, mas jamais olhei o que estava acontecendo enquanto o vagão danado corria no escuro. A mesma coisa vale para o bicho da seda.
O apagão de ontem me fez recordar das escuridões da minha infância e de um texto que escrevi sobre uma dessas aventuras no escuro. É esse que vai abaixo:

Meu avô gostava de cachaça, futebol e mulher pelada. Pernambucano, filho de italiano com portuguesa, o velho era chegado numa arenga das boas.
Tremendo tampinha, arrumava as maiores confusões, falava alto e tinha um chicote de couro - presente dado, dizia ele, por um cangaceiro do bando de Lampião.
Certa feita, tornou pública a intenção de matar o Toninho Cerezo, depois do Brasil e Itália na Copa de 82. Antes jurou cobrar do Coutinho a barração do Zico no certame de 1978.
Tirando esses pormenores, e o calibre vinte e dois que ele guardava no armário, era uma flor de pessoa. Me criou desde que eu tinha três anos de idade.
Houve um dia, eu devia ter uns seis ou sete anos, em que o velho me levou a um parquinho de diversões na Quinta da Boa Vista, cuja grande atração era uma espécie de bolha de plástico com um colchão imenso. A criançada pintava os cavacos dentro daquele treco, com saltos mortais e o cacete. Eu adorei.
Depois que pedi pra ir à bolha pela quarta vez, meu avô me olhou com uma expressão jagunça e falou:

- Você não prefere ir ao bicho-da-seda? É bem mais divertido. Você vai gostar mais. Vamos ao bicho da seda. Agora.

Pra quem não sabe, vale o esclarecimento. O bicho da seda era um negócio sério. Explico, com uma tremenda saudade, como funcionava a geringonça.
O brinquedo era uma espécie de trenzinho, com bancos pra duas pessoas, que rodava em círculos, em alta velocidade. De súbito, um cortinado cobria o trenzinho e ficava tudo no maior breu.
Parentêse: Nessa hora, as meninas gritavam histéricas e nós, os machos, fechavamos os olhos para não ver o escuro - a mais bonita e infantil das contradições.
Pois bem, quando o cortinado subia, as coisas voltavam ao normal. Até que as trevas desciam novamente sobre o mundo e o pânico retornava.
Feita a observação técnica, voltemos ao parquinho da Quinta. Na hora em que fui entrar no brinquedo, louco pra fazer cocô e xixi ao mesmo tempo, meu avô falou, com a seriedade de quem revela o terceiro segredo de Fátima, o seguinte:

- Escolhe um banco e senta ao lado de uma menina. Não esquece. Só pode sentar ao lado de uma menina. Se não der, espera a próxima vez.

Cumpri a determinação do velho. Sentei ao lado de uma moreninha um pouco mais velha que eu e bonita pra dedéu. Devia ter seus nove anos, se tanto. Ao lado dela, preparei-me para a aventura, respirei fundo e lá fomos nós.
Rezei baixinho, pedi proteção e fechei os olhos. Foi dada a partida, bem devagarinho...e o bicho foi acelerando. Logo, logo a cortina cobriu tudo e ficou escuro pra burro. A petizada começou a fazer um esporro de dar razão ao rei Herodes.
Naqueles segundos de trevas completas , todos os medos, fantasmas, demônios e dentistas da minha infância apareceram, terríveis, imensos e assustadores.
Quando terminou a epopéia, as meninas saíram colocando as mãos nos corações e nós, machos, não podiamos demonstrar um pingo de medo.
Eu, particularmente, saí pisando forte, com cara de mau, segurando o xixi, pra meu avô ficar orgulhoso. Com a moral de quem tinha superado um tremendo desafio, fui impositivo:

- Quero uma grapete. Não senti medo nenhum. Nem um tiquinho, ó.

-Vamos lá, disse ele.

- Antes quero fazer pipi.

- Tá. Mas, olha, homem não pede pra fazer pipi nem xixi. Fala que quer dar uma mijada. Fica melhor. Meninas fazem xixi e meninos mijam. Nunca esquece disso. Fala de novo, vai, pra treinar.

- Vô, eu quero mijar.

Aprendida a lição (que guardo até hoje) e acertadas as contas com a bexiga, paramos na barraquinha dos refrigerantes e o velho falou:

- E aí, gostou?

- Hã , hã.

- Mais nada? E a menina no escuro; você não fez nada no escuro, enquanto ela gritava?

- Não. Ué, vô, fazer o que?

Fomos embora, o velho com cara de poucos amigos. Perto de casa, virou-se pra mim, passou as mãos nos meus cabelos - eu os tinha! - e sentenciou:

- Não tem problema. Tua vó, tua mãe e tuas tias tão estragando você. Qualquer hora dessas te levam à Socila. Mas, a partir de agora, eu vou cuidar da tua educação mais de perto. Vamos sair mais sozinhos. Deixa comigo, que se tudo der certo, vai dar a maior merda.

Na hora, não entendi patavina. Mas hoje, como compreendo o velho. Tanto que, se no dia do juízo final, Jesus Cristo me fizer uma pergunta definitiva, daquelas de decidir o futuro da alma :

- Do que você se arrepende?

Eu mirarei o Filho do Homem, com o devido respeito, é claro, e responderei convicto:

- De uma certa noite, mestre. No bicho-da-seda da Quinta da Boa-Vista. Quebra esse galho. Dá pra ter sete anos de novo e estar lá?

Abraços

7 comentários:

Claudio Renato disse...

Belas reminiscências, Simas. Fico pensando que, se seu avô quis matar o Cerezzo, em 1982, imagina o que ele não faria com o Valdir Peres e o Sérginho Chulapa!

Olga disse...

Simas, tenho uma péssima lembrança do Bicho da Seda (do inesquecível Tivoli Park). Só topei porque meus irmãos todos iam e eu não quis ser estraga prazeres. Mas sabia, desde muito cedo, que o meu labirinto não suportaria aquelas reviravoltas. Quando a maldita cortina se abriu só me lembro da sensação de náuseas, vômitos e suor frio. Se algum menino tivesse se atrevido, pra provar que era macho pro vô, coitado!, iria ficar traumatizado e com uma péssima impressão das meninas. Resumindo, uma desequilibrada, desde cedo.

E grande história, a descrição do seu avô é pitoresca. Grande avô!

Márcia Fernandes disse...

Maravilha esse teu blog. Parabéns e obrigada.

Beatriz Fontes disse...

Amei esse texto. Amei.

E eu sempre gostei desses brinquedos de trenzinho... do bicho da seda à montanha-russa.

Vanessa Dantas disse...

Delícia de texto. Bj.

figbatera disse...

Ah! Que beleza! Esse é que era um avô "porreta"...

Anônimo disse...

Seu Luiz Simas,

Grande crônica !

O Avô Pernambucano sabia mesmo das coisas !

Obrigado por partilhar conosco lembranças suas tão felizes e, ao mesmo tempo, com um texto tão emocionante !

Humberto