sábado, 14 de novembro de 2009

SEU TRANCA RUA, O ZAGUEIRO - A PROVA DO MILAGRE

[Originalmente publicado, de forma reduzida e sem a imagem do milagre, no Histórias do Brasil]

Minha família é, quase toda, chegada numa curimba. O que tem de macumbeiro não está no gibi. Fui criado pela minha avó, mãe de santo de um terreiro no Jardim Nova Era, em Nova Iguaçu, onde o coro comia quase todo sábado - com muita festa de encantaria e toque pros orixás [escrevi sobre essa infância na macumba aqui ].

Disse que quase toda família era do babado mas, em nome da verdade, preciso destacar que minha tia-avó , Dona Lita, era exceção. Católica fervorosa - de rezar o terço e assistir na sessão da tarde de todo dia 13 de maio um filme velho pra burro sobre o milagre de Fátima - queria porque queria que todas as crianças fizessem primeira comunhão e crisma.

Lembro, por exemplo, quando a tia tentou me ensinar a música tema do filme Marcelino Pão e Vinho e não se conformou quando eu disse que preferia cantar Perereca da Vizinha e Araruta, com o bunda bunda toma limonada pra cagar de madrugada no final.

A boa tia Lita também ficava chocada todo Natal, diante das porrancas formidáveis que meu avô tomava para comemorar o nascimento do menino Jesus. O dever de todo homem de bem, segundo ela, era estar com a família na missa do Galo, enquanto o vô preferia mandar bala na cana.

Parêntese: O argumento do velho para encher a caveira era teológico e infalível: Cristo, nas Bodas de Canaã, transformou água em vinho. Me aponte uma página da Bíblia em que ele tenha transformado vinho em água. E não havia como demover o Seu Luiz Grosso dessa convicção profunda - a de que o Filho do Homem era chegado nuns birinaites.

Fechado o parêntese, retomo o mote: A minha tia Lita era o clássico exemplo de beata. Suspeito até que fosse, e escrevo isso com o maior carinho, cabaço. Com todo respeito.

Qual não foi, portanto , minha surpresa com uma cena ocorrida durante a Copa do Mundo de 1978, envolvendo essa minha tia. Aos fatos.

Jogavam Brasil e Espanha. Jogo duro, o gramado mais parecendo um pasto, meu avô desfilando um repertório de palavrões contra o Coutinho -técnico do escrete -, quantidades industriais de cerveja, caldinho de feijão e, para quebrar o clima profaníssimo, tia Lita rezando o terço, pedindo aos céus pelo sucesso canarinho.

Segundo tempo, zero a zero nervoso, o Brasil sendo vergonhosamente pressionado, quando uma bola é alçada na nossa área. O Leão sai do gol catando borboletas e a bola sobra, cristalina , nos pés do centroavante adversário.

O espanhol se prepara para o arremate, num lance inapelável, com o goleiro batido. Subitamente, como num milagre, surge o Amaral, nosso zagueiro, que , postado debaixo do travessão, salva a nossa cidadela.

Meu avô ameaça infartar. Meu irmão faz, literalmente, cocô nas calças. O Manoelzinho Mota, aos prantos, repete - não entrou, não entrou. Minha vó faz breve comentário: Esse até eu faria. E minha tia, a beata, joga o terço pro alto e grita :

- Foi ele! Foi ele! Obrigado. Obrigado.

Eu, ainda sob efeito do lance, fiz a pergunta:

- Ele quem, tia Lita, Jesus Cristo?

- Que Jesus Cristo, menino. E Jesus Cristo quer lá saber de jogo? Jesus Cristo porra nenhuma.

- Quem foi então?

- O Exu Tranca Rua, é claro!

Meu avô quase infartou de novo:

- Foi quem, Lita?

- Seu Tranca Rua. Eu vi Seu Tranca Rua do lado da trave, protegendo o gol do Brasil. Eu vi!

E, dizendo isso, a velha começou a cantar, acompanhada, sem sacanagem, por todo mundo:

Seu Tranca Rua é homem
Promete pra não faltar
Catorze carros de lenha
Pra cozinhar gambá
A lenha já se acabou
E a gambá
Tá pra cozinhar


Senhoras e senhores, não estou mentindo, que eu não vou brincar com Seu Tranca nem a pau. A minha velha tia, beatíssima, afirmou de fato, com convicção, que Exu Tranca Rua tinha defendido a seleção brasileira.

Meu avô, impressionadíssimo, repetia :

- É coisa séria. É coisa séria. Traz um copo de cachaça pra botar do lado da televisão.

O Manoelzinho Mota, devoto do Homem da Rua, afirmava com absoluta certeza que Seu Tranca tinha baixado no Amaral, o zagueirão.

O fato é que o Brasil, com um zagueiro desse porte, não levou gol naquele jogo.

No dia seguinte, minha tia voltou a rezar o terço, me chamou num canto e disse a mesma lenga-lenga de sempre:

- Você tem que aprender a rezar, menino. Não vai atrás dessa família, não, que macumba não dá camisa a ninguém. Só existe uma verdade, Jesus Cristo.

Sem entender patavinas, perguntei pra velha:

- Mas tia, e Seu Tranca Rua?

E ela, de bate-pronto, na base do esporro:

- Lava essa boca, menino, que isso não existe! Fica andando com macumbeiro e dana de falar besteira.

Brasil-sil-sil !

O lance que originou o furdunço, o milagre de Amaral e do seu Tranca, é esse:


Saravá

7 comentários:

Catarina Cunha disse...

Bernardo Cotrim me indicou seu blog no twitter. Descobrir seu blog foi um presentão. Virei fã.

Luiz Antonio Simas disse...

Catarina, obrigadíssimo pelo elogio. Isso aqui é só um espaço para falar de botequim, futebol e macumba. Valeu!!

Claudio Renato disse...

Que história deliciosa, Simas...

Vou abrir uma só por causa dela!

NADJA GROSSO disse...

Lula tia Lita andava com o terço realmente,empregava a religião catolica e frequentava a igreja da Gloria, vivi com ela após a subida de papai, você sabia que ela nunca largou um bonequinho (diabinho com chifre e tudo)de arame envolvido com lã preta e vermelha que ela chamava de Traca Rua, ela pedia para quando desencarnar-se queria levalo com ela na mão esquerda, e assim foi feito por Beta e Sandra. Na realidade eu sempre acreditei que ela era a maior devota de Tranca Rua.

Bruno Ribeiro disse...

Essa maravilhosa revelação da Tia Nadja explica muita coisa sobre o Brasil. Eis mais uma prova inconteste de que este país não é recomendado para principiantes...

Vanessa Dantas disse...

Foi milagre! Foi milagre a bola não entrar... Sensacional o texto e a narração do vídeo!

Sonia disse...

Gente, fala serio, esse Blog e' uma delicia!!! Nao perco um so' post, de jeito nenhum ... devota fiel. Grande tia Lita! Abracos, professor.