sexta-feira, 29 de junho de 2012

DE KICHUTE NA MACUMBA


Sim, meus caros, estou nessa foto. Sou o maiorzinho. Apareço, cabeleira à Bufalo Bill, batendo palmas ao lado de Dona Mundica, um paraense versada na coisas do encanto, do meu irmão Alexandre, tocando tambor, e do meu irmão Antônio Claudio, que acabara de fazer seu amaci, primeiro passo de consagração aos orixás e encantados. O flagrante foi registrado no terreiro de xambá que era comandado pela minha avó no Jardim Nova Era, em Nova Iguaçu.

Um detalhe nessa foto chamou a minha atenção e me levou de volta aos oito anos de idade: calço em plena curimba o imortal kichute, tênis utilizado por dez entre dez garotos da minha geração.

Era um tempo em que a peçonha consumista não fazia com que a molecada sonhasse, como hoje, com marcas de grife desde o berço. Não havia tênis capaz de ofuscar o kichute velho de guerra; de preferência amarrado na canela, pra dar mais segurança. Era calçado de cabra macho, feito de lona, pretíssimo e com travas de borracha.

Eu usava o kichute pra tudo: ir ao colégio, jogar futebol, andar de velotrol, pular carniça, consultar o pediatra, tentar soltar pipa (só tentar, porque não tinha grande talento pros papagaios voadores) e, como a foto comprova, botar minha roupa branca de pequeno ogã e bater tambor no terreiro da Deda. Era, enfim, o meu kichute, o popular pau pra toda obra.

Ele, o meu tênis querido, acompanhou a experiência mais marcante da minha vida, daquelas que eu só pensava revelar ao médium de mesa branca depois de morto: calçava kichute quando assisti, impressionadíssimo a transformação de uma moça em Konga, a mulher gorila, no Tivoli Parque e fiquei de bilau duro.

De kichute fui a primeira vez ao Maracanã, para assistir a um Vasco e Fluminense com o meu pai. Descobri, naquela tarde de domingo, que o meu paraíso não precisava de anjos tocando harpa; bastavam as traves e a bola correndo.

O calçado era excelente também para andar de velotrol e subir rapidamente no trepa-trepa. Só não funcionava, pelo menos para mim, na hora de brincar de pique-bandeira, coisa que eu fazia invariavelmente descalço.

Essas lembranças todas me levam a uma reflexão melancólica: de repente o kichute desapareceu das sapatarias. Por que?

Acho que o  foi uma vítima da ditadura da moda e da entrada dos tênis de grife no Brasil, lá pelo meio dos tenebrosos anos oitenta. A garotada com condições razoáveis de vida nos dias de hoje não concebe botar um calçado dessa envergadura nos pés, nem debaixo de pancada.

Desconfio mesmo que o pai que der ao filho um Kichute de Natal corre o risco de ter a vida transformada em um inferno - tarefa que crianças, bandidos, grandes empresários e burocratas do serviço público cumprem como ninguém. O papo agora é escolher entre adidas, nike, puma, rebook e quejandos. Cada tênis afrescalhado desses não sai por menos de duzentos e cinquenta merréis.

Mas o pior vem agora. Ao tentar descobrir alguma coisa sobre o destino do kichute, para fechar essas recordações, soube, horrorizado, que o calçado continua sendo produzido. A internet me informa, e daí o meu horror, o seguinte:

Com a entrada de modelos importados de tênis, suas vendas despencaram, mas o Kichute nunca deixou de ser produzido. Atualmente, devido ao revival dos anos 7o e 80 na moda, muitos estilistas famosos estão utilizando o Kichute em suas coleções. O calçado agora é usado por artistas, a geração clubber, os descolados e alternativos.

É mole? O kichute velho de guerra, que estava para minha geração como as alpercatas de couro para os cangaceiros de Lampião, virou coisa de descolados moderninhos.

Estamos mesmo mais perdidos do que bala no Velho Oeste. Entre as marcas globalizadas e a tal de geração clubber, precisavam matar o meu tênis preferido na infância duas vezes?

Abraços

Um comentário:

Anônimo disse...

Ótimo texo.

Também já usei um kichute, embora resista a chamá-lo de tênis.

Pois é. Kichute agora é chique. Mesmo caminho seguido pelas sandálias havaianas, que já foi atestado de pobreza para quem usava-o em outra ocasião além de ir a praia ou á feira.

Seus textos fazem falta. Ainda mais com tanta gente escrevendo besteiras pelos facebook da vida.

Abraços
Helvécio