sexta-feira, 30 de outubro de 2009

O FANTASMA MAIS AMADO DAS ALAGOAS


Em 1951 houve dois eventos de importância tremenda no Brasil - a volta de Getúlio Vargas à presidência e a construção da estrada de ferro que selou o progresso do município alagoano de Arapiraca e marcou o futebol mundial. O segundo ponto, é evidente, me interessa mais e é sobre ele que escreverei.

Os trabalhadores da estrada de ferro, sem ter muito o que inventar nos dias de folga do batente pesado, apelaram à empresa responsável pela obra para que se construísse nas imediações um campo de futebol. E assim foi.

O campo da estação virou atração na cidade e os trabalhadores fundaram o Ferroviário, potente esquadrão alvinegro que em pouquíssimo tempo de vida marcou época em Arapiraca e arredores.

Quando a ferrovia ficou pronta, em 1952, o time de futebol acabou. Para que? A população, já absolutamente viciada no bom e velho ludopédio do final das tardes de domingo, ameaçou transformar Arapiraca numa sucursal do inferno se um outro time não fosse criado.

Foi assim, atendendo a um clamor das massas arapiraquenses, que as autoridades locais e empresários com vergonha na cara resolveram criar a Associação Sportiva de Arapiraca, o ASA velho de guerra. De forma arrasadora, o novo clube conquistou em seu primeiro ano de vida o campeonato alagoano de 1953.

Nos anos sessenta, enquanto Fidel Castro aprontava em Cuba e o homem começava a ir ao espaço sideral com a mesma frequência com que eu vou a Paquetá, o ASA passou a ser mundialmente conhecido como o Fantasma das Alagoas. A alcunha se deve a uma série de excursões pelo Nordeste em que o esquadrão alagoano derrotou deus e o mundo, dando surras memoráveis e assombrando os grandes clubes da região. A passagem do ASA pelas cidades do sertão nordestino tem impacto só comparável aos feitos do bando de Lampião e as romarias do Padre Cícero por aquelas bandas.

Em 1977 , ano em que a Beija Flor conquistou o bicampeonato do carnaval carioca e uma vizinha da minha avó se matou em protesto contra a aprovação da Lei do Divórcio no Brasil, houve uma decisão histórica e democrática da maioria dos associados e torcedores do ASA que colaborou decisivamente para o início do processo de abertura política e desmonte do regime militar : O clube deixou de se chamar Associação Sportiva de Arapiraca e passou a ser a Agremiação Sportiva Arapiraquense. Um marco.

As glórias do ASA não pararam mais. Depois de impactante participação no campeonato brasileiro de 1979 [foi o quadragesimo colocado no certame que reuniu 94 clubes], e de eliminar o Palmeiras em pleno Parque Antártica na Copa do Brasil de 2002, o ASA é hoje o maior campeão alagoano do século XXI e acaba de ser vice campeão brasileiro da série C, conquistando o direito de disputar a segundona em 2010. Teremos, quem sabe, o clássico ASA X Fluminense no ano que vem.

Como não poderia deixar de ser, encerro essa louvação ao Fantasma das Alagoas com o hino do ASA. A letra e a melodia lembram, pela dramaticidade e tom guerreiro, a Marselhesa. Ouso dizer que é ainda mais impactante que o velho hino francês. A letra é a seguinte:

Na terra dos marechais, um clube esportivo se destaca.
Pelo valor de seus craques, o Asa de Arapiraca
O seu pendão alvi-negro, içai com garbo varonil,
Conquistando sempre vitórias,
Sob os céus deste Brasil.
Oh! craques da esportiva, o ASA gigante tornai.
Com bravura e galhardia, ide avante.
Lutai! Lutai!
Oh! ASA da minha terra, aos píncaros da glória voai,
E aos vossos admiradores, os loiros da vitória legai.
Orgulhoso e altaneiro, o ASA sempre de pé,
Ficará nas páginas da história,
Da terra de Manoel André.


[Para quem não sabe, Manoel André é o cabra que, em 1848, fundou o povoado que deu origem a cidade do ASA, nas proximidades de uma árvore frondosa de arapiraca - eis aí a razão do nome. Os marechais do início do hino são, é claro, os alagoanos Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto.]

Escutem abaixo essa magnífica exortação ao Fantasma mais amado do mundo e fiquem com o meu abraço :

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

CAMPANHA CARIOCA: O CRITÉRIO PARA A REFORMA DA ZONA PORTUÁRIA


Vivi grandes momentos em sala no dia de ontem. Numa aula sobre a participação dos militares na proclamação da República, por exemplo, o debate acalorado - e digno dos melhores momentos dos Irmaos Marx - foi sobre o destino do patinho feio : Se o anatídeo da fábula infantil era cisne ou ganso.

Em outro momento, respondendo a uma questão sobre a Reforma Passos, falei sobre os projetos de urbanização do Rio de Janeiro ao longo da República.

A coisa acabou resvalando nas Olimpíadas de 2016 e quejandos. Um aluno me perguntou:

- Simas, qual é o projeto ideal para revitalizar a Praça Mauá e o porto?

A resposta que me ocorreu, marcada pela seriedade que a questão demanda, foi a seguinte:

- Não sei. Mas sei qual é o critério decente para estabelecer quem será o urbanista da reforma do porto. É só perguntar o seguinte: O senhor sabe cantar o samba de 2001 do Império Serrano? Não? Então vá reformar a casa da senhora sua mãe.

Lanço aqui, portanto, a seguinte campanha cívica e carioca : Só os que sabem o sambaço-aço-aço do Império em 2001 têm condições artísticas, urbanísticas e, sobretudo, morais, de pensar e tocar o projeto de reforma da Zona Portuária de São Sebastião do Rio de Janeiro. O meu critério é esse, e ponto. Para fechar a questão, é só ouvir a Serrinha na avenida:


A letra, com o meu abraço, está aqui .

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O BICHO PEGOU NA VILA DE NOEL E MARTINHO

Sem comentários. A Vila vive com Noel e Martinho. Esse desfile de 2010 vai ser um teste para cardíaco - e eu tô aqui comovido como o diabo vendo e ouvindo isso:

Ouçam o samba, de novo, aqui:

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

FAST, O ROLO COMPRESSOR


Em 1930 houve dois fatos de tremenda repercussão na História do Brasil, e ambos envolveram disputas presidenciais. Não consigo definir qual foi o mais importante.

Nas eleições para a presidência da República, tivemos a vitória do paulista Julio Prestes sobre o gaúcho Getúlio Vargas. As denuncias de fraude eleitoral e o assassinato de João Pessoa, vice de Vargas, colocaram pimenta no vatapá. No fim do furdunço, Getúlio chegou ao poder: habemus Revolução de 30.

O outro evento, de significado quiçá profundo como a Revolução de 30, foi a crise detonada pelo processo de escolha do presidente do Nacional Futebol Clube, agremiação praticante do violento esporte bretão em Manaus, capital do Amazonas. Aos fatos.

O Nacional iria escolher seu novo presidente naquele ano. Pelo estatuto do clube, os jogadores tinham direito a voto. Uma manobra política sórdida, entretanto, alterou as regras do jogo e proibiu o voto dos atletas. Era a hora da revolução.

Liderados por Getúlio Vargas e Oswaldo Aranha, os jogadores resolveram chutar o balde e... êpa. Parem as máquinas, que estou chamando Jesus de Genésio. Troquei as revoluções. Recomeço no próximo parágrafo.

Liderados por Rodolpho Gonçalves, o capitão do time, e Vivaldo Lima, um dirigente que era o preferido dos jogadores na eleição presidencial, os dissidentes deram uma banana ao Nacional e fundaram um outro clube.

Resolveram, cheios de birra e razão, manter o nome Nacional e a sigla NFC. Tinham, porém, que trocar o significado do F - para que o nome não fosse idêntico ao do ex-clube. Que diabos inventar? A primeira sugestão foi F de Fantástico - Nacional Fantástico Clube. Não colou.

Alguém pensou em F de Formidando - Nacional Formidando Clube. Também não ganhou adeptos, coisa que lamento. Nacional Formidando é um nome ótimo para um time de futebol.

A ideia mais inusitada, no fim das contas, foi a de colocar alguma palavra em outro idioma. Proposta aceita, procuraram um professor de inglês do Ginásio Amazonense Pedro II, colégio tradicionalíssimo naquelas bandas. O douto professor descobriu a pólvora: Fast ! Isso mesmo. Fast, rápido, veloz. Ligeiro feito a criação do novo clube - que manteve o azul do antigo Nacional e ganhou o vermelho e o branco - as cores da bandeira do Amazonas.

Em pouco tempo o Fast já era sucesso absoluto, disputando títulos estaduais com o Rio Negro e conquistando, depois de cinco vice-campeonatos, o triunfo nos anos de 1948 e 1949. Era só o início da trajetória que colocou o Fast entre os maiores do futebol mundial - pelo menos na visão desse escriba.

Os faustianos, torcedores do rolo compressor da Amazônia, costumam citar três jogos como os maiores da história da agremiação. Verdadeiras sagas da história do futebol.

O primeiro, realizado em 1961 em Manaus, terminou com inacreditáveis 7 x 5 para o Fast contra o Sport de Recife. Há quem diga que esse Fast e Sport só se iguala em dramaticidade, na história do futebol, ao Itália 4x3 Alemanha pelas semifinais da copa do mundo de 1970.

O segundo grande triunfo aconteceu em pleno Maracanã, em 1978. O Fast enfrentou o Fluminense e, para estupor da torcida presente ao Mário Filho, sapecou categórico 2X1 nos cariocas. O Fluminense, desde então, tem o Fast atravessado na garganta e tenta, sem sucesso, marcar o jogo da vingança. Problemas de calendário impediram, até agora, a realização da revanche.

O terceiro jogo é quase inacreditável: Fast x New York Cosmos. Isso mesmo; o Cosmos, contando à época com Carlos Alberto Torres, Beckenbauer, Chinaglia e Romerito enfrentou, no dia 9 de março de 1980, o tricolor amazonense. A partida terminou em um empate sem gols, mas testemunhas garantem que o Fast, diante de quase 60 mil pessoas - o maior público da história do futebol do Amazonas - encurralou os gringos no campo de defesa e pressionou o jogo todo. O placar moral foi de, no mínimo, 4x0 para o time do povo.

Dizem os antigos que ainda ressoa, pelas imensidões da floresta, o grito de guerra que naquele jogo evocou toda a geração dos índios manaós. Era como se o espírito de Ajuricaba estivesse presente nas gargantas de todos os faustianos que, como a expulsar definitivamente os gringos das matas brasileiras, urraram no campo de batalha, durante boa parte da refrega:

-Aha, Uhu, ô Beckenbauer vou comer seu cu!

O Kaiser, intimidado, não acertou um mísero passe, pela primeira e última vez na carreira. Coisas da pajelança boleira.

Viva o Fast! Viva o rolo compressor, como diz o hino sensacional do time do povo :



Abraços.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

SAMBAS QUE NÃO DESFILARAM : A VIAGEM DO DESCOBRIMENTO


Que se dane quem ganhou. Esse espaço começa hoje, da forma mais botafoguense do mundo - e querendo colaborar com a preservação da memória do samba de enredo - a indicar de vez em quando os liames de sambas que não venceram os concursos de suas escolas. Só vai valer samba derrotado. Na visão deste escriba, deveriam ter vencido e cruzado a Sapucaí. O carnaval agradeceria.

Garimpado na Galeria do Samba, por exemplo, há o hino que Eduardo Medrado, João Estevam, Cesar Som Livre e Waltinho Honorato fizeram para a Imperatriz Leopoldinense no carnaval de 2000, sobre a chegada do Seu Cabral ao Patropi. Não ganhou, por incrível que pareça. Com refrões inusitados e linha melódica audaciosa, é um sambaço-aço-aço.

Ouçam aqui e tirem suas conclusões. O pedralvarescabral, aposto, escolheria ele e sairia cantando : Cravo e canela e seda pra saia dela... Belezura do Brasil mais brasileiro.

Abraço

terça-feira, 20 de outubro de 2009

A BOLÍVIA QUERIDA


Sou torcedor declarado do Sampaio Corrêa Futebol Clube, o clube de maior torcida do Maranhão. Já começo achando o nome do time interessantíssimo. Sampaio Corrêa II era o nome de um hidroavião que aportou em São Luís no final de 1922; seus comandantes, o brasileiro Pinto Martins e o norte-americano Walter Hinton, tentavam concluir a primeira ligação aérea entre as Américas, dos EUA ao Brasil. Não faço a menor ideia do que ocorreu na viagem, e nem pretendo descobrir. Me basta saber que o hidroavião batizou o clube de futebol e as cores dos uniformes dos pilotos foram adotadas pelo time.

Sou um fascinado, por exemplo, pela escalação do primeiro time da história do grande Sampaio. Experimentem recitar os nomes dos jogadores que em 1925 enfrentaram e venceram o Luso Brasileiro, campeão maranhense de 1924. Quero crer que a sonoridade obtida por essa escalação é digna de um alexandrino de boa cepa: Rato; Zé Novais e João Ferreira; Rui Bride, Chico Bola e Raiol; Turrubinga, Mundiquinho, Zezico, Lobo e João Macaco.

Esse ataque ( repito com prazer : Turrubinga, Mundiquinho, Zezinho, Lobo e João Macaco ) é coisa séria ! Me lembra o esquadrão do Vila de Cava F. C. que, nos anos 80, contava com Capiroto, Curupira, Corno Manso, Abecedário e Aderaldo; uma linha de frente que marcou época nos campeonatos amadores de Nova Iguaçu.

Além das razões citadas, o Sampaio também merece meu apreço por representar algumas coisas que escapam dessa praga do futebol atual, onde só se fala de gestão empresarial, clube empresa, jogador celebridade, futebol enquanto produto e quejandos. O clube maranhense é, por exemplo, conhecido, em virtude de suas cores, pelo apelido carinhoso de "Bolívia Querida". Imaginem o potencial mercadológico disso: nenhum, evidentemente.

Outro fato dignifica o Sampaio. Um dos maiores ídolos da história do clube foi o lendário goleiro Juca Baleia, que jogou no tricolor entre as décadas de 1980 e 1990. Com cerca de 100 quilos, Juca Baleia era, ao lado do cantor Nelson Ned, a pessoa menos indicada do mundo para ser goleiro de futebol. Acabou se consagrando como um arqueiro imponente, de milagrosa agilidade, conhecido pelos epítetos de Moby Dick e " baleia voadora".

É de um jogador do Sampaio o recorde de gols numa partida no Brasil. Em 1939, no jogo em que o clube derrotou o Santos Dumont por 20 X 0 , o atacante Mascote fez 10 gols. O resultado representou a extinção, ainda no gramado, do time que homenageava o inventor do avião. É justo lembrar que o recorde de Mascote foi igualado por Caio Mário (CSA 22 X 0 Maceió , pelo certame alagoano de 1944) e pelo Dario Peito de Aço, o Dadá Maravilha ( Sport 14 X 0 Santo Amaro, pelo campeonato pernambucano de 1976).

É por tudo isso, senhores, que eu tenho pelo Sampaio Corrêa tremendo carinho e formo fileiras com a sua imensa e apaixonada torcida. Avante, Bolívia querida!

sábado, 17 de outubro de 2009

JOÃO DAS RUAS DO RIO - O SAMBA IMPERIANO


Mais uma vez as escolas de samba do grupo especial do carnaval carioca desfilarão, em 2010, no sábado de Momo. Meu critério para fazer a assertiva é simples: especial é o grupo onde está o Império Serrano e ponto.

Sou reticente em utilizar a expressão resistência para abordar fenômenos culturais. O Império, entretanto, não me deixa saída - está na agremiação da Serrinha a resistência aos desatinos cometidos pelas escolas de samba nos nefastos dias atuais.

Ninguém me preguntou, mas vou dizer o que acho:

1-Escola de samba é cultura. Escola de samba hoje é o Império Serrano.

2- Desfile de escola de samba não é baile de carnaval.

3- Samba-enredo não é para ser cantado com dedinho levantado e pulinhos de erê de umbanda. Se o samba te impuser isso, fuja dele como o diabo da cruz. Se você gostou dos pulinhos, compre um abadá, passe o carnaval na Bahia e boa sorte - vais adorar a festa na boa terra.

4- Refrão de samba-enredo e o pirulito que bate-bate são coisas distintas.

5- Não podemos nos enganar, em final de samba-enredo, pela pirotecnia da torcida e o nome do compositor. A marcha sobre Roma, que levou Mussolini ao poder, foi visualmente linda - e o fascismo foi uma titica. As manifestações de rua quando morreu o Aiatolá Khomeini então...como pulava a massa da mandioca.

6- Bola de encher é coisa de festa de aniversário de criança e lugar de tremular bandeiras é a arquibancada do Maracanã. Escutar samba, pular feito doido e balançar bandeira ao mesmo tempo são atividades excludentes - e coreografia é coisa de torcedor do Boi Garantido e de japonês que desfila na Mangueira.

7- Samba-enredo está para o Império Serrano como o jongo está para a Serrinha: é herança e patrimônio - e deve ser tratado com seriedade. Somos o terreiro em que o encantado chefe é o caboclo Silas de Oliveira.

8- O desfile de qualquer escola de samba pode ser efêmero e funcional. Qualquer desfile do Império Serrano, por tudo que a agremiação significa hoje para o combalido carnaval carioca - sequestrado pelos alcapones de cabelos pintados da LIESA - deve ser tratado como legado.

9- Inclusão digital tem dois significados: exame de próstata e enredo da Portela do Comandante Nilo. O Império cantará em 2010 João do Rio!

10- João viu as ruas do Rio como um espaço dramático de reinvenção da vida - jamais como um palco de banalidades desprovidas de sentido. Foi fascinado pelas ruas e retratou com admiração, amor e algum preconceito a cidade luso-africana de São Sebastião. É tema sério, que exige um samba denso, de melodia consistente e letra sem banalidades, feito a alma das esquinas.

O Império Serrano escolherá na segunda feira o samba para o carnaval de 2010. Dois, dos três finalistas, são dignos das tradições imperianas, mas tenho uma ideia sobre esse processo:

- O juri do Império Serrano deveria ir neste sábado a um terreiro de Umbanda, numa sessão de Povo de Rua, e perguntar pra qualquer entidade malandra o seguinte: Qual é o samba?

Sei não, mas desconfio que o povo das esquinas que João descreveu cantaria esse aqui .

É o samba que, ganhando ou não, cantarei para os meus alunos ao longo dos anos, enquanto for professor, na aula sobre a minha cidade do Rio de Janeiro no início do século XX. Ficará - e o Império merece um samba que fique.

Se eu desfilar com ele, então, vai ser bonito e comovente feito o diabo.

Abraços


quarta-feira, 14 de outubro de 2009

PROFECIAS - O CARNAVAL OLÍMPICO

Eis a vantagem de ser historiador - só precisamos profetizar o que já aconteceu. Sim, somos os profetas do passado. Quando o historiador dana de tentar prever o futuro, é um deus nos acuda.

Lembro, por exemplo, quando o renomado Eric Hobsbawm lançou no início dos anos noventa o seu livro Nações e Nacionalismos. Hobsbawm - que como todo bom marxista adora dar palpites sobre o porvir - declarou que os conflitos nacionalistas eram coisa do passado. Semanas depois explodiu a pancadaria na Bósnia. Adivinhem que diabos foi aquilo? Até a Raça Rubro-Negra sabe que os nacionalismos andam mais endiabrados do que nunca.

Fiz esse arrazoado inicial por uma razão de estratégia do texto: mandarei às favas o risco do erro e irei bancar o profeta nesse espaço. Ezequiel, São João Evangelista, Marx, Hobsbawm, Omar Cardoso, INRI Cristo e Zora Yonara que me perdoem, mas vou entrar pro time dos visionários e vaticinar o futuro - mais precisamente o carnaval de 2016, o ano olímpico carioca.

O desfile das escolas de samba do grupo especial será, evidentemente, temático, por sugestão do Capitão Guimarães, após a LIESA ganhar mais uma licitação para administrar o furdunço. Imagino alguns enredos. Vamos lá.

A Portela - que ultimamente só faz enredos relevantes - vai manter a tradição e contar a vida dos irmãos Hipólito na Sapucaí. O samba-enredo exaltará, surpreendentemente, Oswaldo Cruz e Madureira. Dirá o samba em seu trecho mais elaborado : O sonho olímpico que seduz Oswaldo Cruz e Madureira / Onde voam os irmãos Hipólito e a olímpica águia guerreira". A águia, com os anéis olímpicos entre as garras, dará piruetas no abre-alas. Anotem.

O enredo da Grande Rio é o mais fácil de acertar - a escola homenageará a Barra da Tijuca, sede da maioria das disputas olimpicas, e o Projac, o estúdio da Globo em Jacarepaguá, pertinho da Barra. Já posso escutar o refrão que levantará a avenida e levará Suzana Vieira, a velha guarda da escola, às lágrimas: Tem New York City Center / É pertinho do PROJAC/ Tem jardins no Golden Green / Grande Rio / És tudo pra mim.

A Beija Flor provará que os orixás eram atletas olímpicos na África imemorial. Olorum ordenou que Oxalá organizasse uma disputa entre Xangô e Ogum para saber quem ganharia o trono de Ilê Ifé e o amor de Iansã - e aí surgiram os jogos. Os gregos entraram de gaiatos nessa história.

O Salgueiro reeditará, com pequenas alterações e um novo samba, o Peguei um Ita no Norte - contando a saga de um cabra que saiu do Pará, conheceu o Brasil, chegou ao Rio de Janeiro, trabalhou como operário na construção da Vila Olímpica e realizou o sonho de assistir a abertura dos jogos. O refrão do samba lembrará muito a melodia do Pirulito que bate-bate e levantará a passarela.

A Mocidade Independente, que vai se reencontrar com a vertente do carnaval high tech, contará a história do doping olímpico - com carros futuristas representando o passeio das substâncias proibidas pelas veias do corpo humano.

A Mangueira - que em 2014 revolucionará o carnaval desfilando com um funk-enredo, o gênero que substituirá o desgastado samba na verde e rosa - adiará mais uma vez a homenagem a Cartola e Nelson Cavaquinho e cantará "Carlos Arthur Nuzman, a vitória de um sonhador".

A Imperatriz Leopoldinense apresentará um enredo bem tropical, com a cara da escola: "Jean-Marie Faustin Goedefroid de Havelange, um menino brasileiro de 100 anos" , sobre o centenário do ex-presidente da FIFA e sua importância para a história do esporte, das armas de fogo e do carnaval.

E o Império Serrano, pergunta o leitor? Estará no grupo de acesso, apresentando um desfile épico, debaixo de forte temporal, sobre o centenário do final da Guerra do Contestado [1912-1916], quarenta anos depois da Em Cima da Hora cantar Canudos em Os Sertões, com o samba monumental de Edeor de Paula. O desfile da Serrinha entrará para a história, continuará sendo falado em 3016, e eu estarei na avenida, mais molhado e comovido que pinto no lixo.

Para terminar esse exercício bíblico que já se alonga, deixo com os senhores a comovente gravação original de Os Sertões, do lp das escolas de samba de 1976. Para bom entendedor...

terça-feira, 13 de outubro de 2009

BOTO NOS INFINITOS


Dizem os velhos barqueiros do Amazonas que o segredo da felicidade é simples feito sono de rede. Basta que o sujeito busque a margem do rio-mar ao sol do entardecer e deixe sua sombra refletir num perau qualquer. Se por acaso nesse momento um boto vermelho atravessar o rio e cortar a sombra, a pessoa estará botada; marcada para todo o sempre pelo espírito do boto.

Encantaria.

Para que o encantamento se complete, é necessário que, ao morrer o cabra, o corpo seja oferecido às águas por algum parente ou amigo. Se assim acontecer, Iara transformará o morto num boto vermelho.

Eis a suprema felicidade: feito Mané Garrincha entortando um João qualquer, a pessoa dará um drible na velha da foice e viverá encantada nos mistérios, desejando o bem do mundo para os seus.

Quem pretende ser feliz assim, ensinam os caboclos da beira d´água, deve se dirigir ao rio nas horas do poente, pois é o momento em que os botos vermelhos suspiram suas artimanhas de delicadezas e felicidades, rememorando amores faceiros, dos tempos em que eram homens viventes.

De minha parte, alumbrado de Brasil nos meus amores, sempre que posso espio, nos escondidos do sol, o meu rio Maracanã - serpenteando minha aldeia e seus meninos descalços.

Nesses meus olhos aluados, passa todo dia um Amazonas de detritos, merdas e saudades, mas também pode passar desapercebido, entre cacos de garrafa, latas de cerveja e pneus de bicicleta , um boto vermelho suspiroso. Êh, meu Maracanã...

Digo e confirmo: Na hora do meu encantamento é ali, nas águas da aldeia, que quero estar, para que a mãe d´água me abençoe e faça de mim um mensageiro simples das maiores alegrias.

Um boto vermelho nos infinitos.

E só.

Abraços

Ps: esse arrazoado me recordou, sei lá por que amazônicas cargas d´água, o samba monumental e triste que Claudio Russo, Leleco, Zé Luiz e Isaac fizeram para a Acadêmicos do Grande Rio no carnaval de 2006 - Amazonas, o Eldorado Brasileiro. Por um desses absurdos que marcam as escolas de samba nos dias de hoje, o samba perdeu a disputa na quadra e não foi à avenida. A Grande Rio, para variar, perdeu a chance de cruzar a Sapucaí com um samba que poderia ser, sem favor, o maior de sua história. É só conferir aqui .

domingo, 11 de outubro de 2009

CASA NOVA E O MESMO SAMBA

Casa nova, velhos assuntos. Abro esse Histórias Brasileiras como fechei o Histórias do Brasil, que ficou doido de pedra, desconfigurou-se todo e foi oló sem choro nem vela: com o samba do Martinho da Vila para o carnaval de 2010.
Por aqui irei colocando, com o tempo, os textos que mais me agradaram no antigo blog, devidamente reescritos. Vou escrever muita coisa nova também, mas com menor frequência. A linha é a mesma - histórias, sambas, macumbas, futebol e quejandos.
No mais, ouçam abaixo o samba do Zé Ferreira sobre Noel Rosa. É a abrideira. Só uma coisa me preocupa nessa obra , que acho cada vez melhor : no trecho veio ao planeta com os auspícios de um cometa o que vai ter de gente trazendo o Noel com os hospícios de um cometa não está no gibi.


Abraços