segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O VERDÃO DO CARIRI


O grande destaque do futebol brasileiro esse ano, na minha modesta avaliação, vem do Ceará, mais precisamente de Juazeiro do Norte. Me refiro, é evidente, ao desempenho da Associação Desportiva Recreativa Cultural Icasa nos gramados canarinhos: Não há outro exemplo similar de superação, de descida aos infernos e recuperação épica, na história recente do nosso futebol.

No primeiro semestre, por um desses descalabros dos deuses da bola, o ICASA terminou o campeonato cearense na última colocação. No segundo semestre, de forma avassaladora, o time fez uma campanha monumental no campeonato brasileiro da série C, chegou às semifinais e garantiu o acesso para a série B em 2010.

A história do clube, aliás, é feita de dramas impressionantes. O time foi fundado em 1963 pelos proprietários e operários da Indústria de Comércio e Algodão S/A; a fábrica mais importante de Juazeiro do Norte. A ideia inicial foi a de adotar o nome da fábrica por extenso: Indústria de Comércio e Algodão Sociedade Anônima Esporte Clube. Não colou. Optou-se, então, pela sigla Icasa, solução mais razoável que agradou até a estátua do Padre Cícero, o filho mais famoso de Juazeiro.

O Icasa original foi oló relativamente cedo, depois de ter conquistado glórias impactantes, como o inédito octacampeonato juazeirense [entre 1965 e 1972] e o título cearense de 1992: Faliu em 1998 porque não teve 30 mil reais para pagar uma ação judicial movida por um ex-jogador. Já pensaram se a moda pega, o que ia ter de clube cheio dos borogodós quebrando por aí?

Em 7 de janeiro de 2002, houve uma espécie de milagre de Lázaro da história do futebol mundial: O Icasa ressuscitou, buscando recuperar a trajetória guerreira do Verdão do Cariri. Deu certo.

O clube, vale dizer, é dono também de um escudo arrojado, de deixar babando grandes nomes da programação visual contemporânea: Uma engrenagem representando a fábrica que originou o time, com a cor verde da folha do algodão. Há uma corrente na cidade favorável a se colocar uma foto do Padre Cícero no meio da engrenagem, mas a proposta ainda não conquistou a torcida. Tem, entretanto, o apoio desse escriba.

A última informação que obtive sobre o Icasa foi animadora. Neste último sábado foi realizado, com o objetivo de auxiliar o clube, o Sorteio Entre Amigos do Verdão do Cariri, inaugurando o sistema de iluminação artificial do Praxedão, o centro de treinamento da equipe. Foram sorteados carros e motos para os torcedores presentes.

A noite foi encerrada com um show de um dos mais ilustres torcedores icasianos, para a inveja dos que não estavam lá: O cantor Fábio Carneirinho. Os detalhes do furdunço podem ser vistos aqui .

Para finalizar, e como se não bastasse, o hino do ICASA é um negócio sério. Onde mais se encontra uma marcha com versos dessa magnitude: Meu padim nos gramados do céu / é mais um craque a orar, meu Verdão / A fé nos conduz a vitória / Icasa eterno campeão.

Padre Cícero nos gramados do céu é Brasil na veia:




Abraços

FOI NA REPÚBLICA, MARTINHO.

Nosso bom Martinho da Vila pirou de leve. O bardo publicou hoje, n´O Globo, um artigo [Alô, Noel !] sobre o nonagésimo nono aniversário de Noel Rosa, no próximo dia 11. Martinho aproveitou para falar do enredo de 2010 da Unidos de Vila Isabel e do seu samba em homenagem ao poeta.

Em certo trecho, diz o da Vila:

A Revolta da Chibata foi em 1910, ano em que João Candido tomou de assalto a esquadra da Armada Brasileira. Lembra-se? O povo já apavorado com as supertições prognosticadas para a chegada do Cometa Halley - que previam terremotos na cidade do Rio de Janeiro - entrou em pânico. Pensava-se que o "Almirante Negro" iria bombardear a Capital do Império para proclamar a República. Foi um acontecimento tragicômico: a nobreza desvairada enquanto os marinheiros subalternos felizes porque o Negro João queria acabar com os castigos aplicados na marujada.

Ô da Vila, posso te garantir, com todo o respeito de quem te acha grande, que ninguém no Rio de Janeiro pensou que o João Candido fosse proclamar a República - isso já tinha acontecido em 1889, sob comando de um certo Deodoro da Fonseca; vinte e um anos antes da rebelião dos subalternos da marinha. O Rio não era, portanto, capital do Império nem aqui nem na China. Em 1910 até o Botafogo foi campeão do Distrito Federal.

Será que O Globo não tem um cabra que leia o que vai ser publicado para evitar meter o grande compositor numa dessas?

Um outro detalhe: O hino da Vila 2010 - sambaço-aço-aço ! - vai assinado só pelo Martinho. Acho, modestamente, que deveria - até como homenagem a outro bamba - também levar a assinatura do Gracia do Salgueiro, parceiro do da Vila em um samba das antigas chamado Presença de Noel. Que tal:


O samba de 2010 pode ser escutado aqui .

Abraço

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O ARCANJO TRANCA RUA


Recentemente publiquei aqui um relato sobre a minha tia Lita, católica até dizer chega, e a convicção da velha de que Exu Tranca Rua ajudou a seleção brasileira na copa do mundo de 1978.

Imagino que alguns leitores tenham duvidado da veracidade do fato. Ninguém ficou, porém, mais surpreso que eu com uma revelação que o texto proporcionou. Minha tia Nadja, ao comentar a história, fez a seguinte observação:

Tia Lita andava com o terço realmente; empregava a religião católica e frequentava a igreja da Gloria. Vivi com ela após a subida de papai, você sabia que ela nunca largou um bonequinho (diabinho com chifre e tudo) de arame envolvido com lã preta e vermelha que ela chamava de Traca Rua? Ela dizia que quando desencarnasse queria levá-lo com ela na mão esquerda, e assim foi feito por Beta e Sandra. Na realidade eu sempre acreditei que ela era a maior devota de Tranca Rua.

Fiquei estupefato. Tia Lita, que passava o Natal assistindo a Missa do Galo diretamente do Vaticano, estimulava os sobrinhos a fazer aulas de catecismo, sabia cantar a musiquinha do milagre de Fátima, respeitava a quaresma, falava mal de macumba e rezava o terço antes de dormir, tinha um diabinho de arame envolvido com lã preta e vermelha que se chamava Tranca Rua! E mais: Foi enterrada com o exuzinho na mão esquerda.

O Bruno Ribeiro, ao ler o comentário da Tia Nadja, mandou logo em seguida: Essa maravilhosa revelação da Tia Nadja explica muita coisa sobre o Brasil. Eis mais uma prova inconteste de que esse país não é recomendado para principiantes...

É verdade. Já tivemos presidente da República que recebeu passe de um caboclo no Mercadão de Madureira [leiam aqui ] ; Carlota Joaquina virou pomba gira de quimbanda; D. João VI, D. Sebastião e o rei de França Luís XIV descem em terreiros de encantaria no Maranhão; um médium de Miracema psicografou mensagem do cavalo que o Marechal Deodoro da Fonseca montou na noite da proclamação da República [fato que rendeu notícia do antigo jornal A Luta Democrática ] ; o presidente Collor de Melo afirmou a uma revista de mulher pelada que foi D. Pedro I em outra encarnação; um boi cearense recebeu o espírito do Padre Cícero na época em que o sacerdote ainda estava vivo e um livro sobre a Inconfidência Mineira, recomendado em antanhos pelo Ministério da Educação, afirma que Tomás Antônio Gonzaga voltou ao Brasil quase cem anos depois de morto como o escritor Monteiro Lobato. A minha revelação predileta é a do pai de santo da Baixada Fluminense que afirmou a um jornal umbandista, em meados dos anos sessenta, que Pelé e Coutinho eram as reencarnações de Marx e Engels.

Esse é o Brasil inusitado, o que justifica o longo parágrafo acima. O que dizer, por exemplo, da declaração que o prefeito de Porto Seguro em 1994, João Mattos de Paula, fez durante um comício em praça pública, na presença do presidente Fernando Henrique Cardoso:

Presidente Fernando Henrique, acabo de voltar de um centro espírita, onde Pedro Álvares Cabral cumprimentou-me pelo desempenho à frente da prefeitura.

E agora, para completar, descubro que a tia-avó queridíssima que tentou de qualquer forma me fazer católico; me ameaçou com o fogo dos infernos; me obrigou a ir ao cinema para ver a reedição de Marcelino, Pão e Vinho; amaldiçoou o carnaval como festa do capeta e tentou convencer minha avó a me tratar com um padre psicólogo especialista em curar traumas de filhos de pais separados; guardou a vida inteira, quem sabe atrás do crucifixo, um tranca ruazinho de arame, com chifre e o escambau, que foi enterrado com ela.

Sabe de uma coisa: Passei a sentir, nesse exato instante, uma saudade aguda da velha Tia Lita. Que Seu Tranca Rua, tirando onda de arcanjo, guarde bem a minha tia, ao lado dos querubins e serafins do Paraíso. Ela merece.

Saravá!

sábado, 21 de novembro de 2009

PELO FIM DO FAIR PLAY: QUERO PORRADA NOS GRAMADOS

A primeira pancadaria no estádio a gente nunca esquece. A frase me ocorreu ao assistir as cenas de pugilato entre os times do Fluminense e do Cerro Porteño no jogo da semana passada pela copa sulamericana de futebol. Afirmo que a garotada tricolor que foi ao estádio nunca mais esquecerá do furdunço no gramado.

Assisti ao jogo pela televisão e depois escutei as resenhas das mesas redondas. Ouvi dezenas de comentários sobre o absurdo que foi o arranca-rabo: Um péssimo exemplo, mancha o futebol, é uma mácula no jogo limpo e quejandos.

Não sei não, mas quando eu era moleque, e não havia essa frescura politicamente correta, a torcida adorava quando o pau quebrava entre os jogadores dos dois times. Era só começar o qüiproquó que as arquibancadas gritavam:

- Porrada! Porrada!

E digo mais, no tempo em que os jogadores saiam com mais freqüência na porrada dentro de campo eram raríssimas as brigas nas arquibancadas. Alguém há de concordar comigo: A violência nas arquibancadas cresceu na medida oposta ao afrescalhamento do jogo nas quatro linhas. Quem quiser que explique as razões e faça suas sociologias; eu só constato isso.

Jogo de futebol não é espetáculo de ópera ou coisa parecida. É drama, epopéia, catarse coletiva e o escambau. Arquibancada é o melhor divã do mundo. Eu, se fosse dar um conselho a algum psicanalista, diria com absoluta convicção:

- Queres conhecer o inconsciente do fulano de tal ? Observe o comportamento dele numa arquibancada. A arquibancada é o único espaço do mundo que não comporta mentiras - o sujeito mostra efetivamente o que é. E o psicanalista, que no campo de futebol provavelmente deve se sentir tão confortável quanto um judeu ortodoxo na Faixa de Gaza, há de zombar da irrefutável verdade.

Sou, por isso, a favor de uma campanha contra o fair play da dona FIFA. Acho que precisamos incentivar a volta do conflito generalizado em campo - melhor estratégia para acalmar as coisas na arquibancada. Um gol escandalosamente ilegal como o da França contra a Irlanda na última quarta feira é muito mais nocivo ao jogo e incitador de violência que o telecatch Montilla que Flu e Cerro protagonizaram no fim da peleja - que aos olhos da garotada, podem crer, pareceu mais um espetáculo de circo.

Fiz essas observações todas para, na verdade, confessar algo que só pretendia depois de morto, a uma médium de mesa branca durante sessão de psicografia: Nunca esqueci a sensação de euforia - e alegria genuína - que experimentei ao assistir a uma pancadaria entre os jogadores de Brasil e Uruguai em um jogo pela Taça do Atlântico, disputado no Maracanã em 1976.

Estava no maraca, eu e meus oito anos, com o avô e o pai. Ganhamos dos grigos de 2 X1 , mas não me lembro dos gols. Jamais me esqueci, porém, das cenas de pugilato envolvendo jogadores, comissões técnicas, imprensa, gândulas, funcionários da SUDERJ e o diabo.

No auge da confusão, o lateral uruguaio Ramirez - que já tinha caçado Zico em campo - saiu correndo feito touro bravo em direção a Rivelino, que em desabalada carreira deu um elástico sem a bola no gringo e acabou descendo de bunda a escadaria de acesso ao vestiário, num dos maiores tombos da história do futebol. Eu aplaudi com o mesmo vigor com que aplaudia as fanfarronices do palhaço Carequinha. Meu pai e meu avô imediatamente entraram no coro de porrada que a massa, afinadíssima, começou a entoar. E eu, delirante, também comecei a gritar porrada - feliz como pinto no lixo [apud Jamelão] .

A nossa dupla Jairo [goleiro] e Orlando Lelé [lateral direito] estava possuída - os dois devem ter batido mais em uruguaios do que todo o exército brasileiro na malfadada Guerra da Cisplatina. Jairo, aos meus olhos de menino, parecia o King Kong em fúria dando sopapos em aviões no alto do Empire State; virou meu herói imediato.

Um ano depois dessa quizumba, o Ramirez foi contratado pelo Flamengo. Muitíssimo bem recebido na Gávea, jogou ao lado do Zico, brincou com o Rivelino e deu a lição: A briga foi só dentro de campo - depois fica tudo em paz, como deve ser.

Ouso afirmar categoricamente o seguinte: Naquele noite, ao assistir a confusão generalizada que o escrete canarinho e a celeste olímpica protagonizaram no Mário Filho, me tornei uma criança absolutamente pacífica - naqueles gritos de porrada descarreguei oito anos de agressividade e meus avós e pais economizaram fortunas em psicólogos. Sou hoje um professor de história que não vê graça nenhuma em estudar ou falar de guerras e nunca saí no tapa com ninguém.

Descobri em um estádio de futebol, e nisso acredito até hoje, que só há dignidade e honra nas pancadarias travadas dentro das quatro linhas. Fora dali, vira coisa de otário ou bandido.

Assistam abaixo a um compacto do jogo, nas imagens inesquecíveis do Canal 100, e reparem o furdunço nos segundos finais. O mais bonito: O texto do Canal 100, ao contrário do discurso desses carolas de hoje que ficam achando que gramado é sacristia, diz apenas o seguinte: Brasil dois, Uruguai um; com mais uma briguinha, para manter a tradição!

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

NA VOZ DO ANESCAR


[texto originalmente escrito no dia da Consciência Negra de 2007]


Não há nada mais triste para um carioca do que sentir-se exilado em sua própria cidade. Digo isso porque é essa a sensação que tenho toda vez que compromissos profissionais - aulas e mais aulas - me obrigam a visitar o bairro da Barra.

Gosto de muita gente que mora lá, mas o local é meio estranho; raras esquinas, sem botecos, repleto de casas comerciais com nomes em inglês, projetado para o deleite dos automóveis, uma réplica doida da estátua da liberdade, e outros babados. Não merece carregar o sacrossanto epíteto de Barra "da Tijuca".

Da Tijuca, que eu saiba, são o Eduardo Goldenberg, tombado em vida e no meu coração como patrimônio imaterial da cidade, a Confraria do Bode Cheiroso - um pé sujo de responsabilidade - e o Rodrigo Ferrari, o comerciante de carioquices que mais fez pelo Rio e por mim desde o Barão de Mauá.

Para exorcizar esse encosto de Miami que vez por outra me persegue, quero lhes contar uma história que tem como cenário um bairro carioquíssimo - São Cristovão, terra que viu nascer dois brasileiros máximos, D. Pedro II e Bruno Ribeiro.

Ali, pertinho do pavilhão, há um edifício desgastado pelo tempo que, para o bem da cidade, deveria ser imediatamente declarado patrimônio público, com placa na entrada e o escambau. Neste local trabalhou, como zelador e porteiro, o grande Anescarzinho do Salgueiro.

Humilde, sempre modesto, Anescar parecia não ter a consciência da grandiosidade de sua figura para a história do samba carioca. Foi ele um dos nossos heróis civilizadores. Compôs, com Noel Rosa de Oliveira, os antológicos Quilombo dos Palmares (1960) e Chica da Silva (1963), além de ter participado do show Rosa de Ouro , que lançou Clementina de Jesus. É mole ou quer mais ? Fez parte, ao lado de Paulinho da Viola, Nelson Sargento, Jair do Cavaquinho e Elton Medeiros, do grupo Cinco Crioulos , que marcou, apesar da curta duração, a história do samba.

Um dia um sujeito qualquer - com poucos cabelos que anunciavam a futura calva - soube que o Anescar era porteiro do tal prédio. Foi até lá para saudar o baluarte. Aproximou-se, tocou o interfone e perguntou pelo Anescarzinho do Salgueiro. Extremamente tímido, Anescar apresentou-se e saudou o fã. Parecia quase constrangido com a deferência. Não tinha, definitivamente não tinha, a noção do que representava para a música brasileira.

O autor de Chica da Silva, para alguns o maior samba da história da acadêmia tijucana, trabalhava anônimo e silencioso nas proximidades da Quinta Imperial. Será que os moradores daquele prédio tinham consciência da honra absoluta que o destino lhes reservara? Sabiam quem era aquele porteiro que morreu pobre de marré de si e sem o devido reconhecimento? Acho que não.

Lembro do Anescar porque hoje é dia 20 de novembro, marco da resistência maior de Zumbi dos Palmares. Ouço, como um brado magnífico de liberdade, a obra-prima que Anescar compôs para saudar os guerreiros da serra da Barriga e imagino que nenhuma homenagem que se faça ao quilombola superará em beleza o desfile salgueirense de 1960. Meninos, eu não vi, mas como queria ter visto.

É por isso que acendo minha vela de sete dias no altar da Pátria ao grande Anescarzinho do Salgueiro. Lá, na Aruanda ancestral, deliro que neste 20 de novembro o capitão palmarino estará comovido com as homenagens e o som dos tambores do Brasil. Imagino, também, que Zumbi olhará para o lado e dirá ao seu companheiro de noite grande: Anescar, canta de novo o meu samba, canta.



Saravá!

TUIUTI 2001 - A FIBRA DE PALMARES


O grande João Saldanha - que entendia pacas de futebol e carnaval - gostava de dizer, com um humor do cão, que os compositores das escolas de samba tiveram sorte com a construção da passarela de desfiles na Marquês de Sapucaí.

O argumento é simples: Fazer rima com Sapucaí é a coisa mais fácil do mundo. Basta escrever alguma coisa terminada em i , rimar com na Sapucaí e correr pra torcida. Saldanha completava o raciocínio com um desafio:

- Eu quero ver é se um dia os desfiles forem na Almirante Cochrane.

Pois bem, uma das escolas mais favorecidas com isso é a Paraíso do Tuiuti, a simpática agremiação de São Cristovão, nascida em 1954 a partir da fusão entre a Unidos do Tuiuti e a Paraíso das Baianas.

É raríssimo encontrar um samba da escola que não apresente uma solução do tipo Na Sapucaí / com a Tuiuti ; rima mais mole que pudim de minhoca.

Essa é uma das razões que me fazem gostar do samba da Tuiuti de 2001 - Um mouro no quilombo: Isto a história registra: O samba não rima Tuiuti com Sapucaí !

O enredo, baseado no livro "Capitão Mouro" de Georges Bourdoukan, conta a história de um certo Saifudin, muçulmano que, ao parar no Brasil depois de um naufrágio, teria construído as fortificações do Quilombo dos Palmares. Lembrei dele hoje quando um aluno me perguntou sobre muçulmanos no Brasil colonial.

O samba, de Eduardo Medrado e João Estevam, tem uma melodia arrojada pra diabo - cheia de detalhes que o cabra só percebe ouvindo com uma atenção da peste. O velho João Saldanha aplaudiria, tenho certeza.

Ouçam a Tuiuti sem a rima com Sapucaí - coisa mais difícil que achar cabelo em ovo - primeiro com a gravação de estúdio e, mais abaixo, com a entrada da escola na avenida [e, sou réu confesso, não consigo deixar de me emocionar com uma escola de samba entrando na pista; é a coisa mais comovente - impactante - do mundo ]



Saravá!

BANDEIRA DO BRASIL


Um desengano dói, a minh´alma tanto sente. É assim, pungente, dramático, que começa um samba de Aniceto, gravado pelo grande Monarco em um lp magnífico de 1976. Capa do mestre Lan, participação da Velha Guarda da Portela e lendas como Dino, Marçal, Jorginho, Abel Ferreira, Wilson das Neves e o escambau segurando cordas e ritmos. Obra-prima!

Ouvi ontem esse disco, em minha gloriosa vitrola, e lembrei-me, com precisão, de um dos maiores desenganos da minha vida. Diz respeito a um entrevero que tive com uma professora relacionado ao pavilhão da pátria, a gloriosa bandeira do Brasil. Explico melhor.

Estava, e bota tempo nisso, assistindo a uma aula de Estudos Sociais, quando a professora falou da necessidade do amor incondicional aos símbolos da pátria, especialmente ao auriverde pendão do poeta. Fez então, a megera, uma pergunta fatal:

- A estrela que está acima do Ordem e Progresso representa que estado do país?

E eu, altaneiro, augustíssimo da paz e certo da resposta, bradei com a autoridade de um caboclo de umbanda:

- É o Pará!

A dona me fuzilou com o peso inclemente da tirania:

- É o Distrito Federal! É o Distrito Federal!

Quase fui agredido. Minha resposta gerou uma catarse na mestra. Descabelada, dando socos no quadro, afirmou que não aguentava mais dar aulas a um peste como eu, endemoniado, malcriado e futuro marginal. Admito que meu comportamento em sala não era exatamente exemplar, mas ela exagerou. Me senti a última das crianças, um patinho feio antes de virar cisne.

(Pausa. Esse cisne da frase acima é o Capororoca, o famoso cisne branco brasileiro, que saiu de casa pra cantar na rua. Esse negócio de cisne europeu é meio esquisito.)

Nunca esqueci desse esporro e, por conta disso, tive sérios problemas em respeitar a bandeira do Brasil. Era ver o estandarte canarinho e o arrazoado da mestra rugia nos meus ouvidos.

Meu avô, que havia me garantido que a estrela representava o Pará, tentou me consolar de todas as formas, afirmando com delicadeza nordestina que a professora era, além de burra, uma vaca. E eu, amigos, duvidei do velho e cheguei a acreditar que ele tinha se enganado. A estrela devia mesmo representar o Distrito Federal.

Eis que o tempo passou e o velho cantou pra subir. Morreu manso, ele que sempre foi esporrento. Não deixou herança em dinheiro ou imóveis ( prova irrefutável de caráter e dignidade) mas legou aos seus uma caralhada de coisas aparentemente inúteis, como flâmulas de clubes, moedas da época do Império, álbuns de figurinhas incompletos, um chicote de cangaceiro e uma bandeira magnífica do Brasil, enroladinha como ela só. Dentro da bandeira, protegida, uma cartilha da época do Estado Novo com a explicação completa , minuciosa , sobre os símbolos nacionais. Sabem o que a cartilha diz?

A bandeira foi proposta pelo intelectual positivista Teixeira Mendes, com apoio do astrônomo Manuel Pereira Reis e do artista Décio Vilares. A posição das estrelas no lábaro representa o céu do Rio de Janeiro às 8:14 minutos do dia 15 de novembro de 1889, data e hora da proclamação da República, equivalente a 12 horas siderais - e já adianto que não faço idéia de que diabo é isso de hora sideral.

Diz ainda que cada estrela representa um estado. E, vejam vocês, que a única estrela acima da faixa com Ordem e Progresso é a Spica, representando o estado do Pará. À época da proclamação da República, Belém era a capital mais setentrional do país, ainda que abaixo do Equador.

O Distrito Federal, queridos, é representado pela Sigma do Oitante, que fica próxima ao pólo celeste, o que faz com que todas as estrelas visíveis nos céus do Brasil façam um arco em torno dela. E a Sigma está abaixo do Ordem e Progresso. Acima só está o Pará, cacete!

Hoje é o dia da bandeira, salve ela, e, em homenagem ao velho, vou repetir insistentemente, com a obsessão de um João Batista no deserto, que a única estrela acima da faixa do lábaro representa o Pará. Pe-a-erre-a : Pará.

Aproveito o ensejo e clamo ao poder público (entendam o simbolismo do gesto. É óbvio que não sou lido por nenhum representante do poder público) que troque imediatamente o trapo que está desfraldado na praça da Bandeira, pertinho da minha casa, por um pavilhão novo, bonito, decente.

Botem, por favor, uma bandeira nova na praça, para que eu possa olhá-la com orgulho quando parar no ponto onde pego o ônibus para trabalhar. E, mais do que isso, para que eu possa perguntar a todos - ao mendigo, ao garçom, ao trocador do ônibus e ao camelô que me fornece pilhas e formicidas - com a firme convicção de quem possui a verdade revelada:

- Sabem qual é o estado representado pela estrela acima do Ordem e Progresso ?


Abraços

Ps: Pensei em colocar o hino da bandeira no final desse texto. Seria muito óbvio. A música à bandeira que mais me comove é outra: Fibra de Herói, melodia do maestro Guerra Peixe e letra do poeta Teófilo de Barros Filho. É ela que vai abaixo:


quarta-feira, 18 de novembro de 2009

SEMANA DE PROVA

Estamos, eu e meus alunos, em semana de prova. Nesse exato momento tenho ao meu lado quatro simpáticos pacotes para corrigir. É divertido e trabalhoso.

Ao longo desses anos, li coisas monumentais, de que até Deus duvida e o capeta desconfia. Algumas, pela originalidade, mereciam ganhar o ponto. Exemplos que me ocorrem:

Cite dois acordos presentes no Tratado de Petrópolis de 1903.
R: O Brasil compra o Acre da Bolívia e vai construir a ferrovia Montanha-Maomé [esclareço para os menos versados no babado: A ferrovia é a Madeira-Mamoré].

Caracterize a Era Mauá.
R: Sim, era Mauá.

Cite dois grupos presentes na formação do Quilombo dos Palmares.
R: Judeus e bons samaritanos.

Caracterize os povos indígenas da América pré-colombiana.
R: Os incas, mouros e histéricos viviam na América desde o início do planeta e bem antes de Colombo.

Apresente duas razões para a crise que levou ao suicídio de Getúlio Vargas.
R: Nenhuma, já que ele não se matou. Foi assassinado enquanto dormia.

Cite duas medidas joaninas que tenham transformado a estrutura urbana da cidade do Rio de Janeiro.
R: D. João criou várias coisas. O jardim zoológico e a Ponte Rio-Niterói, por exemplo.

Aponte uma medida do governo Ernesto Geisel para o setor de energia, no contexto da primeira crise do petróleo.
R: A criação do Rio São Francisco.

Abraços

sábado, 14 de novembro de 2009

SEU TRANCA RUA, O ZAGUEIRO - A PROVA DO MILAGRE

[Originalmente publicado, de forma reduzida e sem a imagem do milagre, no Histórias do Brasil]

Minha família é, quase toda, chegada numa curimba. O que tem de macumbeiro não está no gibi. Fui criado pela minha avó, mãe de santo de um terreiro no Jardim Nova Era, em Nova Iguaçu, onde o coro comia quase todo sábado - com muita festa de encantaria e toque pros orixás [escrevi sobre essa infância na macumba aqui ].

Disse que quase toda família era do babado mas, em nome da verdade, preciso destacar que minha tia-avó , Dona Lita, era exceção. Católica fervorosa - de rezar o terço e assistir na sessão da tarde de todo dia 13 de maio um filme velho pra burro sobre o milagre de Fátima - queria porque queria que todas as crianças fizessem primeira comunhão e crisma.

Lembro, por exemplo, quando a tia tentou me ensinar a música tema do filme Marcelino Pão e Vinho e não se conformou quando eu disse que preferia cantar Perereca da Vizinha e Araruta, com o bunda bunda toma limonada pra cagar de madrugada no final.

A boa tia Lita também ficava chocada todo Natal, diante das porrancas formidáveis que meu avô tomava para comemorar o nascimento do menino Jesus. O dever de todo homem de bem, segundo ela, era estar com a família na missa do Galo, enquanto o vô preferia mandar bala na cana.

Parêntese: O argumento do velho para encher a caveira era teológico e infalível: Cristo, nas Bodas de Canaã, transformou água em vinho. Me aponte uma página da Bíblia em que ele tenha transformado vinho em água. E não havia como demover o Seu Luiz Grosso dessa convicção profunda - a de que o Filho do Homem era chegado nuns birinaites.

Fechado o parêntese, retomo o mote: A minha tia Lita era o clássico exemplo de beata. Suspeito até que fosse, e escrevo isso com o maior carinho, cabaço. Com todo respeito.

Qual não foi, portanto , minha surpresa com uma cena ocorrida durante a Copa do Mundo de 1978, envolvendo essa minha tia. Aos fatos.

Jogavam Brasil e Espanha. Jogo duro, o gramado mais parecendo um pasto, meu avô desfilando um repertório de palavrões contra o Coutinho -técnico do escrete -, quantidades industriais de cerveja, caldinho de feijão e, para quebrar o clima profaníssimo, tia Lita rezando o terço, pedindo aos céus pelo sucesso canarinho.

Segundo tempo, zero a zero nervoso, o Brasil sendo vergonhosamente pressionado, quando uma bola é alçada na nossa área. O Leão sai do gol catando borboletas e a bola sobra, cristalina , nos pés do centroavante adversário.

O espanhol se prepara para o arremate, num lance inapelável, com o goleiro batido. Subitamente, como num milagre, surge o Amaral, nosso zagueiro, que , postado debaixo do travessão, salva a nossa cidadela.

Meu avô ameaça infartar. Meu irmão faz, literalmente, cocô nas calças. O Manoelzinho Mota, aos prantos, repete - não entrou, não entrou. Minha vó faz breve comentário: Esse até eu faria. E minha tia, a beata, joga o terço pro alto e grita :

- Foi ele! Foi ele! Obrigado. Obrigado.

Eu, ainda sob efeito do lance, fiz a pergunta:

- Ele quem, tia Lita, Jesus Cristo?

- Que Jesus Cristo, menino. E Jesus Cristo quer lá saber de jogo? Jesus Cristo porra nenhuma.

- Quem foi então?

- O Exu Tranca Rua, é claro!

Meu avô quase infartou de novo:

- Foi quem, Lita?

- Seu Tranca Rua. Eu vi Seu Tranca Rua do lado da trave, protegendo o gol do Brasil. Eu vi!

E, dizendo isso, a velha começou a cantar, acompanhada, sem sacanagem, por todo mundo:

Seu Tranca Rua é homem
Promete pra não faltar
Catorze carros de lenha
Pra cozinhar gambá
A lenha já se acabou
E a gambá
Tá pra cozinhar


Senhoras e senhores, não estou mentindo, que eu não vou brincar com Seu Tranca nem a pau. A minha velha tia, beatíssima, afirmou de fato, com convicção, que Exu Tranca Rua tinha defendido a seleção brasileira.

Meu avô, impressionadíssimo, repetia :

- É coisa séria. É coisa séria. Traz um copo de cachaça pra botar do lado da televisão.

O Manoelzinho Mota, devoto do Homem da Rua, afirmava com absoluta certeza que Seu Tranca tinha baixado no Amaral, o zagueirão.

O fato é que o Brasil, com um zagueiro desse porte, não levou gol naquele jogo.

No dia seguinte, minha tia voltou a rezar o terço, me chamou num canto e disse a mesma lenga-lenga de sempre:

- Você tem que aprender a rezar, menino. Não vai atrás dessa família, não, que macumba não dá camisa a ninguém. Só existe uma verdade, Jesus Cristo.

Sem entender patavinas, perguntei pra velha:

- Mas tia, e Seu Tranca Rua?

E ela, de bate-pronto, na base do esporro:

- Lava essa boca, menino, que isso não existe! Fica andando com macumbeiro e dana de falar besteira.

Brasil-sil-sil !

O lance que originou o furdunço, o milagre de Amaral e do seu Tranca, é esse:


Saravá

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

DA SÉRIE "ESTÃO DE SACANAGEM"

A Beija Flor de Nilópolis anuncia uma grande atração para este sábado, dia nobre do samba, em sua quadra: Show com um bamba da pesada, rei do sincopado e do balacobaco, versado na arte do partido alto, grande conhecedor de sambas de enredo, homem que diz no miudinho como poucos. Como se não bastasse, vendeu mais de um milhão de cópias de seu último trabalho: Padre Fábio de Mello.
Meu comentário vai em forma de samba e sugestão de repertório, já que o padre e a Beija Flor merecem uma homenagem:

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

FALTA UM CEMITÉRIO NA TIJUCA

Meu avô viveu quarenta anos no Rio de Janeiro e nunca saiu do Recife. O velho sabia, lá do seu jeito, que o homem é sua aldeia. O resto é balela.

Poucos dias antes de morrer - e morreu em casa, perto de mim, graças aos deuses - o Luiz Grosso deu uma de garoto de calças curtas e pediu para esse seu neto: Eu quero ouvir o hino do Sport Clube do Recife.

Ouviu e deu um último sorriso. Morreu bem, pois preparou a grande despedida - e vive, num frevo que delirei, com Frei Caneca, Gregório Bezerra, Capiba e Maurício de Nassau.

O meu Recife é a Tijuca - e o rio Maracanã é o Capibaribe iluminado do meu vô.

Amo a minha aldeia - onde não nasci mas me reconheci. Aprendi a Tijuca, e ela é uma entidade, alma que vaga generosa, afável, aberta, solar, cafona, mesquinha, moralista, com cheiro de lírio e merda; bairro de putas generosas e cabaços mais inexpugnáveis que a linha Maginot.

A minha aldeia, camaradas, não é cenário de novela. Cheira e fede, a Tijuca - terra de futum, bafio, aroma, cecê, flor de laranjeira, pés mimosos de moças de família, coturnos de generais, sapatos de couro e sandálias esculhambadas que ornamentam dedos sujos de bebuns valentes em seus bares vagabundos - e moças sonhosas do amor que não virá mas deveria.

E como têm viúvas na Tijuca, já que homem que se preza não faz a desfeita de morrer depois da mulher.

É a Tijuca de Anescar, Noel Rosa de Oliveira, Marinho da Muda, Aldir Blanc, Geraldo Babão, Bala, Calça Larga, Almirante, Pindonga, Djalma Sabiá, Gargalhada, Zuzuca, Antônio Brasileiro, Salgueiros, Boréis, Formigas, Trapicheiros, normalistas, cadetes, beatas, trapaceiros, bandidos, homens de bem, vagabundos, batedores de carteiras e trabalhadores abençoados por São Francisco Xavier, São Sebastião dos Capuchinhos, Santo Afonso e, de quebra, pela Senhora de Nazaré - já que aqui temos o Círio - pois paraense tijucano é o que não falta.

Tijuca que anoitece nas praças e nos meus olhos, nas arruaças dos seus bêbados desamados e no canto de fé de suas igrejas reveladas e macumbas escondidas: E como tem macumbeiro e centro espírita de mesa na Tijuca. [Aproveitando a ocasião, fica a prece: Saravá, Cordeiro de Deus, tira o pecado do mundo, mas deixa um pouco de pecado na Tijuca, que faz bem e a gente precisa.]

Berço de índios, violenta e serena, camarada e arisca, caricata e sincera, essa minha aldeia é madeira de dar em doido e amenizar corações sofridos - e nos comove, como ao poeta, feito o diabo.

E tem barulho de tiro, trova, gozo e grito de gol na Tijuca. Além das sanfonas e guitarras lusas tocando o vira, é claro, pois há quem defenda que a Tijuca é só um delírio carioca - na verdade estamos numa aldeia no norte de Portugal, cheia de barbearias de responsabilidade e senhoras de bigodes e varizes que mais parecem o relevo da terrinha.

Ou a Tijuca é a África, ja que aqui a Casa Branca é mais importante que morada de presidente preto: É quilombo mesmo.

Não sei, me falta cacife pra afirmar, mas desconfio que o Eduardo Goldenberg saiba.

A função do filho é honrar o pai - como a função do pai é honrar o avô.

Eu pedirei um dia, perto hora de sumir na noite grande, que me cantem um samba qualquer sobre a aldeia que escolhi para amar a cidade, a mulher e os amigos. A Tijuca.

E já que cemitério aqui não há - que falha grave, Tijuca ! - que me torrem em um forno do Caju e joguem o que sobrar num canto da Praça Afonso Pena, ou num barco de madeira de quinta categoria, para que eu finalmente navegue meu rio Maracanã.

E como muito lirismo de cu é rola, eu quero é virar, depois de ir oló, um egum dos brabos, encosto pesado, para grudar nos ouvidos de uns tijucanos de merda, metidos a limpar cocô de galinha com colher de prata e cantar, feito assombração, um grito de guerra:

- Um, dois, três, quatro, cinco, mil, se não gosta da Tijuca vai pra putaqueospariu...

Ou atravesse o Alto da Boa Vista, que dá no mesmo.

RECORDAÇÕES DO ESCURO - A NOITE NO BICHO DA SEDA

Eu no escuro, quando moleque, fechava os olhos. Não abria os olhos dentro de trem fantasma, por exemplo - e por isso mesmo os monstros eram apavorantes.
Coisa curiosa, essa. Nunca deixei de entrar em trens fantasmas nos parques de diversões, mas jamais olhei o que estava acontecendo enquanto o vagão danado corria no escuro. A mesma coisa vale para o bicho da seda.
O apagão de ontem me fez recordar das escuridões da minha infância e de um texto que escrevi sobre uma dessas aventuras no escuro. É esse que vai abaixo:

Meu avô gostava de cachaça, futebol e mulher pelada. Pernambucano, filho de italiano com portuguesa, o velho era chegado numa arenga das boas.
Tremendo tampinha, arrumava as maiores confusões, falava alto e tinha um chicote de couro - presente dado, dizia ele, por um cangaceiro do bando de Lampião.
Certa feita, tornou pública a intenção de matar o Toninho Cerezo, depois do Brasil e Itália na Copa de 82. Antes jurou cobrar do Coutinho a barração do Zico no certame de 1978.
Tirando esses pormenores, e o calibre vinte e dois que ele guardava no armário, era uma flor de pessoa. Me criou desde que eu tinha três anos de idade.
Houve um dia, eu devia ter uns seis ou sete anos, em que o velho me levou a um parquinho de diversões na Quinta da Boa Vista, cuja grande atração era uma espécie de bolha de plástico com um colchão imenso. A criançada pintava os cavacos dentro daquele treco, com saltos mortais e o cacete. Eu adorei.
Depois que pedi pra ir à bolha pela quarta vez, meu avô me olhou com uma expressão jagunça e falou:

- Você não prefere ir ao bicho-da-seda? É bem mais divertido. Você vai gostar mais. Vamos ao bicho da seda. Agora.

Pra quem não sabe, vale o esclarecimento. O bicho da seda era um negócio sério. Explico, com uma tremenda saudade, como funcionava a geringonça.
O brinquedo era uma espécie de trenzinho, com bancos pra duas pessoas, que rodava em círculos, em alta velocidade. De súbito, um cortinado cobria o trenzinho e ficava tudo no maior breu.
Parentêse: Nessa hora, as meninas gritavam histéricas e nós, os machos, fechavamos os olhos para não ver o escuro - a mais bonita e infantil das contradições.
Pois bem, quando o cortinado subia, as coisas voltavam ao normal. Até que as trevas desciam novamente sobre o mundo e o pânico retornava.
Feita a observação técnica, voltemos ao parquinho da Quinta. Na hora em que fui entrar no brinquedo, louco pra fazer cocô e xixi ao mesmo tempo, meu avô falou, com a seriedade de quem revela o terceiro segredo de Fátima, o seguinte:

- Escolhe um banco e senta ao lado de uma menina. Não esquece. Só pode sentar ao lado de uma menina. Se não der, espera a próxima vez.

Cumpri a determinação do velho. Sentei ao lado de uma moreninha um pouco mais velha que eu e bonita pra dedéu. Devia ter seus nove anos, se tanto. Ao lado dela, preparei-me para a aventura, respirei fundo e lá fomos nós.
Rezei baixinho, pedi proteção e fechei os olhos. Foi dada a partida, bem devagarinho...e o bicho foi acelerando. Logo, logo a cortina cobriu tudo e ficou escuro pra burro. A petizada começou a fazer um esporro de dar razão ao rei Herodes.
Naqueles segundos de trevas completas , todos os medos, fantasmas, demônios e dentistas da minha infância apareceram, terríveis, imensos e assustadores.
Quando terminou a epopéia, as meninas saíram colocando as mãos nos corações e nós, machos, não podiamos demonstrar um pingo de medo.
Eu, particularmente, saí pisando forte, com cara de mau, segurando o xixi, pra meu avô ficar orgulhoso. Com a moral de quem tinha superado um tremendo desafio, fui impositivo:

- Quero uma grapete. Não senti medo nenhum. Nem um tiquinho, ó.

-Vamos lá, disse ele.

- Antes quero fazer pipi.

- Tá. Mas, olha, homem não pede pra fazer pipi nem xixi. Fala que quer dar uma mijada. Fica melhor. Meninas fazem xixi e meninos mijam. Nunca esquece disso. Fala de novo, vai, pra treinar.

- Vô, eu quero mijar.

Aprendida a lição (que guardo até hoje) e acertadas as contas com a bexiga, paramos na barraquinha dos refrigerantes e o velho falou:

- E aí, gostou?

- Hã , hã.

- Mais nada? E a menina no escuro; você não fez nada no escuro, enquanto ela gritava?

- Não. Ué, vô, fazer o que?

Fomos embora, o velho com cara de poucos amigos. Perto de casa, virou-se pra mim, passou as mãos nos meus cabelos - eu os tinha! - e sentenciou:

- Não tem problema. Tua vó, tua mãe e tuas tias tão estragando você. Qualquer hora dessas te levam à Socila. Mas, a partir de agora, eu vou cuidar da tua educação mais de perto. Vamos sair mais sozinhos. Deixa comigo, que se tudo der certo, vai dar a maior merda.

Na hora, não entendi patavina. Mas hoje, como compreendo o velho. Tanto que, se no dia do juízo final, Jesus Cristo me fizer uma pergunta definitiva, daquelas de decidir o futuro da alma :

- Do que você se arrepende?

Eu mirarei o Filho do Homem, com o devido respeito, é claro, e responderei convicto:

- De uma certa noite, mestre. No bicho-da-seda da Quinta da Boa-Vista. Quebra esse galho. Dá pra ter sete anos de novo e estar lá?

Abraços

O REI, A MULHER E A AMANTE - DEU SAMBA


Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon, o nosso d. Pedro I, foi um grande fanfarrão das efemérides da pátria. Foi também, é justo que se diga, um espada de primeiríssima categoria, honra e glória da estirpe dos varões assinalados.

Até as pantufas do museu imperial de Petrópolis sabem dos sete anos em que nosso imperador frequentou a alcova de Domitila de Castro Canto e Melo, a marquesa de Santos.

O Demonão, apelido que o portuga usava nas cartas de amor que trocava com a amante ( dentro dos envelopes D. Pedro gostava de mandar alguns pentelhos, como prova de seus sentimentos), era um despudorado. A Imperatriz Leopoldina foi a traída mais explícita da história do Brasil, uma espécie de padroeira da cornitude nacional.

O que poucos sabem é que D. Pedro foi também insaciável amante de Maria Benedita de Canto e Melo. Quem era essa? A irmã mais velha de Domitila, com fama de senhora distinta, casada com um certo Boaventura Delfim Pereira. Com a irmã da marquesa, o imperador teve, pelo menos, um filho bastardo.

Nessa sacanagem toda , me comove o apreço que o imperador demonstrou ter pela família das irmãs Canto e Melo. Mostrou-se um homem digno e ciente de suas responsabilidades, saiu distribuindo títulos de nobreza e empregou todo mundo.

O corno Boaventura, por exemplo, foi nomeado superintendente da Fazenda de Santa Cruz, tornando-se amigo íntimo de d. Pedro. Foi alocado depois na superintendência das quintas e fazendas imperiais, quando recebeu o título de barão de Sorocaba.

Os pais da marquesa de Santos viraram viscondes de Castro. Além deles, uns quarenta irmãos, cunhados, sobrinhos e amigos da amante do imperador receberam títulos de barões, viscondes, guarda-roupas, gentis-homens e moços da câmara imperial, todos devidamente contemplados com generosos vencimentos pagos pelo erário público do Império.

(Permitam-me uma pausa. O que seriam os "moços da câmara imperial" ? Eu, pelo menos, imagino uns camaradas vestidos com todas as pompas, preparados para dar e receber os benefícios daqueles senadores e ministros balofos do Império. Uma espécie de guarda-suiça da boiolice nacional.)

Um caso famoso foi o do jovem Alaor Moreno Canto e Melo, sobrinho da marquesa, que aos sete meses de idade foi elevado ao posto de gentil-homem do Império e nomeado administrador de erário da Quinta da Boa-Vista. O cargo, de grande responsabilidade, certamente foi honrado pelo desempenho reto e audacioso do mais novo funcionário público do reino, ainda em fraldas. O salário do pequenino administrador era uma fábula.

É, queridos, D. Pedro I fez escola por essas bandas. Com muito mais estilo, é verdade. E o que deve ter de marquesa de Santos e moços da câmara imperial deitando e rolando hoje nas esferas do poder... Deixa quieto.

Para fechar essas mal traçadas e provar que tudo aqui acaba em samba, em 1964 a Imperatriz Leopoldinense desfilou com o samba [do grande Bidi] A Favorita do Imperador - uma homenagem a Marquesa de Santos. É mole? A esposa oficial - Leopoldina - canta as glórias da amante de d. Pedro. Sambaço-aço-aço, na voz portentosa de Richxxaaasss:


Abraços

terça-feira, 3 de novembro de 2009

DO PORTO AO BOTEQUIM - UM CHAMADO AO BOM COMBATE

Ando cabreiro com algumas coisas que estão acontecendo nas ruas cariocas. Aqui perto de casa, por exemplo, as notícias não são das melhores. Um botequim que costumo frequentar, o Bar do Chico, inventou uma reforma meio mandrake, que incluiu pizza no cardápio, visual moderninho, garçom de gravata e, é claro, aumento dos preços dos produtos. Botequim, já não é mais. Periga virar um playground de bêbados com rodízio de pizza depois das seis da tarde.
A reforma da Zona Portuária do Rio de Janeiro também está começando a cheirar mal [sinto um futum de bota-abaixo no ar, com o espectro do Pereira Passos circundando a Guanabara]. Os projetos que vi até agora parecem querer transformar a velha Praça Mauá numa mistura entre dois monstrengos desalmados: Puerto Madero, na Argentina, e a falecida Lapa, aqui mesmo.
Puerto Madero é quase a Barra da Tijuca platina - uma área com ambientes contemporâneos [seja lá o que for esse diabo], com uma concepção de assepsia urbana que abriga restaurantes caros, decorados de formas mequetrefes e cheios de novos ricos. Uma reforma sem caráter, eis o que me pareceu. Duvido que o fantasma de Carlos Gardel caminhe naquelas plagas.
A Lapa, por sua vez, agoniza. Virou valhacouto de adultescentes, simulacro de berço do samba, com bares que vendem bebidas por preços proibitivos e que visualmente lembram a lanchonete da entrada do Memorial do Carmo, no cemitério vertical do Caju - um lugar mais digno para se beber, diga-se.
O Nova Capela [cada vez mais Nova e menos Capela ] hoje é atração turística para uns basbaques que encaram uma ida ao velho bar como uma espécie de safari no Quênia e saem dizendo que foi uma experiência inesquecível. O Bar Brasil resiste com bravura, mas até quando?
Eu quero saber o seguinte: O poder público está escutando os moradores da Zona Portuária? A ideia é fazer da Praça Mauá um centro financeiro que mande pro lixo a história fabulosa da região? Que venha a revitalização, mas revitalizar é criar um um marco zero de gosto duvidoso, com mais de cinquenta andares, ou recuperar a grandeza da tradição e da memória do cais e de sua gente?
Como estou encafifado com esses troços, reli dia desses um arrazoado que escrevi faz tempo sobre a agonia dos nossos botequins de fé e a necessidade quase quixotesca de se lutar pela preservação de um certo modo de vivenciar a cidade e o bar. São aquelas reflexões que, em boa parte, retomo nesse texto.
Faço isso porque esse combate me parece mais urgente do que nunca. As reformas na região do porto, misturadas ao balacobaco das obras para preparar a cidade para as Olimpíadas de 2016, me fazem ficar com um olho no cavalo, que é bonito, e outro na bosta do bicho, que fede pácas.
Vivemos, e isso não é novidade alguma, tempos de uniformização dos costumes, fruto deste tal de mundo globalizado. Em cada canto desse mundaréu, ligado por redes transnacionais de telecomunicações, as pessoas assistem aos mesmos filmes, vestem as mesmas roupas, ouvem as mesmas músicas, falam o mesmo idioma, cultuam os mesmos ídolos e se comunicam em cento e quarenta toques virtuais.
Nessa espécie de culto profano, em que a vida cotidiana é regida pelos rituais em louvor ao mercado que não é o de Madureira, o bicho pega e as ideias morrem, como outro dia morreu de morte matada o acento em ideia, sem choro nem vela e sem a dignidade de um samba do Noel.

Eu, que trabalho com adolescentes e adultos jovens, percebo que as crenças e projeções de futuro da rapaziada foram substituídas pelo pânico cotidiano - do assalto e das doenças, no âmbito pessoal, às catastrofes ambientais, na esfera coletiva. Cria-se uma lógica perversa : Como posso morrer de bala perdida, pegar gripe suína ou sucumbir ao aquecimento global, preciso viver intensamente o dia de hoje.

Ocorre que essa valorização extremada do tempo presente é acompanhada pela morte das utopias coletivas de projeção do futuro. Não há mais futuro a ser planejado. Somos guiados pelos ritos do mercado e abandonamos o mundo do pensamento, onde se projetam perspectivas e são moldadas as diferenças.
Restam hoje, talvez, duas tristes utopias individuais, em meio ao fracasso dos sonhos coletivos - a de que seremos capazes de consumir o produto tal, cheio de salamaleques, e a de que poderemos ter o corpo perfeito.
Transformam-se , nesse tempos depressivos, os shoppings centers e as acadêmias de ginástica nos espaços de exercício dessas utopias tortas, onde podemos comprar produtos e moldar o corpo aos padrões da cultura contemporânea - o corpo-máquina dos atletas ou o corpo-esquálido das modelos. É a procura da felicidade que não tem, como na esquecida e sábia canção natalina. E tome de caixinhas de Prozac no sapatinho na janela.
É aí, e eu queria falar disso desde o início, que localizo na minha cidade de São Sebastião o espaço de resistência a esses padrões uniformes do mundo global - o botequim. Ele, o velho buteco, o pé-sujo, é a ágora carioca. O botequim é o país onde não há grifes, não há o corpo-máquina, o corpo-em-si-mesmo, a vitrine, o mercado pairando como um deus a exigir que se cumpram seus rituais.
O buteco é a casa do mal gosto, do disforme, do arroto, da barriga indecente, da grosseria, do afeto, da gentileza, da proximidade, do debate, da exposição das fraquezas, da dor de corno, da festa do novo amor, da comemoração do gol, do exercício, enfim, de uma forma de cidadania muito peculiar. É a República de fato dos homens comuns - cenário não habitado pelos personagens de novelas do Manoel Carlos.
É nessa perspectiva que vejo a luta pela preservação da cultura do buteco como algo com uma dimensão muito mais ampla que o simples exercício de combate aos bares de grife que , como praga, pululam pela cidade e se espalham como metástase urbana.

A luta pelo buteco é a possibilidade de manter viva a crença na praça popular, espaço de geração de ideias e utopias - sem viadagens intelectuais, mas fundadas na sabedoria dos que têm pouco e precisam inventar a vida - que possam nos regenerar da falência de uma (des)humanidade que limita-se a sonhar com o tênis novo e o corpo moldado, não como conquista da saúde, mas como simples egolatria incrementada com bombas e anabolizantes cavalares.

O botequim é, portanto, e não abro mão do hífen, o anti-shopping center, a anti-globalização, a recusa mais veemente ao corpo-máquina dos atletas olímpicos ou ao corpo pau-de-virar tripa das anoréxicas - corpos que se confundem na doença comum desse mundo desencantado: Metáforas da morte.

Ali, no velho buteco, entre garrafas vazias, chinelos de dedo, copos americanos, pratos feitos e petiscos gordurosos, no mar de barrigas indecentes, onde São Jorge é o protetor e mercado é só a feira da esquina, a vida resiste aos desmandos da uniformização e o Homem é restituído ao que há de mais valente e humano na sua trajetória - a capacidade de sonhar seus delírios, festejar e afogar suas dores nas ampolas geladas feito cu de foca. É onde a alma da cidade grita a resistência : Laroiê !

Esse combate, amigos, é muito mais significativo do que imaginam os arautos modernosos e seus programadores visuais.

Botequim tem alma, é entidade, feito os trapiches e sobrados do cais do porto em noite de lua cheia.

Abraços