terça-feira, 29 de dezembro de 2009

DESEJO AOS CAMARADAS EM 2010...

... a cerveja gelada, o fígado em ordem, o coração nos conformes, os amigos presentes, a bola na rede, a mão na roda, Pixinguinha na vitrola, Exu centroavante, Ogum zagueiro , Xangô no apito, o camarão no prato, o moleque na escola, o samba no terreiro e o dia bonito. O papo na esquina, o botequim aberto, a televisão desligada, o pau duro, a maria mole, a pipa no ar, a rua sem carro, o trem no trilho, a barca no mar, a canoa no rio, o Rio. A casa de vila, a troça, a Copa, a taça, a prosa, a sanfona, a folia, o dia, a água gelada, o Buraco Quente, Nelson Cavaquinho, Odé de frente e peixe assado. Mais feira, menos mercado. Cachaça, vinho, manga, reza, bamba, Bimba, candonga, sunga, pinga, gol da virada ! Toque de bola, vento, varanda - e sobretudo a mulher amada.

2010

Final de ano é tempo de todos os tipos de crendices e superstições. Vale tudo: saltar sete ondas; vestir cuecas e calcinhas imaculadas; tomar banho de arruda; andar feito saci pererê repetindo a oração da cabra preta do livro de São Cipriano; vestir a cor do orixá regente; comer duzentas uvas fazendo pedidos; beber champanhe de cabeça pra baixo; imitar índio do velho oeste; cantar o pirulito que bate-bate em chinês; tomar passe espírita de caboclo mais fajuto que nota de três reais e outros babados.

Eu adotei nos últimos anos, e a coisa tem funcionado bem, a estratégia mística de arrotar vigorosamente na hora da virada. Escrevi sobre isso logo no início do meu antigo blog e, desde então, tenho me mantido fiel ao hábito, fundamentado nas tradições milenares da Índia e da velha Pérsia. Explico.

Contam os indianos e os persas que Daksa, o criador, maravilhado com o ser humano, resolveu comemorar a criação enchendo a caveira com o mais puro néctar embriagante. Coisa de 80% de teor alcoólico. Em suma, a divindade tomou uma porranca das boas.

Eis que, no meio da carraspana, Daksa arrotou. Deste arroto nasceu a famosa Vaca Sourabhi, primeira mãe do mundo. Todas as 41 vacas mães do mundo nasceram assim, da eructação do deus.

No Brasil, o arroto é visto como um poderoso instrumento de defesa contra feitiços e pragas. Só ele, por exemplo , é capaz de quebrar o encantamento produzido pela Cobra-Grande, essa assombração pavorosa, quando quer atrair os incautos para seus domínios no fundo das águas.

O arroto também foi visto na Península Ibérica, por muito tempo, como um elogio à qualidade da refeição. Era uma honra para qualquer cozinheiro que, ao final do jantar, uma sinfonia de arrotos, altíssimos, se transformasse na música ambiente, prova cabal do bom sabor dos acepipes.

Constatando isso, só me resta sugerir mais uma vez que os amigos não se avexem e arrotem em profusão na virada do ano. Só pode fazer bem.

Com as bofadas, acreditem, vão embora as pragas de 2009 e, quero crer, as mazelas futuras. Os que arrotam também estarão reproduzindo o elegantíssimo hábito de elogiar as prendas de quem fez a ceia. Coisa fina, sinhá. Por fim, assim como Daksa fez , arrotar de porre é um elemento gerador de novas possibilidades de vida. O arroto é a força da criação.

Encham o pote e arrotem em seguida, dezenas, centenas de vezes. Há, é bom prevenir, o risco de surgir uma vaca no meio da ceia. Neste caso, é pimba na gorduchinha e carne no espeto. Que o churrasco venha ao ponto, nos conformes, que sejam fartas todas as mesas e que a cerveja se mantenha permanentemente gelada.

Feliz 2010!

Até lá.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

QUE VENHA A REPÚBLICA

Dia desses o meu querido Eduardo Goldenberg, citando o Carlos Andreazza, escreveu o seguinte em um texto sobre a maconha:

Faço questão de frisar que, sim, tenho amigos, e amigos queridos, muito queridos e muito próximos, que compram e que fumam maconha. Como disse, em um de seus textos, Carlos Andreazza, "minha amizade lhes é incondicional, razão pela qual não lhes escondo a minha posição - também incondicional: quem consome maconha financia, diretamente, o crime..."

Não, eu não sou um desses amigos do Edu que compram e fumam maconha. Meu negócio, de fato e de direito, é cair dentro de uns birinaites. Só estou citando esse trecho, na verdade, porque me ocorreu algo interessante sobre isso: eu escreveria com a maior tranquilidade a mesma coisa, apenas substituindo a maconha pelo rei Roberto Carlos:

Faço questão de frisar que, sim, tenho amigos, e amigos queridos, muito queridos e muito próximos, que compram discos e assistem aos shows do Roberto Carlos. Minha amizade lhes é incondicional, razão pela qual não lhes escondo a minha posição - também incondicional : quem consome Roberto Carlos financia, diretamente, o crime.

Não bastasse a subserviência ao império de telecomunicações da família Marinho [fato crucial para compreender a tal da força do Roberto como cantor popular] , o fundamentalismo cristão de quinta categoria, que resultou no fenômeno aviltante dos padres cantores, e o memorável desempenho de fim de ano ao lado do grupo de forró tecnopop Calcinha Preta, do astro sertanejo Daniel, do cantor machão Ana Carolina e de uma atriz global [aviso que não vi e não gostei] , leio hoje no jornalão a boa nova:

Roberto Carlos, o Rei, que é espada, aderiu à onda metrossexual. Raspou os pelos do peito.

É isso. Viva o marechal Floriano!


quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

É NATAL NO BRASIL


Então é Natal - provavelmente a festa comemorada da forma menos brasileira entre todas as festas. No sudeste a coisa é na base de neve, Papai Noel, renas, avelãs, amêndoas, nozes, missa do Galo, lapônias, estônias, lituânias e islândias mais geladas que a sala de conservação de corpos do Instituto Médico Legal.

Vamos dar o crédito a quem de direito. É aniversário de Jesus Cristo, um sujeito bom, subversivo, que gostava de andar entre o povo de rua [Laroiê!] e , não obstante o que os carolas acham, transformou água em vinho mas nunca ousou mudar o vinho em água. O cabra era o Filho do Homem - e aí é feito a Invenção de Orfeu do grande cristão Jorge de Lima: mentira pra quem não crê e milagre pra quem sofreu. Minha tia, por exemplo, diz que ele é o maior dos encantados - e que encantaria bonita, a do terceiro dia.

Mas nós temos um Natal brasileiro, ora pitombas. Um Natal de festa, com música, sol, verão, cachaça, caju, moças bonitas, saias rendadas, sanfonas, violas, zabumbas, namoros e folguedos. Me refiro ao ciclo nordestino do pastoril e da lapinha, com a disputa entre os cordões azul e encarnado, anunciando as breves folias dos Santos Reis.

Cresci numa família de nordestinos, entre pernambucanos e alagoanos de boa pipa. Aprendi com a avó e a tia canções de desafio dos cordões e de louvor ao Deus menino. Desde que me entendo por gente tenho em casa um LP que o grande Marcos Pereira lançou chamado Natal Brasileiro, com doze cantos nossos sobre a Natividade. Cantos do povo.

É por isso que desejo ao amigos um feliz natal, com gosto e alegria do Brasil e de sua gente pobre. Nada melhor, portanto, que o Papai Noel cante pra subir, vá catar coquinhos nas geleiras e abra passagem para Jackson do Pandeiro. Lapinha de Jerusalém é um clássico do cancioneiro canarinho. Nós, letrados daqui do sul, é que somos um bando de gente sem graça. Um brinde brasileiro, camaradas, com cachaça da boa e batida de caju, ao Menino Deus. Êh, Brasil!


Feliz Natal!

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

PREFIRO ANDAR PELADO


Dezembro é um mês propício ao nudismo e serei obrigado a comparecer hoje, de terno e gravata, feito defunto das antigas, a uma cerimônia de colação de grau. Nada contra a cerimônia, diga-se, mas terno e gravata no verão canarinho é coisa rastaqüera.

Chocado com a indumentária e com vontade de mandar o Papai Noel, com seus trajes adequados ao verão da Lapônia, pra Tuvalu em tempos de aquecimento global, só tenho uma opção para exorcizar o encosto: Escreverei sobre gente pelada.

O Rio de Janeiro é um bom lugar para se andar nu. Temos, inclusive, uma praia destinada à prática do naturismo. Confesso, porém, que nunca frequentarei o recanto, e justifico a birra com três argumentos.

O primeiro deles é que no espaço, perto de Grumari, admitem-se pessoas peladas e outras com trajes de banho. Não pode dar certo. O correto é todo mundo feito índio e ponto final.

O segundo argumento me parece poderoso. A praia em questão chama-se Abricó. O nome é terrível. Não se pode andar impunemente com o báculo exposto num lugar com uma denominação dessas. Parece até aquela velha piada do índio Caramuru, da tribo Paraguaçu, que gostava de sururu, morava no Alto Xingu e se chamava Papa-Có. Nem pensar.

O terceiro argumento é definitivo e dispensa comentários: Testemunhas afirmam que tem muito mais homem que mulher naquelas bandas. Canta pra subir.

Quem começou com esse negócio de naturismo no Brasil foi a atriz Dora Vivacqua, mais conhecida como Luz del Fuego, a quem homenageei em outros textos. Luz, dotada de espírito público, fundou, no início dos anos 50, o Partido Naturista Brasileiro - que reputo como a mais séria organização política verde e amarela desde os tempos dos homens pré-históricos da Serra da Capivara.

Luz morava na Ilha do Sol, pertinho de Paquetá, e gostava de andar pelada com uma jibóia de oito metros enrolada no corpo. Em sua propriedade funcionou o primeiro clube de nudismo do país, o que fazia com que afoitos farofeiros de Paquetá - com o argumento familiar de que queriam conhecer a romântica pedra da Moreninha e tinham se perdido nas águas da Guanabara - tentassem chegar nadando à ilha vizinha pra ver as pererecas em flor.

O final de Luz del Fuego foi terrível - morreu assassinada, em 1967, por bandidos que queriam roubar um carregamento de pólvora guardado na ilha. Pouco antes da morte da fundadora, o Partido Naturista, que chegou a ter quase 60 mil filiados, fora proibido pelo regime militar - numa inequívoca demonstração de que fardas e ternos são, em geral, muito mais indecentes que a nudez.

Assisti, moleque, ao filme Luz del Fuego, em que Lucélia Santos - que eu conheci na novela Escrava Isaura, produzindo o milagre de seduzir a dupla de machões (sic) Rubens de Falco e Edwin Luise - representava a pioneira do naturismo tupiniquim. Lucélia estava em forma surpreendente, apesar da atuação dramática superior da escamosa atriz que representava a cobra jibóia, naquela que considero a maior interpretação feminina da história do cinema nacional ao lado da cadela Baleia de Vidas Secas.

Parêntese: O fato, e só pensava revelar isso a uma médium de mesa branca depois de morto, é que após assistir ao filme eu resolvi, projeto de garoto de 14 anos, preparar um dicionário com sinônimos de vagina. O negócio era sério - um apanhado de denominações literárias sobre a chavasca. Quando percebi, porém, estava obcecado, listando coisas como suvaco de coxa, tabaca, caxaronga, buraco da serpente, boca de gia, buçanha, bacurinha, campo alagado, taioba, fenda, tobinha, testador de batina, pomba, aranha, xexenha, pastel de pêlo, pitrica e tomba macho. Achei melhor parar, mas qualquer dia retomo a obra.

Temos outros personagens ilustres que gostavam de tirar as roupas. O antropólogo Darcy Ribeiro e o cineasta Glauber Rocha só conseguiam escrever peladões. D. Pedro I gostava de andar vestido apenas com o bigode pelos salões do Paço Imperial; Villa-Lobos achava que compunha melhor despido. Átila, o huno, que não era brasileiro mas tinha 1.06 de altura, gostava de mostrar o pinto pra humilhar os adversários depois de cruéis batalhas.

Contam também que Dona Beija, a feiticeira de Araxá, cavalgou nuazinha pelas ruas da conservadora cidade mineira, horrorizando beatas e levando a rapaziada ao delírio. Duzentos anos depois, Dona Beija encarnou no corpo da modelo Lilian Ramos. Durante o carnaval de 1993 Lilian se exibiu, sem calcinha, ao lado do presidente Itamar Franco. O fato deu ao mandato do mineiro um ar de dignidade maior que a elaboração do plano Real.

Paro por aqui esse desabafo. É hora de buscar o terno que aluguei numa loja de roupas de festas no Largo da Segunda Feira.

Enquanto faço meu vestibular pra frango de padaria, fiquem com o grande Benito de Paula homenageando o poetinha, que adorava andar como veio ao mundo, mandando o terno e a gravata pra Tonga da Mironga do Kabuletê. É a minha vontade:


quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

UM TIMAÇO DOS BONS TEMPOS


Um dos maiores times de futebol que vi atuar nas quatro linhas foi o do Vila de Cava F.C. , glorioso clube de várzea que marcou Nova Iguaçu e arredores no início dos anos oitenta. A popularidade do Vila foi tamanha que a equipe chegou mesmo a fazer uma excursão internacional [assim foi anunciada a viagem] pelo interior do Espírito Santo.

Recito até hoje, como quem declama um Camões, um Bandeira, a escalação dos sonhos do onze varzeano : Elisangela; Camunga, Carlinhos "nem fudendo", Mão Branca e Tornado; Jorge Macaco, Capiroto e Corno Manso; Curupira, Abecedário e Aderaldo Miquimba .

Tenho mais saudades ainda do Vila, o Terror da Baixada, quando observo algumas situações do futebol atual que estão transformando o violento esporte bretão em coisa de frescos. Exemplifico.

Jogador de futebol que se preza não pode entrar em campo com gel no cabelo, sobrancelha feita, suvaco depilado, creme de proteção facial, brinco de ouro, protetor labial e outros salamaleques típicos de bichas loucas e garotas da Socila. O técnico do Vila de Cava, o popular Zezé Macumba, instruía os zagueiros, por exemplo, a parar de escovar os dentes uns três dias antes de um jogo importante. A sentença de Macumba era definitiva: Zagueiro tem que ter mau hálito pra intimidar o atacante. O negócio é chegar junto com um bafo de onça; beque tem que ter futum de carniça e ponto final. Tem que feder feito presunto desovado.

Tenho boas saudades, também, dos tempos em que jogador de futebol era conhecido pelo apelido. Estamos agora, em tempos dessa titica de futebol globalizado, sob a ditadura do nome e sobrenome. Já pensando em futura carreira no exterior, o garoto passa a ser chamado desde o infantil de Robson Marques, Wellington Souza, Krischna Santos, Wanderklei Rocha, Daniel Silva, Carlos Alberto de Oliveira Porto e o escambau.

No Vila de Cava todo mundo tinha apelido. Havia, até, o apelido do apelido, como é o caso do lateral direito Camunga. Não sei como o sujeito se chamava, mas o apelido era Camundongo - o bicho era branquelo e magricela feito um rato novo. Para virar Camunga foi um pulo.

Sei a razão de algumas alcunhas. Mão Branca era uma referência a um temível chefe do esquadrão da morte da Baixada Fluminense. Em virtude da maneira um pouco ríspida de chegar nos adversários, o zagueiro do Vila passou a ser chamado dessa maneira.

Tornado, o lateral esquerdo, não era conhecido assim em referência ao fenômeno da natureza. O cabra era na verdade os cornos do cantor Toni Tornado, incluíndo uma impressionante cabeleira black power de uns dois metros de altura.

Jorge Macaco era mesmo pretíssimo, quase azulão, enquanto Capiroto - um cracaço - era mais feio que a fome no sertão [apud Manoelzinho Motta, uma espécie de assistente técnico do time]. Abecedário, um centroavante técnico e com monumental domínio da redonda, era rigorosamente analfabeto, de não saber assinar o nome. Dos demais, não me lembro das razões para as alcunhas.

Ou melhor, sei de mais um. Elisangela, o goleiro, na verdade se chamava Valter. Ou Valdir, não lembro direito. Ao deixar o cabelo crescer uma época, ficou a cara da atriz Elisangela. Nunca mais se livrou da sacanagem, e acabou levando a coisa na esportiva.

O estrategista Seu Zezé Macumba, inclusive, gostava de escalar jogadores feios, eu diria até horrorosos, vendo aí mais uma maneira de mostrar aos adversários que berimbau não é gaita. Citava sempre o exemplo do cabeça de área Merica, que chegou a ser titular do Flamengo nos anos setenta, como o dono da melhor expressão facial do mundo para atuar na posição. Merica, diga-se, era assombroso. Macumba insistia na ideia de que Merica jogava exclusivamente por causa de seu feiúme agressivo e intimidador.

Por fim, registro que a camisa do Vila era da maior responsabilidade. Verde e preta com o escudo altaneiro na altura do coração e o número costurado. Hoje em dia o que menos se enxerga numa camisa de clube é o escudo - e tome propaganda na frente, atrás, nas mangas e onde mais houver espaço. Tem camisa oficial de muito clube de tradição que se parece mais com macacão de piloto de corridas, com cinquenta e tantos patrocinadores, incluíndo marca de leite em pó, posto de gasolina, puteiro de rico, supositório e agência funerária.

O pior de tudo isso é que o Vila de Cava já foi oló. Acabou, como aliás está praticamente extinto no Rio de Janeiro o futebol de várzea, um celeiro de craques da maior responsabilidade. Eu, que vi muito futebol comendo solto nos fins de semana em Nova Iguaçu e nos campeonatos de pelada do Aterro do Flamengo, digo, afirmo e faço fé: Tem muito Zé Ruela com pinta de mocinha fazendo sucesso e ganhando os tubos no exterior que, naquele timaço varzeano, ia ter que cortar um dobrado pra esquentar o banco, de preferência torcendo pra não entrar. E olhe lá.

Abraços.