terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

MAS QUE CALOR...


Finalmente temos um verão carioca típico. O sol racha a cúpula da Igreja da Candelária e o que tem de gente, sobretudo mulheres e frescos, dando siricotico no meio da rua por causa do calor não está no gibi. Ótimo.

Eu sou da seguinte tese: os últimos verões é que foram estranhos, com temperaturas amenas demais para o período. Esse, de fato, é um verão que honra o nome e deixa o cabra meio doido das ideias. Conheço gente que está cogitando até dar um migué de defunto anônimo, pra passar uma temporada na congelante sala de reconhecimento de corpos do Instituto Médico Legal.

Mesmo assim o carioca não pode reclamar. Podia ser pior. Tenho um amigo paulista que tirou da gaveta o escafandro do Falcon com barba para vestir o filho pequeno, no meio de tanta chuva. Enquanto isso, na nossa franquia do Senegal, temos o verão inteiro de sol e temperaturas balzaquianas: entre trinta e cinquentinha. O risco da canícula é que periga cair a qualquer hora uma daquelas pancadas de verão de fazer malandro gritar Noé, traz a arca...

Vejam o lado bom: o verão sacudiu a economia carioca. A Refrigeração Cascadura está vendendo tanto ventilador e ar condicionado que ainda acaba a estação com ações em alta na bolsa de Nova York. A fábrica das piscinas Tone, na Rua Tibagi, em Bangu, tem recebido mais peregrinos que a cidade sagrada de Meca no mês do Ramadã.

Parágrafo para esclarecer os que não são daqui: Bangu é o lugar mais quente do mundo. Com temperaturas batendo todo dia quarenta e tantos graus, dizem que até o Cabrunco se empirulitou, para ver se toma uma fresca em Marechal ou Realengo, ali pertinho.

O Mercadão de Madureira ganhou ares de alto forno da Companhia Siderúrgica Nacional . As lojas andam vendendo mais ventilador de teto que galinha de macumba. Ontem mesmo um conhecido meu, que frequenta o terreiro de Umbanda Cantinho de Pai Joaquim, pertinho do mercado, contou um troço impressionante. A história merece até um parágrafo separado.

Seguinte: um médium recebeu, durante a curimba do fim de semana, Seu Zé Pelintra. Até aí tudo em ordem; o fato é corriqueiro. Quando o cambono foi, porém, trazer as roupas de Seu Zé - terno branco, lenço de seda, chapéu panamá, sapato bicolor e outros salamaleques - o malandro mandou na lata: Não vou vestir nesse calor nem fudendo. Eu queria era virar estátua de Seu Tranca Rua, só de tanga e tridente. Dito isso, Seu Zé ameaçou fazer streaptease e ficar só de cueca. A intervenção firme da mãe de santo contornou a situação e convenceu o malandro a pegar leve.

Resumo da ópera: quando até Seu Zé Pelintra dispensa a indumentária, meus camaradas, é porque a coisa é à vera.

Mas vamos levando bem, na base de muito banho frio, já que ninguém aqui é lagoa pra refrescar bunda de pato. O negócio é pensar no calorão como homenagem aos grandes Haroldo Lobo e Nássara, cujos centenários estão sendo comemorados em 2010. É isso. A natureza conspira para louvar os maiores compositores de marchinhas de Carnaval de todos os tempos. Foram eles que fizeram, no verão de 1941, parecido com esse agora, o hino definitivo desses tempos de canícula: Allah-la ô.

Por aqui, ainda bem, quase tudo acaba em Carnaval:


Evoé!

3 comentários:

ricardo disse...

Putz...Sábado eu fui numa macumba em Rocha Miranda que a 'Sete' também reclamou do calor...

Cissa disse...

Essa é a gravação original?

Luiz Antonio Simas disse...

Cissa, é sim. A gravação do lp das escolas daquele ano.

Ricardo, a dona não erra, meu caro.

Abraços