sexta-feira, 12 de março de 2010

ALUGA-SE MOÇAS - O FILME


Eis uma tarefa impossível: Apontar qual é a maior atuação feminina da história do cinema brasileiro. Há quem vote no desempenho de Fernanda Montenegro em Central do Brasil. Outros - como este escriba - destacam Sonia Braga em A dama do lotação. Não há como negar, entretanto, que o desempenho de Gretchen no filme Aluga-se moças é um marco na história da sétima arte. Falemos dele.

O filme, a começar pelo título que subverte, com nítida inspiração nos experimentos linguísticos de Guimarães Rosa, as regras básicas de concordância na língua portuguesa, é um primor. Aluga-se moças é, de fato, provocativo e genial.

O elenco feminino é o destaque da obra. Gretchen, Rita Cadillac, Índia Amazonense, Lia Hollywood e Tânia Gomide interpretam as moças inocentes que, vítimas das injustiças  do modo de produção capitalista, acabam tendo que trabalhar em um bordel de luxo para sobreviver com o mínimo de dignidade.

Gretchen, em grande forma, faz o papel de Beth Lara, uma strip-girl que sonha em ser cantora e tem a chance de sua vida quando é aprovada em um teste fotográfico para promover a coleção de peças íntimas da loja Crazy Shirts.

A atriz demonstra, em praticamente todas as cenas, intimidade surpreendente com a câmera. A sensualidade de Beth Lara é o tempo todo pontilhada por certa melancolia que Gretchen apenas insinua, em gestos contidos e olhares de solslaio, dando ao personagem a obliquidade que a trama propõe e o diretor Deni Cavalcanti explora com segurança. 

Não é, passa longe disso, uma atuação naturalista. Gretchen usa referências do estruturalismo lacaniano, do concretismo histórico, da escola dadaísta, do surrealismo de Dali, de elementos pós-brechtianos, da estética visceral das pinturas rupestres do homem da Serra da Capivara e do pós-futebol de Carlinhos Itaberá, Darinta, Cremilson e Cafuringa, para compor uma Beth Lara marcada pelo conflito entre o desejo e a dor - poderosa metáfora da luta entre Eros e Tanatos.

O contraponto de Beth Lara é estabelecido pela personagem Marli, em atuação apenas correta de Tânia Gomide. Marli é amiga de Cláudia, personagem interpretada com um vigor talvez exagerado por Índia Amazonense, e tem a sua virgindade entregue ao galã Odair - aqui é nítido o desempenho um pouco acima do tom de Marcelo Coutinho.

As nuances da personagem Paula, melhor amiga de Beth Lara, são bem exploradas por Rita Cadillac, que consegue se desvencilhar [ e isso é uma marca das grandes divas ] da imagem consagrada de assistente de palco do comunicador Abelardo Barbosa.

Um último detalhe: Vale a pena reparar na cena em que, durante as prévias de uma suruba no bordel de luxo, aparece o homem de imprensa Álvaro Costa e Silva, o Marechal, como o garoto menor de idade que suborna o leão de chácara do lupanar para viver o sonho de comemorar o aniversário numa casa de amores urgentes. O desempenho de Marechal, que abandonou as telas e palcos ao entrar na faculdade de comunicação social, deixa a certeza de que o Brasil ganhou um grande jornalista mas perdeu um ator de mão cheia.



12 comentários:

CRAQUE DA GEMA!!! disse...

Essa série de críticas de cinema está demais!

Cesar Tartaglia disse...

Simas, o Marecha de mão cheia é um achado. Mas permita-se uma curiosidade: ele estava sóbrio? Se estava, o registro de sua - imagino - magistral atuação torna-se, tanto quanto épico, absolutamente histórico. Um documento que vai entrar para os anais da história da cinematografia tupiniquim.

Cara Estranho disse...

Saudações, LA.

Você tem uma cópia? Sabe aonde podemos encontrar?

Texto incrível mais uma vez... aguçou minha curiosidade!!

Marcelo Moutinho disse...

O erro gramatical do título do filme certamente foi uma forma de fazer, metaforicamente, uma crítica ao regramento social...

manu disse...

Simas, essa participação do Marechal não é verdadeira né? Pelo amor de Deus!

Sensacional a crítica.

Abs,
Dudu.

Anônimo disse...

Mestre Simas: em tempo. Mauro Shampoo não pode ser esquecido nesta plêiade do pós-futebol!!!

zé sergio

Juliana Medeiros disse...

Sensível interpretação, intimidade com a câmera,...
É o Rubens Ewald Filho da pornochanchada mesmo!
Só que hetero, evidentemente...
Acho que não passam o Oscar pornô, que acontece em Las Vegas, na televisão. Se um dia passarem, já sabemos quem será o comentarista.

Beijo.

Mateus C. disse...

Subversivo e provocador desde o título... Deve ser uma obra-prima.

Claudio Renato disse...

Ol´, Simas! O Marechal é um mito! Estou adorando a série das críticas de cinema, porque TODOS esses filmes eu vi no PAX, poeirinha de Caxias, cujos bilheteiros faziam vista grossa
para a nossa então idade insuficiente.

Abraço!

alberto disse...

E é pena que não tenha contado com a participação da da pilosa Lucélia. Seria a perfeição!
abraço
mussa

ricardo disse...

O nome do ator-galã Odair não seria Marcelo Moutinho....

Fábio Vanzo disse...

Nunca vi o filme, sei que é crássico, já ouvi muito falar dele, mas é engraçado uma película ficar mais conhecida pelo erro de concordância do que pelo conteúdo em si. Devia ser assim como dois outros: O Casal Osterman (The Osteman Weekend), pois ele é o único solteiro da festa, porra!, e, é claro, The Texas Chainsaw Massacre, que virou O Massacre Da Serre Elétrica. Elétrica? É uma motoserra, porra! O Leatherface corre com um gerador e/ou uma extensão atrás da galera? Ah vá vá. Beijos.