terça-feira, 6 de abril de 2010

J. CARLOS E O COLAPSO URBANO


Em 2007 lancei, em parceria com o caricaturista Cássio Loredano, o livro O Vidente Míope - J. Carlos n´O Malho. O trabalho  versa sobre a produção monumental do grande desenhista J. Carlos entre os anos de 1922 e 1930, quando o gênio do traço trabalhou na revista O Malho.

Uma dos capítulos do livro  é sobre o Rio de Janeiro retratado pela pena do artista. Diante da chuva de fazer malandro gritar Noé, traz a arca,  e do caos em que a cidade mergulhou nessa manhã de 6 de abril, acho irresistível transcrever o texto que produzi sobre a visão do Rio de J. Carlos  :

Está tudo retratado pelo talento do artista e a perspicácia do cronista; os atropelos do secretário de saúde Clementino Fraga com os mosquitos transmissores de doenças tropicais, o excesso de impostos, o descaso com a zona portuária, a péssima qualidade dos serviços públicos, o descalabro dos transportes coletivos e a elevação das tarifas dos trens da Leopoldina. O lápis do artista acusa ainda o despejo de famílias de baixa renda em nome da modernização do espaço urbano e ironiza as enchentes que azucrinam, desde sempre, o carioca.

É isso. O Rio de Janeiro da década de 20 preocupava J. Carlos em virtude dos seguintes perrengues: doenças transmitidas por mosquitos, quantidade abstrusa de impostos, abandono do porto,  qualidade ridícula dos serviços públicos, péssimo nível dos transpores coletivos, descaso com as famílias de baixa renda e enchentes que vez por outra açoitavam o povo de São Sebastião. O desenhista ainda preconizava que o automóvel seria o grande inimigo da cidade em curto espaço de tempo.

Noventa anos depois, faço minhas as preocupações do mestre. Seus desenhos do século passado são verdadeiros atestados do - até agora - fracasso urbano produzido pelo poder público e pela população da nossa aldeia.

Para fechar esse pequeno arrazoado, que tal esse trecho, curto e definitivo, de um outro carioca genial, da altura de J. Carlos :

As chuvaradas de verão, quase todos os anos, causam no nosso Rio de Janeiro, inundações desastrosas. O prefeito, que tanto se interessou pelo embelezamento da cidade, descurou completamente de solucionar esse defeito do nosso Rio.

O autor é Lima Barreto, a crônica se chama "As Enchentes" e foi escrita em 1915.


2 comentários:

Orlando Rey disse...

E tem gente achando que isso é o prenúncio de que o fim está próximo! Na realidade é o eterno retorno do mesmo!

NADJA GROSSO disse...

Lula
Incrivel porem é a realidade eu já tinha pensado no assunto e voltei a ler parte do Vidente Miope. Você e 1.000. A realidade você sabe qual é. Beijos