sábado, 19 de março de 2016

NINGUÉM FOI FUNCIONÁRIO PÚBLICO EM BARBACENA



De todas as versões sobre o processo de impeachment do presidente Fernando Collor de Melo a mais espetacular, sem dúvidas, foi apresentada pelo próprio, numa entrevista à Playboy (vejam a notícia na parte debaixo da capa): Collor descobriu, durante uma regressão hipnótica, que em outra encarnação foi o imperador D. Pedro I.

O presidente  se viu de bigodes, ao lado de D. João VI, andando de velocípede pelos salões imperiais e atropelando seu irmão mais novo, D. Miguel. Reparem na bela capa da revista de sacanagem que ilustra esse arrazoado. Está escrito com todas as letras: "Collor - Ele foi D. Pedro I na outra encarnação".

Esqueçam tudo que estudamos sobre as maracutaias do governo collorido.O processo que culminou com a saída do presidente foi  um ajuste de contas envolvendo vidas passadas e estamos resolvidos.

Impressionado com a história de Collor e D. Pedro, recorri ao google para estudar um pouco mais esse negócio de regressão. Achei coisas do arco da velha. Listo os relatos que mais me impressionaram:

- Um  lutador de vale tudo descobriu que foi uma cigana sensual, amante de um Vice Rei,  assassinada numa taberna de Sevilha, no século XVII.

- Um empresário goiano do ramo de laticínios foi Pôncio Pilatos. Descobriu, por isso, de onde vinha sua mania de lavar as mãos duzentas vezes por dia, inicialmente diagnosticada como um transtorno obsessivo compulsivo. Ficou curado.

- Uma dona de casa de Ribeirão Preto foi amiga de Joana D´Arc e também morreu queimada pelo Santo Ofício da Inquisição. Tem,  por conta disso, medo de fogueira até hoje e nunca se divertiu em festas juninas.

- Um artista plástico foi um ovo de codorna comido pelo poeta  Olavo Billac na Confeitaria Colombo, durante a Belle Époque carioca. 

- Uma atriz de teatro, aos prantos, descobriu que foi uma seringueira amazônica, derrubada para a construção da estrada de ferro Madeira - Mamoré.

- Clóvis Bornay teve a convicção, depois de uma regressão comandada por um erê de Umbanda, de que em outra vida foi  Nabucodonosor.

- Uma enfermeira de Salvador foi Luiz Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias.

- Há, pelo menos, doze relatos de brasileiros que foram faraós no Egito Antigo.

- A funkeira Mulher Abacate, numa sessão de hipnose realizada com um famoso terapeuta norteamericano, se viu na Europa, no século XIX. Era um homem barbudo, que falava alemão, escrevia o tempo todo sobre economia e filosofia e tinha um amigo chamado Frederico. Abacate não entendeu bem o processo regressivo e não faz ideia de como esse passado europeu marca a sua vida atual.

Não vou entrar no mérito desse negócio de vidas passadas, já que o restaurante que serve farofa não liga o ventilador de teto. Sou obrigado, apenas,  a constatar que nós, os brasileiros, em se tratando de outras encarnações,  somos dotados de uma megalomania espiritual impactante. Explico.

Imaginemos que no ano de 2080 alguém descubra que em outra vida foi Luiz Antonio Simas. Seria a sessão de hipnose regressiva mais enfadonha de todos os tempos, já que cumpro nesse mundo velho a clássica trajetória de um homem comum. Nasci numa família de classe média, ganhei um velotrol, bati minha primeira punheta, brinquei de pêra uva maçã salada mista, estudei, virei adulto, joguei futebol com os amigos, tomei cerveja, trabalhei, paguei contas, namorei, reclamei do imposto de renda e completei o álbum de figurinhas da Copa de 2010. Minha vida, por enquanto,  não vale uma regressão, nem a mais muquirana. 

Os casos que andei bisbilhotando, porém, são todos espetáculares. Reunimos, no Brasil, hordas de centuriões romanos, imperadores chineses, beduínos do deserto, faraós, rainhas, pajés, profetas do Velho Testamento, apóstolos, guerreiros tuaregues, cavaleiros da infantaria de Gengis Khan, astrônomos queimados pela Inquisição, papas, dançarinas  de cabarés parisienses [invariavelmente assassinadas por ciúmes] e quejandos. Conheço um sujeito que atribui seus problemas de baixa estima ao fato de ter sido o chefe do corpo de bombeiros do governo Nero, em Roma.

Não encontrei um mísero caso em que o sujeito tenha descoberto que foi funcionário de uma repartição pública em Barbacena, por exemplo.  Uma dentista carioca garantiu que em sua encarnação mais recente foi Gabriela. Que Gabriela? A personagem de Jorge Amado, amante do turco Nacib.  É, para mim, o caso mais emblemático.

Não sei não, mas tenho uma desconfiança sobre isso tudo. Será que essa rapaziada não está se recordando, na verdade, de cenas esquecidas de carnavais passados, da mais profunda infância, em que todos eramos odaliscas, soldados, sheiks árabes, havaianos, caciques, chineses, melindrosas e outros babados? Quem há de saber...

O fato é que o Collor desmoraliza qualquer terapia.

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