sábado, 1 de maio de 2010

BACALHAU - O FILME

Esqueçam o Tubarão [Jaws] de Steven Spielberg. O maior clássico praiano da história do cinema, verdadeiramente assustador, é brasileiro: Bacalhau [Bacs]. Quem não viu esse filmaço de Adriano Stuart - o mesmo diretor do sensível Kung Fu contra as bonecas - não sabe o que está perdendo.

A trama parece simples: uma pacata cidade do litoral paulista é assombrada por um monstro marinho, de proporções gigantescas, que devora os banhistas com requintes de crueldade e assusta mulheres seminuas e gostosas . Quem será?

Um oceanógrafo português descobre que se trata do Bacalhau da Guiné, a fera mais temida dos sete mares. Começa, então, a epopéia para liquidar o peixe assassino. Para atrair o monstro e amolecer seus instintos homicidas, os pescadores usam como iscas pedaços de discos de Amália Rodrigues.

A simplicidade do roteiro é aparente. Uma visão crítica mais atenta mostra que Bac´s bebe em duas fontes: A Bíblia e Os Lusíadas.  A luta entre o oceanógrafo e o bacalhau se descortina como uma metáfora do embate entre o homem e a natureza, redimensionando a tensão que aproxima e repele os instintos de Eros e Tânatos e permeia toda criação artística - feito o Leviatã das escrituras e o Gigante Adamastor do épico de Camões. 

O cinema, em Bacs, nos desafia, cumprindo a função inquietante da arte: todos nós pescamos os bacalhaus que nadam em mares turbulentos [almas oceânicamente inquietas]. Personas de um fado lusitano, somos homens, bacalhaus ou iscas de nossa própria pescaria-existência ?

Além da sofisticação do embate metafísico, o filme se destaca também pelos seus efeitos especiais. Se o próprio diretor não revelasse que o bacalhau é de mentirinha, feito em fibra de vidro, aposto que todos acreditariam na existência do monstro, apesar dos cabos de aço visíveis que movimentam o bicho. 

Há um único senão, que não chega a comprometer a veracidade da coisa e é percebido apenas pelo espectador mais atento: na calda do peixe está escrito made in Ribeirão Preto. 

O elenco cumpre bem o seu papel. Maurício do Valle, Hélio Souto e Dionisio Azevedo encontraram o tom certo entre o medo e o desejo de enfrentar o bicho. A musa Helena Ramos tem, mais uma vez, uma atuação digna de produzir calos nas mãos de cinéfilos de várias gerações. Todos sabem, porém,  que a grande estrela do filme é mesmo o Bacalhau da Guiné e não tentam brilhar mais do que o peixe. Ponto para o diretor.

Como se trata de um clássico do suspense, esse crítico não vai revelar o final. Deixo apenas a dica, com gostinho de quero mais: o fã de Amália Rodrigues acaba, depois de pescado, servido à população em um banquete monumental. Quem disse, porém, que a fera morreu? A última cena, surpreendente e de assombrosa veracidade, é de deixar a famosa sequência do assassinato no chuveiro de Psicose parecer um conto de fadas da Disney. Não percam.

Fiquem com a sensacional e apavorante imagem do encontro da primeira vítima da fera marinha:

2 comentários:

Dom Quixote (Thomaz) disse...

Realmente apavorante a história do bacalhau. Ainda mais que é a primeira que vejo cabeça de bacalhau. Tive que tirar as crianças da sala. Não sei o que impressiona mais: o bicho ou a bicha! No aguardo de outros filmes como este que dignificam a sétima arte!

Anônimo disse...

"Ao invés de tentar imitar de forma pobre por ilusionismo técnico do cinema de Cannes, filmes como o King Mong o Bacalhau poderia, através dos mecanismos próprios da paródia, denunciar esses mesmos instrumentos do ilusionismo revelando para espectador as estruturas de manipulação que se escondem por trás do aparato tecnológico e, desta forma, talvez contribuir para o enriquecimento de desenvolvimento de um espectador mais inteligente e criativo, infelizmente isso não acontece. Este tipo de paródia apenas faz com que o espectador glorifique ainda mais o cinema de Hollywood como o único, autêntico e legítimo cinema, reconhecendo a incapacidade brasileira para copiar bem. Tal tipo de paródia trabalha assim duplamente contra o cinema brasileiro. Por um lado reaviva um velho preconceito segundo o qual o filme brasileiro é ruim, por outro, autoriza conseqüentemente uma certa prática dominante do filme clássico narrativo americano, da superprodução, do filme de efeitos técnicos-como válida, legítima e autêntica, reconhecendo a eficiência de linguagem de um cinema opressor. Ao cinema brasileiro restaria apenas uma gargalhada a sua incompetência." trecho da Revista da Embrafilme de 1983"