segunda-feira, 3 de maio de 2010

A CUCUIA É LOGO ALI


As coisas andam mesmo meio esquisitas. Meu vizinho de dez anos de idade usa um potente telefone celular, tem perfil no orkut, conta no twitter, orelha furada e outros salamaleques. Me chamou outro dia, no elevador, de brother e perguntou como eu achava que ia terminar a série Lost. Indagou, por fim, se alguma menina no colégio onde  trabalho usa a novidade do momento - a pulseira do sexo. Fiquei pasmo, esperando que ele me pedisse emprestado o aparelho de barbear.

Nessa mesma onda, leio na rede que  salões de beleza estão oferecendo serviços de hidratação, cabelos e unhas para crianças a partir dos seis anos de idade - colaborando, ainda que involuntariamente, com uma erotização precoce que faz a festa dos pedófilos de plantão. Vejam, por exemplo, a notícia abaixo, que recortei do G1, sobre salões de beleza de São Paulo. O negócio é alarmante:  

A vaidade infantil está tão em alta que até salões famosos, especializados em adultos, abriram espaço para clientes mais novos. Em São Paulo, o Jacques Janine implantou o ''Beauty for Teen'', para as crianças comemorarem seus aniversários em grupos de, no máximo, 22 pessoas. No pacote, estão incluídos serviços de lavagem, escola, manicure e enfeites para cabelos como dread (espécies de rolos) e strass (brilhantes). A aniversariante ainda recebe pedicure, massagem relaxante e banho com pétalas de rosas, leite e ervas. O Spalla Hair, também na capital paulista, oferece o ''Dia Teen'', para adolescentes de 10 a 13 anos

Danou-se! Beauty for teen e Dia teen? Canta pra subir. Vivemos, de fato, os tempos da delicadeza perdida. Estamos na curva do beleléu e a cucuia é logo ali.

Acho que fui criança em outra dimensão. Meu primeiro telefone, por exemplo, era feito com dois potes de leite condensado furados, ligados por um barbante vagabundo. Esticavamos o barbante, cada um ficava com seu danonefone em um canto do quintal e a conversa via satélite rolava solta.

A pulseira do sexo dos meus tempos de moleque era mesmo a inocente - e docemente sacana - brincadeira de pêra, uva, maçã e salada mista. Pêra, um aperto de mão; uva, um abraço; maçã, beijo no rosto; salada mista, um beijo rápido, rasteiro e inesquecível, na boca. Com sorte e coragem conseguiamos convidar a menina para o sorvete dançante do fim de semana.

O simples beijinho na boca, quando acontecia de ser numa pequena mais assanhadinha, virava um evento e rendia quinze dias de cinco contra um. Valia até a trapaça de combinar com o amigo que comandava a brincadeira para que, na hora da menina mais jeitosa, um sinal qualquer indicasse que salada mista era a  boa pedida. 

Boneca, pião, rema rema remador, pique bandeira, carniça, bento que bento é o frade, lenço atrás, passa anel, passaraio... outros tempos, bem  diferentes desses dias de pá virada, virtuais e desvirtuados.

Tudo isso me lembra, com um certo gosto de saudade dolorida e boa, alguns  sambas sobre o universo infantil. Um exemplo, para mim o melhor, é o  hino de 1978 da Imperatriz Leopoldinense - Vamos brincar de ser criança [Zé Catimba, Guga, Aranha, Sereno e Tuninho]. Uma espécie de crônica da infância anterior à internet: 


Abraços


14 comentários:

Myrella Andrade disse...

O bom de te ler é que,eu consigo te ouvir "falando" tudo isso.
Sou fã;
beeijos!

Anônimo disse...

"Beauty for teen" ?!?!?

Como dizia P T Barnum: "Nasce um otário por minuto"

Anônimo disse...

Grande Simas, concordo com tudo o que você disse.
Inclusive nem precisa ir muito longe para achar esses "salões". Basta ir ao banheiro feminino da escola na hora do intervalo para presenciar o momento barbie. A maior parte das meninas traz maquiagem de casa e fica retocando a pintura. Uma verdadeira cena de horror. Acho que nasci na época errada.

Ricardo Riso disse...

Excelente texto! Trabalho em uma escola e ficou horrorizado com determinadas situações nas quais o sexo é tratado com naturalidade por adolescentes de 10, 11 anos de idade.
Tentando não ser careta ou conservador ou qualquer outra forma abominável de pensamento reacionário, mas há algo de muito errado na nossa sociedade.
Abraços!

AOS QUARENTA A MIL disse...

Pefeito Simas, perfeito!!!
Dá dó de ver o que está acontecendo, ontem quando vi um novo pedófilo sendo preso por que comia três meninas de treze e quatorze anos em troca de drogas, senti um misto de ódio dos pais e pena das "meninas" ao mesmo tempo que nem sei definir. Porra treze anos se drogando e se prostituindo, treze anos Simas !! Tem que ser menina ainda, mal acabou de menstruar, meu Deus!

Guga (mas não o compositor do samba de 1978!) disse...

Simas,
O melhor samba do Brasil que fala da infância é de Wilson das Neves e Paulo Cesar Pinheiro, "O tempo em que eu era criança". Emocionante. Fala de pião, salada mista, até do cinco contra um!

Parabéns pelo texto e pelo blog!

Luiz Antonio Simas disse...

GUGA, eu conheço o samba do das Neves e do Paulinho Pinheiro. Acontece que minha praia, em termos de samba, é mesmo a do maior dos gêneros - o samba de enredo. VAleu o elogio. Abração!

RICARDO e MONICA, esse é o drama.O bicho tá pegando mesmo. É pena. Abraço.

Valeu, MYRELLA. Beijoca.

ANÔNIMOS, quem são vocês? Assinem os comentários, ok. Ambos são pertinentes. Abraço.

maray disse...

quando eu tinha uns 12 anos também havia esse lance de se maquiar no banheiro, um bolo de meninas. E no lugar da brincadeira das frutas, a brincadeira da garrafa. Só que a gente não pagava nada por isso, usava crayon pra fingir de lápis de olho e baton (quanta alergia, meu deus) e o principal mico que tínhamos que pagar na garrafa era o beijo na boca tipo selinho. Acho que a coisa agora foi capitalizada e é estimulada pela propaganda, mas não é muito diferente. Diferente é que o povo do mercado está criando clientes desde muito cedo. E clientes pra tudo.
Voltar pra trás não dá, o jeito é buscar caminhos de desenvolvimento dessa meninada mais criativos do que esses. Neurônio não usado é neurônio morto.

Elika Takimoto disse...

Proponho uma reflexão. Leia as frases abaixo, por favor:

1. “A nossa juventude adora o luxo, é mal-educada, despreza a
autoridade e não tem o menor respeito pelos mais velhos. Os nossos
filhos hoje são verdadeiros tiranos. Eles não se levantam quando
uma pessoa idosa entra, respondem aos pais, são simplesmente maus”.

2. “Não tenho mais nenhuma esperança no futuro do nosso país se a
juventude de hoje tomar o poder amanhã, porque esta juventude é
insuportável, desenfreada, simplesmente horrível”.

3. “O nosso mundo atingiu o seu ponto crítico. Os filhos não ouvem
mais os pais. O fim do mundo não pode estar muito longe”.

4. “Esta juventude está estragada até ao fundo do coração. Os jovens
são maus e preguiçosos. Eles nunca serão como a juventude de
antigamente…A juventude de hoje não será capaz de manter a nossa
cultura”.

Impõe-se, agora, um esclarecimento sobre os autores das frases. A primeira frase é de Sócrates (470-399 a.C.), a segunda de Hesíodo (720 a.C.), a terceira de um sacerdote do ano 2000 a.C., a quarta encontrou-se escrita num vaso de argila descoberto nas ruínas da Babilónia tendo mais de 4000 anos.

Simas, acompanho de perto o crescimento de meus filhos nessa nova era tecnológica. São jovens saudáveis, felizes, inteligentes e questionadores. O mundo "virtual" é tão real quanto qualquer jogo de tabuleiro e as vzs, sim, mais interessante pelos recursos que oferece.

Pedofilia? Sempre existiu desde que o Homem virou homem! Não é efeito DESSA infância e juventude. Não é fruto desse incentivo esquizofrênico a vaidade das meninas teens! E quanto a este último, isso ainda é puntual. A maioria ainda tem se salvado. Mães e pais debilóides sempre existiram e o número cresceu PROPORCIONALMENTE ao crescimento da população.

Sou a Elika, Simas, aquela que levanta a bandeira de que o fim do mundo certamente está longe, pois ainda hoje, nossas crianças e nossos adolescentes se encantam quando veem um arco-íris.

Abraços e desculpe a invasão.

Caio Prins disse...

Simas, eu com meus pequenos 20 anos não consigo compreender essa "tendência". Essas crianças no futuro nutrirão que nostalgia? Tantarão buscar uma infância que nunca ocorreu. Serão alguns "Michael Jacksons". Divirto-me com minha sapeca e cândidade infância ao lado de Maurício de Souza, Chavez, pião de madeira e de brincadeiras como pêra, uva, maçã e salada mista. Sua resenha está ótima.

Ps: Você ainda me deve meu Danete.

Denise Guerra disse...

Oi Simas, brinquei de tudo isso que vc falou e muito mais. Subir em árvores é que as crianças de hoje não fazem e nem veem alguém fazendo. É uma pena que a infância esteja sendo tão roubada a troco de coisas tão ruins, descartáveis e pobres de espírito. A propósito vc sabe o porque do "ARCO DA VELHA"? Seu blog é sempre o máximo, obrigada! Bjs!

Evandro Barbosa disse...

Simas,
Sempre que leio seus textos faço questão de mandar meus amigos fazerem o mesmo. Não é de hoje que se fala da erotização das crianças. E tem Mãe e Pai que aprovam! Depois não adianta reclamar... Um abração,
Evandro Luiz

Roseane disse...

Que samba lindo, valeu, Simas.

FabioJustino disse...

Perfeito cara, conheci o blog hoje e de cara leio um relato desse tipo. Alto nível, motivo para reflexão e gera uma ótima discussão,

Repito: Perfeito,

Magia Neles!
Fábio Justino

www.MAGIARUBRONEGRA.com.br