sexta-feira, 2 de agosto de 2013

A METAFÍSICA DO FRANGO



Albert Camus disse certa vez que nada o ensinou mais na vida do que a experiência de ter sido goleiro. Arrematou a reflexão com célebre sentença: o que eu finalmente mais sei sobre a moral e as obrigações do homem, devo ao futebol. Vladimir Nabokov, por sua vez,  definiu o arqueiro como a águia solitária, o homem misterioso, o último defensor.

O grande Gilmar dos Santos Neves, goleiro do escrete canarinho campeão das copas do mundo de 1958 e 1962, considerava que um dos atributos para a formação de um bom goleiro era tomar pelo menos um frango inacreditável, de deixar as penosas soltas no ar por um bom tempo.

Marcos Carneiro de Mendonça, o fitinha roxa, que defendeu o Fluminense e foi o primeiro arqueiro da seleção brasileira - campeão da Copa Roca de 1914 e dos Sul-Americanos de 1919 e 1922 - se gabou durante anos de nunca ter falhado. Um dia, feito filósofo cartesiano na grande área do improvável, experimentou o frango.

Marcos acreditava numa tal de teoria da cobertura dos ângulos, receita infalível para evitar gols. Com toda a teoria a lhe garantir a segurança debaixo da baliza, foi traído pela soberba em um jogo entre o Fluminense e o  Vila Isabel. Em certa altura da peleja, que ia morna, o zagueiro Chico Netto atrasou a bola; o keeper se abaixou desatento e deixou a criança passar por entre os dedos. Foi o gol que deu a vitória ao Vila e impediu o tricolor de ganhar o título de 1918 invicto.

Waldir Peres tomou um frango de tragédia grega na Copa do Mundo de 1982, na vitória do Brasil contra a União Soviética. Um atacante soviético arriscou um chute da intermediária. Peteleco inofensivo. Waldir preparou-se para a defesa com a confiança de um jovem operador do mercado financeiro. Se esqueceu apenas da bola, que passou caprichosa, feito a mulher faceira e inatingível, ao lado do seu corpo. Mais do que um frango, uma granja inteira.

E o que dizer de Moacir Barbosa, que morreu como o homem mais injustiçado ddo Brasil? Barbosa, o gigante, está na  história como o  frangueiro do frango que nem sabemos se frango foi. Condenado à pena de vida, viu o mundo ignorar suas defesas milagrosas e lembrar apenas do gol de duzentos mil silêncios.

Pois eu digo que o frango é  a redenção do futebol e a metáfora mais poderosa das coisas da vida. É a antítese do eu sou foda, que tantos boleiros andam a vociferar na comemoração de um gol. É a mais acabada demonstração de que o homem pode falhar sob o peso desgastante da batalha.

O frango é  a prova de que debaixo das traves não está a máquina, mas o homem humano, aquele da travessia, que não sabe bem se os deuses e os diabos ouviram seu chamado solitário na noite grande. O sertão, lugar de todos os desafios, é a  pequena área.

É ele - tragédia do goleiro - a mais bela demonstração estética da fraqueza humana. Certos frangaços deveriam estar expostos em fotos, vídeos e pinturas; nos museus, praças e ruas, a nos lembrar: somos falíveis, camaradas. Pedagogia de bola e gol.

Memento mori - lembra-te que és mortal. A saudação entre os trapistas cristãos deveria ser o mote maior do grande goleiro. Todo Marcos Carneiro de Mendonça, monumento ao homem infalível, deveria ter ao seu lado um zagueiro que, a cada defesa, cochicharia:

- Memento mori. És apenas um mortal. Vem aí o próximo chute, e outro, e outro...

É por isso que, dado a engolir uns gols inacreditáveis de quando em vez, execro os que ficam gritando que são fodas, derramando pelos gramados suas felicidades virtuais, e elevo essa prece pagã a todos os goleiros da história do futebol que tenham, entre prodígios debaixo das traves, tomado seus frangos.

É redentor que cada homem, ao menos uma vez na vida, tenha a plena consciência de sua humanidade e grite aos maracanãs lotados de paixão e  mundo:

- Eu sou um fodido!

São eles que entrarão no reino dos céus, onde certamente haverá grama verde, traves, chuteiras, luvas e bolas.
 

Um comentário:

Anônimo disse...

Frango, logo existo.

Belo texto.
Abraço