quinta-feira, 10 de março de 2016

GARANTIDO, O BOI COMUNISTA


O  Dr. Sigmund Freud - que eu, quando moleque, achava que se chamava Sujismundo Freud - ficaria impressionadíssimo com o sonho que tive na noite passada. Antes de relatar o troço, uma pequena explicação.

Trabalhei esta semana, com as minhas turmas do ensino médio, a Revolução Russa. É impactante constatar como os bolcheviques estão, para a garotada que nasceu após o desmanche da União Soviética, mais fora de moda que sapato cavalo de aço, Hepatovis B 12, penteado Príncipe Valente, atari, perucas Lady e óculos Emerson Fittipaldi.

Imaginem o que é ouvir, como este escriba ouviu diante de trinta testemunhas, que os líderes da revolução foram Lennon e Stalin [escutei isso e imediatamente matutei sobre a tremenda dupla de ataque que formariam Lenin e McCartney].

Gosto da aula sobre o tema: explico a formação dos soviets, esculhambo os mencheviques, descasco o Zé Stalin, racho a cuca do Trotsky e descrevo com requintes de crueldade o fuzilamento dos Romanov e as artimanhas de Rasputin. As meninas, especialmente, ficam chocadas ao saber que a princesinha Anastacia, que virou personagem de desenho animado fofo, tomou bala dos revolucionários e foi comer o capim pela raiz com a família inteira. 

É nesse contexto que entra, quero crer, o meu sonho. Descrevo abaixo, com o máximo de detalhes, o absurdo onírico:

INÍCIO - Estou no meio da floresta amazônica, no bumbódromo de Parintins, para assistir a disputa entre os bois Garantido e Caprichoso. Seguro uma bandeira vermelha - cor do Garantido - e ao meu lado, de cocar e o escambau, está um índio com a cara da estátua do Arariboia; aquela que fica na frente da estação das barcas de Niterói. 

SEGUNDO ATO - Revelo que dei aulas em um colégio em Niterói e pergunto ao suposto Arariboia se ele é torcedor do Boi Garantido. O índio me olha com cara de puto dentro da tanga e diz que não vai responder porque estátua não fala.

TERCEIRO ATO: Começa a festa. Entra o Boi Garantido e o bumbódromo explode. Caciques, pajés, curumins e  cunhatãs desfilam entre carros gigantes com serpentes aladas, curupiras e botos. Fafá de Belém invade a arena, com os peitos de fora, e começa a cantar a toada do Garantido:

A cor do meu batuque
Tem o toque e tem
O som da minha voz
Vermelho, vermelhaço
Vermelhusco, vermelhante
Vermelhão
O velho comunista se aliançou
Ao rubro do rubor do meu amor
O brilho do meu canto tem o tom
E a expressão da minha cor
"Vermelho"
Meu coração é vermelho
Hei! Hei!
De vermelho vive o coração
Ê, ô, ê, ô...


FINAL: Na hora em que Fafá canta o verso O velho comunista se aliançou entra no bumbódromo, de terno, gravata, cocar de caboclo de umbanda, guias no pescoço e fumando charuto,  Karl Marx. O público delira. Marx comanda a coreografia da platéia, balança as mãos no trecho Meu coração é vermelho e pula na hora do Hei! Hei!  Até a estátua do Arariboia embarca na onda vermelha, remexe os quadris e rebola com as mãozinhas para a frente. Tenho a impressão de que vejo Lênin fantasiado de bicho folharal dançando com Tia Suely, a minha primeira professora. Eu acordo exatamente no momento em que Marx, suado, termina de comandar a coreografia da torcida e lança o cocar para o público.


Depois dessa só espero que Morfeu me conceda, na próxima semana, o benefício de não me lembrar dos sonhos. É que o tema das aulas será o Salazarismo. Já imaginaram o risco que é sonhar com o Dr. Salazar dançando o vira, com direito a saltinhos,  ao lado de Nossa Senhora de Fátima e do Cristiano Ronaldo?


Fiquem abaixo com a nova versão da Internacional Comunista:



Abraços

Nenhum comentário: