sábado, 5 de junho de 2010

A GUERRA QUE NÃO HOUVE E A FLOR DO CAMBUCÁ


Um aluno me perguntou ontem se acho possível a ocorrência de uma carnificina nuclear que mande a humanidade pras cucuias. Respondi que não quero pensar nisso pelo menos até 2032, ano em que vou começara a receber os caraminguás de uma previdência privada que fiz dia desses.

Ao trocar  figurinhas com o garoto me lembrei de uma história que meu avô contava sobre a crise dos mísseis, episódio dos mais tensos da Guerra Fria, que colocou o mundo diante do risco concreto de um siricotico nuclear.

Resumo rápido do babado: Em resposta a instalação de misseis nucleares dos Estados Unidos na Turquia, em 1961, os comunas soviéticos instalaram mísseis em Cuba no ano seguinte. Estava preparado, pois, o sarapatel atômico que poderia mandar a humanidade pro beleléu em grande estilo.

O presidente dos EUA, John Kennedy, comunicou ao líder soviético, o camarada Nikita Kruschev, que a instalação de mísseis comunistas a 150 km da Disneylândia era intolerável. O Tio Sam prometeu responder a afronta ao Mickey Mouse com a utilização de armas nucleares.

Pois quero dizer aos leitores que a crise dos mísseis gerou grande confusão não só no Mar do Caribe, evidentemente, mas também no Lins de Vasconcelos. Explico.

Os jornais brasileiros publicaram com tremendo estardalhaço notícias que mais pareciam epitáfios prévios da condição humana. O Manoelzinho Mota, metido a entender de tudo sobre geopolítica internacional, botou mais algodão nas narinas do defunto [a expressão me parece mais apropriada do que a tradicional botou mais lenha na fogueira] com uma informação aterrorizante:

- A ONU anunciou agorinha mesmo que a vaca já está mugindo no brejo - vai começar uma guerra nuclear no Caribe. O Conselho de Segurança disse que um dos primeiros locais atingidos no mundo será o Grande Meier, por conta do vento sudoeste que lançará os bacilos nucleares pra cá em menos de quarenta minutos. Parece que a coisa não passa de hoje...

Deu-se o furdunço. Dona Saquarema Marta danou de cantar de forma histérica o hino nacional, o Nilton colocou a camisa do Flamengo do tricampeonato de 53-54-55 [ Morro com ela! Morro com ela! ] , Seu Hilário do armazém anunciou aos prantos que todos os penduras estavam automaticamente zerados, João Mendigo decidiu que finalmente iria tomar banho para morrer cheiroso e a  Dona Creusa recebeu o caboclo Urubatão da Cachoeira, que logo depois deu passagem ao Seu Tranca Rua das Almas.

Com grande poder de liderança, Seu Tranca Rua chegou pisando firme, deu esporro em quem chorava,  nomeou uma comissão de notáveis e os intruiu a fazer uma vaquinha para comprar cimento e tijolo, com o objetivo de iniciar em tempo fulminante a construção de abrigos nucleares a prova de bala na Rua Cabuçu.

Já o Manoelzinho Mota, divulgador do alarme das Nações Unidas que condenava de forma irreversível o Lins de Vasconcelos a virar poeira nuclear, sumiu no meio do pega pra capar, argumentando que preferia a solidão como única companheira do crepúsculo da vida.

Quem desapareceu no fuzuê também foi a Walquíria, sobrinha de Dona Saquarema, flor de menina, pureza em pessoa, alma de Poliana moça,  líder do encontro de jovens com Cristo, comparada certa feita pelo poeta e compositor Tião Miquimba a uma rara mistura entre a flor do cambucá que ainda não desabrochou e a linda rosa juvenil.

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O mundo não acabou, as superpotências chegaram a um acordo para a retirada dos mísseis e o dia amanheceu no Lins de Vasconcelos quente pra diabo, já prenunciando, naquele mês de outubro, um verão arretado que transformaria em breve o subúrbio carioca numa fornalha de fazer suar o capeta. 

Da histeria coletiva que transformou o bairro num forrobodó da maçada, na  famosa e até hoje relembrada noite do fim do mundo, restou como herança uma pequena mureta de cimento onde se lia a inscrição abrigo nuclear Exu Tanca Rua das Almas.

A doce Walquíria é que nunca mais foi a mesma. Na tarde seguinte ao confronto nuclear que não ocorreu, aproximou-se do Manoelzinho Mota e, no meio de um bando de gente, tascou um sopapo de responsa, estalado, cheio de estilo, na fuça do malandro. Arrematou de bate-pronto:

- Você me garantiu que o mundo ia acabar mesmo, seu canalha.

E foi embora com o meneio da  faceira do Ary Barroso, a nossa linda rosa juvenil, com um sorriso nos lábios e a ginga diferente, feito a  flor do cambucá desabrochada. 



6 comentários:

Márcio Giorgi disse...

Genial como sempre. Estou rindo até agora.

Abraço de seu leitor do Piauí.

NADJA GROSSO disse...

Maravilha. Para começar meu dia só você me fazendo sorrir assim, sorte que estou na minha sala e Paula logo diz "esta lendo o blogger do Lula". Se fosse outra diria esta maluca rindo sozinha atoa.Saudades

leo boechat disse...

Um aproveitador, esse Manoelzinho.
Qual o grau de parentesco dele com a D. Saquarema Marta? (desconfio que compartilham uma ‘rede social’)

Luiz Antonio Simas disse...

BOECHAT, dizem as línguas ferinas que o Motta chegou junto na Dona Saquarema, fungando no cangote. Essa de rede social, realmente, eu desconheço. Perguntarei aos entendidos no balacobaco. Hehe. Abraço!

NADJA, beijoca!! Qualquer hora dessas vou almoçar no Baixo Gago e te aviso.

Valeu, MARCIO. Aquele abraço pra rapaziada do Piauí, a boa terra do Capote.

Mariane disse...

Saudade do Baixo Gago com a tia Nadja! Hmmmmm...
Beijo, querido, saudade de vcs!

Marcos Hilton disse...

Texto digno de Nelson Rodrigues. Simplesmente genial.