quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A FESTA DA SENHORA DA PENHA

Em breve, no mês de outubro, comemora-se no Rio de Janeiro a festa de Nossa Senhora da Penha. Até quando, confesso, não sei. Já recebi informações de que algumas igrejas evangélicas se organizam para fazer sistemática propaganda contra a festança. As mesmas igrejas andam distribuindo, no Pará, panfletos contra o Círio de Nazaré.

É sobre a ameaçada  festa da Penha, portanto, que quero falar.

Tudo começou no século XVII, nos arrabaldes da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Um português, Baltazar de Abreu Cardoso, saiu para caçar em suas terras. Subitamente apareceu, traiçoeira , uma cobra gigantesca. Apavorado, sentindo o bafo da indesejada das gentes [apud o Seu Manu Bandeira], o portuga apelou aos céus: - Valei-me, minha Nossa Senhora da Penha!

Feito o apelo, apareceu um lagarto que botou a peçonhenta para correr. Baltazar de Abreu Cardoso, comovido, ergueu uma ermida no local do milagre. Prometeu, também, fazer anualmente uma festa para relembrar o fato. Assim conta o povo. Como não costumo ir contra a força da rapaziada e sou menos um adepto de crenças do que de ritos, ateu cansado de presenciar milagres, conto a história. Começou aí uma das maiores tradições cariocas, a festa da Penha.

Feita a devida referência ao sagrado constato que o milagre maior não foi o da santa. Foi o do povo carioca, que tomou para si a festa e a transformou, no início da República, numa espécie de folia pré-carnavalesca e espaço de exercício da cidadania informal. Aos fatos.

A República das oligarquias não gostava do povo e criminalizava a cultura popular. A escravidão fora abolida em 1888. Os homens do poder poderiam, perfeitamente, ter pensado na adequação do ex-escravo ao mercado formal de trabalho e aos meandros formais da cidadania. Coisa nenhuma. Optou-se apenas pela vinda do imigrante europeu, em uma  tentativa sistemática de promover uma espécie de branqueamento racial que colocasse o país na trilha da civilização.

A tara desse pessoal  era modernizar e higienizar o Rio de Janeiro, adotando Paris, a capital francesa, como modelo de conduta e estruturação urbana. E tome de derrubar cortiços e colocar a polícia para descer o cacete em pretos e pobres. Nesse clima, as manifestações populares - o samba, a capoeira e a macumba, por exemplo - eram duramente reprimidas, vistas como símbolos do atraso e da barbárie.

Mas o povo, meus amigos, deu o nó na caninana. A rapaziada virou dona da festa e dela fez seu pertencimento. Os capoeiras cortaram o mato nas rodas de volta ao mundo, as baianas prepararam a comida do santo e os bambas mostraram os sambas que tinham acabado de compor. A festa se transformou no maior evento popular do Rio de Janeiro depois do carnaval.

Os donos do poder fizeram de tudo para impedir o furdunço. Em 1904, 1907 e 1912, a prefeitura proibiu rodas de samba nas proximidades da Penha. A rapaziada foi lá, saiu na porrada e fez. Havia ordem de prisão para praticantes da capoeira. O berimbau puxou o toque de São Bento Grande  e o povo gingou. A baiana temperou o acarajé, a cerveja gelou e o Rio de Janeiro, pátria de Lima Barreto, mostrou que o espaço da civilização é a rua.

Ao ler um belo texto sobre a festa (do livro A Subversão pelo riso , de Rachel Soihet ) deparei-me com uma notícia publicada pelo Jornal do Brasil em 1904: Um violonista foi preso e espancado pela polícia por insistir em cantar sambas nas escadarias da igreja. Tenho desde então a certeza de que no ano seguinte, e no outro ano também, esse violonista voltou ao monte da Penha e orou em forma de batuque aos pés da ermida sagrada.

Aos capoeiristas, malandros, sambistas, macumbeiros, baianas, floristas, carroceiros, condutores de bonde, putas, jogadores, brancos, negros , mulatos, enfim, ao povo festeiro da Penha, acendo minha vela de sete dias (para durar!) no altar das brasilidades. A Virgem, tenho convicção, aprova o gesto desse seu modesto devoto. Ela sabe, mais do que ninguém, que maiores são os milagres do povo. E se a santinha se  esquecer disso, Exu, o compadre, vai lá, canta um samba, faz a festa e, respeitosamente, avisa.

Que a Senhora da Penha nos livre dos novos bichos de peçonha - os que querem melar a festa - e proteja a todos nós, homens comuns do Brasil.

Saravá!

4 comentários:

NADJA GROSSO disse...

Lula nós moravamos na Rua Comandante Vergueiro da Cruz, 51 sobrado Olaria, no terreo morava uma familia tambémNordestina Sr. Gastão ele era caminhoneiro pois bem todos os anos escolhiamos um fim de semana iamos de caminhão nossa familia toda e a dele,ficavamos acampadosnas pedras era muito bom... Hoje trabalho lá bem perto nos ultimos anos a igreja e fechada pois os homens não querem que subam só quando eles autorizam já pensou? Saudades demeus 10 anos.

lucidreira disse...

A intolerância religiosa e popular, está muito aquém dos povos que jinga, bate tambores, fazem seus quitutes e fazem a roda de samba ferver neste país mestiço e moleque.
Abraço

Anônimo disse...

salve, professor,

o que é fantástico no nosso povo são as estratégias de sobrevivência de toda ordem. na música, dança, luta,religiosidade e o escambau.
eita, povo maravilhoso, meu caro.

carlos-fort-ce

Szegeri disse...

A nossa resistência, Bàbá, é preciosa, forte e necessária. Mas cada dia mais me convenço de que falta às vezes ir lá, quebrar o pau, sair na porrada e fazer na marra, queiram "eles" ou não. Palavras já não bastam.
Proponho um samba e um baticum na Penha qualquer domingo de outubro próximo. Podemos aproveitar o dia 10, que estarei por aí de qualquer jeito.