terça-feira, 14 de abril de 2015

O MAIOR CLÁSSICO DA AMÉRICA LATINA

Nos tempos  em que Collor de Melo foi presidente do Brasil, no inicio da década de 1990, eu era um esforçado e incompetente aluno da Aliança Francesa, incapaz de exercitar o biquinho necessário para falar a língua de Napoleão Bonaparte, da Madame Pompadour, do queijo Roquefort e do Gerard, meu professor francês que fedia bem mais que o queijo. Minha turma contava com a presença de uma argentina, Beatriz,  que era excelente aluna. Nunca mais vi a moça depois que me escafedi da Aliança.

Com ela, a argentininha, fiz uma aposta inusitada: ganharía um jantar quem tivesse o presidente da República mais estrambólico. Eu me sentia um vitorioso evidente, já que é difícil pensar em alguém capaz de superar Collor nesse quesito. Ela  apostava todas as fichas no mandatário argentino Carlos Menem, o Kid Costeleta. O embate, tenho que admitir,  foi marcado pelo equilíbrio entre os oponentes.

Do lado de cá da fronteira Collor de Mello estava com a macaca. Andava de jet-sky, rompia a barreira do som duas vezes por semana pilotando aviões de caça, dirigia Ferraris a 250 quilômetros por hora, jogava futebol com a seleção brasileira, se metia em safaris na Amazônia, mergulhava de escafandro em Fernando de Noronha e dava entrevistas coletivas durante corridas matinais.

Não satisfeito com as fanfarronices mencionadas no parágrafo acima, o intrépido presidente dançava com índios do Xingu e lutava karatê com câmeras de televisão. Ainda promovia toda semana a cerimônia de subida da rampa do Planalto - um hábito criado nos tempos de JK e abandonado desde que no primeiro governo militar uma rapaziada ameaçara atacar o Marechal Castelo Branco com uma chuva de hortifrutigranjeiros.


O presidente, ao lado da primeira dama Rosane Collor - irmã do famoso Joãozinho Malta, mais conhecido como Búfalo Malta, um sujeito com cento e tantos quilos que se envolvia semanalmente em tiroteios e cenas de pugilato - inovou ao convidar personalidades de diversas áreas para participar da subida da rampa. Quero crer que isso deu início a uma espécie de maldição. Quem subiu a rampa com Collor morreu algum tempo depois.

A lista dos que subiram a rampa com o casal Collor de Mello e foram comer o capim pela raiz inclui Zacarias, Mussum, Ayrton Senna, os cantores sertanejos Leandro e João Paulo e o apresentador de televisão Edson Bolinha Cury. 

É difícil escolher o momento mais constrangedor da gestão Collor. Suponho que tenha sido o dia em que o presidente chegou ao Palácio do Planalto ao lado de duplas sertanejas, índios e atores infantis, enquanto a banda marcial dos Dragões da Independência tocava, durante o hasteamento da bandeira nacional, a canção Pense em mim. A primeira dama, uma espécie de Maria Padilha do sertão, cantava emocionada o clássico daqueles anos, ideal mesmo para substituir o hino nacional em cerimônias oficiais: Invés de você viver pensando nele / Invés de você viver chorando por ele...

Enquanto eu contava vantagem sobre o ridículo que caracterizava Collor, minha amiga propagava os feitos menemistas. O argentino pintou as costeletas de acaju, jogou basquete com uma faixa na cabeça [ele mede um metro e meio e ficaria melhor como goleiro de futebol de botão] , andou em carrinhos de bate-bate com menores carentes em parques de diversões, tentou seduzir a apresentadora Xuxa na Casa Rosada e levou uma poodle como acompanhante numa cerimônia oficial. Participou também de um programa de televisão em que desceu de escorrega numa piscina de piche e, em seguida, mergulhou num barril cheio de penas de galinha e cacarejou balançando os braços para o  público.


Menem chegou a dar uma histórica entrevista ao apresentador brasileiro Gugu Liberato, na qual aprendeu os passos da "dança do passarinho". Collor também compareceu ao Show do Gugu e cantou Galopeira com Donizet, um astro juvenil da música sertaneja que se apresentava fantasiado de caubói. O rapaz dava um agudo que durava cinco minutos:galopeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeira... Collor tentou acompanhá-lo e quase terminou num balão de oxigênio.

Não houve vencedor na aposta que fizemos. Era impossível escolher o pascácio-mor. Até mesmo em termos de rapinagem Collor e Menem empataram. Ambos os governos começaram nas colunas políticas dos jornais, passaram pelos cadernos de fofoca e terminaram nas páginas policiais.


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