sexta-feira, 12 de junho de 2015

OGUM, O SENHOR DE TÉCNICAS E ARTES


Dentre os orixás africanos mais populares no Brasil e em Cuba, países em que o conhecimento de Ifá se estabeleceu com significativa força, está certamente Ogum. Creio também que Ogum é, por incrível que pareça, um orixá mal compreendido do lado de cá do Atlântico.

Ogum ocupa, na mitologia dos iorubás, a função do herói civilizador e senhor das tecnologias. Foi ele, por exemplo, que ensinou o segredo do ferro aos demais orixás e mostrou a Oxaguiã como fazer a enxada, a foice, a pá, o enxadão, o ancinho, o rastelo e o arado. Desta maneira permitiu que o cultivo em larga escala do inhame salvasse da fome o povo de Ejigbô. Em agradecimento ao ferreiro, Oxaguiã passou a usar em seu axó funfun [a roupa imaculadamente branca da corte de Obatalá] um laço azul - a cor de Ogum.

Ogum também ensinou aos orixás como moldar na forja os adornos mais bonitos e os utensílios que enfeitam as danças dos deuses entre os homens. Desprovido de ambições materiais, recusou a coroa e entregou toda a riqueza que acumulara a uma simples vendedora de acaçá que lhe pedira esmola.

Ogum é irmão dileto de Exu. Recusou, em um dos poemas do Ifá, oferendas suntuosas. Mandou que os presentes fossem entregues a Exu e disse: quem agrada e cuida do meu irmão é aquele que verdadeiramente me agrada. Ao burburinho das cortes, preferiu a solidão das matas e das grandes  caçadas ao lado de Odé. Aos trajes suntuosos, preferiu a simplicidade da roupa feita com as franjas das folhas do dendezeiro.

Ogum virou general para acabar com as guerras. Em um mito de extrema beleza, Ajagunã brigava sem parar  e não atendia aos apelos de nenhum orixá. Ogum se aproximou de Ajagunã e disse: Babá, me entregue as suas armas e o seu escudo; eu faço a guerra para que o senhor descanse. Ajagunã entregou os utensílios de batalha a Ogum - que prometeu jamais usá-los em um conflito desnecessário.

O mito de Ogum mais difundido no Brasil, entretanto, é outro. Me refiro ao episódio em que ele volta, após uma longa temporada de caça e guerra, ao povoado de Irê. Ogum chega a Irê no dia dedicado, segundo a tradição, ao silêncio absoluto. Em virtude desse dia do silêncio, Ogum não foi saudado pela população da forma como esperava. Enfurecido, se considerando injustamente desprestigiado, pegou sua espada, destruiu as casas, ruas, praças e mercados, massacrou todo o povo e tomou banho com o sangue dos que acabara de matar - amigos, inimigos, familiares e desconhecidos.

Pouco tempo depois, um único sobrevivente reverenciou Ogum e disse que o povo não o saudara em virtude da tradição do silêncio. Ogum ficou inconsolável e admitiu que se esquecera do ritual. Profundamente arrependido do banho de sangue - pelo qual jamais se perdoou - resolveu desistir de caçadas e guerras, cravar sua espada no solo e sumir na terra, virando para sempre um orixá. Desde então Ogum respeita o silêncio dos homens e não gosta de gritarias.

Um dos versos mais famosos de Ogum - aquele que tendo água em casa se lava com sangue - se refere exatamente a este episódio emblemático, o mais lamentável na trajetória do grande herói civilizador do povo iorubá, e do qual o ferreiro se arrependeu com todas as suas forças. Esse verso, retirado do contexto do mito, perde todo o sentido que a sabedoria de Ifá estabeleceu - está aí, na reação intempestiva, a negatividade, a perda do axé, da energia de Ogum.

A partir dessas histórias, as mais emblemáticas e que fundamentam o culto a Ogum, chego ao ponto que me parece crucial. No Novo Mundo, especialmente no Brasil e em Cuba, a face mais marcante do orixá - a do ferreiro, patrono da agricultura, professor de Babá Oxaguiã, inventor do arado, desligado de bens materiais, senhor das tecnologias que mataram a fome do povo e permitiram a recriação de mundos como arte - praticamente desapareceu.

A explicação não é nova: a agricultura nas Américas estava diretamente ligada aos horrores da escravidão. Como querer que um escravo, submetido ao infame cativeiro e aos rigores da lavoura, louvasse os instrumentos do cultivo como dádiva? Como enxergar no arado, na enxada e no ancinho instrumentos de libertação, quando os mesmos representavam a submissão ao senhor e o fruto da colheita não pertencia a quem arava o solo?

Ogum foi perdendo, então, o perfil fundamental de herói civilizador - a maior de suas tantas belezas. Seu culto entre nós, cada vez mais, se ligou apenas aos mitos do guerreiro. Ogum é o general da justiça e da reparação contra o horror do cativeiro, mas pode ser também o guerreiro louco e implacável que, assim como salva, é capaz de destruir àqueles que ama e viver na solidão absoluta.

Prevaleceu na diáspora, portanto, o Ogum do qual o próprio Ogum, em larga medida, se arrependeu: o intempestivo guerreiro que, em um momento de incontrolável acesso de fúria, foi capaz de se lavar com o sangue do  próprio povo. Envergonhado desse banho, preferiu deixar a terra e viver no Orum. 

Faço essas observações porque sobre elas reflito constantemente. A razão é simples: sou filho de Ogum, iniciado no culto ao grande orixá. Passei pela cerimônia que me permite usar a faca consagrada do meu pai. Os que são do santo sabem o que quero dizer com isso, e é suficiente.

Ogum é meu pertencimento mais profundo. Mora dentro de mim como mora no magma da terra. Sei que sou capaz da criação - Ogum é antes de mais nada um criador - mas sei também que sou capaz da fúria. Sou filho do deus que criou a civilização com o arado e destruiu a civilização com a espada. Posso ser capaz, como meu pai,  da canção e do martírio. Flor e afiada faca.

Um grande babalô, em certa ocasião, recitou para mim um poema de Ifá com a seguinte trama: um filho de Ogum perguntou ao oráculo quem era o seu maior inimigo e como fazer para encontrá-lo e destruí-lo. Orunmilá determinou que esse homem fizesse sacrifícios com galos e caramujos e seguisse determinado caminho. No final da vereda o inimigo o estaria aguardando para o combate. Assim foi feito.

Após longa caminhada, o homem atingiu o fim da estrada e encontrou apenas um pequeno lago de águas cristalinas. Julgando que o algoz ainda não chegara, resolveu lavar as mãos no lago. Ao se agachar o homem viu, com nitidez impressionante, a sua própria imagem refletida no espelho d´água.

Era a resposta de Ifá.

A arte da criação e o exercício da simplicidade generosa é, para os filhos de Ogum, o descanso na loucura e a única maneira de domar o inimigo que (me) espreita ao final de cada jornada.

Ogunhê !!


7 comentários:

Bruno Ribeiro disse...

OGUNHÊ PATAKORI!

Anônimo disse...

meu comentário é uma transcrição do proprio texo: "A arte da criação e o exercício da simplicidade generosa é, para os filhos de Ogum, o descanso na loucura e a única maneira de domar o inimigo que (me) espreita ao final de cada jornada."
saudações,
dyocil

Mariara disse...

Ogum-Iê!
Que texto lindo! Bem Ogum!
Que Ele nos livre do mal!

NADJA GROSSO disse...

Lula que lindo. Imagina eu lendo o texto para mamãe. Que Ele me
abençõe e veja como estou necessitando da ajuda dele acho que mereço,minha fé a cada dia aumenta mais. "A arte da criação e o exercício da simplicidade generosa é, para os filhos de Ogum, o descanso na loucura e a única maneira de domar o inimigo que (me) espreita ao final de cada jornada." Não sou filha dele maisminha fé nele e grande.

.

Pedro disse...

Belo texto! Axé Babá!

Josefa disse...

Nossa! fiquei sem fôlego, foi de arrepiar ler o texto. Explica bem as características dos filhos de Ogum.
Vi meu rosto no espelho d'água.
Axé

Luiz Rufino disse...

Lindo texto!! parabéns