terça-feira, 7 de dezembro de 2010

NOEL, O POETA DO SAMBA E DA CIDADE

Foi lançado ontem o livro Noel Rosa, o poeta do samba e da cidade , do camarada André Diniz. O furdunço foi no Trapiche Gamboa, com a participação de Alfredo Del-Penho e Soraya Ravenle cantando o poeta da Vila. Convidado pelo autor, camarada de sambas e copos, escrevi o prefácio do livro, que reproduzo abaixo:

Vários são os casos na história da música brasileira da íntima relação entre a obra criada e o local de onde veio o artista. É impossível, por exemplo, compreender Luiz Gonzaga e João do Vale sem o sertão nordestino, Dorival Caymmi sem o mar da Bahia, Waldemar Henrique sem a floresta amazônica e Adoniram Barbosa sem São Paulo. O que o novo trabalho de André Diniz mostra com competência é a relação de absoluta dependência entre a obra genial de Noel Rosa e o Rio de Janeiro em que o poeta da Vila viveu, amou, cantou, bebeu e, sobretudo, se divertiu.

Noel testemunhou, atuou e ajudou a construir a história de um Rio de Janeiro que assistiu a transição entre o Brasil rural da Primeira República e o Brasil que, a partir da década de 1920, se transformou em um país cada vez mais urbano, complexo e multifacetado. O artista Noel Rosa foi contemporâneo do advento da Era do Rádio, da emergência de uma classe média disposta a consumir bens culturais, do sistema de gravação elétrica de discos, do surgimento do cinema falado, da consolidação do samba urbano a partir da contribuição dos bambas do Estácio e da ocupação cada vez maior dos morros e subúrbios cariocas.

Longe de ser um espectador passivo dessa realidade feérica de transformações, Noel resolveu viver no olho do furacão e atuou como um verdadeiro mediador cultural entre o asfalto e o morro, o saber letrado e a sabedoria popular. Sua obra é talvez o exemplo mais bem acabado de uma cultura que rompe fronteiras, investe em circularidades que se influenciam e escancara a riqueza impura e cheia de vitalidade do que era e é a cultura carioca.

É esse Noel e é essa cidade do Rio de Janeiro que o livro de André Diniz retrata com inegável simpatia pelo personagem e pelo cenário. Passeia pelas páginas seguintes a Vila Isabel, a Penha, o Morro da Mangueira, a Rua do Ouvidor, a Lapa, os primeiros automóveis, as macumbas e sambas da Cidade Nova, os desfiles de ranchos, os concursos de marchinhas carnavalescas, o Teatro de Revista, as largas avenidas e as vielas estreitas. Tudo, diga-se, nos conformes de versos, fotografias e prosas, de acordo com a geografia que o poeta amou e ajudou a compreender melhor.

O melhor de tudo isso é que André Diniz não acorrentou Noel Rosa nos rigores de teses e dissertações acadêmicas que, certamente, fariam o poeta da Vila sair de mansinho e procurar o bar mais próximo. Noel foi o sujeito que introduziu a conversa de botequim na lírica da música popular brasileira, com o olhar do cronista que vive na fresta, molda o tempo e é moldado por ele, extrapola os limites sociais e transforma tudo isso em arte da melhor qualidade. Esse livro flui como um samba do homenageado e não imagino elogio que possa ser maior.

Ao terminar a leitura desse O Rio de Noel, corri a escutar um grande samba do mestre mangueirense Zé Ramos, composto no início da década de 1940, chamado Capital do Samba. Diz a letra:

Chegou a capital do samba
Dando boa noite com alegria
Viemos apresentar o que a Mangueira tem
Mocidade, samba e harmonia
Nossas baianas com seus colares e guias
Até parece que estou na Bahia.
Da cidade alta da Mangueira
Avisto a Vila e sinto saudades de alguém...

Poucas homenagens a Noel Rosa foram tão tocantes e precisas. O sambista mira do alto do morro da Mangueira o bairro de Vila Isabel – quem é do Rio sabe que é pertinho – e sente saudades de alguém. É do poeta Noel Rosa, o branco que levou o asfalto ao morro e trouxe o morro ao asfalto, que Zé Ramos fala.

Nesse dias atuais, em que tanto se discute o conceito do Rio de Janeiro como uma cidade partida que precisa se regenerar, Noel Rosa é, mais do que uma saudade, uma presença forte e uma  fonte de inspiração. Ninguém mais do que o poeta da Vila soube cerzir a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro com o ponto bordado da cultura carioca.

Boa leitura e bons sambas!

Um comentário:

Rafael disse...

Vou ler esse também, mas ainda estou lendo o seu, Samba de Enredo, que comprei no início do ano e só tive tempo de começar a ler o dito agora.
um abç