quarta-feira, 10 de abril de 2013

A MÚSICA SACRA DOS TERREIROS - O IJEXÁ

Dizem os mais velhos das casas de candomblé que os atabaques conversam com os homens. Cada toque guarda um determinado discurso, passa determinada mensagem, conta alguma história. O tocador dos tambores rituais precisa conhecer o toque adequado para cada orixá, vodum ou inquice. Se o drama representado pela dança de um orixá se refere ao combate, o toque é um - em geral com características marciais. Se a ideia é contar através da dança sacra uma passagem de paz, o toque é outro. Há toques para expressar conquistas, alegrias, tristezas, cansaço, realeza, harmonia, suavidade, conflitos... Não se deve, sob nenhuma hipótese, bater para um determinado orixá um toque que não se relacione às suas características.

É importante lembrar que um xirê, a festa de candomblé, é o momento em que os orixás baixam nos corpos das iaôs para representar - através da dança, dos trajes e emblemas - passagens de suas trajetórias. Através da representação dramática, a comunidade se recorda do mito e  dele tira um determinado modelo de conduta.  As danças, ao contar histórias protagonizadas pelos orixás, servem de exemplo para os membros do grupo. Ritualiza-se o mito em música e dança, crença e arte, para que ele continue vivo para a comunidade, cumprindo assim sua função modelar.

De todos os toques sacros do candomblé de Ketu, o Ijexá é provavelmente o mais suave. Vale esclarecer, para inicio de conversa, que a palavra Ijexá origina-se do vocábulo Ijèsá, uma subdivisão da etnia iorubá e o nome da cidade nigeriana que é considerada o berço do grupo. Nessa cidade se cultuam sobretudo Oxum e Logun-Edé - e o Ijexá designa o ritmo das danças principais desses orixás. Tocam-se, também, ijexás (ainda que não seja o ritmo predominante) para Exu, Osain, Ogum, Oyá, Obá, Oxalá, Orunmilá ...

O Ijexá é apresentado nos terreiros somente com as mãos, dispensando-se o uso dos aguidavis (as baquetas de percussão). O ritmo é suave e cadenciado, emoldurando a dança dengosa e sensual de Oxum e Logum. O gã (agogô) acompanha sempre os atabaques, marcando o compasso.

De ritmo dos terreiros, o ijexá acabou também chegando ao carnaval, a partir da criação dos afoxés baianos (cortejos carnavalescos de adeptos do candomblé) no final do século XIX. Algumas pessoas e até mesmo alguns livros fazem certa confusão ao citar o afoxé como um ritmo. O afoxé é o cortejo - o ritmo que emoldura o cortejo é o ijexá. A expressão afoxé, inclusive, vem do iorubá àfose (encantação pelo som, pela palavra) . Os cubanos usam a expressão afoché para designar o ato de enfeitiçar alguém com o pó da magia.  Ao toque do Ijexá, os antigos afoxés buscavam encantar os concorrentes, desfilando pelas ruas em formato processional. O afoxé Filhos de Gandhi até hoje se apresenta no carnaval ao som do ijexá - e começa sempre o cortejo tocando para Logun-Edé.

Os que já viram um xirê certamente se recordam das danças de Oxum e seu filho Logun-Edé, simulando o banho vaidoso nas águas dos rios, enquanto se miram no espelho e seduzem a todos de forma faceira e, vez por outra, enganadora. O toque do Ijexá busca descrever, por isso, a cadência sedutora e feiticeira das águas.

O mestre Nei Lopes, referência fundamental para quem se interessar pelas culturas africanas e o Brasil, compôs no início dos anos 80 um ijexá em homenagem a Logun-Edé, magistralmente gravado por Clara Nunes. É um exemplo contundente da importância dos ritmos sacros para a música brasileira. A gravação abaixo, garimpada no youtube, é interessante porque começa com o ijexá tocado nos terreiros e abre para a gravação da guerreira, a grande Clara:



Retorno ao tema em outros textos.

Abraços

2 comentários:

Glaysson Muller disse...

Muito bom texto!

E lembrar a ótima música "Ijexá" de Clara Nunes que exalta os Filhos de Gandhi.

Abraços

Fabiano disse...

Parabéns, texto excelente, refaz nosso olhar sobre esse toque, tão presente, mas tão pouco valorizado nas diversas manifestações brasileiras em que é utilizado.