sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

CONVITE PARA O LANÇAMENTO



Meus amigos, finalmente o livro saiu. Samba de Enredo, História e Arte chegou às livrarias. O livro é resultado da devoção que Alberto Mussa e eu temos pelo samba de enredo como gênero musical de primeira linha. Ouvimos e listamos 1324 sambas, selecionamos quase trezentos para trabalhar e escrevemos o trabalho. A edição é da Civilização Brasileira.

Não é uma história do carnaval ou das escolas de samba. Não é um trabalho acadêmico rigoroso. Não pretende falar a verdade [existe isso?] ou coisa que o valha. É uma declaração de amor ao Rio de Janeiro e ao samba e um passeio sentimental pelas ruas e pelos sons que ajudaram a formar, em larga medida, a nossa identidade. Um trabalho amoroso, que só tem um objetivo decente - destacar o samba de enredo como obra de arte e seus compositores, em geral homens simples do povo, como artistas do Brasil. É mais do que suficiente.

Procuramos destacar bastante algumas escolas ditas menores - várias até acabaram - e seus compositores, já que, em geral, os estudos sobre o tema priorizam o quarteto Mangueira, Salgueiro, Império e Portela. Ouvimos muita coisa da Tupi de Brás de Pina, Unidos de Lucas, Em Cima da Hora, Flor da Mina, Canários, Lins, Unidos de Bangu, Quilombo, Unidos de Cosmos, Unidos da Ponte, Império do Marangá, Império da Tijuca, Vai se Quiser, Difícil é o Nome, Vizinha Faladeira, Arrastão de Cascadura, Arranco, Unidos de Manguinhos, Cubango, Paraíso do Tuiuti...

O livro será lançado no dia 3 de fevereiro, na livraria Al-Farabi - Rua do Rosário, com Carlos, Digão da Folha Seca e Evelyn comandando o balacobaco das vendas. Vamos tomar umas cervejas com os amigos, cantar uns sambas [das antigas, é claro] e levar nosso acervo para escutar uns clássicos. Sem frescuras ou grandes esquemas - a intenção é beber e encontrar os camaradas.

Como o lançamento ocorrerá no dia seguinte à festa de Iemanjá, sugiro que os senhores cliquem aqui e escutem, no meu velho blog, o belo samba de 1976 da Unidos de Lucas Mar baiano em noite de gala. É para entrar no clima e pedir a Iemanjá força e saúde pra todos nós, os seus filhos.

Espero vocês.

Saravá!

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

UM MÉDIUM NO CARNAVAL - CONCLUSÃO


[leia a primeira parte aqui ]

Assim que o caboclo do Manoelzinho chegou, com urros impactantes de bugre, a Dona Alcione - que nutria pela mediunidade do marido uma mistura de respeito e temor - estendeu as mãos espalmadas à frente e abaixou levemente a cabeça em forma de reverência. Todos os que assistiam a cena fizeram o mesmo gesto.

A entidade indígena continuou gritando por uns cinco minutos. Nesse espaço de tempo a fila de gente para tomar passes se formou e os palpites sobre que caboclo era aquele começaram. A lista de possibilidades era enorme: Seu Tupiara, Seu Tupaíba, Seu Aimoré, Caboclo Roxo, Seu Sete Flechas, Seu Cachoeirinha, Seu Tupinambá, Caboclo Lírio, Seu Junco Verde, Seu Rompe Mato, Seu Peri, Caboclo Sultão das Matas, Seu Mata Virgem, Seu Sete Pedreiras... houve quem apostasse até num boiadeiro, apesar da pinta de bugre com que a entidade se apresentou.

O Nilton, cumprindo com a maior seriedade as funções de cambono, aproximou-se do índio e fez a clássica pergunta:

- Qual é a sua graça, meu pai? O senhor quer dizer o seu nome aos filhos de Zâmbi? Quer riscar seu ponto com a pemba de fé?

O caboclo murmurou alguma coisa incompreensível. O Nilton se aproximou e o índio cochichou algo ao cambono, que anunciou ao povo:

- Ele disse que se chama Seu Cacique de Ramos.

Meu avô retrucou na lata, com a habitual elegância da gente de Guararapes :

- Não sacaneia, Nilton. Seu Cacique de Ramos? Não fode que isso nunca foi caboclo nem aqui nem na casa do caralho.

Na mesma hora o índio se ofendeu, deu um berro enfurecido, começou rodopiar feito doido e deu flechadas imaginárias em todo mundo, com cara de puto dentro da tanga. Alguém sugeriu cantar um ponto pra acalmar a entidade. Mas qual? Uma voz desconhecida mandou de prima: Sim, é o Seu Cacique de Ramos/ Planta onde em todos os ramos/ Cantam os passarinhos da manhã... O caboclo gostou e ficou mansinho.

Dona Alcione, nessa altura do campeonato, só queria que o índio fosse oló para retomar os planos do carnaval em Araruama. O bugre, então, pediu silêncio e anunciou:

- Caboclo só vai deixar cavalo na quarta-feira de cinzas. Num sobe antes, que caboclo vai salvar seus filho de Aruanda na fé de Zâmbi. Caboclo veio traze axé de pemba no carnaval.

- Não faz isso, meu pai. Seu cavalo tem que viajar. Retrucou o cambono.

Seu Cacique de Ramos não quis conversa. Armou uma beiçola enfurecida, enrugou a testa, cruzou os braços e balançou a cabeça em forma de negação. E arrematou:

- Mulé de cavalo vai, que caboclo não quer ver mulé triste. Caboclo fica com cambono nas encruzas. Caboclo vai fazê trabalho forte, vai riscá ponto em mil e duzentas esquinas e depois vai embora. Ordem de Zâmbi. E caboclo quer cocar e tanga!

Dona Alcione fez de tudo para demover a entidade. Chorou, ameaçou se separar do cavalo, duvidou da mediunidade do marido, se arrependeu da dúvida, pediu desculpas ao Seu Cacique, acabou tomando passe e o escambau. Ficou até comovida quando a entidade disse algo como meu cavalo ama muito mizifia e acabou partindo para Araruama com a trupe. O Nilton prometeu cambonar Seu Cacique de Ramos enquanto ele estivesse na terra. Meu avô, muito sério, disse também que ia comprometer o próprio carnaval para ser o cambono assistente.

Do jeito que Seu Cacique veio, ficou. Ficou e cumpriu a promessa - durante os dias de carnaval trabalhou duro, percorreu mil e duzentas esquinas com a pemba de fé - de cocar e tanga em vermelho, preto e branco - bebeu marafo e cerveja na cuia da jurema, comeu feijoada para louvar Seu Ogum Beira Mar, fumou charuto e bateu o recorde de passes nas filhas de pemba em toda a história da Aruanda. Foi oló na quarta feira de cinzas, depois de cumprir com êxito sua missão de paz na terra.



quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

UM MÉDIUM NO CARNAVAL - PARTE 1


É de conhecimento público que o Manoelzinho Motta era dotado de impressionante mediunidade. Para relembrar a primeira grande manifestação da espiritualidade do cachaça, basta clicar aqui .

Naquela ocasião Manoelzinho recebeu o espírito de um profeta de pedra sabão do Aleijadinho - Jeremias - após ser flagrado por sua senhora, Dona Alcione, em trajes sumários no lupanar de Consuelo "La Índia" Paraguaia, a famosa Casa dos Amores Urgentes.

Acontece que a mediunidade do cabra, depois da primeira manifestação, não parou mais. Há relatos de que Manoelzinho virou cavalo de mais de cinquenta entidades, de todos os tipos e linhas. O que mais impressiona, do ponto de vista estritamente espiritual, é entender como as entidades chegavam no Motta em momentos decisivos.

Houve, por exemplo, uma ocasião em que Dona Alcione convenceu o Manoelzinho a passar o carnaval fora do Rio de Janeiro. O destino traçado era Araruama, na modesta casinha de praia alugada pela temporada por Dona Saquarema Marta, que gentilmente convidou as amigas do Lins de Vasconcelos e adjacências para curtir um solzinho, tomar umas cervejinhas e fazer um torneio de buraco durante o tríduo momesco.

Há que se ressaltar, em nome da veracidade do relato, que a casa de praia de Dona Saquarema não era exatamente próxima à orla de Araruama. Ficava num loteamento um pouco distante - coisa de uns vinte minutos caminhando sem pressa. Um dos argumentos que Dona Alcione usou para convencer o Manoelzinho foi esse - eles poderiam passear na beira da lagoa, dar um bom mergulho numa praia mansa e levar um isopor com uns comes e bebes para economizar.

O Manoelzinho, que nunca discordava da Dona Alcione, aceitou o convite e se mostrou o mais entusiasmado com a programação. Não aguento mais essa confusão do carnaval, argumentou com a profundidade de chefe de família exemplar.

Meu avô não entendeu picas. O Manoelzinho era folião lendário, sócio remido do Bola Preta, filho de um ex-presidente dos Tenetes do Diabo, compadre do Tião Maria Carpinteiro -o fundador do Bafo da Onça- , ativo participante do Berro da Paulistinha e organizador, ao lado do zagueiro Moisés Xerife, do bloco das piranhas de Madureira. Como se não bastasse, fechava a quarta-feira de cinzas brigando com a polícia durante o desfile do Chave de Ouro.

O casamento, porém, exigia alguns sacrifícios, disse o Motta. Uma emocionada Dona Alcione ouviu o marido argumentar a favor da ideia de que numa relação de companheirismo era necessário abrir mão de algumas coisas em nome de outras mais importantes [frase que ele tinha lido na coluna de conselhos do correio sentimental da revista Sétimo Céu]. Em tom de discurso parlamentar, Manoelzinho encerrou o assunto em grande estilo e levou a mulher às lagrimas:

- Alcione significa mais para mim do que qualquer carnaval. É a minha quinta mulher, mas meu primeiro amor. Parto feliz para aquele que será o melhor carnaval da minha vida!

Acontece que é difícil controlar algumas espiritualidades mais fortes. Na hora da partida, com as malas devidamente preparadas, o Caladril, o Vic Vaporubi , a Minâncora, O sal de frutas Eno e o Colobiasol formando a linha de frente da sacolinha de remédios, o Manoelzinho deu três murros fortes no peito, um brado de levantar defunto e caiu de joelhos na clássica posição de um índio preparado para flechar alguém.

O Nilton, que era uma espécie de cambono pra toda obra do Manoelzinho e também estava na trupe da folia em Araruama, imediatamente gritou ao ver a cena:

- Okê, caboclo!

[aguardem a continuação da mediunidade carnavalesca do Manoelzinho]

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

NATAL DA PORTELA E SONHAR COM REI DÁ LEÃO


A proximidade do tríduo de Momo faz com o meu coração coisas de que até Deus duvida e o diabo desconfia. Prometi, por exemplo, dedicar esse mês aos textos sobre o Carnaval. Houve, porém, desvios de percurso e acabei falando até sobre a mais anticarnavalesca das figuras do mundo, o jornalista Joaquim Ferreira dos Santos. Hoje quero retomar o rumo certo e enterrar os ossos. Falemos da folia. Para mostrar que não sou um imperiano xiita, vou lhes contar sobre um homem que virou lenda na escola vizinha: Natal da Portela.

O samba, o jogo do bicho e o futebol, três instituições da cultura carioca, fizeram a história e a fama de Natalino José do Nascimento, o Seu Natal, homem cuja trajetória se confunde com a da cidade do Rio de Janeiro - apesar de não ter nascido aqui. Como não? Natal não era de Madureira? Explico.

Não vejo nada demais na origem não carioca de Seu Natal. Nelson Rodrigues, alma carioca até a medula, era pernambucano de nascimento, feito meu avô e minha mãe. O oposto é verdadeiro; tá cheio de nascido no Rio de Janeiro que é tão carioca quanto um caubói de filme de bang-bang passado no velho oeste ou urso panda de jardim zoológico chinês.

Natal nasceu em 1905 na cidade de Queluz, São Paulo , mas chegou de calças curtas ao Rio, nos tempos em que ainda fazia xixi na cama e dizia gugu-dadá. Depois de um curto período em Cachoeira Grande, entre o Méier e o Lins de Vasconcelos, mudou-se com a família para a esquina da Rua Joaquim Teixeira com a Estrada do Portela, no subúrbio de Oswaldo Cruz.

Foi em Oswaldo Cruz, no quintal da casa do pai de Natal, que os bambas Paulo, Rufino, Alvarenga, Heitor, Caetano, Claudionor e Manuel Bam-Bam-Bam fundaram o bloco carnavalesco Vai como Pode. O bloco acabou gerando a escola de samba da Portela, campeoníssima do carnaval carioca até o arrebatador tetracampeonato do Império Serrano, entre 1948 e 1951.

Natal foi funcionário da Central do Brasil durante seis anos. Trabalhou como cabineiro, condutor de trem e telegrafista. Em 1925 sofreu um acidente, perdeu o braço direito nos trilhos do trem e, inválido para o serviço, parou no olho da rua. Fez muito biscate, foi camelô, penou na mão do rapa e foi chamado de crioulo aleijado. Sem conseguir o famoso trabalho formal, arrumou emprego de anotador do jogo do bicho e foi pro pau.

A carreira do cabra na contravenção foi exuberante. De anotador a gerente, de gerente a dono de banca, tornou-se o bambambam da loteria popular e foi pioneiro da polêmica ligação entre o bicho e as escolas de samba. Com ele surgiu a figura do patrono, depois tão comum no meio. A Portela deve às artimanhas pouco lícitas de Natal boa parte de seus triunfos. Envolvido com o futebol, chegou a diretor do Madureira, o tricolor do subúrbio.

Foi valente pra dedéu. Gostava de um charivari. Sofreu quase quatrocentos processos, foi preso umas noventa vezes, tirou cana quatro vezes na Ilha Grande e uma em Fernando de Noronha. Enfrentou, com um braço só, o temível matador China Preto, famoso pistoleiro do subúrbio nos anos 50. Deu um barata-voa no camarada que fez o China Preto ficar mais branco do que defunto dinamarquês.

Natal não era muito chegado no universo da moda: Só andava de chinelos e paletó de pijama. Era assim, em trajes tremendamente informais, que geralmente desfilava pela azul e branca de Oswaldo Cruz. No único ano em que convenceram o malandro a desfilar na beca, de terno, sapatos nos trinques e outros salamaleques, creditou ao traje requintado a derrota vergonhosa da Portela.

Para o bem e para o mal Seu Natal foi o retrato de um Rio de Janeiro que, nos anos 50, auge do seu poder, fugiu ao estereótipo da cidade cantada pela bossa nova, que então surgia com o objetivo mequetrefe de retirar a África do samba.

Muito além do barquinho, da garota gostosa, do cantinho e do violão, a cidade dos subúrbios, dos pequenos times de futebol, do samba e do jogo do bicho, pulsava nos botequins, terreiros de macumba e esquinas de Oswaldo Cruz e Madureira. Ali, longe do mar, Natal foi o rei e a lenda.

Cantou pra subir em 1975, com fama de bandido e herói, feito o personagem de desenho animado que tem asas de anjo e tridente de capeta. Gostava de resumir sua vida numa única frase, muito lembrada depois que foi oló: Acho que era covardia eu ter dois braços também.

No ano seguinte, 1976, a Beija Flor de Nilópolis conquistou seu primeiro título homenageando o jogo do bicho e a figura lendária de Natal. Um detalhe - o refrão do meio é uma bela dica para se saber como interpretar os sonhos e fazer a fé no bicho certo: Sonhar com filharada é o coelhinho/ Com gente teimosa na cabeça dá burrinho/ E com rapaz todo enfeitado/ O resultado, pessoal/ É pavão ou é veado. Para uma escola que no anos anteriores saudara os feitos do regime militar, a exaltação ao jogo do bicho foi um avanço e tanto: Sonhar com rei dá leão!
Evoé!

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

BLECAUTE E OGUM NO CARNAVAL - OS GENERAIS DA BANDA


Esse espaço está homenageando, nesse período entre o Dia de Reis e a Quarta Feira de Cinzas, o Carnaval brasileiro e seus personagens. Ontem, por exemplo, o destaque foi a Favorita da Marinha, Emilinha Borba. Nosso folião de hoje é outra lenda da festa: Otávio Henrique de Oliveira, o imortal Blecaute.

Nosso personagem nasceu em 1919, na pequena cidade paulista de Espírito Santo do Pinhal. Orfão de pai e mãe, chegou aos seis anos de idade à capital e trabalhou como engraxate e entregador de jornais na Avenida São João. Começou a participar de batucadas, virou cantor da Rádio Difusora de São Paulo e, em 1942, iniciou sua trajetória no Rio de Janeiro. Em pouco tempo tornou-se atração da poderosa Rádio Nacional.

Grande ínterprete de marchinhas e sambas, estourou definitivamente quando gravou no Carnaval de 1949 o ponto de macumba General da Banda, parceria entre o pai de santo Tancredo Silva, Sátiro de Melo José Alcides. O sucesso foi tão grande que Blecaute passou, desde então, a se apresentar como um legítimo general da folia, com uma fantasia repleta de dragonas e alamares. Quem hoje se veste de forma parecida é o ditador da Líbia, o General Mohamed Kadafi.

Os desavisados talvez não saibam que General da Banda é uma das formas do povo da curimba se referir ao guerreiro Ogum. A transformação do ponto de macumba em samba de carnaval, diga-se, só poderia mesmo acontecer com o mais popular dos orixás das macumbas cariocas, o santo guerreiro que gosta de cerveja e feijoada e é irmão dileto de Exu.

Blecaute morreu no dia 9 de fevereiro de 1983, pertinho do Carnaval. Sobre seu enterro eu escrevi, faz tempo, um relato que envolveu meu avô e o Manoelzinho Mota, um cachaça amigo da minha família. O troço parece sacanagem mas é a mais absoluta verdade. A confusão que ocorreu no cemitério virou, inclusive, notícia de jornal. Reproduzo, em homenagem ao monumental Blecaute, o relato sobre o furdunço fúnebre do General da Banda:


A notícia surpreendeu quem conhecia o caboclo e foi dada pelo Niltinho:
- Prenderam o Manoelzinho Mota!
As senhoras e senhores que não conheceram o Manoelzinho não fazem idéia do caráter inusitado do acontecimento. Manoelzinho era um cachaça clássico, morava em uma vila no Lins de Vasconcelos e enchia a caveira de forma industrial. Era, porém, tão agressivo quanto um ataque do Botafogo nos anos setenta
formado por Tuca, Cremílson e Puruca, que fazia em média quatro gols. Por ano.
Como ia dizendo, meteram o Manoelzinho no xilindró. Formou-se, de imediato, uma comissão de notáveis, com decisiva participação do meu avô, ata de fundação e o escambau, pra resgatar o bebum das garras da justa.
A causa da prisão era um clássico - perturbação da ordem pública. O local do delito, o cemitério de São João Batista. Explico.
Tinha morrido, na véspera, o Blecaute, grande cantor, famoso pela gravação do samba General da Banda. Necessário dizer que o Manoelzinho Mota adorava o crioulo. Conhecera o Blecaute na época em que o negão era patrono da Casa do Pequeno Jornaleiro e o Manoelzinho, um deles.
A notícia foi dada pelo Mineirinho:
- Mota, o Blecaute foi oló.
- O Blecaute? Não sacaneia, porra...
- Pois é.
Destruído, envelhecido em barril de carvalho, lá foi o Manoelzinho ao enterro do Blecaute. Deu-se, porém, que o nosso cachaça foi ao cemitério errado. Blecaute estava sendo velado no Caju e o Manoelzinho, sabe-se lá por que diabos e aos prantos, parou no São João Batista.
No que entrou no cemitério e viu uma capela cheia, não teve a menor dúvida: era o velório do Blecaute.
Leitores acreditem. O homem entrou no velório de um certo General Ademir Mourão de Matos, veterano da Revolução Paulista de 1932. Não haveria problemas se, comovidíssimo, o Manoelzinho não resolvesse homenagear o saudoso Blecaute no velório errado.
Nosso herói já entrou na capela berrando:
- Nada de tristeza! Ele só nos deu alegrias. Só nos deu alegrias! Viva o general da Banda!
E começou a cantar:
Chegou General da Banda, Ê, Ê,Chegou General da Banda, Ê, Á...
O mais incrível, o mais incrível. Aos poucos, vários presentes ao velório do ínclito Mourão de Matos, homem mais chegado aos dobrados militares, começaram a acompanhar o Manoelzinho. De repente, o coro ganhou proporções fabulosas. Até os defuntos do São João Batista levantaram das tumbas para cantar:
Mourão, mourão,vara madura que não cai.Mourão, Mourão,cutuca por baixo que ele vai.
A capela virou um baile de carnaval, com gente com dedinho pro alto e outros balacobacos. A família do General, entretanto, não gostou da homenagem. Um primo do falecido foi mandar o Manoelzinho parar e recebeu a resposta cortante:
- Parar? Não fode, porra. Eu amava esse crioulo!
- Crioulo? Respeita o General, seu bêbado de merda!
O pacífico Manoelzinho virou bicho. Pegou a primeira coroa de flores que viu pela frente e afundou no pescoço do primo do General. O tempo fechou. Em cinco minutos ninguém mais sabia quem estava batendo, quem estava apanhando e por que o furdunço tinha começado. A esposa do general desmaiou na hora em que o coveiro recebeu Seu Tranca-Ruas e passou a dar porrada em todo mundo, defendendo o Manoelzinho, que Exu não ia deixar um cachaceiro na mão. No auge do quiprocó, Seu Tranca-Ruas jogou o caixão no chão e um milico amigo do General deu sete tiros pro alto.
No fim das contas, entre mortos e feridos, salvaram-se todos e o Manoelzinho foi em cana. Queriam prender o coveiro, mas quando Seu Tranca-Ruas se identificou, a polícia achou melhor não brincar com o homem e formou-se até fila pra consulta, com a esposa de um coronel recebendo a Cigana e o cacete.
Quando saiu da cadeia, acompanhado pela dileta comissão encabeçada pelo meu avô, Manoelzinho encheu o pote e deu a primeira declaração pública sobre o episódio, para os anais da história do Lins de Vasconcelos:
- Admito tudo, menos uma coisa; um puto qualquer no cemitério me acusou de desrespeitar o Blecaute. Tudo bem que eu desafinei enquanto cantava, mas foi bonito pra cacete. Todo mundo cantou junto. O Blecaute, que Deus o tenha, deve ter ficado feliz.


Evoé! E viva Blecaute, o eterno General da Banda. Patakuri, Ogum!

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

A MARCHA DO REMADOR COM EMILINHA BORBA - UMA ORAÇÃO


A série da Globo sobre Dalva de Oliveira e Herivelto Martins merece uma observação: a grande Emilinha Borba apareceu pouco. Eu, que sou torcedor da Emilinha desde que me conheço por gente, fiquei um pouco desapontado.

Não, eu não vivi a era do rádio. Mas cresci numa família que me deu boas referências musicais; suficientes para que a Favorita da Marinha seja a minha cantora de Carnaval predileta. E a coisa é séria.

É séria porque há algumas composições carnavalescas que, definitivamente, estão entranhadas na minha alma como um daqueles encostos brabos, que não tem descarrego que faça ir embora.

São as trilhas sonoras do meu mapa sentimental, habitante da mui leal e heróica cidade de São Sebastião, cenário por excelência das marchinhas mais sacanas.

Em 2007, por exemplo, escrevi alguns textos sobre as marchinhas da minha vida. Uma das músicas citadas foi a Marcha do Remador, de Antonio Almeida e Oldemar Magalhães, gravada exatamente pela grande Emilinha Borba. É em homenagem a ela que relembro, com modificações, o que escrevi à época. Foi o seguinte:

Toda vez que subo num avião tenho a firme convicção de que o bicho vai cair. Me preparo para fazer algumas orações aos deuses. Ocorre, porém, estranho fenômeno, daqueles que o sujeito só deveria confessar ao médium de mesa branca depois da morte: Invariavelmente, na hora em que tento rezar, esqueço as palavras sagradas e troco o Pai Nosso pelo refrão :

Se a canoa não virar
Olê Olê Olá
Eu chego lá

Houve uma ocasião em que o bicho pegou. Estava indo à Cuba em um avião da Cubana de Aviacion que mais parecia o irmão mais velho do 14 Bis. A geringonça, um Antonov de fabricação soviética, era, para usar o termo apropriado, uma banheira. Embarquei motivado por uma quantidade industrial de álcool, que eu não sou trouxa de chegar de cara limpa pro acerto de contas com o Todo Poderoso.

Mal aquela espécie de carro de boi alado começou a se preparar para a decolagem, veio o sinal de alerta. Problemas no combustível. Saiu todo mundo. Mais bebida, que ninguém é de ferro.

Voltamos ao avião. O piloto, com voz de dublador de filme de vampiro paraguaio, anunciou uma pane no sistema de refrigeração. Aeromoças que mais pareciam personagens de filmes do Almodóvar se entreolhavam. Descemos novamente. Fui tomar um negocinho pra descontrair.

Voltamos ao avião mais uma vez, depois de algumas horas. O clima entre os passageiros era de comoção absoluta. Pairava entre as poltronas a sombra da indesejada das gentes, epíteto do poeta para a sinistra senhora. Uma dona, que tentava manter a calma, sugeriu que os passageiros orassem pelo sucesso da empreitada. Ela mesma puxou um Pai Nosso e uma Ave Maria.

Me pareceu, confesso, que aquilo estava mais para extrema-unção coletiva que outra coisa. Em desespero, um cidadão ao meu lado jurou que a velha tinha terminado a reza com um profético agora é a hora de nossa morte, amém.

Ela perguntou, então, se alguém gostaria de orar representando algum outro credo religioso. Cheio de goró, considerei minha função rezar pros orixás, caboclos e encantados do Brasil. Com o arrojo de um Garrincha deixando o João estatelado, gritei: - Eu rezo!

Concentrei-me e mandei na lata. Quem disse que saiu alguma rogação? Nem a pau. Como por encanto, da minha boca saíram os versos da Marcha do Remador, cantados, inclusive, com a modificação singela que as torcidas faziam no Maracanã:

Se essa porra não virar
Olê Olê Olá
Eu chego lá

Subitamente, em completo descontrole e impactado pela lembrança da voz da Emilinha, comecei a pular como se estivesse na matinê do baile do Municipal aos sete anos de idade, cantando a marcha aos berros. Pensam que fui seguido por um coro? Nadica. Pelo contrário. Fracasso absoluto.

A senhora ficou puta dentro da roupa, os passageiros me chamaram de palhaço pra baixo e eu, solitário, encolhido como pinto em ovo, afundei-me na poltrona e fechei os olhos. O camarada que viajava comigo foi sincero: - Você tem sérios problemas.

É, talvez tenha. Como acredito, porém, que maiores são os poderes do povo, desisti de lutar contra o que é muito mais forte que eu. Hoje, se a onça ameaça beber água, não tem Pai Nosso, Ave Maria, ponto de macumba ou coisa que o valha. Mando logo uma pra dentro em honra do compadre, seguro firme a guia do Azulão e digo na lata, caprichando no gogó, a Marcha do Remador.

É que nem São Longuinho, rapaziada. Ninguém leva fé mas funciona que é uma beleza.

Evoé e viva a Favorita da Marinha !
Abraços

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A BAHIA É BOA TERRA...


Parece sacanagem. Fui escrever ontem sobre o Rei Momo, clamando pela volta dos balofos ao posto mais nobre do carnaval, e no mesmo dia recebi a notícia mais impactante da minha vida de folião. Vou até mudar de parágrafo para escrever o troço.

A Bahia escolheu o Rei Momo do carnaval de 2010. Sabem de quem se trata? Pepeu Gomes, o cantor e guitarrista. Repito: Pepeu Gomes é o novo Rei Momo baiano [vejam aqui]. A escolha do soberano da folia baiana confirma uma máxima do Barão de Itararé: De onde a gente menos espera é que não vem nada mesmo.

Fico aqui imaginando o que diria o primeiro Rei Momo do carnaval brasileiro, o jornalista Moraes Cardoso. Foi graças a ele, Moraes, que a figura do Rei Momo pudim de banha se estabeleceu entre nós. Explico.

Em 1933, com o carnaval oficializado pela prefeitura do Rio de Janeiro, os jornalistas de A Noite tiveram a ideia de nomear um monarca para a festa. O escolhido foi o repórter de turfe Moraes Cardoso, um sujeito assombrosamente gordo e gaiato. Estava sendo criada aí a tradição. Fosse Moraes Cardoso uma Olívia Palito, o Rei Momo magro teria se estabelecido entre nós.

O Rio de Janeiro, portanto, é uma cidade tão inusitada que inventou o primeiro rei carnavalesco desde as saturnálias romanas. O Rei das Saturnálias, porém, era em geral um soldado fortão, bonito e bicha. Se empanturrava de carne, enchia a cara de bebida e, no fim da festa, era sacrificado aos deuses. Nós, que nascemos sob o signo da subversão, transformamos o deus Momo em rei, colocamos um cachalote no trono, cercamos o soberano de princesas e rainhas gostosas e fomos pro ziriguidum.

O historiador Eric Hobsbawm escreveu... Pausa. Que diabos faz Eric Hobsbawm em um texto sobre o Rei Momo? Retomo a frase e esclareço. O historiador Eric Hobsbawm escreveu um livro muito interessante chamado A Invenção das Tradições. Mostra que toda tradição é rigorosamente criada em certos contextos de tempo e espaço. Pego carona nessa garupa e afirmo, portanto, que o Rio de Janeiro, pródigo em criar as tradições mais mirabolantes, inventou mais essa: o Rei Momo como soberano balofo no carnaval.

Quanto ao Pepeu Gomes no cargo de monarca do carnaval baiano, prefiro não me pronunciar. Não declaro nada. Saio de banda cantando, de leve, um samba das antigas, do mestre Sinhô:

A Bahia é boa terra
Ela lá e eu aqui, iaiá...

Abraços.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

A PELEJA DO PADIM CIÇO CONTRA OS EVANGÉLICOS E OS PADRES CANTORES


Aproveitei o recesso de fim de ano para ler um livro que Jorge Cury chamaria, aos berros, de livraço-aço-aço: Padre Cícero - Poder, fé e guerra no sertão, do jornalista e escritor Lira Neto, um calhamaço de quinhentas e tantas páginas que se lê com prazer o tempo todo.

O padim, um dos personagens mais controversos da história do Brasil, era da pá virada. Realizou prodígios de fé, converteu multidões e fez de Juazeiro do Norte um dos maiores centros de romaria cristã do mundo. Sua pastoral sertaneja arrebata ainda milhões de fiéis, em um espetáculo de fé que só encontra paralelo nos festejos do Círio de Nazaré. Esse é um Cícero.

O outro é o que benzeu rifles, punhais e bacamartes de jagunços para fazer uma revolução no Cariri. Se meteu na política, ligou-se aos coronéis e virou o primeiro prefeito de Juazeiro. Foi eleito deputado federal e concedeu patente de capitão da força pública ao cangaceiro Lampião, em troca do compromisso para que o facínora enfrentasse a Coluna Prestes. Não bastasse isso, ficou milionário à custa de esmolas e doações de fiéis mas manteve o voto de pobreza e levou uma vida de asceta - não aproveitou um tostão da fortuna que amealhou. O cabra não é para principiantes.

À época daquela eleição meio picareta para se escolher as 7 maravilhas do mundo moderno, estão lembrados?, lancei a candidatura da estátua do Padre Cícero, que me pareceu mais interessante que o Cristo Redentor. Os amigos podem recordar a momentosa campanha cívica aqui . O fracasso da iniciativa, entretanto, evidenciou a pouquíssima influência desse escriba e o Cristo do Corcovado levou a melhor.

A Igreja Católica, que baniu Cícero de seus quadros com um decreto de excomunhão, analisa atualmente a sua reabilitação, em uma ordem expressa pelo Papa Bento XVI. O culto ao padim é visto hoje pelo Vaticano como um poderoso instrumento na luta contra o avanço de igrejas evangélicas no Nordeste - dois milhões e quinhentos mil romeiros se dirigem por ano ao Juazeiro para louvar o padre, agradecer milagres e pedir graças. Negar o culto ao padim é de um equívoco monumental na disputa pelo mercado da fé.

Acho que essa campanha de reabilitação do Padre Cícero pode motivar outras do mesmo tipo mundo afora. Pode, por exemplo, inspirar o STJD a não banir do futebol o garoto Jobson, que andou cheirando pó antes de uns jogos do brasileirão. Cícero e Jobson merecem uma segunda chance e o Vaticano e o STJD devem estar atentos a isso.

Para muitos fiéis o Padre Cícero é o próprio Jesus Cristo. Os romeiros afirmam que o Messias retornou ao mundo, nos confins do Crato, na forma de um caboclo de olhos azuis. Há controvérsias, mas a ideia é curiosa - um Jesus sertanejo que abençoa jagunços, benze punhais, lidera revoluções, vira latifundiário e faz milagres do balacobaco.

Eu saí do livro, curiosamente, mais simpático à figura do padrinho, ainda que reconhecendo as terríveis contradições que cercam o cabra. Quando vejo, por exemplo, o Padre Fábio de Melo interpretando sucessos de Fábio Jr, o Padre Marcelo Rossi imitando elefante na missa e o Padre Antônio Maria celebrando o casamento de Ronaldo Fenômeno e Cicarelli no Castelo de Chantilly, sinto uma nostalgia profunda das falcatruas e milagres do velho sacerdote do Cariri, que detestava papagaiada em missa.

Parêntese: Farei agora, antes de encerrar esse arrazoado, uma confissão que vai me desmoralizar como humanista e historiador. Só pretendia revelar isso a um médium de mesa branca após a morte, mas vá lá: padres cantores me levam a ter uma certa e incontrolável saudade do Santo Ofício da Inquisição. No que o Padre Marcelo botasse as mãozinhas pra frente e saísse pulando feito canguru, a Santa Inquisição certamente iría colocá-lo em clausura, ajoelhado no milho, para que ele nunca mais imitasse um marsupial até o fim dos tempos.

O padim Padre Cícero é, enfim, o médico e o monstro da História do Brasil.

Deixo com os amigos o imenso Luiz Gonzaga cantando um louvor ao padre do Juazeiro: a valsa Légua Tirana, uma das mais comoventes canções da música brasileira:

Abraço

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O MUNDO TEM SOLUÇÃO

Quando a gente acha que a humanidade vai a passos largos para a cucuia, que vamos sucumbir ao aquecimento global, aos atentados terroristas, ao Dunga, aos falsos botequins, aos padres cantores, aos artistas e celebridades de ocasião e tá todo mundo danado, surge a esperança do futuro melhor na afirmação contundente e definitiva: SOU IMPÉRIO !


MINHA OPINIÃO SOBRE O LULA

Só pode ser provocação. Todos os amigos que acompanham esse espaço sabem da linha adotada no pedaço. Eis então que hoje, ao abrir meus emails, leio o seguinte:

Professor, sou o Mateus, seu aluno do pH da Tijuca. Por que no seu blog você não fala do Lula? Eu gostaria de conhecer sua opinião sobre ele. Abração.

Era o que me faltava. Minha opinião sobre o Lula aqui no Histórias Brasileiras. Como, porém, acordei animado, vou atender ao pedido, seria melhor dizer provocação, do Mateus. Lá vai.

A lembrança do Lula me causa horror, verdadeiros pesadelos, é um trauma que vem de infâncias profundas - coisa que duzentos anos de terapia e mil passes de caboclos de umbanda não vão afastar.

Lula poderia ter sido o mais digno dos homens, mas compactuou com a fraude, a farsa, o descalabro, a injustiça histórica. Não foi o agente do delito, mas dele se aproveitou para perpetuar a ideia de vitória a qualquer custo, a Lei do Gerson, aquela que fala em levar vantagem em tudo.

O pior de tudo é que Lula é pernambucano, terra do meu avô e de minha mãe.

Mas tudo bem, admito que a sacanagem maior não foi mesmo dele. Fizeram o serviço sujo e deram condições para que ele, aí sim, aplicasse o golpe de misericórdia na dignidade humana.

Quer que eu te explique como foi, Mateus? Eu não estava lá, era um meninote de três anos que nem fazia ideia do que estava ocorrendo, mas sinto hoje esse golpe como se estivesse presente. Tenho amigos que assistiram in loco o episódio e nunca se recuperaram do impacto.

Faltavam dois ou três minutos para acabar o jogo. O Botafogo tinha um time muito superior e seria o campeão com o empate. No desespero do bumba-meu-boi, a bola é alçada na direção da cidadela alvinegra. Eis a cena e o momento do crime.

O goleiro Ubirajara Mota se prepara para fazer uma defesa fácil. Sofre, entretanto, uma falta do lateral esquerdo do Fluminense, Marco Antônio, digna de punição pelo código criminal brasileiro. Tudo isso na frente do juiz, cujo nome JAMAIS será citado por mim. A este cidadão aplico a regra dos iorubás - merece o desprezo, o limbo, o esquecimento, a agonia das almas penadas.

A bola sobra então, limpinha, para Lula, um bom ponteiro esquerdo, diga-se. Ele poderia resgatar o sentido de honra entre os homens. Diziam os antigos vikings que o único patrimônio de um homem é a sua reputação. Lula, porém, trocou a reputação pela autoria do gol mais ilegal da história do futebol desde que Charles Muller apareceu com uma pelota por essas bandas.

Vou lhe dizer uma última coisa, Mateus. Eu conheço botafoguenses que assistiram ao jogo - a final do campeonato carioca de 1971 - e apontam aquele momento como o de maior tristeza na história do clube. Trabalhei com um professor que, inclusive, diz que ali deixou de acreditar em Deus e buscou conforto no materialismo histórico e dialético.

Eu acho que era caso de se deixar de acreditar nos homens. Foi a humanidade que morreu um pouco naquele gol.

Que Lula, Marco Antônio e o juiz [aquele cujo nome não se pronuncia] carreguem o peso implacável do chumbo na consciência pelo resto dos tempos e por todas as vidas.

É essa, Mateus, a minha mais sincera opinião sobre o Lula.

Abraço.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O ALECRIM DE CAFÉ E MANÉ


Não imagino a vida sem livros. A frase é feita, tem a originalidade de um triangulo amoroso de novela mexicana, mas é absolutamente verdadeira. Tive, porém, na minha trajetória de leitor constante, algumas decepções. Faz parte.

Lembro, por exemplo, que ao ler o livro 1968 - O ano que não terminou, do jornalista Zuenir Ventura, fui tomado de enorme decepção e acabei despachando o volume, sem choro nem vela, a um sebo da Praça Tiradentes. Explico.

O jornalista faz um apanhado minucioso dos acontecimentos de 1968 no Brasil e no mundo, fala dos movimentos de contracultura, da luta contra o regime militar, dos antecedentes do AI-5, dos festivais da canção e outros babados. Ótimo.

Ventura ignora, porém, o fato mais relevante daquele ano na opinião desse modesto escriba: foi no dia 4 de fevereiro de 1968 que Mané Garrincha, a forma torta escolhida por Deus para passear entre os homens, usou a camisa 7 do Alecrim de Natal, em um amistoso contra o Sport do Recife.

A escalação do Alecrim naquela refrega histórica, que acabou sendo vencida pelo Sport por 1 X 0 , é de uma sonoridade digna dos maiores alexandrinos da língua: Augusto; Pirangi, Gaspar, Cândido e Luizinho; Estorlando e João Paulo; Garrincha, Icário, Capiba e Burunga.

Parêntese: esse deve ser o ataque mais inusitado da trajetória do grande Mané nos gramados: Garrincha, Icário, Capiba e Burunga é simplesmente sensacional. Fecha o parêntese e voltemos ao mote.

O Alecrim Futebol Clube é tradicionalíssimo. Foi fundado em 1915 por um grupo de moradores do bairro do mesmo nome e teve como um de seus primeiros goleiros um certo João Café Filho - que muito tempo depois ocuparia o segundo posto mais importante de sua vida [o primeiro, evidentemente, é ter guarnecido a meta do Alecrim durante um campeonato estadual] : a presidência da República.

É provável, aliás, que o Alecrim seja o único time do mundo a ter tido como goleiro titular um futuro presidente da República. Não tenho dúvidas de que, no Brasil, é o único. Ou alguém imagina Getúlio Vargas fechando o gol do São Borja e o Marechal Castelo Branco realizando prodígios, com sua cabeça descomunal capaz de cobrir toda a extensão do arco, na meta do Ferroviário do Ceará?

Não bastasse isso, em 1925, enquanto a Coluna Prestes marchava pelos sertões, o padre Cícero realizava milagres no Juazeiro e Lampião aterrorizava o nordeste com os seus cabras, o Alecrim conquistava um inédito título invicto do campeonato potiguar. Bicampeão, para ser preciso. O time, um dos maiores da história do Rio Grande do Norte, está na ponta da língua: Otávio; Lula e Pindaró; Foster, Zé Dantas e Nozinho; Zé Carlos, Garcia, Gentil, Deão e Miguel.

Com todos esses argumentos que rapidamente apresentei, reforço a indignação que motivou esse arrazoado: como é que Zuenir Ventura esquece de Mané Garrincha no Alecrim ao abordar o ano de 1968; um fato de importância histórica no mínimo similar às rebeliões estudantis, passeatas, festivais da canção e quejandos? Deus usou a camisa esmeraldina nos gramados do Rio Grande do Norte, e mais do que isso não há.

A letra do hino do Alecrim é a seguinte:

O hip hurra ao nosso bicampeão
Todo povo te saúda de alma e coração
Bate olé no gramado com o adversário seu
Alecrim Futebol Clube você é meu (Bis).
É voz geral da torcida potiguar
O negócio só tem graça se o Alecrim jogar
Dá gosto ver os meninos
traçando o bolão pra valer
Deixando o adversário
Sem nada pra poder fazer
Olé!



Abraços

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

LA CUMBIA DEL LOCO

O Botafogo não é para principiantes. Vem aí Sebastian 'El Loco' Abreu para comandar o ataque alvinegro. Concordo com a opinião [expressa aqui] do camarada Fernado Molica : Loco Abreu, marrento e de fato meio doido, pode dar certo com a camisa da estrela solitária. Malucos costumam funcionar bem na história do clube. Fiquem com a inacreditável Cumbia del Loco e imaginem só o que vem pela frente:

MORAR EM BÚZIOS? NEM PENSAR.


A moda agora, no mundo dos negócios, é falar em espírito de liderança, perfil empreendedor, capacidade de gestão e outros balacobacos. Sempre julguei não possuir nenhuma dessas qualidades; sou mesmo incapaz de organizar um simples piquenique em Paquetá.

Em 2010, porém, vou vender o meu peixe. Descobri, depois de profunda reflexão no final do ano passado, que tudo é questão de ponto de vista. Ao contrário do que supunha, tenho sim atributos de liderança, empreendimento e gestão. O problema é que manifesto esses talentos apenas em assuntos fúnebres. Sou um craque na gestão de velórios, enterros e quejandos.

Acho que esse pendor empresarial está relacionado ao meu perfil de orgulhoso finadista - nasci em um dia 2 de novembro, protegido por La Catlina [leiam aqui ]. Tenho uma relação com a velha da foice de absoluto respeito, muita zombaria e grande intimidade. Sou do babado.

Quando minha avó foi oló, por exemplo, cuidei da escolha do caixão. O corretor funerário, nome politicamente correto para papa-defunto, apresentou-me algumas opções em um book de fotos [a expressão foi dele] com urnas de todos os jeitos e com nomes incríveis: Copacabana, Leblon, Ipanema, Leme, Guarujá e Fernando de Noronha.

Na hora em que li os nomes, tive breve momento de confusão mental e achei que o sujeito quisesse enterrar minha avó dentro de uma piscina Tone, a alegria da garotada. Desfeito o engano, fui em frente.

Inicialmente me foi oferecida a urna Leblon. O caixão só faltava ter sonoplastia com diálogos das novelas do Manoel Carlos. Custava um tantinho a mais que o meu apartamento - era de fato mais luxuoso - e podia ser pago em vinte prestações.

Diante do risco da minha avó ressuscitar com o único objetivo de me enfiar a porrada se eu comprasse um caixão com aquele preço pornográfico, fui negociando até chegar ao caixão São João do Meriti e liquidar a fatura - era uma urna digna e dentro das possibilidades financeiras da família.

Lembrei disso porque algumas funerárias estão oferecendo agora um tal de modelo Búzios de caixão. A propaganda fala em design arrojado, revestimento em madeiras nobres do Brasil, mármore travertino romano, interior acolchoado, som ambiente e refrigeração interna - detalhes que reputo [o som e o ar condicionado] importantíssimos para o futuro do presunto. É, enfim, um caixão personalizado. Sai pela bagatela de cento e cinco mil reais.

Parêntese. Búzios é um troço sério. Não sei quem é o autor da sentença mais perfeita que li sobre o balneário: Um lugar em que nos anos sessenta o rico ia pra andar descalço e fingir que era pobre e hoje o pobre vai para fingir que é rico.

Impressionado com o caixão Búzios, fiz rápida pesquisa de mercado e descobri que existe na Alemanha um museu de cultura sepulcral que expõe caixões personalizados do mundo inteiro. O visitante pode, inclusive, comprar o seu caixãozinho. Tem em forma de tudo: caçamba de lixo, peixe, girafa, garrafa de coca cola [reparem a foto da postagem], submarino, forte apache, LP dos Beatles, nave espacial e telefone celular.

Não consegui definir o que mais me agrada - a princípio ser enterrado em um forte apache, vestido de índio do velho oeste, me pareceu interessante, mas pouco brasileiro para meu perfil de consumidor. A nave espacial merece exame mais cuidadoso.

Adiarei a decisão para mais tarde, por uns bons cinquenta anos, já que não tenho pressa em relação ao assunto e não pretendo morar em Búzios tão cedo.

Abraços