quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A VOLTA DO CRÍTICO

Tudo como dantes no quartel de Abrantes. Continuo sem internet em casa e agora o blog também ficou meio maluco. O marcador de comentários do texto mais recente - Carnavalescas - não está indicando quantas pessoas escreveram sobre o arrazoado. Basta, porém, clicar no link de comentários que os textos estão lá, devidamente publicados.

Feita a introdução, vamos ao que interessa. No meu antigo blog, o falecido Histórias do Brasil, comecei a exercer o ofício de crítico cinematográfico. Publiquei uma crítica sobre o filme Histórias que nossas babás não contavam, destacando a atuação soberba de Costinha, Adele Fátima e dos atores que representavam os sete anões bichas nesse verdadeiro clássico da pornochanchada nacional.

Resolvi retomar essa forma de exercer minha sensibilidade diante da telona e aviso aos navegantes que adquiri uma coleção de obras-primas do cinema canarinho. Só para dar um gostinho do que vem por aí: O Bem dotado, Homem de Itu [com Nuno Leal Maia e grande elenco] ; Aluga-se moças [ com sensível atuação da dupla Gretchen e Rita Cadilac] ; Ainda agarro essa vizinha [Adriana Pietro e Cecil Thiré estrelam o longa] ; A banana mecânica [genial atuação de Carlos Imperial] ; O libertino [com Costinha em grande fase] ; O homem de papel [com Milton Morais e Vera Gimenez, também conhecido como Volúpia de um desejo ] e Nos tempos da vaselina [com João Carlos Barroso e Kate Lira].

Vou - aos poucos - publicar as críticas que escreverei sobre essas películas. Para dar a partida, peço que os amigos leiam aqui o texto sobre o Histórias que nossas babás não contavam, minha estréia como crítico. Aguardem para breve o relato sobre O Bem dotado, homem de Itu , que assistirei atentamente no fim de semana. É isso.

Abraços

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

CARNAVALESCAS

Sou daqueles que consideram que um novo ano só começa após o Carnaval. Fiz, por isso, algumas promessas que pretendo cumprir em 2010. Uma delas é a de usar menos a internet. Só não contava com a colaboração brilhante da velox, que me deixou sem acesso à rede nos últimos dias. Ainda estou, diga-se , sem internet em casa - escrevo de uma lan house em Niterói, no intervalo de aula.

Nada melhor para começar o ano do que falar sobre o Carnaval que passou. A vitória da Unidos da Tijuca, por exemplo, reforçou minha convicção de que tenho talento para virar carnavalesco, conforme expressei nesse texto aqui .

O mago Paulo Barros colocou no mesmo desfile Nabucodonosor, a Biblioteca de Alexandria, Batman, o Homem Aranha, seres extraterrestres, Michael Jackson, mafiosos e uma ala de anfíbios similares ao sapo cururu e a perereca da vizinha.

Destaco ainda o belíssimo caixão de defunto, mais negro que as asas da graúna, de onde saia uma comissão de frente que homenageava Marco Nanini e Nei Latorraca no Mistério de Irma Vap. Acho apenas que a Tijuca poderia ousar ainda mais e desfilar com a trilha sonora da Pantera Cor de Rosa, incrementada por um DJ bissexual, no lugar do samba de enredo e da bateria, essas velhacarias ultrapassadas.

Já animado com o espetáculo tijucano, li ontem outra notícia que me entusiasmou em relação ao futuro dos desfiles: a Acadêmicos do Grande Rio deve vir em 2011 com um enredo sobre uma figura legendária do samba carioca; a apresentadora Hebe Camargo.

Acho um excelente enredo. Através de Hebe Camargo a escola de Caxias certamente fará um passeio pela história da República no Brasil. Uma ala, por exemplo, pode representar Hebe na infância, fugindo, com chupeta na boca e penteado maria chiquinha, do Doutor Oswaldo Cruz, durante a Revolta da Vacina de 1904.

A adolescencia de Hebe pode ser o mote para a lembrança da Revolta da Chibata e da Guerra do Contestado, durante o governo do Marechal Hermes da Fonseca. A morte de Pinheiro Machado; a Primeira Guerra Mundial; o nascimento do samba, do tango e do baião; a invenção do cinema falado, da pomada Minancora e do jogo do bicho; o voo do 14 Bis... eis um tremendo mote, com cheiro de título. Hebe, a testemunha da história encanta a Sapucaí, é o minha sugestão para o título do enredo.

Eu, com inveja da Grande Rio e dessa sacada da Hebe, vou mandar uma mensagem para o orkut de Paulo Barros com uma ideia de enredo que reputo espetácular: É Nelson !

Imaginem que tema criativo - falar de vários Nelsons que marcaram a história humana: Nelson Ned, Nelson Mandela, Nelson Cavaquinho, Nelson Rodrigues, o fofoqueiro Nelson Rubens, Nelson Piquet, Nelsinho Piquet, Nelson Motta, Nerso da Capetinga, Almirante Nelson [ o da Batalha de Trafalgar] , o outro Almirante Nelson [ do filme de ficção científica Viagem ao fundo do mar ] , Nelsinho Querido de Deus [lendário gigolô da casa de saliência de Consuelo, la índia paraguaia] e, para comover o público, o Nelson anônimo que mora em cada um de nós.

Admitam - é tema para sacudir a galera e ganhar o carnaval. Dá para descer a avenida com carros de fórmula 1, submarinos, escafandristas, anões cantores, monstros do oceâno abissal, canalhas, normalistas do subúrbio, Napoleão Bonaparte, caipiras, jogadores de rugby, militantes do movimento negro, navios de guerra e o escambau.

Quanto a São Clemente, vitoriosa no grupo de acesso com o desfile emocionante sobre o choque de ordem da prefeitura, sugiro em 2011 um enredo de grande efeito visual sobre os mistérios do oriente, com uma justa homenagem aos diretores da LESGA: Ali Babá e os quarenta ladrões. Um refrão com Abre-te, Sésamo! certamente empolgará a platéia e garantirá a boa colocação da simpática agremiação de Botafogo.

Abraços.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

OS ÍNDIOS QUE PROCURARAM A LUZ


No início dos tempos, os índios Carajás viviam no furo de uma pedra de rio , ao lado de seus parentes, os Javaés e os Xambioás. Conheciam a eternidade e só morriam, velhíssimos, quando ficavam cansados da vida - por opção, portanto.

Um dia foram seduzidos pelo canto de uma siriema que, de fora do furo da pedra, começou a falar das coisas da terra. Curiosos, alguns índios resolveram conhecer os mistérios do mundo em que a siriema viva. Quando atravessavam o furo, um índio mais gorducho, exatamente o que sugerira a expedição, entalou e não conseguiu passar. Os demais sairam pelo mundo.

Encontraram uma terra repleta de folhas, frutas, peixes e animais, mas mergulhada na mais absoluta escuridão. Lembraram do companheiro entalado e resolveram lhe levar frutas e um galho seco para tirá-lo do buraco.

Ao ver o galho seco, o índio entalado alertou que os companheiros estavam indo para um lugar onde as coisas envelheciam e morriam. Desiludido, alertou aos demais e resolveu voltar para dentro da pedra. Alguns o acompanharam e nunca mais foram vistos. Os outros iniciaram a peregrinação.

Um jovem índio - Kanaxivue - começou a percorrer, ao lado da amada Mareicó, a terra escura em busca de alimentos. Mareicó, no breu, feriu a mão nos espinhos de uma flor e desistiu da tarefa.

Kanaxivue prosseguiu. Sem enxergar quase nada, acabou comendo mandioca brava. Deitou-se passando mal. De imediato vários urubus começaram a dar voltas em torno de seu corpo. Discutiam se o índio estava morto ou não.

Na dúvida, convocaram o urubu-rei, o mais sábio de todos. A ave pousou na barriga de Kanaxivue para verificar se o jovem de fato morrera. O carajá recuperou o sopro da vida, pegou o urubu-rei pelas pernas e não o soltou. Exigiu, para libertá-lo, os enfeites mais belos.

O urubu-rei trouxe as estrelas.

O índio não se contentou, achou que o mundo continuava escuro e exigiu outro enfeite.

O urubu-rei trouxe a lua cheia.

O índio continuou achando a terra muito escura. Exigiu mais um enfeite.

O urubu-rei trouxe o sol.

A noite foi embora e surgiu o dia. Kanaxivue gostou. O urubu-rei ensinou ao índio e a sua amada Mareicó a utilidade de todas as coisas do mundo. Agradecido, Kanaxivue libertou a ave.

O carajá se esqueceu, porém, de perguntar qual era o segredo da vida eterna e da harmonia entre os homens, os bichos, as pedras, os peixes e as árvores. Quando gritou a pergunta, o urubu-rei, já em pleno voo, respondeu. As árvores, os bichos, os rios e as pedras escutaram a resposta. O índio não escutou.

Por Kanaxivue não ter escutado a última lição do urubu-rei, os homens, desde então, envelhecem e morrem. Os que ficaram no fundo da pedra continuam vivos. Não morreram, mas também não conheceram os enfeites belíssimos que o urubu-rei legou aos homens.

Hoje, com a natureza sendo destruída, a fome e a guerra campeando pelo mundo, o povo Carajá sonha com a tranquilidade da vida sem males e sem a morte, mas não sabe mais como encontrar a pedra original, perdida em algum lugar debaixo das águas do rio Macaúba.

Quanto a nós, que estamos provisoriamente por aqui, jamais conheceremos a última e mais profunda lição que o urubu-rei deu aos homens. É a miséria da nossa condição.

Em 1979, a escola de samba Unidos de São Carlos desfilou com um lindo samba sobre a odisséia dos índios que procuraram a luz.







quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

CARNAVALESCAS - DESTINO D. PEDRO II

Camaradas, esse espaço decreta, definitivamente, o início das festas de Momo. Não escreverei, até o final do furdunço, nada inédito nessas bandas. Aceitei a sujestão que me deram: relembrar alguns textos que escrevi no antigo blog sobre os sambas de enredo que me comovem, com mínimas modificações. Vou começar com um texto sobre um samba monumental, publicado originalmente no dia 18 de dezembro de 2008: 33 - Destino D. Pedro II. Dá licença:

O sujeito, quando é importante mesmo, não vira estátua. Sempre tive, quando criança, a impressão de que o negócio é virar nome de rua, avenida, rodovia, estádio de futebol com capacidade para 120 mil pessoas, ou então aparecer estampado no dinheiro - o que reputo como seríssimo. Durante muito tempo achei que o homem mais importante do mundo tinha sido o Barão do Rio Branco, cuja efígie marcou as notas de mil cruzeiros em tempos d´antanho. Vai ver que vem daí minha conhecida obsessão pela tumba do Barão, no cemitério do Caju - muito mais imponente que o Cristo Redentor.

Disse isso porque, na verdade, quero falar de D. Pedro II. Ou melhor, quero falar da Companhia de Estrada de Ferro D. Pedro II, inaugurada em 1855 com o objetivo de cortar o território brasileiro a partir da cidade do Rio de Janeiro - Município da Corte. Vejam a moral imensa do nosso segundo Pedro - virou em vida, aos 30 anos, companhia ferroviária.

O primeiro trecho da ferrovia, concluído nos idos de 1858, ligou a Estação da Aclamação, aqui no Rio, à Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Marapicu ( que hoje atende pelo horroroso nome de Queimados). Os trens percorriam a estação do Campo, Engenho Novo, Cascadura, Maxambomba (minha querida Nova Iguaçu) e chegavam então ao destino.

Pouco depois houve a extensão dos trilhos até a estação de Belém (atual Japeri). Daí em diante, a bichinha foi fazendo piuí-tictac-piuí, transpôs a serra, chegou a Barra do Piraí e tomou o rumo das Minas Gerais.

Quando a turma verde oliva e o pessoal do café proclamaram a República, em 1889, retiraram o nome de D. Pedro II da companhia ferroviária, que passou a se chamar Central do Brasil. Uma pena e uma indelicadeza com o velho imperador, brasileiro de boa cepa. Em 1975 a Central do Brasil virou Rede Ferroviária Federal S.A. . Hoje é a Supervia. Continuo chamando de Central e não discuto.

Mas mudar o nome, como diria o travesti Rogéria, é o de menos. Outros fizeram pior com a ferrovia, sucateada pácas e vítima preferencial da perspectiva rodoviarista que marcou o Brasil a partir da década de 1950 - em especial durante os anos JK, com a duplicação da rodovia Presidente Dutra (trocar D. Pedro II pelo Dutra, aliás, é um disparate). A importância da estrada de ferro diminuiu e desde então o negócio só fez degringolar.

Dizem que hoje a coisa está um pouquinho - só um pouquinho - melhor - mas o fato é que pelo menos até o início dos anos 90 o sufoco da rapaziada que dependia do trem pra se despencar da Baixada Fluminense até o Centro da Cidade do Rio, cortando o subúrbio e vivendo a experiência de sardinha em lata, não era mole. Meu avô dizia que o sujeito dentro do trem, na hora do pega pra capar (os mais descolados preferem a expressão a hora do rush) andava mais apertado que São Jorge na lua minguante - e acabava fazendo o papel do pobre do dragão, que fique claro.

Como, porém, é inerente ao ser humano produzir cultura e reinventar a vida, a coisa terminou em samba - e por essa eu garanto que D. Pedro II, mais chegado num minueto com a Condessa de Barral, não esperava.

Em 1984 a Em Cima da Hora, tradicional agremiação de Cavalcante, desfilou com o enredo 33 - Destino D. Pedro II. O relato sobre o cotidiano da população que depende do trem é comovente e difere completamente de uma certa tradição que marcou durante anos os enredos das escolas - as grandes efemérides, vultos nacionais, heróis da negritude, mitologias indígenas, obras literárias, natureza exuberante e por aí vai.

O negócio foi tão bonito e o defile tão emocionante (vamos sublimar em poesia / a razão do dia a dia/ pra ganhar o pão é das melhores definições sobre como transformar o perrengue em arte que conheço) que o hino cantado na avenida - dos compositores Guará e Jorginho das Rosas - acabou sendo gravado por Jovelina Pérola Negra. É comovente.

Salve (m) o trem e a rapaziada que depende dele !
..

SAMBAS, BOEMIA E VAGABUNDOS


Camaradas, o balacobaco de hoje, dia 10 de fevereiro, é quente. O Eduardo Carvalho, vinho de boa pipa, lançará o livro Sambas, boemia e vagabundos. Com prefácio do Cesar Tartaglia e apresentação do Fernando Molica, é uma compilação de textos do blog homônimo. A editora é a Multifoco e o lançamento ocorrerá na Avenida Mem de Sá, 126 - Lapa.
Eu conheço os textos do Eduardo, leio e recomendo.
Abraços.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

MAS QUE CALOR...


Finalmente temos um verão carioca típico. O sol racha a cúpula da Igreja da Candelária e o que tem de gente, sobretudo mulheres e frescos, dando siricotico no meio da rua por causa do calor não está no gibi. Ótimo.

Eu sou da seguinte tese: os últimos verões é que foram estranhos, com temperaturas amenas demais para o período. Esse, de fato, é um verão que honra o nome e deixa o cabra meio doido das ideias. Conheço gente que está cogitando até dar um migué de defunto anônimo, pra passar uma temporada na congelante sala de reconhecimento de corpos do Instituto Médico Legal.

Mesmo assim o carioca não pode reclamar. Podia ser pior. Tenho um amigo paulista que tirou da gaveta o escafandro do Falcon com barba para vestir o filho pequeno, no meio de tanta chuva. Enquanto isso, na nossa franquia do Senegal, temos o verão inteiro de sol e temperaturas balzaquianas: entre trinta e cinquentinha. O risco da canícula é que periga cair a qualquer hora uma daquelas pancadas de verão de fazer malandro gritar Noé, traz a arca...

Vejam o lado bom: o verão sacudiu a economia carioca. A Refrigeração Cascadura está vendendo tanto ventilador e ar condicionado que ainda acaba a estação com ações em alta na bolsa de Nova York. A fábrica das piscinas Tone, na Rua Tibagi, em Bangu, tem recebido mais peregrinos que a cidade sagrada de Meca no mês do Ramadã.

Parágrafo para esclarecer os que não são daqui: Bangu é o lugar mais quente do mundo. Com temperaturas batendo todo dia quarenta e tantos graus, dizem que até o Cabrunco se empirulitou, para ver se toma uma fresca em Marechal ou Realengo, ali pertinho.

O Mercadão de Madureira ganhou ares de alto forno da Companhia Siderúrgica Nacional . As lojas andam vendendo mais ventilador de teto que galinha de macumba. Ontem mesmo um conhecido meu, que frequenta o terreiro de Umbanda Cantinho de Pai Joaquim, pertinho do mercado, contou um troço impressionante. A história merece até um parágrafo separado.

Seguinte: um médium recebeu, durante a curimba do fim de semana, Seu Zé Pelintra. Até aí tudo em ordem; o fato é corriqueiro. Quando o cambono foi, porém, trazer as roupas de Seu Zé - terno branco, lenço de seda, chapéu panamá, sapato bicolor e outros salamaleques - o malandro mandou na lata: Não vou vestir nesse calor nem fudendo. Eu queria era virar estátua de Seu Tranca Rua, só de tanga e tridente. Dito isso, Seu Zé ameaçou fazer streaptease e ficar só de cueca. A intervenção firme da mãe de santo contornou a situação e convenceu o malandro a pegar leve.

Resumo da ópera: quando até Seu Zé Pelintra dispensa a indumentária, meus camaradas, é porque a coisa é à vera.

Mas vamos levando bem, na base de muito banho frio, já que ninguém aqui é lagoa pra refrescar bunda de pato. O negócio é pensar no calorão como homenagem aos grandes Haroldo Lobo e Nássara, cujos centenários estão sendo comemorados em 2010. É isso. A natureza conspira para louvar os maiores compositores de marchinhas de Carnaval de todos os tempos. Foram eles que fizeram, no verão de 1941, parecido com esse agora, o hino definitivo desses tempos de canícula: Allah-la ô.

Por aqui, ainda bem, quase tudo acaba em Carnaval:


Evoé!

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

QUEM QUER UM CARNAVALESCO?

Recebi este fim de semana um email curioso. Depois de tecer elogios ao meu desempenho como professor de História, a remetente diz que eu deveria ser carnavalesco ou, no mínimo, contratado para bolar enredos para as escolas de samba. Nunca tinha pensado nisso, mas a sugestão é tão boa que despertou em mim esse desejo. Bolei, inclusive, algumas propostas de enredo que pretendo apresentar às agremiações para o Carnaval de 2011. Quem sabe alguma escola topa? Vou abandonar o magistério, que não está com nada, e investir nisso. Listo as ideias que tive, de acordo com o atual momento das escolas de samba e com o objetivo de faturar uns caraminguás mais fortes:

-O pequeno mundo de Nelson Ned
. Pensei numa homenagem ao cantor, na atual onda dos enredos que homenageiam celebridades. Há o apelo social politicamente correto de se louvar um prejudicado vertical de sucesso. Ao falar de Ned, louvaremos todos os nanicos da história: Átila, o Huno, que tinha um metro e seis de altura; Ferrugem, o antigo apresentador de televisão que não crescia; os sete anões da Branca de Neve; Osni, ponta direita baiano que jogou no Flamengo com um metro e vinte; Napoleão Bonaparte com seu metro e meio de valentia... É um tremendo enredo. Só nesse rápido esboço já falamos de música popular, expansão dos hunos, televisão, futebol e Revolução Francesa.

- De Sevilha à Doença de Chagas: o Barbeiro faz a festa na Sapucaí. Hoje em dia está na moda o enredo que permite várias leituras. A Mocidade Independente de Padre Miguel, por exemplo, falará em 2010 de Paraíso. Vale tudo: Paraíso celeste, paraíso fiscal, paraíso natural e o diabo. Nós falaremos do barbeiro em todos os aspectos: o aparador de barbas, o péssimo motorista, o personagem da ópera, o inseto hemíptero hematófago causador da doença de Chagas, o peixe teleósteo também conhecido como acaraúna-preta e por aí vai.

- Os cavaleiros do Santo Sepulcro. Enredo histórico. A ideia é provar que alguns templários do século XV conseguiram descobrir onde, de fato, está a sepultura de Cristo. A resposta é surpreendente: Cristo foi enterrado na Ilha de Marajó. É um tema que permite a captação de recursos, já que pode ser patrocinado pelo governo paraense. É a chance rara de mostrar ao mundo a Ilha de Marajó e seus esplendores e incrementar o turismo na área.

- Jazigos e covas rasas - dos modestos túmulos ao esplendor das grandes sepulturas. Achei, sem modéstia, uma ótima ideia. Contar a história das formas de se enterrar mortos no Brasil permite um aparato visual de primeira linha. Penso numa comissão de frente representando os personagens de Incidente em Antares, o clássico de Érico Veríssimo. O momento culminante será o sétimo carro alegórico, reproduzindo o túmulo do Barão do Rio Branco, no cemitério do Caju - mais alto que o vão central da Ponte Rio-Niterói. Existe a forte possibilidade de captação de recursos junto a planos de auxílio funeral.

- Oi! É Claro que eu não Vivo sem você. Enredo sobre o mundo mágico da tefonia celular. O objetivo, evidentemente, é captar recursos de patrocínio que permitam um passeio pela história das comunicações. Começaremos com homens pré-históricos que se comunicavam dando cacetadas em troncos de árvores, falaremos de índios que faziam fogueiras para mandar mensagens e dos telefones feitos com barbantes e potes de danoninho. O carro final será um celular de neón de trinta metros de altura, em forma de coração.

- Eduardo Augusto Gonçalves; uma ode ao sonhador. Enredo em homenagem ao português radicado em Santa Catarina que, em 1915, criou a pomada anti-séptica Minancora. O nome é uma mistura de Minerva, a deusa grega da sabedoria, e âncora, para provar que a marca estava ancorada no Brasil. Além da pomada, Eduardo criou o Xarope Doméstico, o Lombrigueiras e o Remédio Minancora contra a embriaguez. Minerva, âncora, lombrigas, bêbados, Portugal, Santa Catarina... esse enredo promete.

- Hipoglós - Carinho e proteção que não se esquece. Se a Minancora não patrocinar o enredo, vamos de Hipoglós. Abordaremos a história da marca; a luta da humanidade contra as assaduras; a pomada que no Brasil socorre brancos, negros e índios numa festa mestiça; a história de que Pelé aplicava camadas de Hipoglós meia hora antes de entrar em campo; a cor branca da pomada como homenagem ao orixá Obatalá e outros babados. Vou puxar brasa para minha sardinha e confessar - já fiz até a letra do samba:

É carnaval
Arde a assadura inclemente
Mas não estamos sós
O Hipóglos é hidratante emoliente.

Todas as vezes
Que a fralda da criança for trocada
Combata a bactéria que há nas fezes [Ôh mulata!]
Aplicando Hipoglós com mãos de fada.

Sua fórmula contém o retinol
Com poder de alívio imediato
Uma dose de colecalciferol
E o excipiente petrolato.

A lanolina anidra é refrescante
Obatalá diz que o óleo é bom de fato
Tudo graças ao efeito estimulante
Do iodo propinilbutilcarbamato

Olha ele aí
Olha ele aí
Combatendo as assaduras
Na Sapucaí.

Alguém quer botar a melodia?

Evoé!

domingo, 7 de fevereiro de 2010

SAMBAS DE ENREDO POR MARCELO MOUTINHO

A revista Bravo! desse mês vem com um bonito texto do Marcelo Moutinho falando sobre os sambas de enredo cariocas e faz menção ao livro que Beto Mussa e eu escrevemos a respeito do assunto. Vale a pena reproduzir:

A preparação começava no finzinho da manhã. Primeiro, uma das pistas era fechada, atravancando ainda mais o trânsito já complicado do sábado. Quando se aproximava de uma da tarde, a polícia interditava toda a Carvalho de Souza. Em poucos minutos, a rua estaria tomada de gente. Todo Carnaval era assim. Madureira, principal centro comercial do subúrbio do Rio de Janeiro, cerrava as portas de suas lojas e parava para assistir à passagem do Bloco das Piranhas. Na rua, milhares de homens barbados metidos em vestidos de chita dançavam e cantavam, oferecendo um colorido espetáculo para o garoto que, de um dos sobrados, a tudo via com olhos úmidos de inocência e fascínio. O garoto era eu.
O Carnaval da minha infância é a imagem difusa desse desfile. As "piranhas" agarrando os incautos que passavam pela rua em trajes "normais". As latas de cerveja erguidas sobre as cabeças. Os vômitos nos postes de uns poucos que resistiam até tarde da noite. E, sobretudo, a música que movia e dava sentido à multidão: o samba-enredo. Berço do Império Serrano e vizinha de Oswaldo Cruz - o bairro sede da Portela -, Madureira sempre teve esse estilo de samba como trilha-sonora. Na absoluta maioria das casas, o disco com os sambas-enredo era comprado assim que chegava às lojas e girava na vitrola até que cada verso estivesse devidamente decorado. Começando, é claro, pelos hinos de Império e Portela.
Lá em casa não era diferente. Aos 8 anos, ao lado de minha mãe, saudei o circo repetindo o refrão de David Corrêa, Jorge Macedo e Norival Reis para a Portela: "Ó raia o sol o dindin / Suspende a lua dindin / Salve o palhaço / Que está lá no meio da rua". Dois carnavais depois, foi por conta de um samba-enredo que desviei da linhagem portelense da absoluta maioria da família e abracei a agremiação de meu pai. O Império, então, denunciava o progressivo gigantismo das escolas ("Super Escolas de Samba S/A / Super-alegorias / Escondendo gente bamba / Que covardia!") e, com Bum Bum Paticumbum Prugurundum, ganhou o título. Autores do hino, Beto Sem Braço e Aluízio Machado cruzaram o bairro em carro aberto, sob aplausos de uma impressionante aglomeração. Com o Império campeão e a Portela em segundo, Madureira chorou - mas de alegria. Naquele 1982, eu completava a primeira década da existência, cursava a segunda série primária num colégio do bairro da Piedade, passava as férias na Barra da Tijuca e certamente me apaixonei por alguma menina da escola. A lembrança mais funda, contudo, é do samba que varreu a cidade e acabaria se tornando clássico.
"É lindo o meu salgueiro"
Talvez como em nenhum canto do país, no Rio de Janeiro os sambas-enredo são, efetivamente, parte da alma da cidade: tocam nas rádios e nas ruas, tornam-se objeto de exaustiva discussão. Até a década de 1980, a seleta com os hinos das escolas vendia mais de um milhão de cópias por ano, entre LPs e fitas-cassete. Hoje, com a democratização da internet, essa demanda foi canalizada para os sites especializados e para o YouTube, que meses antes do Carnaval já disponibilizam as faixas dos sambas em MP3, além de vídeos com letra e melodia. Os aficionados, então, trocam arquivos e impressões.
A popularidade é tamanha que as torcidas dos clubes cariocas costumam levar trechos dos hinos para os estádios. Os versos "Explode coração / Na maior felicidade / É lindo o meu Salgueiro / Contagiando e sacudindo essa cidade", com o nome do clube da vez no lugar do termo "Salgueiro", são os campeões de audiência. Mas o Maracanã já ouviu muitos outros sambas, como É Hoje ("É hoje o dia da alegria / E a tristeza nem pode pensar em chegar"), da União da Ilha, e Chuê Chuá, as Águas Vão Rolar ("É no chuê, chuê, é no chuê, chuá / Não quero nem saber / As águas vão rolar"), da Mocidade Independente de Padre Miguel, este nos jogos sob chuva. Os alvinegros gostam especialmente de E Por Falar em Saudade ("Tem bumbum de fora pra chuchu / Qualquer dia é todo mundo nu"), da Caprichosos de Pilares, que faz uma menção direta ao clube ("Bota, bota, bota fogo nisso").
Os hinos são lembrados também nas rodas de samba que se espalham pelo Rio. Há, inclusive, o caso de um samba-enredo derrotado na disputa interna da escola e que acabou virando item recorrente no repertório dessas rodas. Estrela de Madureira ("E um trem de luxo parte / Para exaltar a sua arte / Que encantou Madureira"), de Acyr Pimentel e Cardoso, hoje é mais conhecido do que o hino que o Império levou à Av. Antônio Carlos em 1975. Muita gente ignora até mesmo tratar-se de um samba, originalmente, de enredo.
Estranho pensar que, quando as escolas começaram a surgir, suas exibições não se davam com uma composição alusiva à história contada na Avenida. No início dos anos 1930, época em que agremiações como a Estação Primeira de Mangueira e a Oswaldo Cruz (futura Portela) passaram a se apresentar na Praça Onze, o desfile se desenrolava ao som dos chamados 'sambas de terreiro', cujas letras retratavam o cotidiano da comunidade. Não havia conexão direta entre o que se cantava e o que se exibia.
Desfazendo (ou aprofundando) a controvérsia sobre qual teria sido o primeiro samba exaltar especificamente o tema definido pela escola, no recém-lançado Samba de Enredo: História e Arte, o escritor Alberto Mussa e o historiador Luiz Antonio Simas apontam 61 anos de República, de 1951. Segundo eles, embora tributário de experiências anteriores levadas a cabo pela Unidos da Tijuca, pela Portela e pela Mangueira, foi o hino de Silas de Oliveira para o Império que finalmente sintetizou o formato. No livro, os autores investigam as origens do samba-enredo, sua evolução formal e temática. Desmontam a tese de que os enredos nacionalistas que predominavam até os anos 1970 se deviam somente à imposição do governo, mostrando que as agremiações tomavam esse caminho também para conquistar aceitação social, legitimando-se frente ao Estado. E lembram sambas que acabaram soterrados pelo tempo, de escolas como Em Cima da Hora e Tupi de Brás de Pina.
"É pavão ou é veado"Mas o rigor da pesquisa não é capaz de solapar a memória afetiva. O salgueirense Mussa recorda-se, por exemplo, das manhãs em que ia à praia com a mãe ouvindo tocar, no rádio do carro, Onde o Brasil Aprendeu a Liberdade ("Cirandeiro, cirandeiro ó / A pedra do teu anel / Brilha mais do que o sol"), da Vila Isabel. O imperiano Simas conta que descobriu o duplo significado da palavra "veado" com o samba Sonhar com Rei dá Leão ("Sonhar com filharada é o coelhinho / Com gente teimosa, na cabeça dá burrinho / E com rapaz todo enfeitado / O resultado pessoal é pavão ou é veado), da Beija-Flor. E ainda hoje sofre quando escuta Invenção de Orfeu, da Vila Isabel, que remonta ao ano da separação de seus pais.
Apaixonado pelo assunto como os dois, curiosamente só fui sair na minha escola de coração em 1996 - e exatamente em razão de um samba-enredo. A Serrinha prestaria tributo ao sociólogo Herbert de Souza, já bastante debilitado, e o samba de Aluízio Machado, Lula, Beto Pernada, Arlindo Cruz, e Índio do Império era capaz de emocionar o mais frio dos homens. "Quero ter a minha terra, ô ô ô / Meu pedacinho de chão, meu quinhão / Isso nunca foi segredo / Quem é pobre tá com fome / Quem é rico tá com medo", dizia o refrão, e a cada audição me dominava o pavor de não participar de uma vitória imperiana - e com um grande samba. Faltando três dias para o desfile, telefonei para a quadra e comprei uma fantasia. Sozinho, sem conhecer ninguém da ala ou da escola, cheguei à Avenida. Procurei fantasias iguais à minha e, ao encontrar, fiquei por perto, esperando o momento de entrar. Ao pisar na Sapucaí, desabei no choro.Ali, na presença de componentes com quem nunca sequer conversara, na cadência singular daquela bateria, naquele belo samba, não havia apenas uma lírica e contudente crítica social. Ali, estava a casa da minha bisavó, estava o primeiro amor num parquinho de Madureira, estava o meu pai. Até hoje, a cada vez que entro na quadra ou desfilo no Império, sinto como se estivesse com ele, a barriga inflada de chope, o Hollywood no bolso da camisa. Escutar os sambas do Império são meu modo de vencer tardiamente o câncer que o derrotou, de tê-lo novamente comigo. E restaurar uma nesga de ilusão que, como um dia cantou a Vila, ajuda a dar "razões pra vida tão real da quarta-feira".

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

CARNAVAL NA FRANÇA

Tem cada maluquice que eu vou te contar. Semana passada dei uma pequena entrevista, com meu camarada Beto Mussa, sobre a decisão do Ministério Público que liberou o uso de imagens religiosas nos desfiles das escolas de samba. Saiu no Jornal do Brasil de quarta feira.
Para minha completa surpresa recebi por email a informação de que dois importantes jornais franceses publicaram a coisa nas edições impressas e virtuais. Para ler as matérias é só clicar aqui e aqui .
Depois dessa só me resta publicar de novo, com pequenas mudanças, um texto que escrevi em 2006 em homenagem ao Carnaval e a um antigo professor de Francês. Lá vai:

Ninguém no mundo fedia mais que o meu professor de francês, o Patrick. Coisa impressionante. Só lembro de cheiro parecido quando, num calor de 45o , em um carnaval no início dos anos 80, o Manoelzinho Mota saiu fantasiado de faraó Ramsés II e passou da sexta-feira gorda à quarta-feira de cinzas com a mesma roupa, sem lavar sequer as mãos um único dia.
Mas o Patrick, como eu dizia, era um caso sério. Francês, pinta de intelectual, cheio das frescuras. Fedia como um gambá. Parecia honrar a memória do rei Luís XIV, que passou mais de cinquenta anos sem tomar um único banho, limitando-se a paninhos úmidos que atenuavam seu majestoso futum.
Falei do Patrick e, imediatamente, me lembrei do corsário Dugay-Trouen, o francês que, no início do século XVIII, apareceu por aqui com uma cacetada de navios de guerra e piratas da pior espécie e declarou que a cidade do Rio de Janeiro estava sequestrada. O governador, quando soube do sequestro, picou a mula e a população teve que se virar para pagar o resgate exigido pelo mequetrefe dos sete mares.
Uma testemunha desse episódio, o alferes João Alves de Lobato, lugar-tenente do alcaide, escreveu uma carta aos membros da câmara dos homens bons clamando por uma intervenção que tirasse os piratas franceses do Rio de Janeiro, argumentando que a população não aguentava mais o cheiro podre que os gauleses espalhavam pela Guanabara. Sequestro tudo bem, mas aquela fedentina não.
Dugay-Trouen deixou o Brasil, após receber o resgate, falando horrores dos trópicos e exaltando a civilizada França. O Patrick, por sua vez, também passava a maior parte das aulas cagando uma goma violenta sobre as maravilhas de Paris e defenestrando os hábitos cariocas. Esculhambava o nosso metrô, com suas modestas linhas 1 e 2, exaltando o monumental metrô parisiense. Como dizia minha avó, era um bom sujeito, mas metido a limpar cocô de galinha com colher de prata. E fedia, como fedia...
Um dia o Patrick declarou que voltaria a Paris em curto espaço de tempo, tendo por isso que deixar a turma. A rapaziada, que no fundo gostava (de longe) do monsieur, fez uma festinha de despedida. Clima amigável, boas recordações, comes e bebes e outros salamaleques.
Como somos um povo gentil, quase todos os alunos levaram lembrancinhas pro mestre, eu inclusive. Na hora da despedida, entreguei ao conterrâneo do queijo roquefort uma fita com noventa minutos de música. Falei pro caboclo:
- Professor, gravei uma fita com nossas músicas pro senhor sempre se lembrar do Brasil.
Ele agradeceu sinceramente comovido.
Nunca mais o encontrei. Imagino, porém, que a fita não tenha agradado muito. O que gravei? Bossa nova, sambas, choros e outros ritmos do patropi? Nem a cacete. Numa atitude digna de um devoto do espírito de porco, gravei uma única canção, uma marchinha carnavalesca, repetida mais de vinte vezes, a genial Paris , da dupla Alberto Ribeiro e Alcyr Pires Vermelho, composta para os jogadores canarinhos que foram à Copa do Mundo da França e gravada pela Carmen Miranda em 1938.
Pausa. Eu ia colocar agora a letra da marchinha, mas vejo que cometi um erro. Chamei o escrete de 38 de canarinho. Não era canarinho. A seleção ainda usava a camisa branca. Só passamos a usar a amarela em 1954, após concluírmos que a branca tinha dado azar e sido a verdadeira responsável pela derrota em 1950. Agora sim, a letra:
E eu também quis ir um dia a Paris
Pra conhecer o que havia lá
E ao ver o metrô a saudade apertou
E vim correndo pra cá
Paris ! Paris!
Teu rio é o Rio Sena
Paris! Paris!
Tem loura mas não tem morena
Que lindas mulheres de olhos azuis
Tu és a Cidade Luz
Paris, Paris, je t´aime
MAS EU GOSTO MUITO MAIS DO LEME
!
Quando cheguei de alegria chorei
E achei o Rio lindo como que
Disquei 43-0023
- Amor, como vai você?
Pois é queridos, foi a minha pequena e implicante vingança e, ao mesmo tempo, acreditem, uma forma de homenagear o mestre fedorento.
Mais importante que isso foi ter sabido, tempos depois, que essa é a marchinha predileta do grande Tiago Prata, o maior conhecedor do gênero em sua geração, já que pesquisa marchinhas desde os seis anos de idade.
Ah! Chegamos em terceiro lugar na Copa de 1938; o Leônidas da Silva comeu a bola mas não deu pra ganhar o caneco. A saudade do Leme falou mais alto no peito da rapaziada.
Evoé!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O CARNAVAL E A MARCHA DA CUECA

É impressionante como algumas marchinhas carnavalescas se incorporam ao imaginário do sujeito feito o Padre Nosso para cristãos. Invenção carioquíssima, a marchinha é a crônica cantada, serelepe, ágil, sacana, vez por outra lírica, da nossa gente. Sou fã absoluto do gênero.

Sei de gente que se comove na época do Natal com o os Meninos Cantores de Petrópolis cantando Noite Feliz. Outros, mais caipiras, sentem o peito doer nas festas de São João, ao som de O balão vai subindo. Conheço até um sujeito meio fresco que chora na Páscoa quando escuta o coelhinho se eu fosse como tu. Eu, triste carnavalesco que sou, costumo chegar às lágrimas com a imortal Marcha da Cueca, uma espécie de Marselhesa dos países baixos, composta por Carlos Meneses, Livardo Alves e Sardinho [obra dessa dimensão não poderia mesmo ser fruto de uma única pessoa] :

Eu mato, eu mato
Quem roubou minha cueca
Pra fazer pano de prato.
Minha cueca
Tava lavada
Foi um presente
Que ganhei da namorada

A Marcha da Cueca traz tremendas recordações e a lembrança, especialíssima, de um episódio que moldou, em certo sentido, meu caráter. Até escrevi certa feita sobre o fato em algum canto do antigo blog. Rememoro o evento.

Tinha eu catorze anos de idade quando ganhei uma cueca espetacular - cor de laranja, com uma máquina fotográfica no meio e a frase definitiva : Olha o passarinho. Foi presente da minha mãe. Aliás, minto, não foi minha mãe. Ganhei a cueca da minha tia Lita.

Passou a ser minha cueca predileta, que usava com constância pouco recomendável. Mais do que predileta, a cueca me dava era uma sorte violenta. Não cheguei ao ponto de D. João VI, que usou uma única peça de baixo por oito anos, mas é meu dever confessar que as outras cuecas perderam a importância diante daquela.

Eis que um dia, sintam meu drama, fui jogar futebol com a garotada na Casa do Minho, clube português situado em Laranjeiras. É evidente que estava usando a cueca, garantia absoluta de um desempenho brilhante nas quatro linhas.

Sempre fui, e a pausa é necessária, homem-gol. Dotado de insuspeita habilidade com a criança nos pés, era um dos primeiros escolhidos no par ou ímpar. Balançar as redes adversárias, para mim, era mato.

Pois bem , voltemos ao cenário do drama. Começa o jogo. O beque adversário faz uma marcação firme para conter minhas arrancadas mortíferas. Subitamente sou assaltado por uma necessidade vigorosa de ir ao banheiro. Estou entre amigos, peço rápida substituição e dirijo-me célere aos vestiários.

Chegando lá, em situação emergencial, busco a privada com o fervor de um muçulmano peregrinando à Meca. Já no trono, sinto o alívio vital da evacuação, caudalosa como um Amazonas barroso.

Terminada a tarefa, busco agir com rapidez para voltar ao cenário do confronto. Há , porém, um grave problema. Onde está o papel higiênico? Não está. Não há. Toalha de rosto? Não há. Não existe rigorosamente nada que possibilite a higiene pós-apoteose fecal.

Volto ao jogo naquelas condições? Nem pensar.

Me ocorreu então a única e dolorosa saída - sacrificar a cueca.

Dotado de tristeza profunda, vivendo uma espécie de escolha de Sofia, sacrifiquei a bichinha em nome da manutenção da dignidade pessoal do artilheiro. Me limpei com minha peça de estimação, maculando para todo sempre o olha o passarinho.

Após o ato cometi o ilícito: Zuni a cueca pela janela do banheiro, que dava para o pátio do prédio vizinho. Lavei as mãos - sempre fui educadíssimo - e voltei ao jogo. Tive uma atuação discreta, apagada mesmo, naquele dia.

Acho que é por isso que a Marcha da Cueca me deixa, com a licença do poeta, comovido feito o diabo. A cueca da marchinha, que virou pano de prato, passou a ser a dolorosa lembrança da outra, que virou papel higiênico. Saudade, teu nome é Carnaval !


Evoé