sexta-feira, 26 de março de 2010

A PÁTRIA DE PRONTIDÃO

Saiu na edição de hoje de O Globo, na parte de Opinião [página 7 do primeiro caderno], um pequeno artigo meu sobre futebol e quejandos. Reproduzo abaixo o texto:

A PÁTRIA DE PRONTIDÃO

Até as pinturas rupestres da Serra da Capivara sabem que a Copa do Mundo transcende o futebol. De 1930, quando Uruguai e Argentina disputaram uma final que honrou as pancadarias entre os velhos caudilhos do Rio da Prata, até hoje, não há um mundial de futebol que não tenha misturado a bola e a política em proporções pouco recomendáveis.

O uso do esporte como instrumento de propaganda nacionalista é recorrente na maior parte dos países – e não custa lembrar que a Copa da África do Sul será disputada em um ano eleitoral no Brasil. Não é preciso o dom da profecia para prever que, em breve, candidatos a todos os cargos eletivos, alguns tão versados em futebol quanto o poodle da minha vizinha em física quântica, encarnarão a pátria de chuteiras.

Exemplos não faltam. A Copa de 1974, disputada na Alemanha Ocidental e vencida pelos donos da casa, é um prato cheio. Foi a primeira que contou com a participação de uma seleção da África subsaariana. A honra coube ao Zaire, governado pelo ditador Mobutu Sese Seko. O déspota, que dentre outros atributos se considerava descendente de leopardos da savana, exigiu dos atletas um desempenho de espantar o mundo – sob ameaça de prender o elenco inteiro na volta ao país.

O desempenho da seleção zairense acabou sendo mesmo espantoso, ainda que não exatamente no sentido pretendido pelo leopardo em chefe. O time perdeu de 2X0 da Escócia, tomou um acachapante 9 X0 da Iugoslávia e despediu-se com uma derrota por três gols a zero para o escrete brasileiro. O placar, entretanto, ficou na medida justa. Mobutu, depois da surra tomada contra os iugoslavos, havia declarado que uma derrota por mais de quatro gols para o Brasil seria passível de pena de morte para o elenco. O três a zero manteve o Brasil na Copa e os jogadores do Zaire vivos.

A delegação do Brasil àquele certame, por sua vez, refletiu os anos de chumbo da ditadura e, de certo modo, propõe uma questão para a Copa de 2010. Entre coronéis, capitães, tenentes e majores, mandamos um verdadeiro contingente militar para coordenar o escrete nos gramados da Alemanha. O encarregado da segurança dos jogadores, o Capitão Guaranys, era homem de poucas palavras e indefectíveis óculos escuros, que não tirava nem para dormir. No fim das contas, não se sabe se tínhamos um time de futebol ou um regimento de infantaria. O hotel em que a equipe se concentrou mais parecia uma casamata da Segunda Guerra Mundial. Para piorar, o técnico Zagallo, embalado pelo clima de bunker, deu chiliques em entrevistas quando perguntado sobre a surpresa tática do carrossel holandês – A Holanda, aliás, acabou nos eliminando.

Esperemos que em 2010 a coisa não desande e o escrete traga o caneco. O técnico Dunga dá toda a pinta de que pretende manter os jogadores isolados na concentração. O homem até que tem lá suas razões. Dunga quer evitar o furdunço, de enrubescer o próprio deus Dionísio, em que se transformou o hotel da seleção brasileira no fiasco de 2006. É justo.

Há, porém, que se evitar a fuzarca com discernimento, sob pena de repetirmos as maluquices de 1974. Os exórdios nacionalistas, piripacos moralistas e delírios religiosos, tão ao gosto da atual cúpula da seleção e de alguns atletas que crêem que o próprio Jesus Cristo vestirá a camisa canarinho na África do Sul, não garantem necessariamente bons resultados e geram momentos, quase sempre, ridículos. Evitar que um treino da seleção mais pareça um piquenique em Paquetá, como ocorreu em 2006, não significa reproduzir o aparato de bunker que houve em 74.

Nunca é demais recordar a frase de João Saldanha, atribuída a Neném Prancha: Se concentração ganhasse jogo, o time da penitenciária seria campeão. E, acrescento eu, as freiras carmelitas descalças, concentradas em regime de clausura, bateriam um bolão.


Luiz Antonio Simas



sábado, 20 de março de 2010

AD IMMORTALITATEM


Ando meio preocupado com a situação da Academia Brasileira de Letras. A morte do imortal José Mindlin suscita  dúvidas sobre os  candidatos ao fardão. Não vejo, no horizonte, nenhuma candidatura confirmada que até agora honre a casa de Machado de Assis. É por isso que lanço uma campanha cívica. A ABL deve preencher a vaga de Mindlin com um nome expressivo da cultura brasileira e, por que não, mundial. Há excepcionais opções no pedaço. Segue a minha lista de candidatos: 

INRI CRISTO - Candidatura imbatível. INRI Cristo é autor de uma série de parábolas que denotam pleno domínio da língua portuguesa e guardam profundas lições de vida.  Suas participações em programas de televisão, jogando sinuca com o Padre Quevedo, caminhando sobre as águas de um parque aquático em São Paulo e andando de montanha russa com  discípulas, fortalecem a imagem de um candidato antenado com o mundo. INRI, inclusive, tem perfil no orkut, conta no twitter e reescreveu o Pai Nosso, a mãe de todas as orações. O site do candidato, dos melhores da internet, pode ser visto aqui .

PROFESSOR WANDERLEY LUXEMBURGO - Excelente opção. O professor Luxemburgo é autor de dois clássicos: É Campeão! e Profissão Campeão. Além do reconhecido talento com as palavras, Luxemburgo é um ícone da moda, com seus ternos bem cortados e sapatos italianos. Honrará, portanto, o fardão dos imortais, podendo, inclusive, utilizá-lo para dirigir suas esquipes em jogos de gala. O vocabulário rebuscado que utiliza nas entrevistas coletivas após as partidas é também um prova de apreço pela última flor do Lácio.

PEDRO BIAL - Pedro Bial tem credenciais para a imortalidade. É autor de uma alentada biografia  do nosso companheiro, o jornalista Roberto Marinho. Escreve ainda os textos lidos durante os paredões do programa Big Brother Brasil. É dono de uma prosa sofisticada, que lembra vagamente o estilo de Eleanor H. Porter, a autora de  Poliana, a moça. Bial poderá realizar os paredões da ABL durante o tradicional chá dos imortais. Proponho, desde já, que este seja o critério para a mudança de cadeiras na casa. O derrotado no paredão sai direto do chá, em um féretro oblongo, para o mausoléu da academia, no agradável cemitério de São João Batista. Garanto que a ABL, com a instauração do paredão do Bial, ganhará popularidade jamais vista entre nosso povo, se transformando  numa instituição cada vez mais atraente para a juventude canarinho. Proponho ainda que o primeiro paredão inclua o imortal José Sarney.

PAULO BARROS - O carnavalesco merece a vaga pela sinopse do enredo É Segredo, da Unidos da Tijuca em 2010. A ideia original foi do menino Vinícius Ferraz, de quinze anos. Barros se inspirou no estalo do infante e redigiu o texto, com referências a Nabucodonosor, Batman, Robin, Nero, Al Capone, o Homem Aranha, extraterrestres, Michael Jackson e o sapo cururu da beira do rio. Ao escolher o carnavalesco como imortal, a ABL passará a ter dois magos, dois paulos, em seus quadros: O Barros e o Coelho.

ANDRÉ LUIZ, O ESPÍRITO - André Luiz é  o espírito que ditou para o médium Chico Xavier obras como Nosso Lar, Sol nas almas,  Obreiros da vida eterna e Sexo e destino. Ninguém descreveu com mais precisão e rigor estilístico a vida no além túmulo. Considerando-se que a ABL é a casa dos imortais, a escolha de André Luiz é mais do que natural - já que o autor passou a escrever depois de morto. A se pensar, apenas, como fazer a cerimonia de posse de um espirito e a viabilidade de se colocar o fardão em um fantasma.

ZAYDAN ALKIMIN - Este é o candidato ideal para a Academia entrar na era da diversidade cultural. Zaidan é o autor de, pelo menos, dois clássicos: O livro vermelho da Pomba Gira e Zé Pelintra: dono da noite e rei da magia. Os livros são recordistas de vendas nas lojas do Mercadão de Madureira e ensinam varios ebós de amarração, sucesso no emprego, aumento do charme pessoal e como se sentir bonita com o auxílio da Cigana da estrada - se aproximando, portanto, das reflexões do imortal Ivo Pitanguy sobre os mistérios da beleza.


APÓSTOLO ESTEVAM HERNANDES - O líder da Igreja Apostólica Renascer em Cristo, marido da Bispa Sonia e mentor espiritual do jogador Kaká,  é escritor alentado e pródigo. Escreveu , dentre outros livros, Como não morrer no deserto, Desafiando o impossível  e As 7 leis espirituais da colheita. A eleição do apóstolo também se justifica pelo fato de que Estevam, assim como Chico Buarque de Holanda, é escritor, compositor e cantor.  São de sua lavra canções como Pé na areia, Congestionamento, Parede branqueada, Mosca, Esperança, Alfa e Omega, Há uma unção e Apocalipse now. A imortalidade de Estevam pode, também, atrair para a ABL o apoio do importante segmento neopentecostal do país. Os louvores musicais do apóstolo podem ser escutados aqui .

PRESIDENTE LULA - Lula é candidato natural a qualquer coisa, de síndico do meu prédio a Papa. Seus discursos sobre a paz no Oriente Médio lembram os melhores momentos do Sermão da Montanha e justificam a imortalidade. Mostram, também, que o presidente estudou profundamente a questão árabe-israelense e concluiu que a solução é simples como a propaganda do Banco Itaú - aquela com dois menininhos - um judeu e um palestino - que desistem de brigar e viram amigos porque estão com a camisa da seleção brasileira. Vamos distribuir milhões de camisas do escrete, acabar de vez com o furdunço e consolidar a nossa sofisticada política externa. A ABL, que contou em seus quadros com o presidente Getúlio Vargas, não pode prescindir do cara.

Abraços.

sexta-feira, 12 de março de 2010

ALUGA-SE MOÇAS - O FILME


Eis uma tarefa impossível: Apontar qual é a maior atuação feminina da história do cinema brasileiro. Há quem vote no desempenho de Fernanda Montenegro em Central do Brasil. Outros - como este escriba - destacam Sonia Braga em A dama do lotação. Não há como negar, entretanto, que o desempenho de Gretchen no filme Aluga-se moças é um marco na história da sétima arte. Falemos dele.

O filme, a começar pelo título que subverte, com nítida inspiração nos experimentos linguísticos de Guimarães Rosa, as regras básicas de concordância na língua portuguesa, é um primor. Aluga-se moças é, de fato, provocativo e genial.

O elenco feminino é o destaque da obra. Gretchen, Rita Cadillac, Índia Amazonense, Lia Hollywood e Tânia Gomide interpretam as moças inocentes que, vítimas das injustiças  do modo de produção capitalista, acabam tendo que trabalhar em um bordel de luxo para sobreviver com o mínimo de dignidade.

Gretchen, em grande forma, faz o papel de Beth Lara, uma strip-girl que sonha em ser cantora e tem a chance de sua vida quando é aprovada em um teste fotográfico para promover a coleção de peças íntimas da loja Crazy Shirts.

A atriz demonstra, em praticamente todas as cenas, intimidade surpreendente com a câmera. A sensualidade de Beth Lara é o tempo todo pontilhada por certa melancolia que Gretchen apenas insinua, em gestos contidos e olhares de solslaio, dando ao personagem a obliquidade que a trama propõe e o diretor Deni Cavalcanti explora com segurança. 

Não é, passa longe disso, uma atuação naturalista. Gretchen usa referências do estruturalismo lacaniano, do concretismo histórico, da escola dadaísta, do surrealismo de Dali, de elementos pós-brechtianos, da estética visceral das pinturas rupestres do homem da Serra da Capivara e do pós-futebol de Carlinhos Itaberá, Darinta, Cremilson e Cafuringa, para compor uma Beth Lara marcada pelo conflito entre o desejo e a dor - poderosa metáfora da luta entre Eros e Tanatos.

O contraponto de Beth Lara é estabelecido pela personagem Marli, em atuação apenas correta de Tânia Gomide. Marli é amiga de Cláudia, personagem interpretada com um vigor talvez exagerado por Índia Amazonense, e tem a sua virgindade entregue ao galã Odair - aqui é nítido o desempenho um pouco acima do tom de Marcelo Coutinho.

As nuances da personagem Paula, melhor amiga de Beth Lara, são bem exploradas por Rita Cadillac, que consegue se desvencilhar [ e isso é uma marca das grandes divas ] da imagem consagrada de assistente de palco do comunicador Abelardo Barbosa.

Um último detalhe: Vale a pena reparar na cena em que, durante as prévias de uma suruba no bordel de luxo, aparece o homem de imprensa Álvaro Costa e Silva, o Marechal, como o garoto menor de idade que suborna o leão de chácara do lupanar para viver o sonho de comemorar o aniversário numa casa de amores urgentes. O desempenho de Marechal, que abandonou as telas e palcos ao entrar na faculdade de comunicação social, deixa a certeza de que o Brasil ganhou um grande jornalista mas perdeu um ator de mão cheia.



sábado, 6 de março de 2010

O LIBERTINO


Dia desses fui a uma locadora de filmes e perguntei a um funcionário se a casa tinha no acervo O Libertino. Ele respondeu positivamente e foi buscar o dvd. Para minha decepção, o que a locadora tem é um filme inglês de 2004, dirigido por um tal de Laurence Dunmore e estrelado por Johnny Deep.  Conta, em resumo, a história de um poeta boêmio do século XVII, John Wilmot, que escrevia obras satíricas e era chegado num rabo de saia.

O Libertino que eu procurava, evidentemente, era outro. Me referia ao clássico brasileiro de 1973, dirigido por Victor Lima e estrelado pelo grande Lirio Mário da Costa, o Costinha. Depois de longa procura, finalmente assisti por esses dias ao filme e asseguro: É uma das maiores atuações de um ator na história do cinema.

O filme conta a história do Comendador Emanuel, um senhor de respeito, muito religioso, conduta exemplar, líder histórico da Marcha da família com Deus pela liberdade, que inicia uma cruzada moral contra a pornografia. Um papel, como se percebe, talhado para Costinha.

Em virtude de alguns problemas financeiros, o velho comendador aluga sua mansão para um colégio de moças. O tal do colégio, porém, é  a fachada para o funcionamento de um puteiro de primeiríssima qualidade. O comendador, após o choque inicial [com direito a um pirapaco que exigiu de Costinha um nível de dramaticidade pouca vezes visto no cinema nacional] começa a gostar do babado e se revela um velho safado, libertino e onanista compulsivo. 

O desempenho do velho Costa no papel de comendador vale o ingresso. Na primeira metade do filme, em que o comendador ainda é o linha-dura moralista, Costinha opta por uma interpretação intimista, de gestos minimalistas e contidos, dialogando com a câmera com a sutileza dos que dominam o ofício.

Aos poucos, o processo de transformação do comendador em velho tarado explode num manancial de tensões que, outrora sugeridas, são exacerbadas com rara sensibilidade. Mestre nas expressões faciais que bordam os silêncios entre as falas, Costinha insinua no olhar toda a contradição que  revela o conflito interno entre o linha-dura e o devasso. 

Mostrando total controle de seu ofício, o ator faz também, para dar conta das complexidades do personagem, vasto uso de referências interpretativas e citações que englobam Carlos Lacerda, Dom Helder Câmara, Febrônio Índio do Brasil, o Almirante Penna Boto, Ted Boy Marino, D. Pedro I, Tiradentes, Cara de Cavalo e o chefe Touro Sentado.

Uma cena, em especial, merece destaque. Costinha, de terno, gravata e binóculo, observa, escondido entre os galhos de uma árvore, as bundas das raparigas em flor. A tomada só encontra similar no cinema mundial - pela sofisticação erótica sugerida - na famosa cena da manteiga entre Marlon Brando e Maria Schneider no Último tango em Paris. Simplesmente antológica.

Por tudo isso que  vai exposto acima - e, evidentemente, pelas moças do elenco de apoio - é que esse crítico sugere a qualquer novato que pretenda seguir a carreira artística que estude, veja, reveja, veja de novo, a notável atuação de Costinha em O Libertino. Vale mais  do que duzentos cursos e mil aulas teóricas.

Abraços.

quinta-feira, 4 de março de 2010

ARARIBOIA MERECE SER ENCARADO


Como trabalho em Niterói, vejo praticamente todo dia a estátua do cacique Arariboia - olhar enfezado e braços cruzados - mirando o Rio e Janeiro com cara de poucos amigos. O cacique, como se sabe, era o chefe da nação Temiminó - que saía na porrada com grande constância contra os tupinambás que viviam do outro lado da Baía da Guanabara.

É ótimo conhecer um pouco da história das pancadarias entre Temiminós e Tupinambás para romper de vez com a visão romântica, e historicamente equivocada, do índio brasileiro como um homem pacífico, integrado à natureza, respeitando a mata, os rios e os animais. Uma ova.

Índio saía no cacete com índio o tempo todo, numa espécie de FlaXFlu de tempos imemoriais. Um goytacá se sentia tão distante de um tupiniquim como de um japonês e um temiminó se achava tão diferente de um cariri como de um viking escandinavo - na mesma proporção de como eu me acho de uma nação diferente dos fãs da  dupla Zezé di Camargo e Luciano e dos torcedores do São Paulo Futebol Clube.

Os nossos primeiros habitantes também eram chegados a tacar fogo em mato e floresta para facilitar a coivara e  caçar a bicharada que se desentocava em desespero para fugir das chamas. Warren Dean, em seu estudo monumental sobre a Mata Atlântica [A ferro e fogo], mostra que o papel dos nativos na devastação foi maior do que supõe nossa vã filosofia.

Gosto de descrever em sala de aula esse perfil nada romântico do nativo brasileiro - uma espécie de anti- Pery. É o caso daquela velha indagação. Os bandeirantes atacavam índios para escravizá-los. E quem eram, majoritariamente, os bandeirantes? Eram índios e descendentes de índios. Domingos Jorge Velho, o filho de índia que atacou o quilombo dos Palmares, sequer falava português.

Mesmo espanto causa a simples menção ao fato de que no Quilombo dos Palmares vigorou em escala significativa o trabalho escravo e a constatação de que há inúmeros exemplos de escravos que, ao juntar uns caraminguás como negros de ganho, adquiriam escravos. O Brasil, de fato, não é para principiantes - tivemos escravos que foram donos de escravos. É mole? , como diria meu ex-professor no IFCS, Manolo Florentino.

Mas voltemos aos índios. Eu, particularmente, sou fã dos Goytacá. Não queriam contato com ninguém, detestavam qualquer um que não fosse da tribo e, como se não bastasse, eram nadadores monumentais e pescavam tubarões em Atafona, onde o Rio Paraíba encontra o mar, na base da porrada, com um simples pedaço de madeira para travar a boca da fera.

Defendo, também, que a prefeitura do Rio de Janeiro erga na Praça XV, de frente para Niterói, uma estátua de vinte e tantos metros do chefe Cunhambebe; terrível canibal, líder tupinambá e inimigo de morte dos temiminós. Colocar um monumento a Cunhambebe de frente para o monumento a Arariboia - separados apenas pelas águas da Guanabara - seria a maior das homenagens aos guerreiros dos dois lados; homens valentes, contraditórios e muito distantes desses índios bundões e ecologistas precoces que os livros didáticos teimam em divulgar.

O olhar furioso de Arariboia merece encontrar o olhar furioso de Cunhambebe. Se assim fosse, e se estátuas se movimentassem, garanto que um discreto sorriso de satisfação brotaria das bocas dos dois grandes chefes.

Abraços. 

terça-feira, 2 de março de 2010

O BEM DOTADO, O HOMEM DE ITU


Temos, na tradição cinematográfica mundial, alguns clássicos de natureza intimista, em que a câmera estabelece um diálogo instigante com o espectador e parece propor um jogo de gato em rato onde a arte é  a instância do confronto entre o que somos e o que pretendiamos ser. A arte, nesse momento, desnuda o homem, retira suas máscaras e corta a carne como navalha afiada de um amanhã que já não há e de um ontem que se perdeu em um lugar mais distante que Presidente Prudente.

Esse intimismo, marca do cinema bergmaniano, de toda a tradição do dogma escandinavo e da escola existencialista francesa - que alguns preferem chamar de cinema-angústia e eu prefiro de  cinema-suicídio - encontra seu maior momento no Brasil no filme O bem dotado, o homem de Itu, clássico da pornochanchada canarinho, dirigido com mão segura e medida certa por José Miziara.

O enredo é simples, mas de alcance universal : Lírio, um caipira ingênuo, sai de Itu para viver o choque cultural de 220 volts na cidade grande. Em virtude de seu pênis de proporções garrinchais, se transforma em homem-objeto para mulheres da alta sociedade e se mete em toda sorte de confusões e sacanagens, até a libertação definitiva através do amor verdadeiro, daqueles que Walt Disney inventou para vender figurinhas da Branca de Neve durante a Grande Depressão dos anos 30.

A atuação de Nuno Leal Maia como Lírio é apenas correta. Nuno, ator da velha tradição dos machões como Sir Laurence Olivier, Al Pacino, Capitão Asa, Marcelo Mastroiani e Edir Macedo, tem alguns bons momentos, revelando aos poucos a tensão que Lírio vive entre a pureza do homem do campo e as delícias da grande cidade. O personagem, no fundo, é uma mistura de Mazzaropi e Mané Garrincha - uma espécie de árcade tardio - mas Nuno poderia encontrar por vezes um tom um pouco mais sutil entre o Jeca Tatu e o gênio das pernas tortas.

O elenco feminino, esse sim,  é de grande categoria. Consuelo Leandro e Maria Luíza Castelli se saem bem como grã-finas matando cachorro a grito. Destaco, porém,  a sensível atuação de Helena Ramos como Julinha e o agressivo contraponto proposto pelo desempenho da diva Aldine Muller como Lurdinha. Espetácular ! é a definição correta para  a dupla dinâmica Helena e Aldine, uma espécie de Pelé e Coutinho da cinematografia nacional. 

A Volga, de Ana Maria Nascimento e Silva, nos remete aos tempos de Sodoma e Gomorra e de Cleópatra, a rainha do Egito,  numa evidente e erudita remissão às sagradas escrituras e aos balacobacos da filha de Ptolomeu XII e amante de Julio Cesar e Marco Antônio. Magnífica também é a atuação de Esmeralda Barros como Pedra, dialogando com a câmera em insinuante desempenho e revelando um talento que depois se consolidou no filme Mulheres do Cais, outro clássico da nossa produção.

Em certa ocasião, e observem como me preparei para esse texto,  um crítico alentado afirmou sobre um clássico de Godart o seguinte: "Toda arte, como metáfora da vida, é o tabuleiro de xadrez onde Eros e Tânatos se enfrentam na batalha interminável entre o ser e o nada e onde o horizonte que se descortina ao homem é o inevitável encontro com seu antípoda que é ele mesmo, inexoravelmente fadado ao desmantelo da fragmentada fagulha que é nossa existência".

Fiquei impressionadíssimo com essa definição, já que na hora não entendi necas de pitibiribas da sentença genial. Só depois de assistir ao Bem dotado, o homem de Itu, um filme pré-Trovão Azul, é que captei o que quis dizer o eminente homem de cinema e renomado intelectual: Se um dia o báculo episcopal vai virar bandeira a meio pau, que me importa se a mula é manca; eu quero é rosetar!

Abraços.

ps: Como a configuração do blog está meio doida, os links com textos antigos e os liames  dos amigos passaram para o final da página. Estão todos lá, intactos.