sábado, 24 de abril de 2010

FIGURINHAS E OUTROS BABADOS


Nem o mais otimista dos homens é capaz de negar que o mundo anda da pá virada. Os adultos danam de fazer álbuns de figurinhas, lotam cinemas para assistir a saga de homenzinhos azuis e frequentam festas plocs com trilha sonora da Turma do Balão Mágico. As crianças, por sua vez,  usam pulseiras do sexo, têm telefones celulares de última geração e cantam funks proibidões sobre surubas e metralhadoras. Não bastasse tudo isso,  a terra treme, vulcões despertam, chove para Noé nenhum botar defeito e padres organizam orgias capazes de ruborizar o deus Baco.

Eu visto logo a carapuça - ou melhor, o chapeuzinho de festinha infantil -  que me cabe: Sim, eu coleciono figurinhas da Copa do Mundo e espero em breve completar o álbum. Faço algumas observações sobre o babado:

- O livro ilustrado é mão na roda para os professores que dão aulas sobre migrações no mundo contemporâneo. Levem o álbum para a sala de aula e mostrem aos alunos o time da Argélia. Todo mundo nasceu na França. Apresentem, depois, o time francês. Ninguém nasceu na terra do croissant e da Torre Eiffel.

- O comunismo provou que é mesmo um regime capaz de igualar os homens, pelo menos fisicamente. Todos os jogadores da Coréia do Norte são do tipo a cara de um, focinho do outro. Acho que os onze são filhos do ditador King Jong-Il.


- O leãozinho de cabeleira verde, maõzinha na cintura e olhar de manja rola escolhido como mascote da Copa, um tal de Zakumi, faz o gênero audácia da pilombeta e mereceria do meu avô um comentário curto: Esse piolho é lêndea.

- Há limites para o futebol globalizado. Em geral tento assistir a todos os jogos do certame, mas adianto que Argélia versus Eslovênia e Nova Zelândia versus Eslováquia, partidas da primeira fase,  estão um pouco além das minhas possibilidades físicas e emocionais.

- Drummond dizia que Itabira é apenas um retrato na parede. Nós podemos dizer que Ronaldinho Gaúcho é apenas uma figurinha no álbum da Copa, já que o cabrón não vai ao mundial nem debaixo de erupção vulcânica. Em virtude disso, não colarei o Gaúcho no meu álbum. No lugar da figurinha de Ronaldinho entrará o retrato de Mauro Shampoo.

- Todos os colecionadores de álbuns da Copa têm a mística certeza de que a primeira seleção a ficar completinha vai ganhar o certame. Eu também tinha, até fechar ontem a primeira equipe: completei a Nova Zelândia.

Abraços

sábado, 17 de abril de 2010

CUMPRA-SE A LEI

Li recentemente que, nos anos noventa, os vereadores de Teresina, Piauí, discutiram um projeto de lei sobre a construção de abrigos nucleares na cidade. Calorosos debates se estabeleceram sobre os riscos que uma hecatombe nuclear poderia trazer à região. Parece que a construção de abrigos foi mesmo descartada, o que de certa forma fragiliza Teresina no caso de um ataque de mísseis de longo alcance.

Um vereador, defensor dos abrigos, declarou que a cidade precisa estar preparada para enfrentar uma circunstância parecida com a crise dos mísseis que, durante a Guerra Fria, envolveu Estados Unidos, Cuba e União Soviética. Não há garantias, afirmou Sua Excelência, de que comunistas não tentem, em algum momento, atacar com armas nucleares o Piauí.

Me lembrei imediatamente, pela relevância do debate, de uma lei dos tempos de D. João VI que proibia expressamente a ocorrência de maremotos em todo o recôncavo da Baía da Guanabara. Ainda nos tempos da corte, um boi foi nomeado administrador da Real Fazenda de Santa Cruz.

Dia desses um aluno me perguntou sobre a lei mais estapafúrdia da história do Brasil. Cogitei citar essa proibição dos maremotos, mas respondi que a maior bizarrice jurídica da nossa história foi cometida pelo governo Jânio Quadros. O presidente proibiu a realização de sessões coletivas de hipnose em praça pública. Considerando-se que as tais sessões públicas de hipnotismo nunca tinham sido realizadas, percebe-se a importância da medida.

O conjunto da obra do governo Jânio, admitamos, é exemplar. O presidente vetou biquinís em concursos de miss e corridas de cavalo às quintas feiras, por exemplo. Se lembrarmos que o homem da vassourinha se definia  como uma mistura de Lincoln,  Lênin, Shakespeare, Chaplin e Cristo, veremos que as medidas eram coerentes com esse sarapatel de influências.

Não podemos, entretanto, achar que essa coisa de leis despropositadas é prerrogativa canarinho. No Canadá é proibido se embarcar em um avião após a decolagem. Em Baltimore, nos Estados Unidos, é proíbido levar um leão ao cinema. Em Ottawa, também no Canadá, que é uma espécie de maior província dos Estados Unidos metida a país independente, a lei impede que se frequente a missa com bigodes postiços que possam causar risos no templo. Na Grã-Bretanha, desde os primórdios da formação da monarquia, é vetado a qualquer cidadão, sob pena de prisão imediata,  morrer dentro do parlamento. Se o sujeito tiver um piripaco e for oló durante um debate na câmara dos lordes, vai em cana.

Mais recentemente, aqui mesmo no patropi, alguns projetos muito interessantes foram aprovados. O meu predileto: em Barra do Garças, no Mato Grosso, a lei municipal 1840/95 criou uma reserva de 5 hectares para pouso de discos voadores, em plena Serra do Roncador. O projeto estabeleceu, ainda, uma verba pública para as obras de infraestrutura que facilitem o desembarque de seres extraterrestres em missões pacíficas. 

O discoporto, infelizmente, ainda não foi inaugurado.


quinta-feira, 15 de abril de 2010

A BANANA MECÂNICA


Poucos filmes, na história do cinema, atingiram a dimensão psicológica e mergulharam tão profundamente nos mistérios da alma humana como A Banana Mecânica. Não, não me enganei. Sei que alguns devem  imaginar que troquei de fruta e  me refiro ao clássico Laranja Mecânica, do diretor Stanley Kubrik. Errado. Me refiro mesmo ao filme brasileiro de 1974, dirigido por Braz Chediak e estrelado por um elenco de peso: Carlos Imperial, Rose di Primo, Kate Lyra, Pedrinho Aguinaga e Henriquete Brieba.

O roteiro, de grande densidade psicológica, acerta em cheio ao propor uma simplicidade aparente, aberta ao diálogo com grandes platéias. Aos poucos, entretanto, a máscara da simplicidade cai e revela uma sofisticação delicada e verossímil.

A vertigem visual que se observa é a poderosa metáfora da luta do homem contra seus instintos, ainda que certos clichês narrativos prejudiquem, do meio para o final, a  tentativa de se pensar o cinema como arte em si e para si,  naquela perspectiva proposta pela geração Paissandu: o filme como semiótica do todo parcial fragmentado.

A trama é centrada na trajetória de um psicanalista, o Dr. Ferrão, que desenvolve novas teses sobre a natureza do amor conjugal e utiliza mil mulheres peladas como cobaias para seus experimentos, a partir do desenvolvimento da revolucionária "terapia do sex surprise". Ao mesmo tempo, Dr. Ferrão cuida de Paulo Frederico, um jovem bicha em tratamento de recuperação, e se envolve com a sobrinha de seu amigo Cornélio.

A atuação de Carlos Imperial como o Dr. Ferrão   é, certamente, resultado de um longo laboratório do ator, ainda que vez por outra peque por excesso.  Imperial propõe ao espectador uma espécie de quebra-cabeças, explorando sutilmente referências que misturam o Hamlet de Sir Laurence Olivier, as expressões do boneco Falcon, a impetuosidade corporal de Febrônio Índio do Brasil e o gestual elaborado do parapsicólogo Roberto Lemgruber. Lembra muito, pelas nuances dramáticas, a atuação impactante da dupla Zico e Raimundo Fagner, no clipe da música Batuquê de Praia [que em breve merecerá as atenções desse escriba].
O diretor se vale de referências cinematográficas do protoexistêncialismo realista grego, da poesia de J.G de Araújo Jorge, do neorrealismo esloveno e das canções de Nelson Ned e Paulo Sérgio para sugerir a transformação dos personagens. O Dr. Ferrão vai se apaixonando pela jovem Cristina e o afrescalhado Paulo Frederico abandona as maneiras efeminadas,  seduzido por Marcela, uma dona de butique disposta a coverter bichas loucas em garanhões insaciáveis. 

O elenco feminino é de primeira qualidade. Henriqueta Brieba, como a velha Dona Neusa, esposa de Cornélio,  não aparece pelada, o que tranquiliza os espectadores. Já Rose di Primo e Kate Lyra, como as moças Marcela e Cristina,  têm atuações no estilo "a ema gemeu no tronco do juremá". Rose, especialmente, se destaca na  cena emblemática  -  seminal na história da sétima arte - em que o meneio de sua retaguarda lembra muito o drible do elástico, consagrado por Riberto Rivellino.

É por tudo isso que A Banana Mecânica merece todos os elogios e atinge, em vários momentos, patamares que a laranja do Kubrik não foi capaz de experimentar.

terça-feira, 6 de abril de 2010

J. CARLOS E O COLAPSO URBANO


Em 2007 lancei, em parceria com o caricaturista Cássio Loredano, o livro O Vidente Míope - J. Carlos n´O Malho. O trabalho  versa sobre a produção monumental do grande desenhista J. Carlos entre os anos de 1922 e 1930, quando o gênio do traço trabalhou na revista O Malho.

Uma dos capítulos do livro  é sobre o Rio de Janeiro retratado pela pena do artista. Diante da chuva de fazer malandro gritar Noé, traz a arca,  e do caos em que a cidade mergulhou nessa manhã de 6 de abril, acho irresistível transcrever o texto que produzi sobre a visão do Rio de J. Carlos  :

Está tudo retratado pelo talento do artista e a perspicácia do cronista; os atropelos do secretário de saúde Clementino Fraga com os mosquitos transmissores de doenças tropicais, o excesso de impostos, o descaso com a zona portuária, a péssima qualidade dos serviços públicos, o descalabro dos transportes coletivos e a elevação das tarifas dos trens da Leopoldina. O lápis do artista acusa ainda o despejo de famílias de baixa renda em nome da modernização do espaço urbano e ironiza as enchentes que azucrinam, desde sempre, o carioca.

É isso. O Rio de Janeiro da década de 20 preocupava J. Carlos em virtude dos seguintes perrengues: doenças transmitidas por mosquitos, quantidade abstrusa de impostos, abandono do porto,  qualidade ridícula dos serviços públicos, péssimo nível dos transpores coletivos, descaso com as famílias de baixa renda e enchentes que vez por outra açoitavam o povo de São Sebastião. O desenhista ainda preconizava que o automóvel seria o grande inimigo da cidade em curto espaço de tempo.

Noventa anos depois, faço minhas as preocupações do mestre. Seus desenhos do século passado são verdadeiros atestados do - até agora - fracasso urbano produzido pelo poder público e pela população da nossa aldeia.

Para fechar esse pequeno arrazoado, que tal esse trecho, curto e definitivo, de um outro carioca genial, da altura de J. Carlos :

As chuvaradas de verão, quase todos os anos, causam no nosso Rio de Janeiro, inundações desastrosas. O prefeito, que tanto se interessou pelo embelezamento da cidade, descurou completamente de solucionar esse defeito do nosso Rio.

O autor é Lima Barreto, a crônica se chama "As Enchentes" e foi escrita em 1915.


sábado, 3 de abril de 2010

CACETE NO ISCARIOTES



O sujeito sente que está prestes a dobrar o cabo da Boa Esperança quando um adolescente fala algo do tipo  vi Malhação ontem e a pergunta que  ocorre é: - Quem foi o Judas? É o meu caso. Fui criança em um tempo em que malhação não era levantar peso em acadêmia ou novela debilóide de televisão. Era, tão somente,  enfiar a porrada, no sábado de Aleluia, em um boneco representando o  Iscariotes.

Passava as semanas santas da minha infância em Nova Iguaçu. Sábado de Aleluia, para mim, vinha sempre com  a expectativa da malhação do Judas e da reabertura do terreiro de encantaria da minha avó. A casa tocava para Oxóssi e os caboclos no dia de São Sebastião - 20 de janeiro - e só reabria os trabalhos com  a oferenda a Exu e o toque de levantar a Aleluia. Coisas do sincretismo fabuloso das crenças do Brasil.

O Judas, um boneco feito de saco de estopa e recheado de serragem,  era devidamente enforcado em um poste; ao meio dia  a criançada começava a enfiar o cacete no dito cujo. Fogos explodiam. No dia anterior a grande expectativa era quanto a escolha do personagem que seria o traídor daquele ano - o técnico da seleção brasileira, o prefeito, o governador, o presidente, o vilão da novela... Malhar o Iscariotes era uma verdadeira catarse coletiva.

A brincadeira de sentar o cacete no Judas, para recordar a morte do cabra, chegou ao Brasil com os portugueses. Há várias versões sobre a origem do furdunço com um boneco. Alguns estudiosos afirmam que a origem da malhação se remete aos ritos em que a Inquisição Católica queimava, em praça pública, bonecos representando os hereges que conseguiam escapar das garras do Santo Ofício. Hoje em dia, no desencantamento da vida nas grandes cidades, o balacobaco de malhar o traídor está mais devagar que o metrô carioca.

Em 1821, vejam só, Dom João VI proibiu a malhação do Judas nas ruas do Rio de Janeiro. No ano anterior a população - zombeteira como ela só - havia descido a porrada em um Iscariotes balofo, representando o próprio rei e os demais administradores portugueses que viviam no Rio. A proibição não adiantou xongas. Judas foram malhados nas ruas da cidade e o cacete comeu entre os populares e a polícia.

Acho que o Judas que mais malhei na minha vida foi Ramón Quiroga. Aos esquecidos: Quiroga foi o goleiro da seleção peruana no jogo Argentina 6 X 0 Peru, durante a Copa do Mundo de 1978. A Argentina precisava de uma diferença de quatro gols para se classificar para a finalíssima, eliminando o escrete brasileiro. Quiroga - que era argentino naturalizado peruano - teve uma atuação ridícula. Tomou uns frangos bíblicos e bye bye Brasil. Foi, por causa disso, devidamente malhado na Aleluia de 1979. Entrou no cacete.

Hoje é dia, portanto, de enfiar o pau no Judas. Aqui no Rio é forte candidato ao cargo de traídor do ano o deputado Ibsen Pinheiro, da emenda do petróleo. Não me entusiasma e tem tudo para ser um Judas mixuruca. O ex-governador Arruda, curtindo uma cana, também não me apetece. O ideal é que cada um, democraticamente, tenha o sacrossanto direito de enforcar seus próprios demônios e algozes, zerar a raiva e curtir, pacífico feito um bem te vi, uma boa Páscoa.

É o que desejo.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

DIVERSÃO NA SALA DE AULA ou COITADO DO MIRAGAIA


A sala de aula continua garantindo ótimos momentos. Estava, dia desses, falando sobre um tema polêmico pra dedéu: a Reforma Protestante. Conversa vai, conversa vem,  se estabeleceu o seguinte diálogo teológico:

- Lutero negava o número de sacramentos da Igreja Católica. Vocês sabem, aliás, quantos sacramentos existem na Igreja Católica?

- Três...

- Três???? Redargui de imediato.

O aluno respondeu de bate pronto, feito um tirambaço de canhota do Rivellino:

- ...  milhões de sacramentos.

**********************************************

Prova do segundo ano do ensino médio. Tema: República Velha. A primeira questão apresenta um texto sobre os seringais do Acre e os cafezais do Oeste Novo paulista. O aluno deve dissertar sobre a importância dos dois cenários para a economia brasileira. Leio a seguinte resposta:

[...]Os seringais foram importantes para o fornecimento das seringas usadas na campanha de vacinação contra a varíola de Oswaldo Cruz,  fato que gerou a famosa e terrível Revolta da Vacina.

Adorei, especialmente, a varíola de Oswaldo Cruz, feito a Portela.

***********************************************

Renascimento e Barroco. Trabalhamos um pequeno texto do Dom Quixote - ilustrado com o samba desse ano da União da Ilha do Governador, que teve o cavaleiro da triste figura como tema. Peço para os alunos escreverem um pequeno comentário sobre o trecho do livro. Leio a seguinte pérola :
O cavaleiro Dom Quixote e seu escudeiro Pôncio Pilatos [...]

************************************************
A aula sobre a Revolução Constitucionalista de 1932 corre solta. Explico que os paulistas criaram uma organização civil para lutar contra o governo de Getúlio Vargas, conhecida pela sigla MMDC. Pergunto se alguém sabe o que significa o acrônimo. As melhores respostas que obtive foram as seguintes:

- Máximo Mínimo Divisor Comum.

- Acho que é a sigla em hebraico de Jesus de Nazaré Rei dos Judeus, que foi colocada na tabuleta da cruz. Os paulistas são muito católicos e o movimento foi apoiado pela igreja.