sábado, 22 de maio de 2010

O MOLEQUE L.A. SIMAS ESCUTAVA... (1)

Tenho uma relação com o mundo mais auditiva do que visual. Desde criança sou de prestar mais atenção no que escuto do que no que vejo [acho que isso só começou a mudar um pouco depois que vi, bem moleque, a revista Ele e Ela da Nicole Puzzi pelada e percebi exatamente o que eu queria da vida].

Desta sorte, afirmo que sou um sujeito que não tenho lá tantas recordações do que vi, mas tenho profundas recordações do que ouvi enquanto desmamava e crescia.

Com as facilidades que a internet proporciona, ando catando com sofreguidão os sons da minha meninice e da adolescência. O que menos importa, neste caso, é a qualidade musical, o gênero ou coisa semelhante. Há grandes canções que não tocam na minha vitrola emocional e outras canções menores - algumas rigorosamente terríveis - que insistem em soar, carinhosas, nos autofalantes da minha quermesse particular.

É por isso que resolvi, a partir de hoje, compartilhar de vez em quando esses sons da minha infância. Começo com duas músicas que fizeram o moleque L.A. Simas gostar do babado: Dona Flor e seus dois maridos, de autoria e com Antônio Carlos e Jocafi, e Siriê, de Edil Pacheco, com Fafá de Belém.

Som na caixa:
Abraço

quarta-feira, 19 de maio de 2010

FRASES

A FIFA finalmente divulgou as frases que irão estampar os ônibus das seleções que disputarão o mundial da África do Sul. Algumas sentenças merecem, sem dúvida nenhuma, comentários mais amplos. Por exemplo:

Brasil: Lotado! O Brasil inteiro está aqui dentro!  Eis aí a nova versão do "juntos em um só coração" do tricampeonato de 1970. Eu acrescentaria algo do tipo: O Brasil inteiro está aqui dentro, sobretudo os volantes de contenção e exceto o Paulo Henrique Ganso.

Argentina: Última parada: a glória. Com Maradona no comando? Acho que los hermanos passam pelo Largo do Machado mas saltam logo depois, no Catete.

Costa do Marfim: Elefantes, vamos lutar pela vitória! Belo desagravo a Ronaldo Fenômeno e Adriano Imperador.

Coréia do Norte: 1966 de novo! Vitória para a Coréia do Norte!  Bom, que a Coréia do Norte, o último baluarte do comunismo, continua em 1966 não há dúvidas. Só não sei se esse 1966 de novo é uma forma de estimular a Coréia, assustar a Itália ou sacanear o Brasil.

Chile: Vermelho é o sangue do meu coração.Tá mais para toada do Boi Garantido. Fica, desde já, a sugestão: Chile em Parintins em 2010.

Eslovênia: Com onze corações valentes até o fim. Hummmm. Coração valente não é o apelido do Washington, o centroavante com problemas cardíacos do São Paulo? Acho que esse coração infarta na primeira fase.

Espanha: Esperança é meu caminho! Vitória é meu destino! Ainda acho que a frase ideal para a Espanha é a mesma de sempre:  Jogaremos como nunca! Perderemos como sempre!

Estados Unidos: Vida, liberdade e busca pela vitória! Um perigo. O General Custer e Busch Jr. assinariam a máxima.

Grécia: A Grécia está em todos os lugares. Frase correta. O velho Marx, bom de diagnóstico e péssimo de terapia,  já falava em crise global do sistema capitalista desde mil oitocentos e cacetadas.

Holanda: Não tema os cinco grandes, tema os onze laranjas. Se o PC Farias acreditasse na evidente sabedoria dessa frase e fizesse  as coisas de forma mais discreta, o Collor teria completado o mandato.

Itália: O nosso azul no céu africano. Dá-lhe, Boi Caprichoso! Itália e Chile, se por acaso se enfrentarem, farão o clássico de Parintins.

Japão: O espírito samurai nunca morre!  Isso é propaganda do filme do Chico Xavier ou promessa de harakiri?

Nova Zelândia: Chutando ao estilo Kiwi. É a frase mais verdadeira de todas e define a aptidão do bravo time neozelândes para o futebol com grande precisão. Eu conhecia vários estilos de se chutar: de trivela, com o lado interno do pé, metendo uma folha seca, pegando na veia,  de bico e o escambau. Esse estilo kiwi deve ser, provavelmente, oriundo do rugby.

Paraguai: O leão Guarani ruge na África do Sul. Se o tal do leão Guarani rugir feito o presidente paraguaio, o bispo Lugo, tranquem as moças em casa.

Portugal: Um sonho, uma ambição: Portugal campeão! Pra quem está esperando Dom Sebastião voltar desde 1578, até que a piada é boa.

Abraços


segunda-feira, 10 de maio de 2010

O DIA EM QUE PELÉ ESCULHAMBOU A REVOLUÇÃO

Essa quem me contou foi o Poerner, um jornalista de responsa, e se passou durante a Copa do Mundo de 1970, quando o escrete papou a Jules Rimet definitivamente.

Brasil versus Tchecoslováquia, estréia da seleção canarinho no mundial. Meu amigo, comunista de carteirinha, estava em cana, dividindo a cela com sete caboclos. Para o alívio da rapaziada, conseguiram da Dona Justa autorização para ver os jogos na cadeia.

Antes da partida - e já no clima do babado - os camaradas se reuniram em assembléia extraordinária,  para deliberar sobre como se comportariam durante o match. Concluiram, após breve análise da conjuntura e exortações ao centralismo democrático, que só havia um caminho viável: torcer contra o escrete. 

A vitória do Brasil, eis a linha de raciocínio, reforçaria a popularidade da  ditadura e seria instrumento perigoso de alienação das massas. Alguém lembrou, além disso, que a Tchecoslováquia era um país comunista.

Mal o jogo começa e os gringos aprontam: doze minutos do primeiro tempo e gol de um materialista histórico e dialético. Os membros do coletivo carcerário comemoram  e têm uma surpresa quando  o autor do tento, o ponteiro Petras, se ajoelha e faz o sinal da cruz. Um camarada manda na lata, diante do gesto de fé:

- Chama o Pacto de Varsóvia...

O jogo continua, com pressão brasileira pra cima dos homens. Pelé é derrubado na entrada da área. Rivellino, na cobrança da falta, manda um míssel nuclear de canhota; o goleiro Victor ainda toca na redonda. Dois presos não resistem:

- Gollllllll. Porra!

Quando percebem a mancada, botam as mãos na cabeça e mandam o migué em tom de lamento:

- Que merda. Empatamos...

E tome de pressão canarinho.

No início do segundo tempo, sob as bençãos de todos os caboclos e orixás, um dos lances mais impressionantes da história do futebol se desenrola: Gérson, o canhotinha, faz um lançamento de quarenta metros para Pelé. Um mortal que se aventurasse a matar uma bola daquelas cairia fulminado no gramado. Mas era o crioulo...

O negão subiu mais que o King Kong no Empire State, matou a criança no peito e preparou o arremate, diante do olhar atônito de dois zagueirões tchecos, incrivelmente parecidos com a dupla Dom e Ravel. Os presos, até então torcedores do adversário, se levantaram no mesmo instante, aos berros:

- Vamô, crioulo! Vamô,  crioulo...

Pelé trocou de perna, enganou Victor e fuzilou. Tome de fuzuê no xadrêz:

- Goooooollllllll. Caralho!!!!! Pooooooooooorrrrrrrraaaaa. Isso é Brasil, seus tchecos de merda.

Terminou assim, sob o impacto da obra de arte de Pelé e palavrões de fazer o velho Marx parecer coroinha de cidade mineira, a solidária torcida dos bravos camaradas pelos branquelos do leste europeu. Um dos companheiros, com tremendo poder de síntese, resumiu o furdunço todo em uma breve sentença:

-Camaradas, façamos sem receio a autocrítica: uma matada de bola dessas fode qualquer internacionalismo proletário...



Abraços

segunda-feira, 3 de maio de 2010

A CUCUIA É LOGO ALI


As coisas andam mesmo meio esquisitas. Meu vizinho de dez anos de idade usa um potente telefone celular, tem perfil no orkut, conta no twitter, orelha furada e outros salamaleques. Me chamou outro dia, no elevador, de brother e perguntou como eu achava que ia terminar a série Lost. Indagou, por fim, se alguma menina no colégio onde  trabalho usa a novidade do momento - a pulseira do sexo. Fiquei pasmo, esperando que ele me pedisse emprestado o aparelho de barbear.

Nessa mesma onda, leio na rede que  salões de beleza estão oferecendo serviços de hidratação, cabelos e unhas para crianças a partir dos seis anos de idade - colaborando, ainda que involuntariamente, com uma erotização precoce que faz a festa dos pedófilos de plantão. Vejam, por exemplo, a notícia abaixo, que recortei do G1, sobre salões de beleza de São Paulo. O negócio é alarmante:  

A vaidade infantil está tão em alta que até salões famosos, especializados em adultos, abriram espaço para clientes mais novos. Em São Paulo, o Jacques Janine implantou o ''Beauty for Teen'', para as crianças comemorarem seus aniversários em grupos de, no máximo, 22 pessoas. No pacote, estão incluídos serviços de lavagem, escola, manicure e enfeites para cabelos como dread (espécies de rolos) e strass (brilhantes). A aniversariante ainda recebe pedicure, massagem relaxante e banho com pétalas de rosas, leite e ervas. O Spalla Hair, também na capital paulista, oferece o ''Dia Teen'', para adolescentes de 10 a 13 anos

Danou-se! Beauty for teen e Dia teen? Canta pra subir. Vivemos, de fato, os tempos da delicadeza perdida. Estamos na curva do beleléu e a cucuia é logo ali.

Acho que fui criança em outra dimensão. Meu primeiro telefone, por exemplo, era feito com dois potes de leite condensado furados, ligados por um barbante vagabundo. Esticavamos o barbante, cada um ficava com seu danonefone em um canto do quintal e a conversa via satélite rolava solta.

A pulseira do sexo dos meus tempos de moleque era mesmo a inocente - e docemente sacana - brincadeira de pêra, uva, maçã e salada mista. Pêra, um aperto de mão; uva, um abraço; maçã, beijo no rosto; salada mista, um beijo rápido, rasteiro e inesquecível, na boca. Com sorte e coragem conseguiamos convidar a menina para o sorvete dançante do fim de semana.

O simples beijinho na boca, quando acontecia de ser numa pequena mais assanhadinha, virava um evento e rendia quinze dias de cinco contra um. Valia até a trapaça de combinar com o amigo que comandava a brincadeira para que, na hora da menina mais jeitosa, um sinal qualquer indicasse que salada mista era a  boa pedida. 

Boneca, pião, rema rema remador, pique bandeira, carniça, bento que bento é o frade, lenço atrás, passa anel, passaraio... outros tempos, bem  diferentes desses dias de pá virada, virtuais e desvirtuados.

Tudo isso me lembra, com um certo gosto de saudade dolorida e boa, alguns  sambas sobre o universo infantil. Um exemplo, para mim o melhor, é o  hino de 1978 da Imperatriz Leopoldinense - Vamos brincar de ser criança [Zé Catimba, Guga, Aranha, Sereno e Tuninho]. Uma espécie de crônica da infância anterior à internet: 


Abraços


sábado, 1 de maio de 2010

A BOA AVALIAÇÃO DO LIVRO E UM SAMBA COMOVENTE

Boa notícia: a respeitada Revista de História da Biblioteca Nacional, que tem em seu conselho editorial craques como Alberto da Costa e Silva, João José Reis, José Murilo de Carvalho, Laura de Mello e Souza e outras feras, publicou em seu mais recente número uma resenha, feita pela Carolina Rocha, do Samba de Enredo - História e Arte, o livro que escrevi com Alberto Mussa.

Os livros indicados pela revista recebem, além de pequenas resenhas, cotações a partir dos critérios de relevância acadêmica, consistência historiográfica, acessibilidade e interesse para o grande público. O nosso trabalho recebeu a cotação máxima - foi classificado como altamente recomendável.

Nada melhor, portanto, que festejar a boa recepção com um samba de enredo das antigas. Um dos meus sambas prediletos é o clássico Brasil, flor amorosa de três raças, hino da Imperatriz Leopoldinense em 1969, dos craques Matias de Freitas e Carlinhos Sideral. O enredo é baseado no belíssimo Música Brasileira,  poema de Olavo Bilac sobre os ritmos do Brasil e a mestiçagem de nossa gente.

O soneto do bom e velho Bilac é esse:

Tens, às vezes, o fogo soberano
Do amor: encerras na cadência, acesa
Em requebros e encantos de impureza,
Todo o feitiço do pecado humano.

Mas, sobre essa volúpia, erra a tristeza
Dos desertos, das matas e do oceano:
Bárbara poracé, banzo africano,
E soluços de trova portuguesa.


És samba e jongo, chiba e fado, cujos
Acordes são desejos e orfandades
De selvagens, cativos e marujos:


E em nostalgias e paixões consistes,
Lasciva dor, beijo de três saudades,
Flor amorosa de três raças tristes.

O samba, em sua gravação original com as pastoras da escola de Ramos [adianto que é comovente], vai logo abaixo da letra:

Vejam de um poema deslumbrante
Germinam fatos marcantes
Deste maravilhoso Brasil
Que a lusa prece descobria
Botão em flor crescendo um dia
Nesta mistura tão sutil
E assim, na corte os nossos ancestrais
Trescalam doces madrigais
De um verde ninho na floresta
Ouçam na voz de um pássaro cantor
Um canto índio de amor
Em bodas perfumando a festa
Venham ver o sol dourar de novo esta flor
Sonora tradição de um povo (bis)
Samba de raro esplendor
Vejam o luxo que tem a mulata
Pisando brilhante, ouro e prata, a domingar
Ouçam o trio guerreiro das matas
Ecoando nas cascatas a desafiar
Ó meu Brasil, berço de uma nova era
Onde o pescador espera
Proteção de Iemanjá, rainha do mar
E na cadência febril das moendas
Batuque que vem das fazendas
Eis a lição
Dos garimpos aos canaviais
Somos todos sempre iguais
Nesta miscigenação
Ó meu Brasil
Flor amorosa de três raças (bis)
És tão sublime quando passas
Na mais perfeita integração



Coisa linda!

BACALHAU - O FILME

Esqueçam o Tubarão [Jaws] de Steven Spielberg. O maior clássico praiano da história do cinema, verdadeiramente assustador, é brasileiro: Bacalhau [Bacs]. Quem não viu esse filmaço de Adriano Stuart - o mesmo diretor do sensível Kung Fu contra as bonecas - não sabe o que está perdendo.

A trama parece simples: uma pacata cidade do litoral paulista é assombrada por um monstro marinho, de proporções gigantescas, que devora os banhistas com requintes de crueldade e assusta mulheres seminuas e gostosas . Quem será?

Um oceanógrafo português descobre que se trata do Bacalhau da Guiné, a fera mais temida dos sete mares. Começa, então, a epopéia para liquidar o peixe assassino. Para atrair o monstro e amolecer seus instintos homicidas, os pescadores usam como iscas pedaços de discos de Amália Rodrigues.

A simplicidade do roteiro é aparente. Uma visão crítica mais atenta mostra que Bac´s bebe em duas fontes: A Bíblia e Os Lusíadas.  A luta entre o oceanógrafo e o bacalhau se descortina como uma metáfora do embate entre o homem e a natureza, redimensionando a tensão que aproxima e repele os instintos de Eros e Tânatos e permeia toda criação artística - feito o Leviatã das escrituras e o Gigante Adamastor do épico de Camões. 

O cinema, em Bacs, nos desafia, cumprindo a função inquietante da arte: todos nós pescamos os bacalhaus que nadam em mares turbulentos [almas oceânicamente inquietas]. Personas de um fado lusitano, somos homens, bacalhaus ou iscas de nossa própria pescaria-existência ?

Além da sofisticação do embate metafísico, o filme se destaca também pelos seus efeitos especiais. Se o próprio diretor não revelasse que o bacalhau é de mentirinha, feito em fibra de vidro, aposto que todos acreditariam na existência do monstro, apesar dos cabos de aço visíveis que movimentam o bicho. 

Há um único senão, que não chega a comprometer a veracidade da coisa e é percebido apenas pelo espectador mais atento: na calda do peixe está escrito made in Ribeirão Preto. 

O elenco cumpre bem o seu papel. Maurício do Valle, Hélio Souto e Dionisio Azevedo encontraram o tom certo entre o medo e o desejo de enfrentar o bicho. A musa Helena Ramos tem, mais uma vez, uma atuação digna de produzir calos nas mãos de cinéfilos de várias gerações. Todos sabem, porém,  que a grande estrela do filme é mesmo o Bacalhau da Guiné e não tentam brilhar mais do que o peixe. Ponto para o diretor.

Como se trata de um clássico do suspense, esse crítico não vai revelar o final. Deixo apenas a dica, com gostinho de quero mais: o fã de Amália Rodrigues acaba, depois de pescado, servido à população em um banquete monumental. Quem disse, porém, que a fera morreu? A última cena, surpreendente e de assombrosa veracidade, é de deixar a famosa sequência do assassinato no chuveiro de Psicose parecer um conto de fadas da Disney. Não percam.

Fiquem com a sensacional e apavorante imagem do encontro da primeira vítima da fera marinha: