terça-feira, 29 de junho de 2010

O FUTEBOL PARA PEQUENOS PRÍNCIPES


Fiquei impressionado com o sangue de dona baratinha dos ingleses e mexicanos nas oitavas de final da Copa do Mundo. As duas seleções foram, como até as estalactites da Gruta de Maquiné sabem, garfadas de forma monumental pelos árbitros e bandeirinhas, em desempenhos capazes de fazer o velho Al Capone parecer um simples ladranete de esquina.

A reação dos ingleses foi rigorosamente destituída de caráter. Depois do chute de Lampard - a gorduchinha entrou meio metro e o ladravaz Jorge Larrionda, com inestimavel colaboração do bandeira, não confirmou o gol -  alguns jogadores levantaram as mãos para os céus feito as beatas do Juazeiro, fizeram caras de bebês chorões e ficou por isso mesmo.

O mínimo que se exige de um time numa situação dessas é transformar o gramado numa sucursal do inferno, com direito a dedo na cara do bandeira, palavrões da pior espécie, mão na bunda do juiz no meio do bololô, porrada no gandula, provocações ao adversário para gerar cinco expulsões de cada lado e coisas do gênero.

Quem manja um pouquinho de futebol há de concordar com o seguinte: até numa simples pelada de rua um lance daqueles gera, no mínimo, a suspensão do jogo por meia hora. Quando acontece algo similar na várzea mais muquirana de Nova Iguaçu, a mais chinfrim, o campo se transforma em segundos numa filial do sertão nordestino nos tempos do cangaço. O que passa a valer é  a filosofia do jagunço Riobaldo Tatarana: Se Deus vier, que venha armado.

Que se dane essa babaquice politicamente correta  de fair play, capaz de reduzir uma epopéia digna da Ilíada a uma página de Fernão Capelo Gaivota. Esse jogo limpo é feito arroz sem sal;  é a tentativa de transformar a partida de futebol - o evento que potencialmente melhor ilustra as reflexões sobre a catarse na arte poética de Aristóteles - em algo tão profundo quanto as divagações de Gabriel Chalita e do padre Fábio de Mello sobre o amor, a amizade e a vida nas lições do Pequeno Príncipe. 

O fair play é a mimese de um coito interrompido, é a representação à socapa dessa onda do futebol como evento de mídia, palco do jogador garoto-propaganda de eletrodomésticos, dos sibaritas travestidos de craques, do torcedor que vai ao jogo como se fosse a uma representação de Aída na Ópera de Paris, nos velhos tempos da belle époque.

E o que dizer dos mexicanos? Que diabos aconteceu com a pátria aguerrida do bigodudo Emiliano Zapata? Quando se esperava dos cabras uma reação ao escandaloso gol de Carlitos Tevez - na banheeeeeeeiiiiiira, como diria Mário Vianna -  digna de bandoleiros chefiados por Pancho Villa, aquela reclamação mequetrefe mais parecia  coisa dos amiguinhos de Speedy González, o camundongo Ligeirinho.

Quero crer que os ingleses e mexicanos, em virtude das reações tão amorfas aos assaltos em campo, saem do mundial como elementos potencialmente perigosos, capazes das piores vilanias, já que não extravasaram a raiva no único lugar em que, por direito,  ela deveria ter sido exorcizada: no tapete verde, de preferência com os bandeirinhas gloriosamente empalados, à moda Conde Drácula, em seus próprios instrumentos de trabalho. 

Abraços

quinta-feira, 24 de junho de 2010

ÀS CATACUMBAS

Certa feita eu caminhava pelo Centro do Rio, pensando na morte da bezerra, quando fui abordado por um sujeito aos berros. Me pareceu em transe. Trajando um terno no melhor estilo Bemoreira Ducal e uma gravata da grife Didi Mocó Sonrisal Colesterol Cibalena Novalgina Mufumbo , o cidadão me interpelou contundente como um João Batista no deserto, besuntado de mel e gafanhotos:

- Encontre Jesus Cristo! Encontre Jesus Cristo! Encontre Jesus Cristo!

Respondi ao pregador com a calma de um eremita das montanhas:

- Meu senhor, eu posso até procurar, mas é improvável que o Filho do Homem esteja perdido nessa muvuca do Largo da Carioca. Saravá!

Disse isso e fui, imediatamente, arremessado aos tempos da minha infância profunda, de chupeta e calças curtas, quando o vô Luiz escondia os ovos de Páscoa no quintal da casa de Nova Iguaçu e gritava pra molecada:

- Encontrem os ovos de Páscoa! Encontrem os ovos de Páscoa!

Essas recordações enviesadas sobre a procura do Nazareno em pleno Largo da Carioca e a caçada aos ovos de chocolate me ocorreu, em delírio fabular,   por conta da Copa do Mundo da África do Sul e da mais recente entrevista, cheia de diatribes, do meio-campista Kaká. Explico abaixo.

O mix de jogador, celebridade e apóstolo se declarou perseguido pelo ateu Juca Kfouri por seguir os passos de Jesus Cristo. À guisa de esclarecimento: Kaká é discípulo e garoto propaganda de uma igreja dirigida pelo apóstolo Estevam e a bispa Sônia, uma espécie de casal Bonnie and Clyde do neopentecostalismo canarinho.

Senti na declaração do bom menino [que não faz pipi na cama e nem faz malcriação] uma certa nostalgia das catacumbas. É isso: Kaká exala por todos os poros o desejo das catacumbas, a saudade inconfessável dos tempos em que os cristãos se escondiam nos subterrâneos de Roma para professar a fé no Messias.  Alguns crentes anseiam pelas catacumbas contemporâneas, como movidos por um desejo ancestral de vingança. E somos nós, os que não encontramos um messias que nunca se perdeu, que acabaremos encerrados lá pelas milícias do cordeiro de deus - fundamentalistas medievais capazes ainda de afirmar que o rato transmissor da peste bubônica do século XIV foi apenas o agente do Pai Maior na punição aos incautos. 

Nós, os não-abençoados, corremos o risco de ter que, muito em breve, inventar catacumbas brasileiras para bater bola com os assombros da vida, até a hora da velha da foice nos pegar no passaraio. Desceremos - os que acreditamos nos deuses sem Deus mais por poesia do que por fé - aos subterrâneos das cidades para tocar tambores, bater palmas e punhetas, afinar cavacos, pontear violas e ralar buchos com as moças, madames e senhoras no fole das sanfonas.

As ruas não mais nos pertencerão. As esquinas estarão, pelo andar da carroça, tomadas pelas tropas do Leão de Judá e outras milícias tantas de tantos credos, marcialmente preparadas para impedir o furdunço de carnavais e rezas profanas nessa nossa bolinha azul, cu de Judas do espaço sideral, cafundó do universo e cafua dos homens.

Às catacumbas, camaradas! Sigam-me os que forem baderneiros, bradarei feito um Caxias à sorrelfa. Buscaremos, qual anti-cruzados da  armada Brancaleonne, ataque poderoso do Íbis de Shampoo, abrigos nucleares para tomar em paz a água que o passarinho não bebe, desfilar nosso repertório de afetuosos palavrões e trocar  juras eternas e provisórias de amor. Rogaremos e blasfemaremos aos santos e demônios no deserto sem estrelas da noite grande; aquela que só tem sentido e se ilumina no ato de compartilhar as solidões dos homens na mesma ceia.

Abraços


segunda-feira, 21 de junho de 2010

COISAS DA COPA

Sai Exu, entra Jeová

Tive uma professora na faculdade, no curso de Antropologia II,  que sofria de interessante síndrome. Uruguaia de nascimento, a dona - depois de duzentos anos morando no Brasil - conseguiu a proeza de não aprender direito o português e desaprendeu a hablar espanhol. Resultado: as aulas eram rigorosamente incompreensíveis, ministradas em um dialeto impenetrável.

Algo semelhante aconteceu com o futebol africano. Quando em 1982 a seleção de Camarões surpreendeu o mundo com um futebol vistoso, cheio de ginga e salamaleques, o grande João Saldanha vaticinou que em breve uma seleção da África paparia a Copa do Mundo. A profecia do João Sem Medo não vingou e acho que não vingará tão cedo. 

O que faltava aos africanos - diziam os especialistas - era um pouco mais de disciplina tática e menos brincadeiras em campo. Deram, então, de contratar uns técnicos europeus de segunda categoria, oriundos diretamente das guerras civis da ex-Iugoslávia,  para fortalecer o futebol do continente negro. Babou.  

A impressão que me dá é que os africanos não conseguiram assimilar certas qualidades do futebol europeu e acabaram perdendo aquele traço distintivo que caracterizava seu jogo - o balacobaco, a ginga, o sarapatel, o drible, o inusitado...

Exu, dono da mandinga e do drible de corpo,  foi substituído pelo Deus do Antigo Testamento - duro, implacável, vingativo, temerário e pouco afeito a malabarismos e rabiscos com a pelota. Um deus que, no lugar da cachaça, do charuto e do tambor, preferiu mandar, com voz de baixo-barítono cantarolando a marcha fúnebre, o marido da Sara passar o rodo no pobre do Isaac.

Deu no que deu.

O segredo do caneco

Assisti ao jogo do escrete na casa do taberneiro Carlos Alves, dono do Al-Farabi, reduto de livros e comes e bebes da melhor qualidade, no centro velho do Rio. Pouca gente - quatro pessoas - cervejas e petiscos, que ninguém é de ferro. Os Alves são vizinhos do meu irmão, e a ideia era aproveitar o jogo para visitar minha sobrinha, doida pelo escrete aos quatro anos de idade. Acontece que, depois de dezenas de cervejas geladas, ao estilo cu de foca, a ida mais frequente ao banheiro para se tirar a água do joelho foi inevitável e os projetos familiares foram pra cucuia.

Carlos Alves foi ao banheiro três vezes durante a partida - exatamente as três ocasiões em que a seleção marcou os gols contra os carniceiros da  seleção da scuderie detetive Le Coq, também conhecida como Costa do Marfim.

É urgente que se inicie a campanha cívica que pode garantir o sucesso canarinho nos gramados africanos. Na hora do pega pra capar, a palavra de ordem deve estar na ponta da língua de cada torcedor do escrete:

- Vai mijar Carlos Alves!!

Abraços

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O GEMIDO DO EMO


Estou em pânico, temendo o pior no fim de semana copeiro. Li anteontem, em estado de choque, a notícia de que haverá em São Paulo, numa boate cheia de salamaleques, uma festa  emo no horário de Brasil e Costa do Marfim. O detalhe: durante o horário do jogo ocorrerá a exibição de desenhos animados japoneses e um desfile de moda da estética J-Pops [alguém sabe que diabos é isso?]. Arthur Favela, tome uma providência!

Impressionadíssimo com o tal evento, fui tentar descobrir o que é, afinal, esse negócio de emo. Uma rápida consulta aos meus alunos do Ensino Médio me ensinou que emo - uma abreviação do inglês emotional hardcore - é um gênero musical, derivado de alguma coisa que eu esqueci, e passou também a designar os apreciadores desse gênero, que em geral são deprimidos, extremamente sensíveis e intelectualizados.

Já devidamente esclarecido sobre a cena emo, capaz de realizar um evento durante um jogo do escrete com desenhos japoneses e desfile de moda, consultei meu babalorixá virtual, o pai Google da Aruanda, e li o seguinte:

No Brasil, o gênero se estabeleceu sob forte influência norte-americana em meados de 2003, na cidade de São Paulo, espalhando-se para outras capitais do Sul e do Sudeste, e influenciou também uma moda caracterizada não somente pela música, mas também pelo comportamento geralmente emotivo e tolerante, e também pelo visual, que consiste em geral em trajes pretos, trajes listrados, Mad Rats (sapatos parecidos com All-Stars), cabelos coloridos e franjas caídas sobre os olhos.

Eis a razão do meu pânico: sou do tempo em que era a ema, e não o emo, que gemia no tronco do juremá e anunciava a má sorte. Tremo só de pensar na seguinte hipótese: imaginem, na horinha do jogo, esse bando de frescos - de preto, com cabelos coloridos e franjas caídas sobre os olhos - pousados nos galhos de uma árvore de  jurema, dando seus chiliques, siricoticos e  gemidos de bibas sofredoras, durante a exibição de um desenho animado japonês. É, desde então, meu mais recorrente pesadelo.

Acho que, apesar das dunguices, passaremos pela Costa do Marfim. Qualquer revés, entretanto, será por mim atribuído ao técnico do escrete e  a essa visão, que vislumbro apocalíptica, de um bando de aves agourentas no clima da moda, já que a moda é secar  a seleça, enquanto uma voz, saída das profundezas de pacha mama,  brada aos meus ouvidos com o furor de mil vuvuzelas:

O emo gemeu no tronco do juremá / o emo gemeu no tronco do juremá / o emo gemeu no tronco do juremá ...

Não dormirei direito até a hora do jogo.

Abraços

quarta-feira, 9 de junho de 2010

O MANTO AMARELO DOS EGUNGUNS


Não, não e não, mil vezes não. Não torcerei na Copa do Mundo pelos minúsculos kaka, dunga, kleberson, robinho, felipe melo, josué e demais guardiões das muralhas de Jericó. Sinto muito, mas por esses eu não torço. Nem tampouco torcerei pela marca esportiva, pelos bancos, cervejas e guaranás, patrocinadores da entidade que comanda o nosso futebol de um jeito que faz a Camorra parecer a Associação Cristã de Moços.

Mas eu torcerei [e como torcerei, meu pai]  pela camisa amarela - que já foi branca e vez por outra azulece- e suas tantas estrelas; de número igual as do cruzeiro que Diogo Cão viu no céu ao cruzar o equador, pouco antes de aportar no gigantesco Congo.

Torcerei porque ela, a camisa, é feito manto de santo, vestimenta de orixá, cocar de caboclo, capa de exu, terno de malandro, roupa de marujo e  farda de capitão de guerrilha - estandartes da terra que eu amo.

[Que o pastor jorginho não nos ouça, mas jogador do escrete, quando não é o próprio Deus encarnado, como o crioulo Edson Pelé, é feito  cavalo de santo - mero instrumento do mistério que nos fez povo, nas fronteiras da bola.]

O manto canarinho esconde segredos e é terrível para os mortais, sucumbidos ao seu peso de toneladas de histórias.  É  feito o aze de palha da costa do deus da varíola, a quem agora canto nesse opanijé fora de hora: Atotô, Ajubero! Proteje essa seleção, que não te conhece e te rejeita, nas esquinas do teu continente negro.

Laroiê, Elegbara! Te peço um milagre, que rogar não custa: tem como conceder, zombeteiro, àquele bando de carolas que te acham o demônio, o poder e a ginga do teu jogo de malandro, dono dos dribles mais desconcertantes? Não tem, né...  Era você, meu compadre, que baixava nos gramados no corpo do teu cavalo Manoel, o passarinho Garrincha, e dava a volta ao mundo com a bola no pé, como Mangangá bailava na roda de capoeira ao toque de São Bento Grande.

Ela, a farda canarinho, [amarrotada, vendida, bonita, feia, diferente, moderna, tradicional, mal trajada, rota, suada, intacta...] é alma que vaga na hora grande, assombração no Recife Velho, dança de pretos mortos na Pedra do Sal, entidade encantada nas esquinas africanas do Brasil e nas vielas brasileiras da África mãe. Por isso - por ela - eu torço, reverente.

A camisa-entidade é folha de mariwo, baobá de tronco forte, bandeira cravada no Humaitá, canário da terra, pomba do Divino, lança de caboclo, lançamento de Didi, bala no peito de Marighella, bola no peito de Pelé e gol...

A amarelinha, quando adentra as quatro linhas, é a veste enfeitiçada de panos coloridos dos Egunguns, ancestrais conduzidos pela senhora dos ventos, a dona dos nove espaços dos gramados, Orum onde forjei minha maneira de sonhar o Brasil, vento da minha mãe, búfalo da floresta.

Bate no chão teu ixan sagrado! Bate e traz todos eles, Oyá, traz todos eles, Iansã, arrepia o vento dos Egunguns bailando com mil bolas, que é por eles que eu rezo e torço, como faço desde menino:

Chama Friedenreich; chama Marcos Carneiro de Mendonça; chama Leônidas; chama Preguinho; chama Fausto; chama Domingos da Guia; chama Danilo; chama Ademir Queixada; chama Zizinho; chama Barbosa; chama Friaça; chama Castilho; chama Everaldo; chama Vavá; chama Didi; chama Heleno; chama Tesourinha; chama Orlando Peçanha; chama Mané Garrincha; chama Mané Garrincha; chama Mané Garrincha; chama, chama,chama...

sábado, 5 de junho de 2010

A GUERRA QUE NÃO HOUVE E A FLOR DO CAMBUCÁ


Um aluno me perguntou ontem se acho possível a ocorrência de uma carnificina nuclear que mande a humanidade pras cucuias. Respondi que não quero pensar nisso pelo menos até 2032, ano em que vou começara a receber os caraminguás de uma previdência privada que fiz dia desses.

Ao trocar  figurinhas com o garoto me lembrei de uma história que meu avô contava sobre a crise dos mísseis, episódio dos mais tensos da Guerra Fria, que colocou o mundo diante do risco concreto de um siricotico nuclear.

Resumo rápido do babado: Em resposta a instalação de misseis nucleares dos Estados Unidos na Turquia, em 1961, os comunas soviéticos instalaram mísseis em Cuba no ano seguinte. Estava preparado, pois, o sarapatel atômico que poderia mandar a humanidade pro beleléu em grande estilo.

O presidente dos EUA, John Kennedy, comunicou ao líder soviético, o camarada Nikita Kruschev, que a instalação de mísseis comunistas a 150 km da Disneylândia era intolerável. O Tio Sam prometeu responder a afronta ao Mickey Mouse com a utilização de armas nucleares.

Pois quero dizer aos leitores que a crise dos mísseis gerou grande confusão não só no Mar do Caribe, evidentemente, mas também no Lins de Vasconcelos. Explico.

Os jornais brasileiros publicaram com tremendo estardalhaço notícias que mais pareciam epitáfios prévios da condição humana. O Manoelzinho Mota, metido a entender de tudo sobre geopolítica internacional, botou mais algodão nas narinas do defunto [a expressão me parece mais apropriada do que a tradicional botou mais lenha na fogueira] com uma informação aterrorizante:

- A ONU anunciou agorinha mesmo que a vaca já está mugindo no brejo - vai começar uma guerra nuclear no Caribe. O Conselho de Segurança disse que um dos primeiros locais atingidos no mundo será o Grande Meier, por conta do vento sudoeste que lançará os bacilos nucleares pra cá em menos de quarenta minutos. Parece que a coisa não passa de hoje...

Deu-se o furdunço. Dona Saquarema Marta danou de cantar de forma histérica o hino nacional, o Nilton colocou a camisa do Flamengo do tricampeonato de 53-54-55 [ Morro com ela! Morro com ela! ] , Seu Hilário do armazém anunciou aos prantos que todos os penduras estavam automaticamente zerados, João Mendigo decidiu que finalmente iria tomar banho para morrer cheiroso e a  Dona Creusa recebeu o caboclo Urubatão da Cachoeira, que logo depois deu passagem ao Seu Tranca Rua das Almas.

Com grande poder de liderança, Seu Tranca Rua chegou pisando firme, deu esporro em quem chorava,  nomeou uma comissão de notáveis e os intruiu a fazer uma vaquinha para comprar cimento e tijolo, com o objetivo de iniciar em tempo fulminante a construção de abrigos nucleares a prova de bala na Rua Cabuçu.

Já o Manoelzinho Mota, divulgador do alarme das Nações Unidas que condenava de forma irreversível o Lins de Vasconcelos a virar poeira nuclear, sumiu no meio do pega pra capar, argumentando que preferia a solidão como única companheira do crepúsculo da vida.

Quem desapareceu no fuzuê também foi a Walquíria, sobrinha de Dona Saquarema, flor de menina, pureza em pessoa, alma de Poliana moça,  líder do encontro de jovens com Cristo, comparada certa feita pelo poeta e compositor Tião Miquimba a uma rara mistura entre a flor do cambucá que ainda não desabrochou e a linda rosa juvenil.

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O mundo não acabou, as superpotências chegaram a um acordo para a retirada dos mísseis e o dia amanheceu no Lins de Vasconcelos quente pra diabo, já prenunciando, naquele mês de outubro, um verão arretado que transformaria em breve o subúrbio carioca numa fornalha de fazer suar o capeta. 

Da histeria coletiva que transformou o bairro num forrobodó da maçada, na  famosa e até hoje relembrada noite do fim do mundo, restou como herança uma pequena mureta de cimento onde se lia a inscrição abrigo nuclear Exu Tanca Rua das Almas.

A doce Walquíria é que nunca mais foi a mesma. Na tarde seguinte ao confronto nuclear que não ocorreu, aproximou-se do Manoelzinho Mota e, no meio de um bando de gente, tascou um sopapo de responsa, estalado, cheio de estilo, na fuça do malandro. Arrematou de bate-pronto:

- Você me garantiu que o mundo ia acabar mesmo, seu canalha.

E foi embora com o meneio da  faceira do Ary Barroso, a nossa linda rosa juvenil, com um sorriso nos lábios e a ginga diferente, feito a  flor do cambucá desabrochada.