terça-feira, 31 de agosto de 2010

MORRE O MOTO


Recebi hoje a confirmação de uma notícia lamentável. O Moto Club de São Luís, um dos principais clubes do Maranhão, dono de imensa torcida, encerrou as atividades no futebol profissional neste último dia 27  de agosto. A diretoria do Moto declarou não ter mais condições para manter o time diante das demandas do futebol atual [leia-se: falta grana].

Lamentável, rigorosamente lamentável , mais esse capítulo da transformação do futebol brasileiro em um ramo do big business, da consolidação dos clubes como valhacoutos de escroques travestidos em empresários e da proliferação de jogadores-celebridades desvinculados da história e das tradições dos times.

Morre o Moto no momento em que morrem também as camisas dos clubes, mantos sagrados transformados em vitrines de exposição de toda a sorte de produtos: telefonia celular, pomada de vaca, plano de saúde, leite condensado, funerária, montadora de automóvel, empresa da construção civil e quejandos. Dia chegará em que os escudos serão tirados da camisa para sobrar espaço pra mais um jabazinho e ninguém perceberá.

Morre o Moto em nome da gestão empresarial, da modernização dos estádios, do estatuto do torcedor, dos fabulosos investimentos para a realização da Copa de 2014, dos técnicos com salários de quinhentos mil reais, dos bandidos da bola e dos apóstolos dos gramados e seus moralismos de ocasião. 

Morre o Moto como corre o risco de desaparecer a tradição do tambor de crioula do Maranhão. Nas palavras de um velho tambozeiro que conheci em Alcântara, os lugares onde se podia escutar o tambor são agora destinados ao reggae, para a alegria de moderninhos e antenados que vêem em qualquer mistureba uma prova de vitalidade cultural. Viva o moderno e que se dane o eterno, goza o deus mercado.

Morre o Moto como pode morrer a Casa das Minas, venerável matriz da religiosidade afro-maranhense. As moças mais novas, dizem as velhas do tambor, não se interessam mais pelo legado de voduns e encantados e não há mais tempo disponível para o longo aprendizado do mistério demandado pelo Tempo maior.

E alguém, por acaso, sugere o que deve fazer o torcedor do Moto?  Escolhe outro clube, com a naturalidade de quem muda de roupa e troca um objeto quebrado pelo novo? E os senhores de setenta e poucos anos que viram e viraram Moto durante a conquista do título da Copa Norte-Nordeste de 1947 e do Torneio Campeão dos Campeões do Norte em 1948?

E a nova geração - os netos dos fundadores e torcedores  do velho  Moto Club, o Papão do Norte, Rubro-Negro da Fabril - torcerá para quem?  É simples. Os moleques torcerão, evidentemente, pela Inter de Milão, Barcelona ou Milan. Viva a globalização! Ou, na melhor das hipóteses e como é comum ocorrer, pelos clubes grandes do sul maravilha. Mas, ai deles, não terão o pertencimento que só o clube da aldeia é capaz de proporcionar.

O velho torcedor, e como é duro constatar isso, está morrendo. Em seu lugar surge o cliente dos tempos do futebol-empresa. Somos agora, os que queremos apenas torcer pelo time, tratados como clientes nos estádios, consumidores em potencial de jogos, pacotes televisivos, produtos com a marca da  patrocinadora e outros balacobacos.

Morre o Moto como morre a aldeia, a terra, a comida da terra, a várzea, a esquina e o canto de cada canto. Morre o Moto como amanhã dançará, no corpo da última sacerdotisa do Tambor de Mina, o derradeiro encantado em pedra, flor, areia e vento da praia do Lençol.

Morre o Moto como morrerá, em alguma madrugada grande, o último tocador do tambor de crioula e com ele a arte de evocar no couro a memória dos mortos. Ninguém saberá como bater o tambor que convida os ancestrais a bailar entre os vivos. Seremos apenas - e cada vez mais - homens provisórios, desprovidos da permanência que só a ancestralidade e a comunidade garantem.

Morre o Moto enquanto se desencanta o mundo.

sábado, 21 de agosto de 2010

MAIS DO BRASIL ALUMIADO

Foi em setembro do ano passado, durante um caruru de Cosme, que eu e meu camarada Diego Moreira batemos um papo com minha tia  e madrinha Nadja sobre a encantaria brasileira. Relembramos, inclusive, a história de Catita, uma menina que se encantou em pedra de rio após se enforcar em um cipó de jetirana e quase morrer. Catita, ajuremada na natureza, virou passeadora e vinha dançar na guma no corpo de minha avó Deda.

A minha querida tia Nadja, filha de Deda e irmã de minha mãe, sabe do que está falando. Ela era o braço direito da minha avó no terreiro que a velha Deda comandava em Nova Iguaçu. Nessa nossa casa de xambá, onde cresci e aprendi a respeitar os caboclos, os mestres e as santas almas brasileiras, cantávamos frequentemente para os encantados. Duas das principais colaboradoras da avó na nossa guma eram a negra Luzia, uma maranhense que sabia tudo do tambor de mina, e  a grande tambozeira Raimunda de Deus Leal, a Mundica, paraense versada nas coisas do encanto.

Uma das melhores definições para os encantados que conheço - e que bate exatamente com o que aprendi desde moleque - foi dada pelo sacerdote Francelino de Shapanan, Abê Olokun do Ilê Axé Iemanjá, de São Luís do Maranhão. Diz ele:

Para o povo do tambor-de-mina, o encantado não é o espírito de um humano que morreu, que perdeu seu corpo físico , não sendo por conseguinte um egum. Ele se transformou, tomou outra feição, nova maneira de ser. Encantou-se, tomou nova forma de vida, numa planta, num acidente físico-geográfico, num peixe, num animal, virou vento, fumaça. Ele encantou-se e permaneceu com a mesma idade cronológica que tinha quando esse fato se deu.

Esse é o grande mistério e fascínio da encantaria. O mestre Dom Manuel, por exemplo, é um nobre que encantou-se na praia do Arraial, no Maranhão, e lá vive até hoje. É respeitadíssimo nas gumas do encanto, sendo conhecido como o Rei dos Mestres. É para ele que se canta uma famosa saudação, conhecida por todos os mineiros:

O meu mestre, Rei dos Mestres, chegou
E nesse salão entrou
Vem chegando e vem saudando o pecador
O meu mestre, Rei dos Mestres, já raiou

Outro grande mestre que tive a oportunidade de conhecer - e como dança bonito! - é o caboclo Japetequara. Encantou-se quando era muito velho, durante um cochilo após sua última batalha, e vive desde então no olho da ventania. Quando se manifesta num iniciado, apresenta-se como o ancião que era ao encantar-se durante o sono leve. É grande conselheiro e apresenta-se com seriedade, sem esboçar sorrisos ou brincadeiras. Conhece os mistérios da juremação e tem o dote da cura. Seu canto mais famoso diz:

Japetequara como é belo olodô
Naná ê, naná ê, como é belo olodô

Mas nem tudo é tão sério assim, feito o semblante do velho índio. A encantaria comporta, também, zombarias, festanças, desafios e arruaças. Quando, por exemplo, chega alguém na guma sem respeitar os mais velhos, sem cumprir os devidos rituais de chegada, a etiqueta manda que se repreenda o faltoso em tom de alegre brincadeira. Todos cantam mirando o infeliz:

Quando eu vim lá da Bahia
Dancei mina em Maranhão
Quando eu vim lá da Bahia
Dancei Mina em Maranhão
Tubarão tu não me morde
Eu abro os braços:
-Não, não, não!

Nos meus tempos de moleque adorava o fuzuê que se fazia quando esse canto era puxado, com todos os iniciados abrindo os braços para demonstrar que ninguém canta de galo no terreiro em que os encantados são os reis. Não me lembro de nada mais alegre e desafiador na minha vida.

Esse é o pedaço do  Brasil que me alumia, cada dia mais,  o dia todo.

Abraços

terça-feira, 17 de agosto de 2010

O CURUPIRA E AS ELEIÇÕES DE 2011


Quando eu digo que o Brasil não é moleza, não estou de sacanagem. Ontem mesmo recebi uma infirmação fabulosa de um camarada da curimba: o cacique Mário Juruna - um índio eleito deputado federal nos anos oitenta- virou entidade e está baixando em um terreiro de Umbanda em São João de Meriti. Assim que Juruna baixa no cavalo, o cambono corre para pegar um gravador portátil e entregar ao bugre. O caboclo passa a gira inteira dando passes, falando cobras e lagartos dos homens brancos e gravando a curimba.


Eu conheci uma senhora do santo, e minha Tia Nadja - leitora desse espaço - é testemunha, que trabalhava em rodas de encantaria com o Curupira. Maria dos Anjos, era esse o seu nome, não só incorporava o encantado das matas como também recebia a princesa Toia Jarina, tremenda entidade da guma brasileira [ o ponto de Dona Jarina, aliás, é lindíssimo: Jarina é flor, é flor do mar / ela é flor de laranjeira / é flor do mar...] . É, meus velhos, eu vi Jarina dançar e o caboclinho das matas pular serelepe numa roda de encantados. É mole, o Brasil ?

Outro dia mesmo me lembrei da Dos Anjos. É que ando clamando pela participação do Curupira nas próximas eleições. O Curupira está fazendo falta no atual e decisivo momento político brasileiro. Explico, antes que os camaradas achem que endoidei de vez.

O Curupira é matreiro. Gosta de pinga e fumo e costuma iludir os caçadores que entram na floresta e esquecem de lhe oferecer agrados. Quem entra na mata sem agradar ao Curupira termina mais perdido do que cego em tiroteio. É também o protetor de todas as árvores das florestas. Diz o nosso Câmara Cascudo que, quando arma-se alguma tempestade, o caboclinho verifica árvore por árvore, percute-lhes o tronco e as sapopemas, para saber se resistirão aos tormentos do temporal. No Alto Amazonas, bate com o calcanhar ; no rio Tapajós, bate com o machado feito de casco de jabuti; no Baixo Amazonas, bate com o pênis imenso!

Se eu fosse candidato a governador do meu Estado - e as opções esse ano são terríveis - prometeria  enviar funcionários da Secretaria de Meio Ambiente às matas profundas. A ideia é simples. De vez em quando uns temporais bíblicos, do estilo Noé, traz a arca, castigam o Rio de Janeiro. Árvores imensas, centenárias, vão ao chão. Os funcionários, instruídos pelo Curupira, saberiam exatamente como proteger as árvores mais vulneráveis. Correríamos, é verdade, o risco de ver um bando de machos batendo com as picas nos troncos das árvores, o que causaria comoção e histeria nas tradicionais famílias tijucanas. Mas, vá lá, é o preço da preservação.

Ou podemos, por outro lado, fazer o pacote completo e mandar um Índio do Rio de Janeiro para o Baixo Amazonas, para conversar com o encantado da floresta. Pensei em Índio da Costa, o Sancho Pança do candidato Zé Serra. Como o vice Índio entende tanto de cultura brasileira como eu entendo de física quântica - necas de pitibiribas -  certamente esquecerá de levar fumo e pinga para agradar ao Curupira. Enganado por um enfurecido ente fabuloso , Índio irá se perder para todo o sempre nas imensidões amazônicas. Eu apoio.

Pensei, inclusive, em um final perfeito, mais que desejado, para esse projeto. Imaginem a ameaça de um temporal arrasador nos confins da mata. O Curupira, de pau duro, sai batendo com a assombrosa jeba nas árvores para verificar se elas  resistirão. Nesse instante o Silvícola do Litoral, o vice do vampiro, está, desavisado e perdidinho da silva, bancando a estátua ao lado de uma sapopema gigantesca. O encantado vem chegando, com o báculo episcopal em ponto de bala...

Erra o alvo, Curupira, erra...

Abraços

sábado, 14 de agosto de 2010

O BESTEIROL NA AVENIDA


Tem texto meu publicado no jornal O Globo de hoje, esculhambando as escolas de samba do Rio de Janeiro. Reproduzo abaixo o arrazoado:

Quem conhece o ambiente das escolas de samba sabe que o Carnaval começa, de fato, no meio do ano. Os enredos estão definidos, o concurso para as escolhas dos sambas das agremiações mobiliza os componentes e o ziriguidum já come solto nas quadras.

Uma constatação me parece ser possível desde já: a safra de enredos para 2011, com honrosas exceções, é digna dos melhores momentos do FEBEAPÁ – o Festival de Besteiras que Assola o País – do saudoso Sérgio Porto. A tendência, cada vez mais irreversível, é pela realização em larga escala de enredos patrocinados ou de fácil apelo popular, versando em grande parte sobre assuntos tão ligados ao universo das escolas de samba quanto uma peregrinação ao Santo Sepulcro.

A moda nos últimos tempos, da direção de creches infantis às presidências de escolas de samba, é a adoção de critérios de gestão empresarial para administrar empreendimentos. A escolha dos enredos, dentro dessa realidade mercantilizada das super escolas de samba s.a, se pauta menos pela possibilidade artística que o assunto sugere do que pelo potencial de obtenção de recursos financeiros que o tema apresenta. A tradição - essa palavra mais fora de moda que o terno branco de linho S-120 - vai pro beleléu sem choro nem vela. Que se instaure o grande balacobaco do mercado: quem dá mais vira enredo e estamos conversados. As escolas de samba, nesse contexto, deixam de ser vistas e pensadas como instituições culturais com um universo simbólico historicamente constituído e se transformam em simulacros do show business.

Não sou contra – enquanto não apareça solução melhor - os patrocínios e desconfio que essa tendência seja irreversível. Há, porém, que se discutir até que ponto a escola deve ceder para não se tornar escrava do sinhozinho patrocinador. O patrocínio deve estar a serviço do enredo, mas é o contrário que em geral anda acontecendo. Algo similar ocorre, por exemplo, com as camisas dos clubes de futebol – o destaque dado aos símbolos dos patrocinadores [cremes de barbear, laticínios, lojas de eletrodomésticos, companhias de aviação, refrigerantes, absorventes femininos e quejandos] transformou os emblemas dos times em verdadeiros panos de fundo, quase intrusos, nas camisas que um dia foram chamadas de mantos sagrados. Não há manto sagrado que resista a um anuncio de pomada contra assadura maior que o escudo do clube.

Veremos passar na Sapucaí, em 2011, agremiações falando sobre coisas como o petróleo do pré-sal, a reforma do porto do Rio, a história dos cabelos e penteados, os mitos de Florianópolis, a trajetória fulminante do grupo Mamonas Assassinas, o romantismo do rei Roberto Carlos, as descobertas da medicina, assombrações de todos os tipos e filmes de terror [com direito, quem sabe, ao massacre da serra elétrica e ao aparecimento de mortos-vivos em plena Praça da Apoteose].

Não é de hoje que a banda toca dessa maneira. O apocalipse vem se desenhando ao longo dos últimos dez, quinze anos, com tintas tenebrosas. Já viraram enredo Beto Carreiro, Chico Recarey, Xuxa, Ronaldo Fenômeno, a Companhia Vale do Rio Doce, duplas sertanejas, cantores de rock, o mosquito da dengue, as bactérias que habitam o corpo humano, o gás de Xapuri, o aquecimento global e os personagens de Walt Disney. Não duvido que em 2012 alguma escola desfile com a história da profecia Maia sobre o fim do mundo e incendeie, em uma apoteose pirotécnica, seus carros alegóricos no meio da avenida.

Há quem goste desse gigantismo todo e ache que as escolas de samba devem adotar um padrão estético que misture no mesmo caldeirão espetáculos da Broadway e micaretas baianas, sob a ditadura de imaginosos carnavalescos. Podem apostar que, pelo andar da carroça, um dia algum mago iluminado defenderá a ideia de que as escolas desfilem com trilha sonora eclética: funk, axé music, sertanejo, rock, música eletrônica e, eventualmente, samba.


O grande sambista brasileiro Antonio Candeia Filho escreveu, em parceria com Isnard, um livro nos anos setenta chamado Escola de Samba, árvore que esqueceu a raiz. A bronca do saudoso Candeia com os rumos das agremiações está mais atual do que nunca. A árvore frondosa - gameleira sagrada, mangueira, jequitibá, salgueiro chorão, baobá e fundamento do samba - esqueceu mesmo a raiz e está caindo com o tronco podre e as folhas mortas.

Abraços



sábado, 7 de agosto de 2010

OS CANDIDATOS


O debate entre os candidatos à presidência na última quinta feira foi mais monótono que uma corrida de tartarugas sob efeito de Lexotan. Entre uma cochilada e outra cheguei a algumas conclusões.

Plínio de Arruda Sampaio foi bem exatamente por conta de seu desempenho delirante. Atuou como o franco atirador, a pipa voada, a nave louca. O candidato estava com a macaca e só faltou dizer que ia criar cento e vinte milhões de novos empregos no primeiro mês de mandato. Como não tem votos suficientes sequer para ser eleito síndico do Balança mas não cai, Plínio se sentiu em condições de articular um discurso extremista para marcar posição. Foi dele a frase mais doida do embate ao defender a reforma agrária radical : - Você,  companheiro camponês que está nos assistindo...

A atuação do candidato do PSOL me remeteu a um debate dos meus tempos de estudante, entre concorrentes à direção do centro acadêmico de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Lá pelas tantas um sujeito com cabeleira a Bufalo Bill, no meio da discussão sobre a necessidade de reformas curriculares, disse o seguinte:

- Mais importante do que o currículo é inserir o C.A. na luta dos sandinistas na Nicarágua.

Plínio é a nossa versão para o curioso caso de Benjamim Button. Aos oitenta anos está na campanha presidencial com um discurso de secundarista de grêmio estudantil. Pode ser  que tenha uma parcela dos votos da rapaziada de dezesseis anos, idade em que qualquer pessoa decente tem o dever moral de querer a revolução mais radical do mundo. Foi boa, enfim, a estratégia de Plínio, o jovem, para marcar posição.

Dilma Roussef me parece fisicamente a  filha do casamento entre Etty Fraser e Chuck, o brinquedo assassino. É a cara dos pais. No início gaguejou, articulou mal as frases e parecia próxima de uma crise neurovegetativa que a paralisaria para sempre. Estava tão confortável quanto um esquimó no Mercadão de Madureira em um dia de verão. Aos poucos foi respirando e apenas se salvou do cataclismo.

Acho que um governo Dilma pode ser interessante para o país exatamente porque ela não é interessante coisíssima nenhuma. Depois da apoteose carismática e personalista de Lula, teremos uma Chuck Fraser pragmática e ruim de cintura, o que pode ser bom para o amadurecimento do exercício político em um país marcado pela crença sebastianista no personagem do salvador. Terá o meu voto, simplesmente por representar a continuidade do projeto que, mesmo com problemas, tem inúmeros acertos e me parece o mais consistente no campo progressista.

Marina Silva parecia uma candidata ao papel de Nossa Senhora em uma montagem do Auto da Compadecida por um grupo de teatro amador. Falou de Deus, mostrou que ama a humanidade e recitou um poema digno dos melhores momentos de J.G. de Araujo Jorge. A melhor tirada do debate foi a de Plínio Benjamim Button de Arruda Sampaio a chamando de Pollyana. Marina lembra mesmo a moça da filosofia do contente.

Se Rosinha Garotinho sempre me pareceu ter o perfil de vendedora da Avon, Marina - companheira de fé da garotinha - tem mais categoria e pode, fácil, fácil, sair das eleições como conselheira sênior da Natura ou comentarista de sustentabilidade da Globonews. A verde parece se achar a única candidata capaz de velar pelo fogo sagrado do altar da deusa Vesta. Eu desconfio muito da pureza das vestais e não simpatizo com seus discursos imaculados.

José Serra é um perigo para a formação das crianças. É difícil saber de quem se trata: o Lula Molusco do Bob Esponja ou o vampiro Nosferatu. Em um caso as crianças desconfiam, já que o molusco sacaneia o Patrick e o Bob Esponja. Em outro, tremem de medo. Aparições de Serra podem esculhambar o equilíbrio infantil e eu recomendo que tirem os petizes da sala nas intervenções do tucano. O PSDB parece mesmo mais perdido do que soldado americano em Cabul. Serra começou na política como um sujeito afinado com o campo progressista e periga terminar como um molusco neo-lacerdista pescado e devorado por algum DEMônio silvícola do litoral. 


Aguardemos os próximos embates entre os postulantes ao Planalto.

Abraços

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

ENTREVISTA COM BETH CARVALHO

Já dizia o velho Barão de Itararé que o que se leva dessa vida é a vida que a gente leva. Se o quesito for mesmo esse, e acho que é, estou bem parado na fita. Querem um exemplo? A noite que eu e meu camarada Eduardo Goldenberg passamos na casa da grande Beth Carvalho, figura fundamental na história da cultura brasileira. Beth nos deu uma entrevista comovente, esclarecedora e , quero crer, definitiva. Para ler o nosso papo com a madrinha basta clicar aqui .

terça-feira, 3 de agosto de 2010

SIBARITAS AO VOLANTE


O circo da Fórmula 1 consegue unir de forma impressionante meninos mimados, babacas, bundões e gangsters da pior espécie. É a imagem bem acabada do que há de pior na sociedade de consumo: o culto ao dinheiro, a veneração pelo carro, as artimanhas da propaganda, o individualismo, o poder das grande empresas, a vulgarização do corpo feminino, a ética perversa de que os fins justificam os meios, o desperdício e o banditismo dos bacanas.

Já escrevi alhures que uma maldição legada pelo rodoviarismo dos Anos JK ao Brasil é o culto desmedido ao automóvel como símbolo de status social. Essa glamourização do carro e da velocidade, além de matar aos montes no trânsito,  transformou meninos mimados do automobilismo em heróis nacionais, aventureiros destemidos e outras bobagens. O malufista Airton Senna - o amigo do Galvão Bueno que considerava os carros seus melhores amigos - dava voltinhas balançando a bandeira do Brasil depois das corridas e consagrava esse patriotismo tacanho com cheiro de gasolina.

Recentemente os fãs da Fórmula 1 se decepcionaram com o piloto Felipe Massa - um yuppie com jeitinho de playmobil metrossexual  - que abriu mão da vitória em uma corrida em nome dos milhões de dólares que recebe da Ferrari. Cumpriu o contrato, entregou a vitória a Fernando Alonso e encheu mais um pouco o cofrinho com as verdinhas. Faz parte do negócio.

O mais recente capítulo dessa farsa grotesca aconteceu na corrida seguinte. A Rede Globo, os anunciantes das transmissões das corridas, as empresas patrocinadoras da babaquice sobre rodas e outras redes mafiosas acusaram o golpe da desmoralização de Massa. O Brasil é um mercado precioso demais para os sicofantas das corridas de automóvel. Direitos de transmissão são negociados por fortunas, contratos milionários estão em jogo e a lógica das máfias é não perder nunca. Com a pantomima protagonizada pelo rastaqüera  da Ferrari, piscou o alerta: e se o público brasileiro começa a largar de mão a palhaçada e a audiência das corridas vai para as cucuias? Temos que garantir o dindim, ora pitombas.

Eis que a grande mídia esportiva brasileira resolve, então, reconquistar o público - acabrunhado com as picaretagens da Comando Vermelho da Ferrari - transformando uma disputa entre Rubens Barrichello e Michael Schumacher [por um pífio décimo lugar] em um evento de proporções épicas. Imagens de Schumacher fechando Barrichello foram repetidas exaustivamente. Rubinho foi tratado como um paladino da justiça e gênio do esporte, derrotando o jogo sujo do alemão e reafirmando a habilidade do brasileiro ao volante de uma banheira de gasolina.

A lógica é evidente: criemos o fato novo e heróico que varrerá para debaixo do tapete as cafajestagens do automobilismo e garantirá a audiência nas próximas corridas. É grana alta em jogo. Quem não tem cão, camarada, caça com gato. Rubinho é, de súbito,  o restaurador do arrojo, do jogo limpo, do bem vencendo o mal, da emoção que a Fórmula 1 proporciona e outras babaquices do gênero.

É disso, enfim, que é feito o paraíso de asfalto dos sibaritas infantilizados - poderosa metáfora sobre rodas do herói capitalista, individualista, empreendedor, destemido, desonesto e, sobretudo, bunda mole.  

Abraços