domingo, 12 de setembro de 2010

DEVANEIOS ELEITORAIS

Em ano eleitoral o sujeito corre o risco de endoidar se levar a sério as aparências dos candidatos. Continuo, por exemplo, achando o Serra os cornos do vampiro Nosferatu . A Dilma quer ser a mãe do PAC, mas lembra cada vez mais a mãe do Chuck, o brinquedo assassino. Plínio de Arruda Sampaio é o Benjamim Button da política. Revelou, por exemplo, que em 1950 votou no Brigadeiro Eduardo Gomes, da UDN, contra Getulio Vargas. Com vinte anos, portanto, Plínio defendia ideias de um senhor de oitenta. Agora, com oitenta, defende ideias de um adolescente rebelde. Ainda vai terminar no Sana, falando em volta de uma fogueira sobre sua campanha a representante de turma de uma escola alternativa.

Marina Silva é um caso sério, tanto que mudei de parágrafo. Basta a verde aparecer na telinha e eu começo, em processo delirante, a imaginá-la em trajes de retirante fazendo figuração em Morte e Vida Severina ou então como a mãe da cunhã do Boi Garantido de Parintins. Sonhei outro dia que ela, Marina, era a Compadecida do auto de Ariano Suassuna. Netinho de Paula fazia o papel de Jesus Cristo.

A candidata Jandira Fhegalli é uma que me exaspera. Já confundi a deputada de longas madeixas com o jogador espanhol Carles Puyol, o ex-goleiro Renê Higuita e os cantores Cid Guerreiro e Benito di Paula. Fernando Gabeira é a mistura de Caetano Veloso e Ronaldo Ésper. Zé Maria Eymael é o Agnaldo Rayol disfarçado. Outro dia achei que Marta Suplicy tinha pintado o cabelo de preto. Só depois reparei que se tratava de Dedé Santana. Faz parte.

Em transe, pois, com as aparências dos candidatos, comecei a pensar como a imagem pública pode ser enganosa. Para o morto-vivo Serra, de acordo com o rumo dos ventos, virar o Chuck, a Marina bancar o vampiro e a Dilma aparecer como retirante da caatinga não custa.

Penso nessa questão das imagens enganosas, cada vez mais impactantes e surreais, e me lembro de imediato dos imperadores D. Pedro I e D. Pedro II. Explico.

Pedro I era um sujeito feio, com o rosto repleto de espinhas, e dado a ataques dos nervos. Dava chiliques e siricoticos com alguma freqüência. Não obstante, era um varão assinalado dos bons, com fama de matador. Tinha estatura mediana, um vozeirão impressionante e fazia sucesso avassalador com as senhoras e senhoritas do Império. Não usava talheres, que considerava hábito desnecessário e coisa de mulheres e frescos. Comia com as mãos mesmo - e raramente as lavava (o Marquês de Monte Alegre, impressionadíssimo, dizia que essas grossuras do Imperador geravam verdadeiro frisson entre as mais requintadas senhoras da Corte).

Um dos mistérios sobre o Imperador é quanto ao número de filhos que o homem colocou nesse mundo velho. Com Leopoldina (a primeira mulher) teve sete crianças. Com Amélia Augusta (a segunda) teve apenas uma filhota. A Marquesa de Santos (a primeira amante, digamos assim) pariu quatro rebentos.Clemência Saisset (caso passageiro) teve um filho do machão e a Baronesa de Sorocaba (rápido flerte) teve mais um garoto reconhecido pelo português. Estes todos D. Pedro I registrou. Biógrafos atribuem a Sua Majestade mais quatro filhos ilegítimos. O homem era, portanto, uma espécie de reprodutor. O termo garanhão se aplica com tremenda propriedade.

Já D. Pedro II, com pinta de galã de romances para moças, loiríssimo, olhos claros, mais de um metro e noventa, era meio devagar quase parando. Vivia com o freio de mão puxado. Sofria horrores com um problema – não mudou de voz. Com trinta e tantos anos continuava falando com o mesmo timbre que tinha aos onze aninhos. Um camarada imenso como ele, o homem mais alto do Império segundo alguns bajuladores, quando abria a boca falava fino como se tivesse saído das fraldas. Isso inibia tremendamente o contato do Imperador com as damas da Corte - não é toda mulher que topa um gigante de cinema com voz viadinha de Polyanna, a moça.

Teve, o segundo Pedro, vida sentimental das mais recatadas, mantendo estável casamento com Teresa Cristina (horrorosa, por sinal) e mantendo um caso discreto e meio platonico com a Condessa de Barral. Sabemos da admiração e amizade que o Imperador nutriu pela Condessa. Não há, porém, registros de que Pedro II tenha derrubado a Bastilha da madame.

É curioso. Escrevi essas mal traçadas sobre os candidatos à presidência e ao parlamento e sobre os Imperadores do Brasil. Me ocorreu agora que deveria ter escrito – com esse mote das aparências enganam – sobre Átila, o Huno. O furioso guerreiro, homem cruel, conquistador impiedoso, amante sedutor e insaciável, media impressionantes 1, 06 de altura. Escreverei por extenso para não gerar dúvidas – Átila, o Huno, tinha um metro e seis. Era apenas um pouco mais alto que Nelson Ned.

Fica o texto sobre o huno implacável para uma próxima ocasião. Vampiros, brinquedos assassinos, velhos recém-nascidos, figurantes de um auto nordestino e imperadores são suficientes para o vatapá de hoje.

Abraços!

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A FESTA DA SENHORA DA PENHA

Em breve, no mês de outubro, comemora-se no Rio de Janeiro a festa de Nossa Senhora da Penha. Até quando, confesso, não sei. Já recebi informações de que algumas igrejas evangélicas se organizam para fazer sistemática propaganda contra a festança. As mesmas igrejas andam distribuindo, no Pará, panfletos contra o Círio de Nazaré.

É sobre a ameaçada  festa da Penha, portanto, que quero falar.

Tudo começou no século XVII, nos arrabaldes da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Um português, Baltazar de Abreu Cardoso, saiu para caçar em suas terras. Subitamente apareceu, traiçoeira , uma cobra gigantesca. Apavorado, sentindo o bafo da indesejada das gentes [apud o Seu Manu Bandeira], o portuga apelou aos céus: - Valei-me, minha Nossa Senhora da Penha!

Feito o apelo, apareceu um lagarto que botou a peçonhenta para correr. Baltazar de Abreu Cardoso, comovido, ergueu uma ermida no local do milagre. Prometeu, também, fazer anualmente uma festa para relembrar o fato. Assim conta o povo. Como não costumo ir contra a força da rapaziada e sou menos um adepto de crenças do que de ritos, ateu cansado de presenciar milagres, conto a história. Começou aí uma das maiores tradições cariocas, a festa da Penha.

Feita a devida referência ao sagrado constato que o milagre maior não foi o da santa. Foi o do povo carioca, que tomou para si a festa e a transformou, no início da República, numa espécie de folia pré-carnavalesca e espaço de exercício da cidadania informal. Aos fatos.

A República das oligarquias não gostava do povo e criminalizava a cultura popular. A escravidão fora abolida em 1888. Os homens do poder poderiam, perfeitamente, ter pensado na adequação do ex-escravo ao mercado formal de trabalho e aos meandros formais da cidadania. Coisa nenhuma. Optou-se apenas pela vinda do imigrante europeu, em uma  tentativa sistemática de promover uma espécie de branqueamento racial que colocasse o país na trilha da civilização.

A tara desse pessoal  era modernizar e higienizar o Rio de Janeiro, adotando Paris, a capital francesa, como modelo de conduta e estruturação urbana. E tome de derrubar cortiços e colocar a polícia para descer o cacete em pretos e pobres. Nesse clima, as manifestações populares - o samba, a capoeira e a macumba, por exemplo - eram duramente reprimidas, vistas como símbolos do atraso e da barbárie.

Mas o povo, meus amigos, deu o nó na caninana. A rapaziada virou dona da festa e dela fez seu pertencimento. Os capoeiras cortaram o mato nas rodas de volta ao mundo, as baianas prepararam a comida do santo e os bambas mostraram os sambas que tinham acabado de compor. A festa se transformou no maior evento popular do Rio de Janeiro depois do carnaval.

Os donos do poder fizeram de tudo para impedir o furdunço. Em 1904, 1907 e 1912, a prefeitura proibiu rodas de samba nas proximidades da Penha. A rapaziada foi lá, saiu na porrada e fez. Havia ordem de prisão para praticantes da capoeira. O berimbau puxou o toque de São Bento Grande  e o povo gingou. A baiana temperou o acarajé, a cerveja gelou e o Rio de Janeiro, pátria de Lima Barreto, mostrou que o espaço da civilização é a rua.

Ao ler um belo texto sobre a festa (do livro A Subversão pelo riso , de Rachel Soihet ) deparei-me com uma notícia publicada pelo Jornal do Brasil em 1904: Um violonista foi preso e espancado pela polícia por insistir em cantar sambas nas escadarias da igreja. Tenho desde então a certeza de que no ano seguinte, e no outro ano também, esse violonista voltou ao monte da Penha e orou em forma de batuque aos pés da ermida sagrada.

Aos capoeiristas, malandros, sambistas, macumbeiros, baianas, floristas, carroceiros, condutores de bonde, putas, jogadores, brancos, negros , mulatos, enfim, ao povo festeiro da Penha, acendo minha vela de sete dias (para durar!) no altar das brasilidades. A Virgem, tenho convicção, aprova o gesto desse seu modesto devoto. Ela sabe, mais do que ninguém, que maiores são os milagres do povo. E se a santinha se  esquecer disso, Exu, o compadre, vai lá, canta um samba, faz a festa e, respeitosamente, avisa.

Que a Senhora da Penha nos livre dos novos bichos de peçonha - os que querem melar a festa - e proteja a todos nós, homens comuns do Brasil.

Saravá!