segunda-feira, 29 de novembro de 2010

ESPORTE CLUBE BARAÚNAS - O TRICOLOR DE MOSSORÓ


Recebi um email de um aluno sugerindo que eu escreva um texto sobre a história e as glórias do tricolor querido (palavras dele). Como o cabra não diz de que tricolor se trata, concluí que ele quer que eu fale sobre o grande Baraúnas de Mossoró, coisa que faço com enorme prazer.

Os índios Mossorós, da tribo Cariri, viviam no século XVIII às margens do Rio Apodi, no interior do Rio Grande do Norte. Fisicamente fortes, eram bons caçadores, atacavam o gado trazido pelos colonizadores para a região e enchiam o bucho de carne assada ou chamuscada. Gostavam de dormir no chão, desprezando a rede de algodão e a esteira, que lhes parecia coisa de frescos. Os homens passavam os dias caçando, pescando e colhendo mel de abelhas. As mulheres eram oleiras, plantavam e faziam a colheita.

O chefe da tribo recebia a denominação de Baraúna - cabia a ele o comando das festas que duravam enquanto durasse a lua nova. Bebia, o cacique Baraúna, quantidades monumentais de vinho feito com frutos e raízes. Só podia tomar decisões importantes e reconhecidas pela comunidade se estivesse inteiramente de porre.

Pois bem, amigos, no local onde em mil setecentos e varadas habitavam os índios, surgiu a cidade de Mossoró - hoje a maior do interior do Rio Grande do Norte.

Em 1924 - ano em que os levantes tenentistas viravam o Brasil de cabeça pra baixo - alguns boêmios de Mossoró resolveram fazer algo mais importante do que marchar na Coluna Prestes contra o poder das oligarquias. Fundaram um bloco carnavalesco em que todo mundo se esbaldava no carnaval com fantasias de índios. O nome do bloco: Baraúnas. Foi desse bloco que surgiu, em 14 de janeiro de 1960, o time de futebol da Associação Cultural Esporte Clube Baraúnas - o tricolor de Mossoró.

Em sua trajetória de glórias, o Baraúnas ganhou o disputadíssimo campeonato mossoroense em cinco ocasiões [1961; 1962; 1963; 1967; 1977] ; foi campeão potiguar em 2006; e bicampeão da Copa Rio Grande do Norte [2004; 2007].

Na Copa do Brasil de 2005, sob a liderança do centroavante rompedor Cícero Ramalho [ perto de quem Ronaldo Fenômeno parece uma Olívia Palito ] , o Baraúnas desclassificou o Vasco da Gama em plena colina de São Januário - 3 x0 inapeláveis, numa exibição de gala que fez até o busto do Almirante abrir a boca de espanto

Os fãs do futebol sabem que falo sério - acho que poucos clássicos na história do desporto mundial podem se comparar, em charme e rivalidade, ao Potiguar X Baraúnas, o derby da cidade de Mossoró. Em dia de PotiBa, até as almas do velhos guerreiros Cariri acordam do sono profundo nas águas do Rio Apodi e rondam, serelepes, a cancha da partida. Se a noite é de lua nova, tempo de fuzuê , tome de quizumba na aldeia e festa no gramado.

Fiquem os amigos com a gravação do hino do Baraúnas, com direito a um efeito especial que simula, para intimidar qualquer adversário, o rugido assombroso de um leão feroz:



Abraços










quarta-feira, 24 de novembro de 2010

EU SOU DO RIO DE JANEIRO

O Jornal O Globo resolveu, definitivamente, apostar na ideia de que a solução para os problemas urbanos do Rio de Janeiro é mais simples do que se imagina: basta transformar a cidade em uma imensa casa do Big Brother Brasil, em que todo mundo fuxica a vida de todo mundo, o cotidiano se transforma em um espetáculo midiático, o dedo-duro é elevado à categoria de cidadão exemplar e a sensação do medo é usada como poderoso instrumento de controle social. O discurso do jornal - em nome do interesse coletivo - tão somente reforça o individualismo mais tacanho que inviabiliza a urbanidade.

A última investida do jornalão é sintomática. O Globo criou uma conta no twitter para que o carioca denuncie  ilegalidades que vão desde carros estacionados de forma irregular até barraquinhas de cachorro quente, botequins e  bancas de flores que ameaçam o incontrolável desejo conservador da cidade-enfermaria. O polemista, advogado e centroavante carioca  Eduardo Goldenberg já desancou aqui  , com propriedade, os aspectos jurídicos da coisa e a histeria coletiva  dos volantes de contenção.

Vou insistir mais uma vez, por vício de formação e clamando feito um João Batista no deserto, que as reflexões sobre os problemas urbanos do Rio de Janeiro ( e de qualquer cidade ) devem ser feitas em uma perspectiva que encare a urbe como um organismo vivo feito de história, lugares de memória, espaços de conflito, instâncias de urbanidade, relações tensas e intensas entre os diferentes grupos que habitam a aldeia, etc. Darei meu pitaco, nessa dimensão, sobre o twitter alcagüete (mantenho o trema) que o jornal criou e outras coisas mais.

Os primeiros governos republicanos criminalizaram as diversas manifestações da cultura popular no Rio de Janeiro - quase todas marcadamente vinculadas às áfricas que existem nas nossas ruas. Jogar capoeira passou  a ser crime no Código Penal de 1890, os terreiros de macumba foram grosseiramente reprimidos e a posse de um pandeiro era mais que suficiente para a polícia enquadrar o sambista na lei de repressão à vadiagem . Os intelectuais do período - com raras exceções - pregavam a necessidade de se promover um branqueamento da população brasileira; única garantia de civilizar as nossas gentes. Chamarei atenção para esse fato quantas vezes for necessário.

Quando a escravidão foi pra cucuia, houve uma deliberada política de atrair imigrantes europeus para cá. Não há qualquer registro de iniciativa pública que tenha pensado na integração do ex-escravo ao exercício pleno da cidadania e ao mercado formal de trabalho. A ideia era estimular a imigração de brancos do velho mundo. O modelo de abolição da escravatura no Brasil foi descrito e analisado em 1.500 teses acadêmicas. Todas elas podem ser resumidas em uma única frase do samba da Mangueira de 1988: "...livre do açoite da senzala / preso na miséria da favela" (Hélio Turco e Jurandir - 100 anos de liberdade, realidade ou ilusão).

Uma das primeiras leis de estimulo à imigração no período falava que o Brasil abria as portas, sem restrições, para a chegada dos imigrantes europeus. Africanos e asiáticos, porém, só poderiam entrar com autorização do Congresso Nacional, em cotas pré-estabelecidas. Traduzindo o babado: que venha o imigrante, contanto que seja branco e cristão. Mais do que encontrar mão de obra, a imigração no Brasil foi estimulada como meio de branquear a população e instituir hábitos europeus entre os nossos. O negro foi tolerado no Brasil apenas enquanto o meio de transporte para chegar às nossas praias foi o navio negreiro, assim como certos segmentos das elites (não todos, que fique claro) toleram as camadas populares porque precisam de empregadas domésticas, babás, porteiros, lavadores de carros e catadores de lixo.

É exatamente dentro desse contexto racista e discriminatório do pós-abolição que começa a ser gerada a reação a essa política pública elitista: a cultura da fresta como meio de reinvenção da vida e construção de uma noção de pertencimento ao grupo e ao espaço urbano.  A ilegalidade no Rio de Janeiro, do ponto de vista histórico, foi portanto a opção que um estado racista e excludente deu à maioria da população da nossa cidade. Foi o poder público que não quis incluir.

Desnecessário dizer que quando falo em raça não uso o termo no sentido biológico ( pois que se sabe que raça como conceito biológico não existe). Uso raça no sentido social, histórico, político e econômico. Raça não existe nos laboratórios de biologia  mas continua existindo nas cadeias, nas salas de tortura, nas grandes empresas e nas caçambas dos camburões.

Quando ouço falar, portanto, em choque de ordem, proibição de cerveja no Maracanã, ordenação das torcidas nos estádios,  remoção de favelas e quejandos, me ocorre o seguinte: As pessoas que atuam na mídia mais poderosa e os responsáveis pelas políticas públicas têm alguma dimensão sobre o que significa, do ponto de vista cultural, a relação entre legalidade e ilegalidade por aqui? A coisa está sendo pensada apenas em termos criminais, quando até as pinturas rupestres da Serra da Capivara sabem que o buraco é mais embaixo.

Incluir é simplesmente enfiar a polícia no morro, reprimir a violência, colocar o moleque pra tocar violino em orquestra de música clássica e estimular o garoto a  praticar esportes? Isso pode ser um passo necessário (acho, com uma outra ponderação, que é) mas tento ir  além e escapar da reflexão imediatista que a histeria da sociedade do espetáculo e do consumo acrítico da notícia impõe. E o além é dar a esse garoto o direito de conhecer de onde vem sua cultura, seus modos de sentir, amar, comer, se expressar, conviver na rua, respeitar o mercado [o de Exu, e não o financeiro] e, sobretudo, reconhecer que nós tentamos embraquecer o negro mas foi ele que nos empreteceu e nos civilizou poderosamente. Isso se faz com Educação maiúscula, e não com a reprodução pura e simples nos bancos de escolas de conteúdos desprovidos do contato com a realidade de quem aprende.

O povo bateu tambor em fundo de quintal, jogou capoeira, fez a sua fé no bicho, botou o bloco na rua, a cadeira na calçada, o despacho na esquina, a oferenda na mata, a bola na rede e o mel de Oxum na cachoeira - já que sem um chamego acolhedor ninguém vive direito. Excluído dos salões do poder, o carioca inventou o ano novo na praia, zuelando atabaques em louvor a Iemanjá, Janaína, Yara e Kianda. Colocamos na Virgem da Conceição e na Senhora dos Navegantes os seios fartos de deusa africana.

O povo do Rio teve que inventar a cidade [e a cidadania] que lhe foi covardemente negada e criou esse modo de ser que atropela convenções, confunde, seduz, agride e comove. Qualquer tentativa de ordem pública deve partir desse pressuposto e tramar, aí, instâncias de interlocução e o fomento de diálogos entre a população e o poder instituído. Há que se perceber, nos meandros do legal e do ilegal, a maneira que o carioca encontrou, ao longo de sua história, para subverter a escuridão dos tumbeiros, a caça aos índios tamoios e a ferida aberta pelos trezentos anos de chibata. Nós somos o povo que bateu tambor na fresta e criou a subversão pela festa.

Qualquer debate que ignore isso é provisório, equivocado e, como sempre, excludente. A leitura meramente institucional ou criminal de um processo que, como qualquer outro, é histórico e cultural, empobrece a discussão, estimula o erro e aponta soluções imediatistas que não se sustentam em um prazo mais longo.

Eu quero o convívio  urbano e as ruas pacificadas. E rua pacificada é rua cheia, não é rua vazia de gente onde vez por outra se escutam tiros ou onde prevaleça a bandidagem mais deslavada ou a Ordem do Choque.  Os mocinhos de O Globo, que encaram a cidade fomentando o individualismo mais tacanho, o olhar enviezado e o clima de desconfiança entre seus habitantes, prestam um desserviço. A política pública, estimulada pela mídia mais reacionária e imediatista, que negue nossa peculiaridade e atue pelo viés exclusivo da repressão é fadada ao mais retumbante fracasso. Peço apenas isso: que se reflita sobre a atuação e o papel do Estado sem se perder a dimensão profunda do que nós, os cariocas, somos e construímos no tempo e no espaço. Administrar uma cidade, falar sobre uma cidade, escrever sobre ela, propor políticas públicas, implica conhecimento, reflexão, amor e interação com os seus modos de recriação da vida e produção de cultura, função que nos faz humanos e nos redime do absurdo da morte.


Eu continuarei daqui, dessa parte que me cabe no latifundio da grande rede, a  bradar louvores pela civilização peculiar que João Candido, Zé Pelintra, Pixinguinha, Paulo da Portela, Cunhambebe, Cartola, Noel Rosa, Bide, o Caboclo das Sete Encruzilhadas, Tia Ciata, Meia Noite, Madame Satã, Lima Barreto, Paula Brito, Marques Rebelo, Manduca da Praia, Silas, Anescar, Dona Fia, Fio Maravilha, Leônidas da Silva, Di Cavalcanti, os judeus da Praça Onze, a pomba gira cigana, a escrava Anastácia, o Cristo de Porto das Caixas, o Zé das Couves, o vendedor de mate, o apontador do bicho, o professor, o aluno, o gari, os líderes anarquistas da greve de 1919, a Banda do Corpo de Bombeiros, a torcida do Flamengo, o pó-de-arroz, a cachorrada, a nau do Almirante, o Bafo da Onça, o Cacique de Ramos, o Domingo de Ramos, a festa da Penha, a festa na lage e a cerveja criaram nesse extremo ocidente. Com baixaria na sétima corda.

A nossa maresia, conforme mestre Darcy Ribeiro ensinou, traz na asa do vento o cecê das pretas de Angola.

Abraço

domingo, 21 de novembro de 2010

PARA TODAS AS FLORES DA NOITE - CENTENÁRIO DA REVOLTA DA CHIBATA

Escrevi em novembro de 2006 um texto que - relendo hoje percebo com mais clareza - de certa forma sintetiza meu olhar sobre o Brasil e o tipo de história que me agrada estudar e contar. Retomo abaixo, com grandes modificações, o texto em questão, marcando o início do rufar dos tambores nesse espaço em homenagem ao centenário da Revolta da Chibata.  

Não sou adepto de uma história que priorize a apologia dos grandes feitos e a biografia dos heróis ungidos por essa perspectiva. Não me convence e não me seduz. Serei mais claro. O que se passou, por exemplo, durante a Primeira República na zona do Mangue, entre garrafas de cerveja , conhaques vagabundos e delírios suicidas de velhas putas, me interessa mais que as tramóias urdidas nos gabinetes presidenciais, abastecidas, diga-se, por litros de café-com-leite e cafetinas de luxo. Um samba de Noel Rosa me instiga mais como documento a respeito do Brasil dos anos 30 do que um discurso do Ministro do Trabalho. A ginga de mestre Bimba numa roda de capoeira diz mais sobre o Brasil que me interessa do que o andar marcial de um marechal de campo. 

Pauto a minha concepção de história, a minha aventura como professor da matéria e o meu olhar descaradamente parcial sobre o Brasil na velha lição de um ponto de candomblé de caboclo: Uma é maior / outra é menor / a miudinha é que nos alumeia... Pedrinha miudinha de Aruanda êh... A pedra miúda é que nos alumeia, conforme o toque da cabula. As pedras grandes estão aí, demasiadamente visíveis, mas são as miudinhas que guardam o segredo. Exemplifico abaixo.

Fiz referência no primeiro parágrafo ao Mangue para falar de um evento épico, a Revolta da Chibata de 1910, e de um personagem mais épico ainda. Não, meus caros, não me refiro ao marinheiro João Candido, o líder do movimento contra os castigos corporais na marinha de guerra do Brasil. Desse falarei em breve e em tom descaradamente apologético. Basta, por enquanto, dizer que meu time de botão chama-se Esporte Clube Marinheiro João Candido, evidente sinal do que sinto a respeito do mestre-sala dos mares.

A personagem em questão atende pela alcunha de Flor da Noite. Isso mesmo. Flor da Noite era o nome de guerra de uma das prostitutas do Mangue que aderiram à causa dos insurretos da Armada durante o furdunço de 1910.

Quando a revolta dos marinheiros explodiu e as balas dos canhões começaram a zunir pelos céus da Guanabara, as distintas famílias da elite carioca mergulharam no pânico mais profundo e zarparam em direção à serra fluminense. Segmentos ds camadas populares, porém, manifestaram claríssima simpatia pelo trololó promovido pela marujada. Assim que se espalhou pela cidade a informação de que os rebeldes talvez estivessem sem mantimentos para manter a rebelião por muito tempo, houve fabulosa mobilização para abastecer os insurretos com frango assado, farofa, marafo e quejandos. Tudo isso em quantidade suficiente para matar de inveja os apóstolos que escreveram sobre o milagre cristão da multiplicação dos peixes.

Foi nesse clima de mobilização popular que algumas meninas do Mangue resolveram prestar a contribuição da zona ao movimento. Demonstrando um espírito de liderança fora do comum, Flor da Noite - como uma Ana Néri do baixo meretrício - lembrou-se de uma máxima das sagradas escrituras: Nem só de pão vive o homem. Os marujos precisavam da garantia de que poderiam, também, saciar os desejos impronunciáveis da carne. A boa e velha sacanagem.

Imaginem a cena. As meninas, qual uma infantaria de pasionárias, rumam ao cais do porto com a altivez magnífica das grandes revolucionárias e fazem chegar ao comandante-em-chefe da esquadra do povo, o Almirante João Candido Felisberto, a garantia de que os serviços do Mangue estariam colocados a disposição dos marinheiros em caráter permanente e, evidentemente, gratuito. Eis aí o verdadeiro batalhão de polacas e mulatas que os mestres Bosco e Blanc transformaram em samba.

Quantas eram? Existiram de fato? Como se chamava a Flor da Noite? Aconteceu mesmo essa marcha das putas? Essas são exatamente as perguntas mais irrelevantes sobre o evento. Todas as flores da noite são, mesmo que não saibam disso, adeptas da rebelião da marujada.

Ilumino com mil velas de sete dias o altar da pátria (a pátria minha do poeta, entre os pés de jabuticaba e os choros de Pixinguinha) em louvor permanente e absoluto às meninas - muitas delas velhas e acabadas, mas sempre meninas - que, lideradas por alguma Flor da Noite, cerraram fileiras ao lado dos rebeldes da Guanabara. São elas, e não as milionárias da Daslu, as dondocas de condomínios de luxo ou as anoréxicas modelos que infestam o mundo da moda, que ficam como exemplos das mulheres de um Brasil que ainda precisa quebrar muitas chibatas para ser o país que a gente quer. Por elas, e para elas, abrirei comovido a primeira cerveja do dia, às margens do rio Maracanã e do meu imaginário cais.

Abraços

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A ÁFRICA EM OURO PRETO E O COMBATE AOS PRECONCEITOS


Começa hoje o Fórum das Letras, organizado pelo Instituto de Filosofia, Artes e Cultura da Universidade Federal de Ouro Preto. Idealizado pela professora Guiomar de Grammont, o Fórum foi concebido com a intenção de valorizar a importância de Ouro Preto, Patrimônio Cultural da Humanidade e destacar a identidade e  a diversidade da literatura dos países de língua portuguesa, através da cooperação mútua entre Brasil, Portugal e os países de língua portuguesa da África. Fundamental ainda - e para mim decisiva - é a preocupação em articular a programação com a rede pública de ensino em uma dimensão animadora.

Participarei do Fórum mais diretamente na quinta-feira, na mesa sobre "Permanência e Recriações da Mitologia Africana no Brasil" , mediando o encontro entre Alberto Mussa, Nei Lopes e o nigeriano Felix Ayoh´Omidire. Acho que a chapa vai esquentar e explico as razões.

O tema do Fórum desse ano é a África. A nossa participação versará, mais especificamente, sobre as mitologias africanas. Apresento, até com certo tom de desabafo, as razões que me levam a apoiar efusivamente o encontro de Ouro Preto e as linhas gerais do que falarei por lá:

1- O estudo de temas africanos nos colégios brasileiros de ensino fundamental e médio - área que me interessa particularmente como educador - ainda é muito precário. Os alunos do ensino fundamental, por exemplo, estudam em História Antiga as mitologias de gregos e romanos. Falam de Zeus, Marte, Saturno, Poseidon, Hércules, Hera, Ceres, Afrodite, Teseu e o escambau. Acho ótimo que assim seja.

É pena que não aprendam também em sala de aula, e com o mesmo cuidado, sobre as aventuras irresistíveis de Xangô, Ogum, Oxalá, Iemanjá, Oxum, Nzazi, Dandalunda, Lembarenganga, Dan, Lisá, Zaratembo... e suas belíssimas mitologias - que tanto inflenciam o Brasil, as visões de mundo e os sambas da nossa gente. Nessa brincadeira as mitologias indígenas também são jogadas invariavelmente para  escanteio ou ensinadas de forma bastante superficial.

2- Continuamos privilegiando - por mais que as reflexões atuais e políticas públicas comecem a sugerir a necessidade de se fazer  o contrário - uma visão de História sob a perspectiva do olhar colonizador. Dedicamos semanas a falar sobre a arte do Renascimento (fundamental) mas não falamos coisa nenhuma sobre as magníficas criações em bronze do Igbo Ukwu, as impressionantes máscaras de Ilê Ifé, os inquices dos Congos, os trabalhos em ferro dos Abomei ou as esculturas primorosas dos artistas da tribo Makonde.

A arte é o melhor caminho para se quebrar preconceitos, discutir identidades, respeitar diferenças, educar crianças e jovens e contribuir para a formação de homens e mulheres mais decentes.

Eu teria ainda dezenas de exemplos para citar com a mesma perspectiva.

3- Discutir a África e refletir sobre seu legado é de importância demasiada depois do que o Brasil assistiu na recente campanha presidencial. As principais candidaturas embarcaram no proselitismo religioso-eleitoral de alguns segmentos cristãos (não todos, é certo e louvável) e varreram para debaixo do tapete, com um pragmatismo covarde exigido por conveniências as mais suspeitas e pautado por setores conservadores, a fascinante complexidade cultural brasileira e a contribuição efetiva das civilizações afro-ameríndias nesse processo.

Candidatos visitaram igrejas, participaram de romarias, percorreram templos evangélicos, levantaram santas, comungaram, ajoelharam e o diabo a quatro. Se aliaram, em alguns casos, a certos segmentos neopentecostais que explicitamente estimulam atos de agressão contra terreiros de candomblé e umbanda. A provocação é inevitável: imaginem só o que aconteceria nessas eleições se um candidato resolvesse bater cabeça para o seu orixá ou ainda participasse de um encontro público com sacerdotes do candomblé... A grita pela excomunhão e o caminho do inferno estariam na ordem do dia.

É disso que se trata, é sobre isso que falarei e é essa a minha militância como educador brasileiro. A hora é de falar e estou disposto a mergulhar de forma mais sistematica nessa batalha, não recusando qualquer convite ou espaço para difundir minha dívida e meu apreço por essas nossas africanidades.

Faço isso por pertencimento ao meu país, respeito pelo seu povo e louvor aos meus ancestrais - um bando de branquelos civilizados pelo Brasil africano.

Abraços  

ps: é impossível também não considerar, noves fora tudo isso, a beleza que vai ser tomar umas geladas e outras quentes em Ouro Preto com meus camaradas, amigos e mestres Beto Mussa e Nei Lopes.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

FELIZ DIA DOS MORTOS

Sou um finadista. Explico. Nasci em um dia dois de novembro, consagrado aos fiéis defuntos da cristandade - o popularíssimo dia de finados. Os senhores, que não nasceram em data tão significativa, não imaginam o impacto que é uma criança dizer aos amiguinhos que faz aniversário no dia dos mortos.

Ontem mesmo, logo cedo, recebi uma ligação da minha mãe. Entre desejos de felicidades e que tais, a velha me disse o seguinte:

- Parabéns, tudo de bom. Já acendi as velas pelos defuntos de sua avó, seu avô e sua Tia Lita. 

Cresci ouvindo a história de que minha mãe repetia, perto do meu nascimento, sempre a mesma ladainha : Só não pode nascer dia dos mortos. Vai ser menina e não vai nascer em finados; não pode nascer.

O resultado é que nasci cabra macho, eis uma das poucas certezas que tenho, e foi no dia dos mortos, às onze e meia da manhã - horário indisfarçável, pra marcar posição. Minha avó ficou tão abalada que deu a notícia à minha tia Lita da seguinte maneira : Lita, que horror. Acabou de nascer no dia de finados e é menino. E agora ?

[A tia querida adorava repetir essa sentença e a vó, rindo matreira, apenas silenciava. Eu, de forma obsessiva, pedia o tempo todo : Como é a frase do meu nascimento, tia Lita? A frase do horror... ]

Lembro-me bem de um aniversário - eu devia ter uns seis anos - em que fomos almoçar em família. Vesti minha melhor roupinha para a ocasião. Ao nos ver saindo, o jornaleiro vizinho ao prédio onde morávamos foi direto : Estão indo a que cemitério?

Eis aí, amigos , uma verdade definitiva - meu caráter foi moldado por essa frase. Acho mesmo que minha personalidade pode ser definida com essa única sentença; nunca deixei de ser a criança que, ao querer comemorar o aniversário, descobriu que o procedimento normal era ir ao cemitério.

Em outra ocasião o negócio foi mais sério. Estava já na faculdade quando minha namorada à época resolveu me mandar flores no dia do aniversário. O entregador disse ao porteiro que ia levar as flores ao apartamento 307, endereçadas a Luiz Antonio Simas.

Tudo muito bonito, romântico, nos conformes. Acontece que o porteiro, ao ouvir falar em flores para Luiz Antonio Simas no dia de finados, concluiu que eu tinha morrido.

Atentem para o troço. Minha namorada me manda flores no aniversário e o camarada acha que morri.

Mas vamos voltar à infância. O fato é que, aos poucos, passei a achar ótimo esse negócio de ser finadista. Comecei a divulgar isso com uma empáfia quase aterrorizante. Alguém me perguntava qual era o dia do meu aniversário e eu não tinha dúvidas em responder feliz, quase excitado. Chegava mesmo, admito, a falar do nada para as pessoas : Você sabe em que dia eu nasci? Quer que eu diga mesmo?

Fazia então uma expressão de homicida alucinado, ensaiava um tom de voz diferente, esbugalhava os olhos e mandava na lata : Dia dois de novembro; o dia dos mortos, dos vampiros e dos lobisomens [ sim, resolvi acrescentar, lá pelos oito anos, esse negócio de vampiros e lobisomens porque dava um tom mais firme e assustador à coisa ].

Desde então, quando passei a curtir a data, cultivei o desejo de comemorar um aniversário no México. Lá a festa de finados é impressionante e tem origem indígena, mais especificamente azteca.

Reza a tradição que o furdunço do dia de finados mexicano é comandado pela deusa Mictecacihuatl, esposa de Mictlantecuhtli, o senhor do reino dos mortos. A mestiçagem cultural fez com que a figura da deusa indígena fosse aproximada à La Catrina, uma dama defunta da alta sociedade que - em forma de esqueleto e sempre bem vestida - comanda o regabofe. La Catrina teve a imagem popularizada no século XIX pelas gravuras do artista plástico José Guadalupe Posada.

A coisa é quente. Como os mariachis acreditam que os mortos vem visitar seus parentes no dois de novembro para se divertir [ e não querem saber de tristeza; se tiver tristeza os mortos ficam putos dentro da roupa ] a ordem é comer, beber, cantar, dançar e o escambau. As crianças se esbaldam com caveirinhas de açúcar e chocolates em forma de caixão, enfeitadinhos com fitinhas roxas.


Ah, me permitam uma última confissão, daquelas que o sujeito só costuma fazer ao médium de mesa branca depois de fixar residência no Nosso Lar. É o seguinte: ainda hoje, homem barbado e pouca telha, volto a ter subitamente oito anos quando uma criança me pergunta sobre o dia do meu aniversário. Me vejo como um pirralho de cabelos encaracolados, calço meu kichute imaginário e respondo com sinistra entonação:

- Nasci no dia dois de novembro. É o dia dos mortos, dos vampiros e dos lobisomens. Você sabia ?

Se o fedelho faz cara de choro, fico sinceramente feliz.

Abraços.