terça-feira, 21 de dezembro de 2010

IEMANJÁ E O ANO NOVO



Texto publicado originalmente no jornal O Globo, no dia 21 de dezembro de 2010.

A comemoração do Ano Novo no primeiro dia de janeiro é mais recente do que, provavelmente, o leitor imagina. Ao longo dos tempos e das diversas civilizações, a data de celebração de um novo ciclo mudou inúmeras vezes. Os babilônicos costumavam comemorar o novo ano no equinócio da primavera; os assírios e egípcios realizavam os festejos em setembro; os gregos celebravam o furdunço em finais de dezembro. Chineses, japoneses, judeus e muçulmanos ainda têm datas próprias e motivos diferentes para comemorar o ano bom. Entre os povos ocidentais, a data de primeiro de janeiro tem origem entre os romanos (Júlio César a estabeleceu em 46 A.C.). Só em 1582, com a adoção do calendário gregoriano, a igreja católica oficializou o primeiro dia de janeiro como o início do novo ano no calendário ocidental. Muito tempo depois do Papa Gregório VIII, mais precisamente em 1951, Chico Alves e David Nasser fizeram Adeus, Ano Velho, a mais popular canção brasileira sobre a tradição das festas de fim de ano.

Em várias civilizações o início de um novo ciclo é comemorado com muito barulho, gritaria, bater de bumbos, tambores, fogos, fogueiras, fanfarras, cambalhotas e outros salamaleques. Os antigos diziam que fazer a barulheira era fundamental para despachar os maus espíritos para os cafundós mais distantes e garantir a boa colheita, a saúde e a prosperidade. O negócio, portanto, é mandar ver no furdunço para garantir a boa ventura contra todo tipo de urucubaca.

Entre o povo da cidade do Rio de Janeiro, naturalmente festeiro, o hábito de se comemorar o réveillon na praia virou uma tradição mundialmente conhecida, que influenciou várias cidades litorâneas a fazer a mesma coisa. Há que se reconhecer, porém, que os cariocas devem grande parcela do costume da festa na praia aos umbandistas, que durante muitos anos ocupavam as areias praticamente sozinhos para louvar Iemanjá – a orixá africana que se transformou na mais brasileira das deusas, miscigenada com a Nossa Senhora católica e a Uiara dos indígenas.


Era bonito ver a orla ocupada pelos terreiros e a noite iluminada pelas velas em louvor a Iemanjá, tudo isso ao som de atabaques e cânticos misteriosos - verdadeiros presságios brasileiros de boa sorte. Quem chegasse perto, fosse umbandista, católico, espírita, evangélico, hindu, muçulmano, judeu, flamenguista, vascaíno, tricolor ou botafoguense, era muito bem recebido e ainda começava o ano novo devidamente garantido contra o infortúnio. Conheço muitos ateus que, por via das dúvidas, abriam uma exceção ao misticismo e garantiam o ano bom recebendo passes de caboclos e pretos velhos nas areias, com direito a cocares, charutos e quejandos.

A confraternização que todo ano ocorre em Copacabana é bacana pacas, tem seus méritos, virou atração turística da cidade, atraí gente de tudo quanto é canto, gera divisas e garante a ocupação da rede hoteleira. É necessário, porém, colocar um pouco de água nesse chope dos entusiastas da festa atual e lembrar que o Rio de Janeiro tem uma dívida enorme com o povo da umbanda, que hoje se encontra praticamente excluído do fuzuê. Os shows de roqueiros, sambistas, astros pop, sertanejos, rappers, DJs de música eletrônica, revelações adolescentes, cantoras baianas, blocos carnavalescos e o escambau, além de transformar a festa em um verdadeiro sarapatel sonoro, calaram os tambores rituais. A elitização da festa, que já se manifesta em espaços reservados nas areias, controlados por grupos privados, hotéis, quiosques e que tais, lembra muito o processo de mercantilização que atingiu as escolas de samba. De entidades culturais representativas da cultura carioca, as agremiações se transformaram em alguma coisa próxima do que o Império Serrano, em um samba premonitório, chamou de super-escolas de samba S.A.

Que a tradição do fim de ano, portanto, não encontre no poder público um agente legitimador de interesses privados, sob o falso argumento de uma festa para todos que, cada vez mais, perde a espontaneidade e a vitalidade que sempre a caracterizaram. Em nome de gestões modernosas e engenharias financeiras, corre-se o risco de se transformar o adorável e popular furdunço em algo mais parecido com um bloco carnavalesco com abadás e cordas, para gringo ver e o Comitê Olímpico Internacional aplaudir.

Odoyá!!



terça-feira, 7 de dezembro de 2010

NOEL, O POETA DO SAMBA E DA CIDADE

Foi lançado ontem o livro Noel Rosa, o poeta do samba e da cidade , do camarada André Diniz. O furdunço foi no Trapiche Gamboa, com a participação de Alfredo Del-Penho e Soraya Ravenle cantando o poeta da Vila. Convidado pelo autor, camarada de sambas e copos, escrevi o prefácio do livro, que reproduzo abaixo:

Vários são os casos na história da música brasileira da íntima relação entre a obra criada e o local de onde veio o artista. É impossível, por exemplo, compreender Luiz Gonzaga e João do Vale sem o sertão nordestino, Dorival Caymmi sem o mar da Bahia, Waldemar Henrique sem a floresta amazônica e Adoniram Barbosa sem São Paulo. O que o novo trabalho de André Diniz mostra com competência é a relação de absoluta dependência entre a obra genial de Noel Rosa e o Rio de Janeiro em que o poeta da Vila viveu, amou, cantou, bebeu e, sobretudo, se divertiu.

Noel testemunhou, atuou e ajudou a construir a história de um Rio de Janeiro que assistiu a transição entre o Brasil rural da Primeira República e o Brasil que, a partir da década de 1920, se transformou em um país cada vez mais urbano, complexo e multifacetado. O artista Noel Rosa foi contemporâneo do advento da Era do Rádio, da emergência de uma classe média disposta a consumir bens culturais, do sistema de gravação elétrica de discos, do surgimento do cinema falado, da consolidação do samba urbano a partir da contribuição dos bambas do Estácio e da ocupação cada vez maior dos morros e subúrbios cariocas.

Longe de ser um espectador passivo dessa realidade feérica de transformações, Noel resolveu viver no olho do furacão e atuou como um verdadeiro mediador cultural entre o asfalto e o morro, o saber letrado e a sabedoria popular. Sua obra é talvez o exemplo mais bem acabado de uma cultura que rompe fronteiras, investe em circularidades que se influenciam e escancara a riqueza impura e cheia de vitalidade do que era e é a cultura carioca.

É esse Noel e é essa cidade do Rio de Janeiro que o livro de André Diniz retrata com inegável simpatia pelo personagem e pelo cenário. Passeia pelas páginas seguintes a Vila Isabel, a Penha, o Morro da Mangueira, a Rua do Ouvidor, a Lapa, os primeiros automóveis, as macumbas e sambas da Cidade Nova, os desfiles de ranchos, os concursos de marchinhas carnavalescas, o Teatro de Revista, as largas avenidas e as vielas estreitas. Tudo, diga-se, nos conformes de versos, fotografias e prosas, de acordo com a geografia que o poeta amou e ajudou a compreender melhor.

O melhor de tudo isso é que André Diniz não acorrentou Noel Rosa nos rigores de teses e dissertações acadêmicas que, certamente, fariam o poeta da Vila sair de mansinho e procurar o bar mais próximo. Noel foi o sujeito que introduziu a conversa de botequim na lírica da música popular brasileira, com o olhar do cronista que vive na fresta, molda o tempo e é moldado por ele, extrapola os limites sociais e transforma tudo isso em arte da melhor qualidade. Esse livro flui como um samba do homenageado e não imagino elogio que possa ser maior.

Ao terminar a leitura desse O Rio de Noel, corri a escutar um grande samba do mestre mangueirense Zé Ramos, composto no início da década de 1940, chamado Capital do Samba. Diz a letra:

Chegou a capital do samba
Dando boa noite com alegria
Viemos apresentar o que a Mangueira tem
Mocidade, samba e harmonia
Nossas baianas com seus colares e guias
Até parece que estou na Bahia.
Da cidade alta da Mangueira
Avisto a Vila e sinto saudades de alguém...

Poucas homenagens a Noel Rosa foram tão tocantes e precisas. O sambista mira do alto do morro da Mangueira o bairro de Vila Isabel – quem é do Rio sabe que é pertinho – e sente saudades de alguém. É do poeta Noel Rosa, o branco que levou o asfalto ao morro e trouxe o morro ao asfalto, que Zé Ramos fala.

Nesse dias atuais, em que tanto se discute o conceito do Rio de Janeiro como uma cidade partida que precisa se regenerar, Noel Rosa é, mais do que uma saudade, uma presença forte e uma  fonte de inspiração. Ninguém mais do que o poeta da Vila soube cerzir a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro com o ponto bordado da cultura carioca.

Boa leitura e bons sambas!