sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

ALÔ, CACIQUE, CADÊ O BAFO?

Vai abaixo, atendendo a inúmeros pedidos (dois, para ser mais exato) o texto que escrevi sobre o Bafo da Onça e foi publicado originalmente em O Globo, edição de 30 de janeiro de 2011.

Um das imagens mais marcantes do carnaval carioca desde a década de 1960 é, sem dúvidas, o desfile do Cacique de Ramos. Milhares de foliões fantasiados de apaches ocupam a Avenida Rio Branco e mostram como o Velho Oeste foi devorado antropofagicamente pelo ziriguidum tupiniquim. O Cacique é, ouso dizer, um marco civilizatório da maior relevância para a história da cidade do Rio de Janeiro e, consequentemente, do Brasil. A agremiação de Ramos foi, com suas rodas de samba à sombra da tamarineira sagrada, uma espécie de Tróia do samba diante da explosão midiática do rock nacional nos famigerados anos de 1980 – e só isso bastaria para dar ao bloco um lugar de importância maior no panorama cultural brasileiro.

A louvação ao Cacique de Ramos leva, porém, a uma indagação: que diabos aconteceu com o Bafo da Onça, bloco que dividia com o Cacique a paixão dos foliões cariocas e hoje, enquanto o carnaval de rua volta ao centro da cena, anda caindo pelas tabelas, como pálida lembrança do que foi? Bafo e Cacique cansaram de transformar a Avenida Rio Branco, nos dias de Momo, em um verdadeiro Maracanã em domingo de Fla X Flu. Contar a história dos apaches sem falar das onças-pintadas é rigorosamente impossível.

O Bafo da Onça é mais antigo que o Cacique. O bloco foi fundado dentro de um botequim do bairro carioca do Catumbi, em meados dos anos cinquenta. Seu principal fundador foi um carpinteiro e policial chamado Sebastião Maria; um sujeito que, durante os dias de carnaval, formava uma espécie de bloco do eu sozinho e costumava sair pelas ruas do bairro fantasiado de onça-pintada.

Seu Tião Carpinteiro tinha ainda o hábito de começar a tomar uns gorós no dia de Santos Reis - data que marcava, para ele, o início das festas de Momo - e só encerrar os trabalhos na quarta feira de cinzas. Ocorre que o Seu Tião bebia tanto, mas bebia tanto, que acabava ficando com um hálito meio pesado. Parecia, de fato, que comia carniça. Durante uma das carraspanas contumazes, um grupo de amigos do Catumbi, sob a liderança do carpinteiro, resolveu criar um bloco de carnaval. Todos sairiam fantasiados de onças-pintadas. O nome do bloco, é evidente, já nasceu pronto.

O Bafo cresceu e virou atração do carnaval da cidade. As mulatas do Sargentelli, João Roberto Kelly, Oswaldo Nunes e Dominguinhos do Estácio eram figuras populares nos furdunços que a turma do Catumbi promovia. A popularidade foi tamanha que o próprio Bira Presidente, fundador e eterno dirigente do Cacique, admite que o bloco dos apaches de Ramos foi criado com o objetivo de superar as onças pintadas do Catumbi.

É inevitável, portanto, que os cinquenta anos do Cacique de Ramos venham acompanhados pelo júbilo e, também, pelo lamento em virtude do declínio do Bafo da Onça. Quero crer que, dentre várias razões que explicam esse declínio (são mesmo inúmeras), uma merece ser ressaltada, até mesmo como um alerta.

A decadência do Bafo é análoga ao triste fim do bairro do Catumbi, centro de origem do bloco. Poucos bairros cariocas sofreram tanto com as reformas urbanas que, vez por outra, marcam a cidade. Ao longo das décadas de 1960 e 1970, o Catumbi foi sendo devastado. A abertura do túnel Santa Bárbara e, especialmente, a construção do viaduto Trinta e Um de Março, dividiram o bairro em dois pedaços, ocasionaram a demolição de imóveis centenários e a destruição de quadras inteiras. Em nome da reestruturação urbana do Rio, o Catumbi se transformou em um bairro de passagem, perdeu a maior parte de seus moradores e deixou de ser um centro de referência para a comunidade, com suas vivências, saberes, hábitos cotidianos e visões de mundo. O Bafo da Onça, de certa forma, era fruto desse espaço de convívio dizimado pelo poder público.

Que em tempos de remodelação urbana, choques de ordem, copas, olimpíadas e que tais, os responsáveis pelas intervenções urbanas tenham consciência de que os lugares são, mais do que qualquer outra coisa, espaços de construção de memórias, culturas, formas peculiares de se experimentar a vida e abordar o mundo. E que as tamarineiras cariocas – as que restam - continuem de pé.

7 comentários:

Joel Bueno disse...

Clap, clap, clap!

ACORDABAMBA disse...

Fala Simas!
Infelizmente, temo que aqueles que estão a frente das reformas urbanas (creio que isso vale para ontem e para hoje) não se importam com a memória local, os saberes, as creças e os custumes das regiões onde pretendem realizar seus projetos urbanísticos. Nós do Prata Preta, estamos aqui na Saúde, por trás do nosso estandarte-barricada, de olho na revitalização da Zona Portuária....procuramos discutir com os moradores e, alertá-los para o fato de que essa revitalização possa não ser aquilo que eles esperam.
Cordiais Saudações!
PS: Realizaremos um pré-carnaval, ao som das tradicionais marchinhas carnavalescas e com a participação da A.R.E.S Vizinha Faladeira, que esse ano defilará com o samba fe minha autoria e parceiros. Será no dia 19/02 no coreto da pça da Harmonia, ao lado do 5º BPM, a partir das 16 horas. Se vc poder comparecer, tomaremos uma gelada e ficaremos muito honrados com sua presença.
Cordiais Saudações,
Orlando Rey

Beatriz V. disse...

Texto muito interessante. Para nós, que nascemos na era dos desfiles patrocinados e da mania de mega eventos, é muito bom conhecer um pouco mais das nossas origens, a fim de preservar nosso patrimônio cultural.

Mostrei o texto aos meus pais e avós e senti uma certa nostalgia no ar.

Parabéns, mais uma vez.

rafael garcia disse...

grande mestre simas,
vc continua genial.
um grande abraço

Anônimo disse...

grande volta professor...perfeito
ACarlos

Dyó Menezes disse...

doutor, importante lê-lo sobre o episodio fogo na cidade do samba!

Anônimo disse...

nesta onda que eu vou
olha a onda iaiaia
é o Bafo da Onça
que acabou de chegar...