terça-feira, 24 de maio de 2011

VOCÊ, LUIZ ANTONIO SIMAS, VAI SER ENTERRADO VIVO


Amigos, não sei exatamente quando resolvi, no meu velho e falecido blog Histórias do Brasil, relatar coisas que, inicialmente, pensava fazer apenas através de algum médium de mesa branca depois de morto. Para garantir, porém, a veracidade absoluta dos fatos, decidi na ocasião que eu mesmo me psicografaria ainda em vida. É mais seguro, estou certo disso, ser o médium de si mesmo e antecipar as broncas e memórias do além túmulo. Luiz Antonio Simas psicografado por Luiz Antonio Simas.

A primeira confissão que fiz alhures já versava sobre as assombrações que acompanharam a minha formação e são hoje, que sou pai de um moleque, objetos de minhas constantes reflexões noturnas - o relógio do computador marca, nesse momento, 02:24 da madruga. Benjamin mama feito bezerro do sertão e eu escrevo esse arrazoado imaginando histórias aterrorizantes para contar ao petiz.

Em recente texto (sobre a loura morta de algodões nas narinas que atacava crianças nos banheiros escolares, ralos que sugavam meninos, pedaços de defunto em garrafas de refrigerante e quejandos) defendi a ideia de que toda pedagogia infantil, para ser eficiente, precisa incluir um repertório vasto de temores e assombrações capazes de fazer a criança sossegar o facho. É tradição familiar.

Cito o exemplo do meu avô. O velho  Luiz Grosso, que nasceu em 1922 em Pernambuco e, estranhamente, jurava ter participado com uma espingarda da marcha dos 18 do forte de Copacabana no mesmo ano,  foi educado com muito carinho e rigor pelos pais, o seu Salvador e a dona Carmem. Sofria, quando aprontava alguma merda, a ameaça de ser entregue pela própria família aos cuidados do psicopata, tarado e homossexual Febrônio Índio do Brasil. Esse cabra, para quem não sabe, foi acusado de estuprar e matar dois garotos em 1927, com requintes de tremenda crueldade.

Doido de pedra, Febrônio virou inimigo público número um do país e foi o primeiro paciente do Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro. Meu velho, que fora também inúmeras vezes ameaçado pelo pai de ser vendido por uns merréis ao bando de Lampião, não tinha um pingo de medo do cangaceiro caolho e cabeludo, mas se pelava todo ao ouvir a sentença :

 - Então vou te entregar hoje mesmo, e de graça, ao Febrônio Índio do Brasil. Vou chamar o Febrônio.

Só aí o menino se aquietava, imaginando uma bicha tarada e doida lhe arrancando as tripas.

Minha criação  honrou a tradição da família. Boa parte dos pavores que tive foram incutidos pela minha querida tia avó, dona Lita, de saudosa memória, mas com um humor de cão raivoso. Cuidou muito de mim. Exemplifico. Para evitar que eu saísse sozinho, falasse com estranhos, aceitasse jujubas no meio da rua e coisas do gênero, tia Lita fazia uma ameaça terrível :

- Vão te sequestrar. Vão fazer com você a mesma coisa que fizeram com o menino Carlinhos.

O Carlinhos, para quem não é da época, foi um garoto lourinho e sardento raptado na Rua Alice, em Laranjeiras, no início dos anos 70. O sumiço do petiz gerou comoção nacional. Apelou-se até para Seu Sete Rei da Lira, um exu que dava consultas e passes em programas de auditório e usava uma capa com um tridente de lantejoulas bordadas, para dizer onde menino estava. Seu Sete, que sabia das coisas, disse que Carlinhos não estava morto, mas nunca mais seria encontrado. E até hoje não foi. Vivi, confesso aos amigos, um bom tempo atormentado por uma certeza inapelável - eu era o próximo nome da lista dos sequestradores do Carlinhos.

Um dia pedi que minha tia contasse uma história na hora de dormir. Imaginei algo no estilo gato de botas, três porquinhos ou a roupa nova do rei. Ela, porém, achou mais conveniente e adequado a uma criança de seis anos contar a macabra trama da morte de Sergio Cardoso, um ator famoso à época.

O negócio é o seguinte - Sérgio Cardoso sofria de catalepsia e havia suspeitas de que fora enterrado vivinho da silva. Minha tia afirmava que era a mais cristalina verdade. Dizia ela que após o enterro, que comoveu multidões, os funcionários do cemitério começaram a escutar gritos horrendos que vinham da sepultura do ator. Acharam que era coisa de alma penada, mas os gritos duraram meses, quebrando a tranquilidade da cidade do pé junto e revelando que havia algo de podre no Nosso Lar.

Depois de muita gritaria alguém levantou a lebre de que Sérgio Cardoso talvez estivesse querendo sair do caixão. Os coveiros, assombrados com a hipótese, resolveram abrir a urna para dar uma olhadinha. A cena foi horripilante - o corpo estava revirado e a tampa do caixão, arranhada, apresentava sinais de que o defunto  tentara escapar de todas as maneiras. A notícia, apesar dos desmentidos oficiais, se espalhou feito mato.

Tia Lita concluiu o relato sobre o drama de Sergio Cardoso com uma frase lapidar, ideal para embalar os sonhos infantis, e que tem até hoje para mim um impacto maior do que qualquer máxima sheakesperiana :

- Muitas pessoas, meu sobrinho, muitas mesmo, praticamente todas, acabam sendo enterradas vivas e ninguém sabe.

E arrematava  feito o goleador implacável que, com a bola pererecando na grande área, está se lixando para a agonia do goleiro:

- Você, Luiz Antono Simas [tia Lita me chamava pelo nome completo em ocasiões solenes],  vai ser enterrado vivo.

Abraços

9 comentários:

Joel Bueno disse...

Ai, que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!

HAL disse...

Demais professor! hehehe dei boas risadas e o pior que a 'coisa' é assim mesmo!

leila disse...

Nossa que medoooooo. sai tia Lita!
Meu pai dizia que o homem do carro preto viria me pegar. Ele vendia crianças para circos. No circo, as crianças eram colocadas em formas horríveis e ali cresciam deformadas. depois os donos dos circos exibiam os monstrinhos por dinheiro.

Felipe P. Boppré disse...

Luiz Antonio Simas: tenho 30 anos e sou advogado do GRES Consulado, escola de samba daqui de Florianópolis/SC. Preciso entrar em contato com vc urgente. Tem um e-mail ou telefone que eu possa lhe procurar? É um assunto de extrema importância. Muito obrigado.

Felipe Boppré - OAB/SC 18.945
FPOLIS/SC

Luiz Antonio Simas disse...

Felipe, meu email é luizantoniosimas@hotmail.com

NADJA GROSSO disse...

Lula
A cara de tia Lita mesmo, lembro o terror que ela aplicava na sua mãe que nós apelidamos de (GELEIA) porque tudo ela chorava, tia Lita só não conseguiu me amedrontar pois eu também contava inventava coisas incriveis e ouvia com ela o Incrivel Fantastico Extraodinário... isto a cinquenta e sete anos atras.

Anônimo disse...

Eu tinha medo de anões, então meus pais diziam que se eu não comesse o prato todo eu viraria um anão.

...parece que deu certo, hoje estou gordo e preguiçoso.

Camila Simas disse...

Ótimo texto. Fez lembrar minha vó Laurinda. Com a minha mãe no trabalho, Vó Laura – como todos os netos a chamam – cuidava da gente com zelo impecável. Mas tinha o Homem do Saco. Caso a malcriação ou indolência aumentasse, lá vinha vovó falar que o homem do saco viria nos pegar e nos levar pra não sei onde. Um dia parou em frente à porta da vila um mendigo, com um saco, tipo aqueles sacos de batata grandes, nas costas. Ele ficou olhando lá pra dentro, pra nós, que brincávamos na vila. Tive certeza que o Homem do Saco veio pra dar fim na gente...kkk Agradeço por ter nascido numa época em que o politicamente correto nem existia, pois não teria histórias como essa pra contar! Abraços

Jairo Costa disse...

Mestre,
A estória do Sergio Cardoso será levada para próxima reunião da C.A. (Confraria do Além).

Abraços

Jairo