sábado, 20 de agosto de 2011

ASSIM FALOU EXU

Diz um poema de Ifá que certa feita um comerciante, estabelecido no mercado de Oyó, consultou Orunmilá para saber qual seria a melhor coisa a fazer nas horas vagas. Como trabalhava demasiadamente, o mercador queria aproveitar os raros momentos de lazer da melhor forma possível. Orunmilá consultou o oráculo e disse ao homem que a resposta para aquela pergunta  quem tinha era Exu.

O homem procurou Exu , ofereceu a ele um galo, marafo e um pouco de tabaco e perguntou:

- Exu, o que devo fazer nas poucas horas vagas que tenho? Como posso aproveitar meu tempo tão curto?

Exu escutou o mercador, tirou do bornal uma flauta, tocou o instrumento e respondeu:

- Passe a trabalhar nas horas vagas.

- Mas Exu, eu já trabalho tanto! Orunmilá não pode estar falando sério quando diz que você tem a resposta para minha dúvida. Eu vim saber como aproveitar as horas vagas e você me diz para trabalhar... Não devo ter tempo para ouvir música, recitar poemas, conversar com meus filhos, bater tambor, louvar os deuses, amar as mulheres e beber com os companheiros do mercado?

- Claro que deve. A maior parte do tempo.

- Como?

- Passe a fazer isso nas horas em que você costuma trabalhar e trabalhe apenas nas horas que hoje são vagas. Foi isso que eu disse. Não entendeu, meu bom?

E então Exu gargalhou, pegou o bornal, guardou a flauta e voltou para a esquina.

A lição de Exu (trabalhe apenas nos tempos vagos) soa como um despropósito dentro da lógica produtivista das sociedades atuais. A resposta de Bará é incompatível com sociedades caracterizadas  pelo desejo de consumir. Estamos, afinal, uma etapa adiante da sociedade de consumo. Somos a sociedade do desejo do consumo, a sociedade que não ouviu o conselho de Exu e trabalha de forma alucinada para que o desejo seja saciado - e ele nunca é.

Tristes tempos em que um tênis de marca e um carro do ano viram totens e as árvores e pedras e rios antes sagrados (morada de orixás, inquices, voduns, ancestrais e caboclos encantados) são apenas coisas que podem ser modificadas, extintas, profanadas ou mantidas de acordo com a demanda da produção.

Escravos do desejo, acorrentados ao trabalho, lanhados nos pelourinhos virtuais,  morreremos de trabalhar nas mãos do mais cruel dos feitores - o desejo insaciável de ter o que, quando possuído, já se torna obsoleto.

Ao não escutar Exu corremos o risco de que Tempo ( que haverá de nos julgar na Noite Grande) nos condene como o povo que sacralizou o carro e profanou os rios.

Laroiê!!

8 comentários:

Diego Moreira disse...

Por isso que eu tô bebendo o "intensivo".

@Limarco disse...

Por indicação de um amigo no tuiter, conheci esse blog, do qual já me tornei seguidor e divulgador. Parabéns Luiz Antonio Simas.
@Limarco
Guarujá - SP

Gabriel Moreno disse...

Excelente !! O problema é conseguir seguir o conselho de Exu estando inserido nesse mundo capitalista insano..

Ana Paula Medeiros disse...

Laroiê, Professor. Tou precisando ouvir Exu.
Abraço grande.

NADJA GROSSO disse...

Parabéns, amei, Exu nosso eterno companheiro, professor, defensor.
Laroiê

Jacqueline disse...

Adorei o texto!

Yvy disse...

Exu que belo rapaz! Encantador e dissimulado no entanto se curva seduzido por Iansan e Osun. abr.

HAL disse...

Salve!

Ótimo conselho!