domingo, 20 de fevereiro de 2011

UM ENREDO BOM E BARATO: LUZ DEL FUEGO NA SAPUCAÍ



O incêndio que destruiu parte considerável das fantasias da Grande Rio, União da Ilha e Portela, reforçou em mim a ideia de que alguma escola de samba deveria fazer um enredo sobre Luz Del Fuego, pioneira do naturismo (a sublime arte de andar nua) no Brasil. Era só aproveitar que as fantasias pegaram fogo e desfilar com três mil componentes praticamente pelados - o que, evidentemente, estaria de acordo com o enredo e sairia baratinho.

Luz del Fuego morreu antes do meu nascimento. Não obstante esse detalhe, é uma referência poderosa do erotismo na minha infância, ao lado de minha paixão por Conga, a mulher gorila (foi para ela, a mulher que se tranformava sensualmente em macaca, que arrisquei pela primeira vez um cinco contra um). O impacto que tive ao saber, lá pelos cinco anos de idade, da existência de uma mulher que passava os dias nuazinha, mudou radicalmente minha vida e redefiniu minhas prioridades.

Penso em Luz del Fuego e lembro que o Rio de Janeiro tem uma praia destinada à saudável prática do naturismo. Todo mundo pelado, eis a regra. Já escrevi alhures que nunca frequentarei tal lugar, e explico com três argumentos. O primeiro deles é que no espaço, perto de Grumari, admitem-se pessoas peladas e pessoas com trajes de banho. Não pode dar certo. O correto é todo mundo peladão e ponto final.

O segundo argumento: a praia em questão chama-se Abricó. O nome é, admitam, inadequado. Não se pode andar impunemente com o báculo exposto num lugar com uma denominação dessas. Parece até aquela velha piada do índio caramuru, da tribo paraguaçu, que gostava de sururu, morava no Alto Xingu e se chamava Papa-có. Nem pensar.

O terceiro argumento é definitivo e dispensa comentários - dizem que tem muito mais homem do que mulher naquelas bandas.

Bom mesmo, para ficar pelado, é a belíssima praia de Tambaba, na Paraíba. É terminantemente proibido usar roupas. A lei que referendou a praia paraibana como espaço para o naturismo estabelece que andar vestido é atentado ao pudor e o camarada pode até ir preso. Concordo. Tambaba só admite a presença de casais, para evitar bichas loucas e tarados que criem problemas, e tem até uma pousada naturista onde os funcionários e funcionárias atendem todo mundo com as bundas de fora.

Mas voltemos ao x do problema. Quem começou com esse negócio de naturismo no Brasil foi mesmo a atriz Dora Vivacqua, mais conhecida como Luz del Fuego. A atriz fundou, no início dos anos 50, o Partido Naturista Brasileiro - que reputo como a mais séria organização política brasileira desde a fundação do Partido Liberal do Império.

Luz morava na Ilha do Sol, pertinho de Paquetá, e gostava de andar nua com uma jibóia imensa enrolada no corpo. Em sua propriedade funcionou o primeiro clube de nudismo do país, o que fazia com que afoitos farofeiros de Paquetá - com o argumento familiar de que queriam conhecer a romântica pedra da Moreninha e tinham se perdido nas águas da Guanabara - tentassem chegar nadando à ilha vizinha para ver o mulherio pelado.

O final de Luz del Fuego foi terrível - morreu assassinada, em 1967, por bandidos que queriam roubar um carregamento de pólvora guardado na ilha. Pouco antes da morte estúpida da fundadora, o Partido Naturista, que chegou a ter quase 60 mil filiados, fora proibido pelo regime militar - numa inequívoca demonstração de que fardas e ternos são, em geral, muito mais indecentes que a nudez.

Assisti, moleque, ao filme Luz del Fuego, em que Lucélia Santos - que eu conheci na novela Escrava Isaura, produzindo o milagre de seduzir a dupla de machões (sic) Rubens de Falco e Edwin Luise - representava a pioneira do naturismo tupiniquim. Lucélia estava, ouso dizer, em surpreendente forma, apesar da atuação dramática superior da escamosa atriz que representava a cobra jibóia, naquela que considero a maior interpretação feminina da história do cinema canarinho. Vou até rever o filme qualquer hora dessas.

Termino esse arrazoado retomando minha sugestão inicial. As escolas de samba estão dando bobeira. "Luz del Fuego, a musa pelada da Ilha do Sol" daria um enredo inovador, barato e com enorme potencial de comunicação com o público.

Evoé!

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

ZIRIGUIDUM NOS SALÕES


Ando lendo uns alfarrábios sobre o antigo Carnaval carioca. Tem cada coisa do arco da velha. Descobri, por exemplo, que a velha Rua do Ouvidor ferveu às vésperas do tríduo de 1862. A Galeria de Vestuário Niobey, uma das mais famosas casas do pedaço, anunciou nas páginas do Jornal do Commercio uma variedade de 65 tipos de fantasias carnavalescas para quem quisesse pintar os cavacos em um baile de salão.

Dentre os variados tipos de disfarces oferecidos, o folião podia escolher coisas como Escocesa, Louco Flamante, Corsário Grego, Astrólogo de Madagascar, Camponês da Galícia, Pescador Napolitano, Oficial da Guarda Francesa, Pierrô, Mefistófeles, Mandarim Chinês, Luís XIV, Índio Parisiense, Centurião Romano, Faraó, Ministro de Nabucodonosor, Tuareg, Homem das Cavernas e outros babados.

Essa variedade de fantasias me levou a um mergulho na infância abissal, quando as mulheres da família escolhiam as roupas que a molecada lá de casa usava nos bailes de Carnaval. Fiquei com vontade de fazer confissões que só pensava ditar a um médium de mesa branca, depois da morte. Por exemplo: lembro nitidamente que me fantasiei, na tenra infância, de índio do Velho Oeste [mais precisamente de Pequeno Chefe Touro Sentado], Faraó Ramsés II, pirata, piolho, sheik árabe e Emerson Fittipaldi - ocasião em que fiquei entalado na privada infantil do banheiro do aristocrático Fluminense Football Club, durante o Baile do Cartolinha.

Nunca fui muito chegado nos bailes de salão, sobretudo depois desse episódio em que a privada do pó de arroz foi o cockpit da minha Lótus. Eu era um daqueles moleques bundões que ficavam, durante a festança, absolutamente parados, jogando confetes e serpentinas para o alto, com uma expressão corporal parecida com a de um cágado sob efeito de lexotan. Não era minha praia.

Já macaco jovem, saído da adolescência, fui a um baile que quase me custou um namoro sólido. Acontece que minha namorada à época foi passar o Carnaval em Araruama. Recusei, com a maior doçura, o convite da família para acompanhar a trupe. Argumentei, evocando velhas tradições familiares, que iria desfilar, ver as escolas de samba com a maior tranquilidade e não me envolver em nenhum tipo de folia mais arretada. Era mesmo minha intenção.

Acontece que um amigo dos tempos de colégio conseguiu convites para um baile no Scala, com direito a lugar na mesa. Eu disse que não iria de forma alguma, detestava esses bailes decadentes, tinha trauma de infância - do episódio do Emerson Fittipaldi  - e outros salamaleques. Diante, porém, da insistência do convite, cedi. Lá fui eu ao baile, fantasiado de Maionese Hellmans. Os dois camaradas que foram comigo se fantasiaram de Pomada Minâncora e Polvilho Antisséptico Granado.

O troço foi o horror. Até o velório do meu querido avô, tempos depois, foi muito mais divertido que aquele espetáculo tenebroso, digno de um fim de ágape nas catacumbas romanas. Um coral de canto gregoriano em enterro de Papa consegue ser mais carnavalesco que aquilo. Houve, para piorar, um problema inesperado. A TV Bandeirantes transmitiu flashes do furdunço durante a programação noturna.

Sem sacanagem: O baile foi uma desgraça, o salão estava vazio e não aconteceu nada de especial. Nadica de nada. Só que na hora em que ligavam os refletores e a televisão passava a transmitir, instaurava-se uma espécie de transe coletivo e o povo, que adora aparecer, fingia que uma verdadeira bacanal estava acontecendo no salão. Mulheres tremendamente suspeitas subiam nas mesas e rebolavam praticamente nuas. Bichas loucas davam siricoticos e o repórter gritava coisas incompreensíveis.

Resultado: Uma tia solitária da minha namorada me viu ao vivo, em alta madrugada, vestido de maionese, ao lado da Pomada Minâncora e do Polvilho Antisséptico Granado, sentado numa mesa do Scala. Em cima da mesma mesa, quatro senhoras gordas e com varizes rebolavam para as câmeras de TV. O espírito de porco da velha ligou para Araruama. A notícia de que eu estava numa suruba multissexual via satélite foi amplamente divulgada, em tempo real, nas hostes familiares.

Provar depois que Jesus não era o Genésio foi mais difícil que parir uma capivara pelo umbigo. Instaurou-se grave crise sentimental na minha vida, que só foi resolvida quase às vésperas das festas de São João e incluiu cartas desaforadas, tentativas de agressão e a devolução de um enorme canguru de pelúcia, presente de início de namoro.

Jurei, depois daquilo, que nunca mais colocaria os pés em um baile de Carnaval nessa encarnação. A jura só foi quebrada quando compareci em 2009, sob rigorosa pressão feminina, ao baile de encerramento de Carnaval do Trapiche Gamboa. Fui de pirata da perna de pau, com tapa olho e o cacete. Os craques e camaradas Pedro Paulo Malta, Pedro Miranda, Alfredo Del Penho e Luís Filipe de Lima comandaram um charivari espetacular. Fiz as pazes com a folião de salão, com juros e correção monetária [apud Delfim Neto].

Neste ano de 2011 vou pegar leve no Carnaval - por ótimas razões de força menor que não interessam minimamente aos leitores. Ao baile da terça-feira gorda no Trapiche, porém, não faltarei nem debaixo d´água. Resta apenas uma dúvida sobre a fantasia: vou de Penélope Charmosa ou vocalista da banda Restart?

Evoé!

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

ALÔ, CACIQUE, CADÊ O BAFO?

Vai abaixo, atendendo a inúmeros pedidos (dois, para ser mais exato) o texto que escrevi sobre o Bafo da Onça e foi publicado originalmente em O Globo, edição de 30 de janeiro de 2011.

Um das imagens mais marcantes do carnaval carioca desde a década de 1960 é, sem dúvidas, o desfile do Cacique de Ramos. Milhares de foliões fantasiados de apaches ocupam a Avenida Rio Branco e mostram como o Velho Oeste foi devorado antropofagicamente pelo ziriguidum tupiniquim. O Cacique é, ouso dizer, um marco civilizatório da maior relevância para a história da cidade do Rio de Janeiro e, consequentemente, do Brasil. A agremiação de Ramos foi, com suas rodas de samba à sombra da tamarineira sagrada, uma espécie de Tróia do samba diante da explosão midiática do rock nacional nos famigerados anos de 1980 – e só isso bastaria para dar ao bloco um lugar de importância maior no panorama cultural brasileiro.

A louvação ao Cacique de Ramos leva, porém, a uma indagação: que diabos aconteceu com o Bafo da Onça, bloco que dividia com o Cacique a paixão dos foliões cariocas e hoje, enquanto o carnaval de rua volta ao centro da cena, anda caindo pelas tabelas, como pálida lembrança do que foi? Bafo e Cacique cansaram de transformar a Avenida Rio Branco, nos dias de Momo, em um verdadeiro Maracanã em domingo de Fla X Flu. Contar a história dos apaches sem falar das onças-pintadas é rigorosamente impossível.

O Bafo da Onça é mais antigo que o Cacique. O bloco foi fundado dentro de um botequim do bairro carioca do Catumbi, em meados dos anos cinquenta. Seu principal fundador foi um carpinteiro e policial chamado Sebastião Maria; um sujeito que, durante os dias de carnaval, formava uma espécie de bloco do eu sozinho e costumava sair pelas ruas do bairro fantasiado de onça-pintada.

Seu Tião Carpinteiro tinha ainda o hábito de começar a tomar uns gorós no dia de Santos Reis - data que marcava, para ele, o início das festas de Momo - e só encerrar os trabalhos na quarta feira de cinzas. Ocorre que o Seu Tião bebia tanto, mas bebia tanto, que acabava ficando com um hálito meio pesado. Parecia, de fato, que comia carniça. Durante uma das carraspanas contumazes, um grupo de amigos do Catumbi, sob a liderança do carpinteiro, resolveu criar um bloco de carnaval. Todos sairiam fantasiados de onças-pintadas. O nome do bloco, é evidente, já nasceu pronto.

O Bafo cresceu e virou atração do carnaval da cidade. As mulatas do Sargentelli, João Roberto Kelly, Oswaldo Nunes e Dominguinhos do Estácio eram figuras populares nos furdunços que a turma do Catumbi promovia. A popularidade foi tamanha que o próprio Bira Presidente, fundador e eterno dirigente do Cacique, admite que o bloco dos apaches de Ramos foi criado com o objetivo de superar as onças pintadas do Catumbi.

É inevitável, portanto, que os cinquenta anos do Cacique de Ramos venham acompanhados pelo júbilo e, também, pelo lamento em virtude do declínio do Bafo da Onça. Quero crer que, dentre várias razões que explicam esse declínio (são mesmo inúmeras), uma merece ser ressaltada, até mesmo como um alerta.

A decadência do Bafo é análoga ao triste fim do bairro do Catumbi, centro de origem do bloco. Poucos bairros cariocas sofreram tanto com as reformas urbanas que, vez por outra, marcam a cidade. Ao longo das décadas de 1960 e 1970, o Catumbi foi sendo devastado. A abertura do túnel Santa Bárbara e, especialmente, a construção do viaduto Trinta e Um de Março, dividiram o bairro em dois pedaços, ocasionaram a demolição de imóveis centenários e a destruição de quadras inteiras. Em nome da reestruturação urbana do Rio, o Catumbi se transformou em um bairro de passagem, perdeu a maior parte de seus moradores e deixou de ser um centro de referência para a comunidade, com suas vivências, saberes, hábitos cotidianos e visões de mundo. O Bafo da Onça, de certa forma, era fruto desse espaço de convívio dizimado pelo poder público.

Que em tempos de remodelação urbana, choques de ordem, copas, olimpíadas e que tais, os responsáveis pelas intervenções urbanas tenham consciência de que os lugares são, mais do que qualquer outra coisa, espaços de construção de memórias, culturas, formas peculiares de se experimentar a vida e abordar o mundo. E que as tamarineiras cariocas – as que restam - continuem de pé.