sábado, 26 de março de 2011

O BACHIANO BRASILEIRO

Meu filho Benjamin está na área. O moleque chegou na madrugada de segunda-feira, dia 21 de março. Desde então posso afirmar, com a profundidade de um Pedro Bial refletindo sobre a vida em um paredão do Big Brother Brasil, que só faço aprender. Em três dias descobri como escolher cenoura no supermercado (há que se observar o rabinho da erva bianual que faz a alegria do coelho da Páscoa) , as propriedades nutritivas do colostro e as diferenças entre as contrações de Braxton-Hicks e a conferência de Bretton Woods. A aventura promete.

Na primeira noite do garoto em casa, dei uma de D.J e mandei ver na trilha sonora. A ideia era acalmar a criança enquanto o galo não cantava. Tentei músicas de ninar, embarquei na  Arca de Noé do poetinha, fui de Pixinguinha, coloquei o maestro soberano tocando O Boto... e nada.  

Resolvi apelar para o bom e velho Johann Sebastian Bach. Acreditem. Ao ouvir a Sonata em Sol Menor para flauta e cordas, o moleque sossegou. Foi na mosca, como diriam os meus avós. Desde então é essa a trilha sonora no meu ilê.
O curioso dessa história toda é o seguinte: - Não imaginei que o moleque chegasse no dia 21 de março. O parto estava previsto para a última semana do mês. Precisei, portanto, consultar ontem o meu babalorixá virtual, o Pai Google da Aruanda, para saber que diabos ocorreu ao longo da História na data de nascimento do moleque. Dentre várias informações, a que me chamou especial atenção foi a seguinte:

- 21 de Março de 1685.  Nasce na pequena cidade alemã de Eisenach o compositor Johann Sebastian Bach.  

Cheguei a seguinte conclusão. Não tenho nem de perto - nem somadas minhas vinte mil encarnações - o talento do dedo mindinho de um Heitor Villa-Lobos para compor as Bachianas Brasileiras - a  obra maior do mestre careca canarinho inspirada no gigante alemão de perucas. Ando desconfiado, porém, de que eu ajudei a fazer um legítimo Bachiano Brasileiro.

Por via das dúvidas separei, para a próxima semana, do próprio Bach os Concertos de Brandemburgo - com a Filarmônica de Berlim - e (saravá Villa-Lobos!) a Tocata da Bachiana Brasileira n. 2, o monumental Trenzinho do Caipira. 

Que o São João Sebastião dos Botequins (a melhor tradução em português-brasileiro para o nome do germânico) e o São Villa-Lobos do Brasil protejam o garoto e me garantam um bom sono.


Abraços 

sábado, 19 de março de 2011

SAUDAÇÕES AO GRANDE CHEFE

Os preparativos para a visita ao Brasil do presidente Barak Obama ganharam contornos, na modesta e francamente iconoclasta visão deste escriba, inacreditáveis. Devo ressaltar que ando cada vez mais avesso aos rituais que cercam o exercício do poder. Parecem-me inevitavelmente fadados ao ridículo. Desconfio, por natureza, de todo aquele que, independentemente do viés ideológico, busca o poder e o exerce com apreço. De sacerdotes paramentados e governantes eu prefiro guardar  prudente distância - até mesmo para manter algumas esperanças minimamente vivas.

Afora as exigências descabidas do serviço secreto americano, praticamente querendo transformar a cidade do Rio de Janeiro em uma zona de exclusão militar nos moldes da Líbia, a maneira como o salamaleque da visita afronta o cotidiano do cidadão carioca é inaceitável. Desde a chegada da corte de D. João VI, em 1808, não se assistia a tamanha intervenção do poder público no dia-a-dia da cidade. Festas de casamento marcadas com grande antecedência para a Confeitaria Colombo, no Centro do Rio, chegaram a ser proibidas em virtude da necessidade de se isolar a área para o discurso presidencial. O Bar Amarelinho, que nunca fecha, recebeu o comunicado de que não poderia funcionar durante a performance do presidente pop. Só falta mesmo confiscarem moradias - fato que ocorreu em 1808 - para o pior aspecto do furdunço da chegada da corte portuguesa se repetir. "Ponha-se na rua" , porque o novo D. João  está na área...

A sorte (aos quarenta e cinco do segundo tempo)  é que, por medidas de segurança, o discurso que seria feito na praça foi transferido para o interior do Teatro Municipal. O povo carioca não tem culpa se todo presidente americano é um assassinado em potencial. Procurem as razões para isso na lamentável política externa dos EUA e no fundamentalismo de um bando de malucos que andam por aí, mas deixem o cidadão beber o chope de cada dia em paz.  O que existe é o homem humano, já dizia o jagunço Riobaldo.

Esse arrazoado não tem qualquer pretensão de discutir a relevância política da visita de Obama, as relações entre o Brasil e os EUA, a força simbólica do presidente negro ou coisa que o valha. Me falta o tempo e, principalmente, o tesão para entrar nesses meandros. O que acontece na Confeitaria Colombo tem me interessado mais do que os eventos da Casa Branca. Os rumos da futura administração do Império Serrano certamente me preocupam mais do que os rumos que Obama dará aos EUA. Sou um homem da minha aldeia, circunstância da qual, necessariamente, encaro o mundo.  

Sempre me recordo, quando a lenga-lenga dos poderosos começa, dos rituais de poder  entre os índios Guarani, magnificamente dissecados por Pierre Clastres, um grande pensador libertário, em seu "A Sociedade contra o Estado" -  livro que li nos tempos de faculdade, me marcou tremendamente e está na lista dos que precisam ser relidos.

Certa comunidade, estudada por Clastres, estabelecia um ritual diário envolvendo o grande chefe. A coisa funcionava de uma forma curiosa e fortemente ritualizada. A função  do chefe era a de, todos os dias, subir a um monte e discursar, com as devidas pompas, aos seus governados. Deveria, o chefão, ditar as normas de comportamento da sociedade e estabelecer as prioridades do governo.

A obrigação ritual da comunidade, neste teatro do poder, era muito simples: ignorar solenemente tudo que o poderoso chefão dizia e encontrar ( por conta própria ) as  soluções cotidianas para reinventar a vida.

Abraços e saudações deste guarani ao grande chefe.

quinta-feira, 3 de março de 2011

BABAQUICE NO REINO DE MOMO



Só pode ser  sacanagem. Quem me acompanha neste espaço sabe que clamo, em todos os Carnavais,  pela volta dos balofos ao posto mais nobre da folia - o de Sua Majestade, o Rei Momo, de quem sou súdito confesso. Eis que recebo hoje um email com a notícia mais triste da folia de 2011. Reproduzo o texto da mensagem eletrônica:

Numa época em que prezamos a saúde da população, a Prefeitura da Cidade do Recife (PCR) acredita ser contraditório estimular o desenvolvimento da obesidade nos homens que desejam assumir o posto de soberano do Carnaval. E nesse sentido, muita gente aplaude a decisão da PCR, que no seu 47º Baile Municipal do Recife, no Chevrolet Hall, escolherá um Rei Momo com silhueta esbelta e músculos bem definidos.

Pasmem. A foto - absolutamente ridícula - que ilustra o início dessa postagem é a de um candidato ao cargo de Rei Momo do Carnaval de Recife e foi tirada durante o concurso! Observem abaixo a inacreditável foto do vencedor, ao lado da rainha do Carnaval de 2011:

Dou trato às bolas e fico a imaginar o que diria o primeiro Rei Momo do carnaval brasileiro, o jornalista Moraes Cardoso, sobre essa papagaiada. Foi graças a ele, Moraes, que a figura do Rei Momo pudim de banha, rolha de poço, chupeta do Vesúvio, se estabeleceu entre nós. Explico.

Em 1933, com o carnaval oficializado pela prefeitura do Rio de Janeiro, os jornalistas de A Noite tiveram a ideia de nomear um monarca para a festa. O escolhido foi o repórter de turfe Moraes Cardoso, um sujeito assombrosamente gordo e gaiato. Estava sendo criada aí a tradição. Fosse Moraes Cardoso uma Olívia Palito, o Rei Momo magro teria se estabelecido entre nós.

O Rio de Janeiro, portanto, é uma cidade tão inusitada que inventou o primeiro rei carnavalesco desde as saturnálias romanas. O Rei das Saturnálias, porém, era em geral um soldado fortão, bonito e bicha. Se empanturrava de carne, enchia a cara de bebida e, no fim da festa, era sacrificado aos deuses. Nós, que nascemos sob o signo da subversão, transformamos o deus Momo em rei, colocamos um cachalote no trono, cercamos o soberano de princesas e rainhas gostosas e fomos pro ziriguidum.

Fui garoto em um tempo em que o Rei Momo do Carnaval do Rio de Janeiro era eleito por aclamação popular em um concurso realizado no Largo da Carioca. Fazia parte do concurso o desempenho do candidato ao devorar duzentos frangos de padaria e duas travessas de macarrão, além de beber cinco engradados de cerveja, no ritmo do balacobaco. Eram esses os atributos necessários aos que postulavam o cargo de Sua Majestade.

É com grande decepção, portanto, que recebo a notícia de que a cidade do Recife, terra da minha mãe, embarcou na palhaçada politicamente correta (e profundamente contrária ao espírito do Carnaval) ao fazer um concurso para escolher um Rei Momo com silhueta esbelta e músculos definidos. Que o bravo e folião povo do Recife honre a tradição revolucionária de Frei Caneca e Pedro Ivo, louve a memória de Capiba e Nelson Ferreira e derrube esse Rei Momo imediatamente.

A saída do trono de Momo dessas majestades esbeltas e musculosas é nesse momento, para este escriba que não compreende a civilização sem o Carnaval, mais decisiva para o futuro da humanidade do que  a derrubada dos bambambans alucinados no mundo Árabe.

Às armas, bravo povo do Leão do Norte!!

Evoé.