domingo, 10 de abril de 2011

SANTO ANTONIO NELES ! (Texto meu publicado em O Globo, 8 de abril de 2011)

Sei de muita gente que anda preocupada com os eventos previstos para a cidade do Rio de Janeiro nos próximos anos. Há quem diga que a cidade não suportará o crescimento do Carnaval, o furdunço da Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Minha opinião, nesse sentido, é muito clara: a população da cidade do Rio de Janeiro tem a tradição de enfrentar com galhardia as maiores confusões e transformar em festa (para o bem e para o mal) as situações mais desfavoráveis. Os riscos maiores se encontram, podem apostar, nas ações e negligências do poder público. Recorro à História para exemplificar.

Em 1710, pouco depois da notícia de que o ouro tinha sido encontrado em Minas Gerais, o rei francês Luís XIV resolveu enviar ao Brasil novecentos e tantos piratas, sob comando do capitão-de-fragata Jean-François Duclerc, para pilhar a cidade do Rio de Janeiro.

Os flibusteiros enviados pelo Rei Sol, temendo a barra estreita e as fortalezas da Baía da Guanabara, desembarcaram em Guaratiba, atravessaram os sertões de Jacarepaguá e as matas da Tijuca e rumaram em direção à cidade sem maiores problemas. Nesse momento entrou em cena o governador do Rio na ocasião, o português Castro Morais (apelidado pela população, que tinha o saudável hábito de não simpatizar com governantes, de O Vaca). Retifico a frase: Castro Morais, na verdade, saiu de cena.

Ao receber a notícia de que os homens de Duclerc estavam chegando ao Centro da cidade, Castro Morais tomou a mais inusitada decisão administrativa da história carioca em todos os tempos. Teve um ataque de covardia, se trancou no palácio governamental (no prédio onde hoje fica o Centro Cultural do Banco do Brasil) e, de lá mesmo, mandou anunciar que estava passando, em ato administrativo, o comando das tropas ao novo chefe da segurança pública da cidade: Santo Antonio.

É isso mesmo. Santo Antonio, o casamenteiro, morto em 1231, foi oficialmente nomeado comandante das forças de segurança do Rio de Janeiro em 1710. Há quem afirme que uma pequena estátua do santo foi oficialmente empossada no cargo, em rápida cerimônia administrativa.

O pepino sobrou, evidentemente, para a população. As notícias de que o governador estava trancado no palácio sob cuidados médicos, tendo ataques nervosos, e de que Santo Antonio era o novo responsável pela defesa da cidade, levaram o povo do Rio a se virar. E nisso, admitamos, o carioca é especialista.

Os franceses - desgastados pela estratégia maluca de atravessar Jacarepaguá e a Tijuca a pé - foram emboscados no largo da Lapa e atacados das janelas com armas de fogo, óleo fervente, pedras, pedaços de pau, hortifrutigranjeiros e toda a sorte de quinquilharias domésticas. Milícias populares se organizaram com impressionante rapidez. O cacete estancou nas vielas do Centro, com especial destaque para combates corpo-a-corpo envolvendo escravos, índios, mulheres, crianças, bebuns, padres e devotos. Os estudantes do colégio dos jesuítas deram uma banana para as aulas, formaram uma inusitada artilharia de batinas e, desta forma, mandaram bala nos franceses e evitaram a invasão do palácio do governador.

Depois do furdunço todo, o saldo da quizumba era o seguinte: trezentos e tantos franceses mortos, quatrocentos e poucos presos (dentre eles o próprio Duclerc, que acabou misteriosamente assassinado em sua prisão domiciliar) e outros tantos feridos. O governador, saído do estado de letargia, permitiu que a semana seguinte à vitória fosse dedicada aos festejos populares (como se a população precisasse de alguma autorização do Vaca para celebrar a vida).

A ironia é irresistível. Que me desculpem os fãs de José Mariano Beltrame e da política de segurança do atual governo. Os fatos históricos indicam, sem a menor margem de dúvidas, que o maior secretário de segurança pública da história do Rio de Janeiro foi mesmo Santo Antonio. Estou com ele e não abro. Revelam, ainda, a enorme capacidade da população do Rio para dar nó em pingo d água e se organizar na mais absoluta desordem.

O risco maior é mesmo a síndrome de Castro Morais. Vez por outra o espírito do Vaca gruda no cangote dos nossos governantes e o poder público não cumpre a sua parte, não faz o que deve ser feito e ainda corre o risco de se meter onde não devia. De festa a gente entende; administrar o babado é que são elas. A vocação do Rio, salvação e danação da nossa gente, é, afinal de contas, amanhecer cantando.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

EPOPÉIAS BRASILEIRAS

Quando escrevemos, Alberto Mussa e eu, nosso livro sobre sambas de enredo, partimos da constatação de que essa espécie de samba é talvez a mais impressionante e surpreendente de todas. Defendemos, basicamente, que o samba de enredo não é lírico - contrariando assim uma tendência universal da música popular urbana - , integra o maior complexo de exibições artísticas simultâneas do mundo moderno (o desfile das escolas de samba) e, não bastasse isso, é um gênero épico. Mais ainda: é o único gênero épico genuinamente brasileiro. Cito o Houaiss:

epopéia 

1 Rubrica: literatura.

poema épico ou longa narrativa em prosa, em estilo oratório, que exalta as ações, os feitos memoráveis de um herói histórico ou lendário que representa uma coletividade

2 Derivação: por extensão de sentido.

sucessão de eventos extraordinários, ações gloriosas, retumbantes, capazes de provocar a admiração, a surpresa, a maravilha, a grandiosidade da epopéia

3 Derivação: sentido figurado.

aventura fabulosa
 
Os sambas de enredo constituem o corpo de uma grande epopéia brasileira. Digo mais: raros são os povos que têm um conjunto tão sofisticado de epopéias. Silas de Oliveira é o nosso Homero. Os Sertões, a obra monumental de Edeor de Paula para a Em Cima da Hora, é dos maiores cantos épicos que a humanidade produziu. O Império Serrano tem, para a história da civilização, importância no mínimo similar a de Atenas. Não se pode contar a história gloriosa da humanidade sem a Grécia, sem o Egito, sem a Babilônia, sem a Serrinha...
 
Senhores professores de literatura do ensino médio: Que tal, ao ensinar aos brasileirinhos o que é um gênero épico, falar de Homero, Virgílio, Camões, Silas, Jurandir, Didi, Aurinho, Anescar... Que tal, depois de trechos da Ilíada, da Eneida e de Os Lusíadas, botar os garotos para escutar Pernambuco, Leão do Norte , Batalha Naval do Riachuelo, Quilombo dos Palmares, Chico Rei, Ao povo em forma de arte, O saber poético da literatura de cordel...
 
Deixo com os amigos essa maravilhosa Exaltação a Villa Lobos, de Jurandir e Cláudio, epopéia apresentada pela Mangueira em 1966, para ilustrar brasileiramente o tema:
 
 
Abraços