domingo, 29 de maio de 2011

FIM DE TARDE NO BODE

A circunstância de ter um filho de dois meses e pouco - e a opção irredutível de não ter babá - tem me feito frequentar apenas botequins muito próximos da minha casa para a água benta do fim de tarde. Tenho ido, por isso, com mais frequência ao Bode Cheiroso, estabelecimento de boa pipa  quase ao lado de onde moro. Ao pensar no Bode me permitam citar, para que os malungos entendam onde quero chegar, um velho texto em que defini o que espero de um  botequim:

O velho buteco, o pé-sujo, é a Ágora carioca. No botequim não há grifes, não há o corpo-máquina, o corpo-em-si-mesmo, a vitrine, o mercado pairando como um deus a exigir que se cumpram seus rituais.


O buteco é a casa do mal gosto, do disforme, do arroto, da barriga indecente, da porrada, da grosseria, do afeto, da gentileza, da proximidade, do debate, da exposição das fraquezas, da dor de corno, da alegria do novo amor, do exercício, enfim, de uma forma de cidadania muito peculiar.

A luta pelo boteco é a possibilidade de manter viva uma Ágora efetivamente popular, espaço de geração de idéias e utopias - sem viadagens intelectuais, mas fundadas na sabedoria dos que tem pouco e precisam inventar a vida - que possam nos regenerar da falência de uma (des)humanidade que limita-se a sonhar com a roupa nova e o corpo moldado. O botequim é o anti-shopping center, é a anti-globalização, é a recusa mais veemente ao corpo-máquina dos atletas olímpicos ou ao corpo doente das anoréxicas - doença comum nesse mundo desencantado.


Ali, entre garrafas vazias, chinelos de dedo, copos americanos, pratos feitos e petiscos gordurosos, daquele mar de barrigas indecentes, onde São Jorge é o deus e mercado é só a feira da esquina, a vida resiste aos desmandos da uniformização e o ser humano é restituído ao que há de mais valente e humano na sua trajetória - a capacidade de sonhar seus delírios e afogar suas dores e medos na próxima cachaça. É onde a alma da cidade grita - Não passarão!

Pois bem, camaradas, o Bode Cheiroso funciona mais ou menos assim. A começar pelo Bigode, que controla o balcão feito Domingos da Guia dominava a grande área e abre cerveja atrás de cerveja como Garrincha enfileirava os marcadores. É craque.

Eu só acredito em garçons que pareçam egressos do cangaço. São cada vez mais raros diante da profusão dos garotões de aventalzinho, das moças moderninhas e dos descolados que pululam feito mato nos bares de grife. A  destreza com que Bigode abre uma ampola cu de foca - como se fizesse isso desde que o primeiro hominídeo caminhou ereto na Serra da Capivara - é a mesma com que Lampião manuseava o fuzil parabelo.

Não, no Bode não tem Comida Di Buteco. Até porque os frequentadores do Bode são do tempo em que Di era só o Cavalcanti, fauno tropical que retratava as mulatas mais gostosas com as tintas brasileiras. Vez por outra, é justo recordar, aparecia algum bandido de um metro e meio com a clássica alcunha de Di Menor. E a onda do Di parava por aí.

Espero apenas que o Bode não acabe sucumbindo aos apelos modernosos dos pés limpos e de seus programadores visuais e assessores de imprensa. Sou um sujeito tradicional. Refiro-me , aqui , a uma tradição que não é estática. Falo dela como o ato de transmitir ou entregar algo para que o receptor tenha condições de colocar mais um elo numa corrente. Essa corrente é a cultura de um povo. Posso recorrer a uma velha metáfora , a da árvore que , por ter as raízes mais profundas , cresce mais vigorosa . Cultura é isso; a capacidade de criar e recriar a partir do legado dos ancestrais. Aprendi assim e é assim que enxergo o mundo.

Vivemos, porém, tempos desencantados em que acredita-se na tábula rasa. Rompa com o passado , ignore o que é antigo , olhe sempre pra frente , a vida começa agora, danem-se os cinquenta anos que passaram - o negócio são os dez anos que virão por aí. Enchamos as burras.

Pé de pato, mangalô, três vezes. Que isso não ocorra e eu continue tendo, ao morar perto do Bode, o mesmo prazer do egiptólogo que mora quase ao lado das pirâmides de Gizeh.

Não sou profeta e não conduzo ninguém. Quero apenas ter o direito de buscar, quando a tarde cai numa esquina da Zona Norte carioca, o meu cadinho da Canaã, a terra prometida aos homens simples de boa vontade.

Abraços

sexta-feira, 27 de maio de 2011

SEU SETE DA LIRA E CHARLES DARWIN - DIPLOMATAS DO BRASIL


Que me desculpem o Barão do Rio Branco, as divas consulares do Itamarati e seus fãs. Seu Sete Rei da Lira, poderoso Exu de terreiros de quimbanda, e o naturalista Charles Darwin, quase cem anos depois de ter morrido, foram fundamentais para o sucesso da diplomacia canarinho durante  a Guerra da Lagosta, sensacional querela que envolveu o Brasil e a França no início da década de 1960.

Escrevi alhures um texto sobre o tema, onde por imperdoável carência de informações ignorei o papel negociador de Seu Sete da Lira e do pai da teoria da evolução. Volto ao tema, portanto, em virtude de novas leituras que fiz e que comprovam a intervenção diplomática de Darwin e Exu para resolver a refrega a favor do Brasil. 

O furdunço começou quando um barco da nossa Marinha flagrou uns conterrâneos espertinhos da Madame Pompadour dando um migué e pescando lagostas em águas territoriais brasileiras,  sem autorização para tal. Botamos, evidentemente, os mariolas pra correr.

Estabeleceu-se, a partir daí, um ardoroso debate sobre a regulamentação da pesca e a respeito do status da lagosta como bem patrimonial brasileiro. Os franceses chegaram a enviar um contingente naval para a área da quizumba. Reagimos sob o brado patriótico de a lagosta é nossa! , rememorando a campanha pela nacionalização do petróleo no final dos anos quarenta. Mobilizamos as Forças Armadas, mandamos uma esquadra para a região e nos preparamos para a guerra. Montamos a secretíssima Operação Lagosta, com intuito de dar uma coça nos franceses

Diante das notícias de que  passeatas em Pernambuco bradavam lagosta ou morte! e de um projeto da câmara de vereadores de uma cidade do sertão da Paraíba que propunha dar  a todas as lagostas do mundo a cidadania brasileira, o nosso embaixador em Paris, Carlos Alves de Souza Filho, fez a famosa declaração de que o Brasil não é um país sério. A frase acabou sendo equivocadamente atribuída ao presidente francês, Charles de Gaulle, o que só serviu para colocar mais pimenta no vatapá da crise.

Travou-se um vigoroso confronto diplomático entre os dois países, com direito a mediação do Conselho de Segurança da  ONU e o escambau. Os especialistas franceses sustentavam na discussão que a lagosta era apanhada quando estava nadando, sem contato com o assoalho submarino brasileiro. Podia, por isso, ser considerada um peixe.

A população discutia apaixonadamente a questão momentosa: - É a lagosta um peixe? Velhos marinheiros eram consultados e acalorados debates na televisão tinham o crustáceo como tema. Foi aí que um paranormal de Sete Lagoas, Minas Gerais, incorporou, via satélite,  o naturalista Charles Darwin, dando razão ao Brasil. Darwin disse, em bom português com sotaque britânico, que a seleção natural não deixava dúvidas - a lagosta era mesmo verde e amarela. Pediu, logo depois, um cocar e um charuto. Deu, entre baforadas, passagem ao caboclo Urubatão da Guia.

A coisa sujou de vez para a França quando, em entrevista ao Repórter Esso, com voz cavernosa e ameaçadora, o Exu Sete Rei da Lira, famosa entidade da quimbanda que dava consultas em um terreiro na Zona Oeste carioca, amaldiçoou os franceses, disse que ia castigar Charles de Gaulle e vaticinou a vitória brasileira em caso de conflito armado. De Gaulle afirmou em nota oficial que não temia as ameaças de Seu Sete. O Rei da Lira ameaçou ir a Paris para colocar um despacho com penosas, marafo e efó no Arco do Triunfo.

Nosso especialista em oceanografia no embate, o Almirante Paulo Moreira, argumentou que o Brasil não aceitava a tese francesa de que a lagosta virava um peixe ao dar seus pulos se afastando do fundo do mar. Se assim fosse, justificou o arguto brasileiro, o canguru deveria ser considerado uma ave no momento em que dava seus saltos.

O argumento absolutamente genial da nossa chancelaria - se a lagosta é um peixe, o canguru é um pássaro - desarticulou completamente o discurso francês e garantiu a vitória brasileira na contenda. Nossos direitos foram reconhecidos e a lagosta passou a ser considerada brasileiríssima, como eu, você que está lendo, a mulata, a ginga, o balacobaco e o samba de roda.

Seu Sete e Darwin, evidentemente, estavam certos.

Abraços

terça-feira, 24 de maio de 2011

VOCÊ, LUIZ ANTONIO SIMAS, VAI SER ENTERRADO VIVO


Amigos, não sei exatamente quando resolvi, no meu velho e falecido blog Histórias do Brasil, relatar coisas que, inicialmente, pensava fazer apenas através de algum médium de mesa branca depois de morto. Para garantir, porém, a veracidade absoluta dos fatos, decidi na ocasião que eu mesmo me psicografaria ainda em vida. É mais seguro, estou certo disso, ser o médium de si mesmo e antecipar as broncas e memórias do além túmulo. Luiz Antonio Simas psicografado por Luiz Antonio Simas.

A primeira confissão que fiz alhures já versava sobre as assombrações que acompanharam a minha formação e são hoje, que sou pai de um moleque, objetos de minhas constantes reflexões noturnas - o relógio do computador marca, nesse momento, 02:24 da madruga. Benjamin mama feito bezerro do sertão e eu escrevo esse arrazoado imaginando histórias aterrorizantes para contar ao petiz.

Em recente texto (sobre a loura morta de algodões nas narinas que atacava crianças nos banheiros escolares, ralos que sugavam meninos, pedaços de defunto em garrafas de refrigerante e quejandos) defendi a ideia de que toda pedagogia infantil, para ser eficiente, precisa incluir um repertório vasto de temores e assombrações capazes de fazer a criança sossegar o facho. É tradição familiar.

Cito o exemplo do meu avô. O velho  Luiz Grosso, que nasceu em 1922 em Pernambuco e, estranhamente, jurava ter participado com uma espingarda da marcha dos 18 do forte de Copacabana no mesmo ano,  foi educado com muito carinho e rigor pelos pais, o seu Salvador e a dona Carmem. Sofria, quando aprontava alguma merda, a ameaça de ser entregue pela própria família aos cuidados do psicopata, tarado e homossexual Febrônio Índio do Brasil. Esse cabra, para quem não sabe, foi acusado de estuprar e matar dois garotos em 1927, com requintes de tremenda crueldade.

Doido de pedra, Febrônio virou inimigo público número um do país e foi o primeiro paciente do Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro. Meu velho, que fora também inúmeras vezes ameaçado pelo pai de ser vendido por uns merréis ao bando de Lampião, não tinha um pingo de medo do cangaceiro caolho e cabeludo, mas se pelava todo ao ouvir a sentença :

 - Então vou te entregar hoje mesmo, e de graça, ao Febrônio Índio do Brasil. Vou chamar o Febrônio.

Só aí o menino se aquietava, imaginando uma bicha tarada e doida lhe arrancando as tripas.

Minha criação  honrou a tradição da família. Boa parte dos pavores que tive foram incutidos pela minha querida tia avó, dona Lita, de saudosa memória, mas com um humor de cão raivoso. Cuidou muito de mim. Exemplifico. Para evitar que eu saísse sozinho, falasse com estranhos, aceitasse jujubas no meio da rua e coisas do gênero, tia Lita fazia uma ameaça terrível :

- Vão te sequestrar. Vão fazer com você a mesma coisa que fizeram com o menino Carlinhos.

O Carlinhos, para quem não é da época, foi um garoto lourinho e sardento raptado na Rua Alice, em Laranjeiras, no início dos anos 70. O sumiço do petiz gerou comoção nacional. Apelou-se até para Seu Sete Rei da Lira, um exu que dava consultas e passes em programas de auditório e usava uma capa com um tridente de lantejoulas bordadas, para dizer onde menino estava. Seu Sete, que sabia das coisas, disse que Carlinhos não estava morto, mas nunca mais seria encontrado. E até hoje não foi. Vivi, confesso aos amigos, um bom tempo atormentado por uma certeza inapelável - eu era o próximo nome da lista dos sequestradores do Carlinhos.

Um dia pedi que minha tia contasse uma história na hora de dormir. Imaginei algo no estilo gato de botas, três porquinhos ou a roupa nova do rei. Ela, porém, achou mais conveniente e adequado a uma criança de seis anos contar a macabra trama da morte de Sergio Cardoso, um ator famoso à época.

O negócio é o seguinte - Sérgio Cardoso sofria de catalepsia e havia suspeitas de que fora enterrado vivinho da silva. Minha tia afirmava que era a mais cristalina verdade. Dizia ela que após o enterro, que comoveu multidões, os funcionários do cemitério começaram a escutar gritos horrendos que vinham da sepultura do ator. Acharam que era coisa de alma penada, mas os gritos duraram meses, quebrando a tranquilidade da cidade do pé junto e revelando que havia algo de podre no Nosso Lar.

Depois de muita gritaria alguém levantou a lebre de que Sérgio Cardoso talvez estivesse querendo sair do caixão. Os coveiros, assombrados com a hipótese, resolveram abrir a urna para dar uma olhadinha. A cena foi horripilante - o corpo estava revirado e a tampa do caixão, arranhada, apresentava sinais de que o defunto  tentara escapar de todas as maneiras. A notícia, apesar dos desmentidos oficiais, se espalhou feito mato.

Tia Lita concluiu o relato sobre o drama de Sergio Cardoso com uma frase lapidar, ideal para embalar os sonhos infantis, e que tem até hoje para mim um impacto maior do que qualquer máxima sheakesperiana :

- Muitas pessoas, meu sobrinho, muitas mesmo, praticamente todas, acabam sendo enterradas vivas e ninguém sabe.

E arrematava  feito o goleador implacável que, com a bola pererecando na grande área, está se lixando para a agonia do goleiro:

- Você, Luiz Antono Simas [tia Lita me chamava pelo nome completo em ocasiões solenes],  vai ser enterrado vivo.

Abraços

quarta-feira, 18 de maio de 2011

LIÇÃO DE PEDAGOGIA


Sempre defendi, para desespero de certa psicologia infantil, que o medo é um instrumento pedagógico da maior eficácia na educação de uma criança. Continuo achando a mesmíssima coisa. Um petiz sem receios é tão indomável quanto a pororoca do Amazonas; transforma-se numa espécie de Jairzinho Furacão devastando as defesas inimigas na Copa de 1970. Já tentei apavorar meu filho, por exemplo, com a história do abominável monstro das mamadeiras, que vira um gigante e torra no forno de microondas crianças que não querem dormir.

Meu repertório de temores infantis foi variado. Cresci convencido de que seria sequestrado como o menino Carlinhos; enterrado vivo feito o ator Sérgio Cardoso; morreria engasgado com uma bala soft e um dia seria alcançado pelo abraço assassino de Konga, a mulher gorila. Acreditava que todo doce vendido na porta do colégio continha drogas perigosíssimas; garrafas de Coca Cola vinham com dedos de defuntos e linhas de pipa com cerol degolavam duas crianças por dia. Ralos de piscina, evidentemente, sugavam crianças e prendiam meninos pelo pinto. A única forma de libertar as vítimas era cortando o bilau com uma tesoura.

Minha Tia Lita - fundamental na minha formação - fez de mim uma criança melhor, cultivando com carinho comovente esses temores primordiais.

Hoje constato que vivemos sob a tirania dos psicólogos e terapeutas infantis que acham que as crianças não tem que ter mais medo de coisa nenhuma. É uma lástima. Exemplifico.

Em conversas com amigos professores que trabalham no ensino fundamental, reparo que é comum entre a garotada o truque de pedir para ir ao banheiro para sair de sala de aula. O que tem de moleque que levanta o dedo para pedir pra fazer xixi e se empirulita da aula não está no gibi.

Eis porque defendo, em nome da boa educação, que haja um esforço coletivo - e aí penso em uma ação conjunta que inclua governo, imprensa, família, sociedade civil organizada e o escambau - para fomentar o boato de que em todos os banheiros de colégios existe uma loura morta, com algodões repletos de sangue nas narinas e olhos vazados, atacando crianças. Não é a primeira vez que escrevo sobre essa branquela defunta e nem será a última. A loura morta moldou em larga medida meu caráter.

Preferia mil vezes correr o risco de molhar as calças a ter que me deparar com a assobração terrível em forma de mulher. Ficava com a bexiga explodindo, mas a simples possibilidade de ser estrangulado e afogado na privada pela loura me fazia assistir a aula toda, feito um estóico. Só corria ao banheiro no recreio, quando a movimentação era bem maior e o número de vítimas potenciais diminuia meus riscos. Fui um bom aluno por causa da assombração dos mictórios.

Me permitam, nessa linha de raciocínio, um curto parágrafo de natureza política: Estou convencido de que as notícias sobre pedaços de corpos humanos em garrafas de Coca Cola fez mais pela luta antiimperialista do que toda a obra de Marx e Engels.

As crianças, nos tempos do Império, temiam o Bicho Papão, a Mula-Sem-Cabeça, o Boitatá e o Curupira. Meu avô tinha medo do homicida e tarado homossexual Febrônio Índio do Brasil, um assassino de crianças que virou o primeiro paciente do manicômio judiciário do Rio de Janeiro. Meu pai se borrava nas calças ouvindo o programa de rádio Incrível, Fantástico, Extraordinário; em que Almirante contava com voz assombrosa os casos mais escabrosos de espíritos, almas penadas e quejandos.

E hoje? O que pode impor limites aos moleques ligados na internet, com perfis em sites de relacionamentos e telefones celulares desde os seis anos de idade.

Urge, camaradas, ressuscitar as nossas mais notórias assombrações. Vamos começar a espalhar discretamente boatos em festas infantis, creches, programas de auditório e jardins de infância.

Aproxime-se das crianças, leitor, e com voz de dublador de filme de vampiro espalhe as notícias : - Você já pensou que pode ter sido sequestrado? Cuidado com os ralos de piscina. Cem pessoas por dia são enterradas vivas. Acharam  o mindinho de um defunto numa garrafa de Coca Cola. A loura do banheiro voltou a fazer vítimas do Oiapoque ao Chuí.

Nenhum programa de incentivo educacional será plenamente vitorioso sem esse detalhe crucial. A loura defunta, vestida de branco, com algodões em sangue nas narinas e olhos vazados, é tão importante quanto o bolsa-escola para fazer do Brasil o país de crianças bem educadas que sonhamos.

Abraços.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

RÉQUIEM PARA O MARACANÃ


Moro no bairro do Maracanã. Da minha casa ao estádio levo cinco minutos, se tanto.  Já cansei de escutar, em dias de clássico, o barulho da torcida soando aos meus ouvidos como a mais bonita das sinfonias. O Maracanã parecia rugir na minha varanda, farfalhando as cortinas e ventando em gol.

Não moro perto do Maraca por acaso. Quando procurei apartamento para comprar, a proximidade do estádio foi um fator decisivo. Realizei um alumbramento de moleque. Nunca cogitei morar perto da praia, conhecer a Disney ou coisa parecida. Sempre imaginei a felicidade como a chance de ir a pé, quando bem entendesse, ao estádio que assombrava meus olhos de menino.

Jorge Luís Borges sonhava um paraíso que fosse uma infinita biblioteca. O meu paraíso sempre teve traves, redes, arquibancada e bola. 

Mas o meu Maracanã morreu. É paraíso que já não há.

O meu Maracanã foi vítima da mania de modernizar o eterno, profanizar o sagrado e tornar provisório, marcado pelas vicissitudes do tempo, o que já transcendeu a esse próprio tempo, o cronológico, e vive no território do mito.

Certa feita escrevi, em alguma madrugada de febre e bola, uma oração ao Maracanã. Eu rezei assim:

Que os deuses te salvem, Maracanã.

Não há dia em que eu pise no velho cais da Praça XV sem lembrar que ali vivem, consagrados na memória das pedras, os marujos que quebraram as chibatas da marinha de guerra do Brasil na revolta de 1910.

Na materialidade bruta da Pedra do Sal ressoam batuques de primitivos sambas e berram todos os bodes imolados aos deuses que chegaram da África nos porões dos negreiros, acompanhando seu povo. A Pedra do Sal tem um silêncio que grita Laroiê! nas noites.

Cada degrau da escadaria da ermida de Nossa Senhora da Penha, a mais carioca das santinhas, materializa os milagres e a dor - redentora - de milhares de joelhos esfolados em sacrifícios de louvor e graças aos prodígios da Virgem.

Existem lugares de esquecimento, territórios do efêmero - penso nos shoppings - e lugares de memória, territórios de permanência. Esses últimos são espaços que, sacralizados pelos homens em suas geografias de ritos, antecedem a sua própria criação e parecem estar aí desde a véspera da primeira manhã do mundo.

O meu Maracanã é assim. É feito a Penha, a Pedra e o Cais. Nasceu estádio de futebol antes do rio que lhe nomeia; é carioca antes de Estácio de Sá; é de um tempo anterior ao tempo e foi erguido perto da minha casa antes que a primeira flecha tupinambá cortasse o céu da Guanabara.

O meu Maracanã, velho Maraca não reformado, é o Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, onde Jeremias e Daniel bailam no ar como Zizinho e Didi bailaram nas quatro linhas. É o terreiro do Axé Opô Afonjá, onde Xangô dançou pelo corpo de Mãe Aninha como Ademir, feito raio, rasgou o campo em direção ao gol. O Maraca é a primeira ponte do rio Capibaribe e todas as pontes de São Castilho. O meu estádio é a ciranda de Lia e a areia da praia onde Lia dançou ciranda, pois ali, na grama verde, um anjo de pernas tortas cirandou um dia.

Coisas de matéria e sonho.

Mas o Maraca é mais, muito mais, do que tudo isso. É o templo onde oraram e comungaram brasileiros comuns - feito eu, meu pai e meu avô. Sempre juntos, na alegria e na tristeza, na vitória e na derrota, porque aqueles a quem os deuses da bola uniram no cimento das arquibancadas, dinheiro nenhum, meu Maracanã , há de separar.

Amém.


quarta-feira, 11 de maio de 2011

DA PARAÍBA PARA O MUNDO: GALO X RAPOSA - O CLÁSSICO DOS MAIORAIS



Que me desculpem os atleticanos e cruzeirenses. A decisão de campeonato regional entre o galo e a raposa que promete nesse 2011 é mesmo a do certame da Paraíba. Os dois gigantes de Campina Grande, o Treze (o galo) e o Campinense (a raposa), cruzarão os bigodes no gramado em mais um "clássico dos maiorais", como o desafio é conhecido.

No meio de tudo isso, e enquanto aguardo esse embate que reputo como mais importante que qualquer Barcelona X Real Madri, o Botafogo de João Pessoa tenta anular na justiça o jogo semifinal em que perdeu do Treze por 4 X 0. A partida foi mesmo de fazer briga entre o bando de Lampião e a tropa volante parecer um faniquito entre normalistas do Instituto de Educação. O prélio terminou em grossa pancadaria, com cinco jogadores expulsos, oito contundidos, o juiz tendo uma crise histérica, dois repórteres desmaiando no gramado e tiros para o alto nas arquibancadas. O Botafogo alega que o Treze começou a quizumba.

Daqui eu já adianto: torço pelo Treze. A razão é da maior relevância. O Treze Futebol Clube, o alvinegro de Campina Grande, tem o nome de time mais interessante no Brasil. O Treze é imbatível nesse ponto. Já escrevi sobre isso alhures, mas não custa recordar.

O clube paraibano nasceu no dia 7 de setembro de 1925, numa reunião que contou com a participação de alguns doidos interessados em difundir o futebol em Campina. Durante o pega pra capar para se escolher o nome da agremiação, um dos fundadores, José Casado, sugeriu que o clube adotasse como nome a quantidade de pessoas presentes ao ato de fundação. Quantos somos, cabras? perguntou o Zé. Treze! E assim ficou.

Isso significa que o Treze poderia perfeitamente se chamar Onze Futebol Clube, Vinte Futebol Clube, Trinta e Quatro Futebol Clube, Setenta e Sete Futebol Clube, e por aí vai.

O primeiro time do Treze, que estreou nos gramados enfrentando o Palmeiras de João Pessoa [1 de maio de 1926], foi formado por um onze de respeito : Olívio; Zé Elói e Lima; Eurico, Zacarias do Ó e Zé de Castro; Rodolfo, Casado, Reis, Zé Cotó e Guiné.


Sobre este histórico primeiro time, aliás, reparem na foto acima. Percebam a magnífica camisa que o eleven paraíbano usou no jogo inaugural. Isso sim é design arrojado, o resto é conversa de songamonga.

O Treze ganhou o jogo pioneiro por um gol. O autor do tento, depois de jogada individual nunca dantes vista nas paraíbas, foi o ponteiro esquerdo Guiné. Aqui vale uma explicação. O nome de batismo do herói do gol inaugural era Plácido Véras. O apelido foi dado pelos amigos em virtude de uma característica de Plácido nos gramados; a velocidade espantosa que o assemelhava a uma guiné, a ave, ciscando no terreiro.

O mascote do Treze, como mencionei no inicio desse arrazoado, é um galo. A razão, assim como a do nome, também é magnífica em sua obviedade - treze é o número do marido da galinha no jogo do bicho. Cáspite. Faço a irresistível facécia - Fossem vinte e quatro os fundadores, a escolha do mascote obedeceria ao mesmo critério? Creio que não.

O Campinense, em virtude de uma série de vitórias sobre o Treze nos anos sessenta, adotou uma raposa - animal que come o galo - como símbolo.

Não bastassem as glórias nas quatro linhas [o campeonato paraibano invicto de 1966 é, para os velhos torcedores, a maior delas], o Galo da Borborema também entrou para a história da música popular do Brasil. Em 1958 o grande compositor de cocos e baiões Rosil Cavalcante, autor de Sebastiana, compôs Saudade de Campina Grande, gravada pela lendária Marinês.

Ao cantar o banzo dos personagens da terra do São João mais arretado da Paraíba, a música fala do futebol de Campina Grande e cita o "Zé Iracema, center-foward do Paulistano em dia de jogo, e o Treze, velho galo da Borborema, que jamais teve problema e pegava fogo". [Acho a coisa mais extraordinária, aliás, esse uso do termo center-foward em legítimo forró paraibano.]

Fiquem com a grande Marinês cantando o Treze querido, em uma brilhante e inusitada gravação com a Orquestra Sinfônica da Paraíba. Vida longa ao futebol do Brasil e ao Galo da Borborema!


Abraços

sábado, 7 de maio de 2011

GERONIMO MORREU EM COMBATE


E Osama bin Laden foi para o beleléu. O beleléu, no caso, pode ser o inferno (para muitos), o paraíso (para outros tantos) ou o lugar nenhum (para esse escriba descrente das coisas da alma, pelo menos). A execução de Bin Laden - com todas as controvérsias suscitadas mais sobre os métodos do que propriamente sobre os objetivos da ação - me interessou particularmente sobre o que ela revela acerca do modus operandi e das bases ideológicas que sustentam o mito da identidade nacional dos americanos do norte. Desenvolvo a ideia.

O processo de formação da identidade nacional nos Estados Unidos da América tem como contexto fundamental a expansão territorial do século XIX - a mítica Marcha para o Oeste. Diz Peter Eisenberg (Guerra Civil Americana. 1987. p. 29) que

o Oeste era uma área de fronteira dinâmica, não uma região específica. Em meados do século XVIII o Oeste significava a área entre os montes Apalaches e a margem leste do rio Mississípi(...). Cem anos depois, Oeste veio a indicar a região além do rio Mississípi até o oceano Pacífico. Aos poucos, esse território foi incorporado aos Estados Unidos, através da compra e da conquista.

A base ideológica da conquista de territórios foi a doutrina do destino manifesto, amplamente difundida nos EUA ao longo do sécuo XIX. Dizia a tal doutrina que o povo dos EUA é predestinado por Deus para expandir o seu território e levar, além das fronteiras naturais, os princípios fundadores da nação. A expansão, portanto, era o cumprimento de uma missão divina. O sintetizador da doutrina foi o jornalista John L. O´Sullivan, que a expressou em um famoso ensaio chamado Annexation e em outros textos posteriores. Cito algumas passagens de O´Sullivan:

Nosso "destino manifesto" atribuído pela Providência Divina nos manda cobrir o continente para o livre desenvolvimento de nossa raça que se multiplica aos milhões anualmente(...).  esta reivindicação é parte de nosso "destino manifesto" de avançar e possuir todo o continente que a Providência nos concedeu pelo desenvolvimento da grande experiência a nós confiada da liberdade e do auto-governo federalista(...). O Destino Manifesto é um ideal moral superior que se sobrepõe a outras considerações, incluindo leis e acordos internacionais.

Em síntese: o Todo Poderoso deu aos Estados Unidos a tarefa de conquistar territórios além de suas fronteiras. E que se danem as leis se estas se opõem ao tal ideal superior. (Isso está tão arraigado na alma da América profunda que não há como não lembrar de George W. Bush rezando salmos para definir as estratégias de invasão do Afeganistão e do Iraque).  Ao difundir a doutrina do destino manifesto como um dos fundamentos da nação, os EUA também vão construir um outro poderoso mito de unidade nacional - a ideia de que o sonho americano de expansão da liberdade é constantemente ameaçado por inimigos externos, contra os quais o povo da América, escolhido por Deus, deve se unir.

Ouso dizer que temos aí boa parte dos fundamentos morais que elucidam as formas de atuação dos Estados Unidos ao longo de sua história. A saga do Oeste explica, em larga medida, a formação de uma mentalidade tipicamente americana, baseada nas ideias de individualismo e pioneirismo, que tem nos desbravadores da fronteira seus personagens modeladores de conduta.
 
Os inimigos externos, todos aqueles que ameaçam o sonho americano, vão se modificando através dos tempos. De início, os inimigos foram os índios que viviam há milhares de anos nas terras cobiçadas pelos EUA. Um pouco depois a ira expansionista se voltou contra os latino-americanos. Para lidar com os cucarachas, o presidente Ted Roosevelt recomendou, em 1903, a utilização de um porrete grande (big stick) que os obrigasse a reconhecer a liderança dos EUA. Durante boa parte do século XX, pelo menos por uns bons quarenta anos, o inimigo externo foi o comunista (falo, evidentemente, dos tempos da Doutrina Truman, base da atuação dos EUA durante a Guerra Fria). Com a ida da URSS para os cafundós do Judas, o inimigo externo foi redefinido. A ameaça maior ao sonho americano nos dias atuais é o terrorismo. O terrorista é a bola da vez.
 
Não tenho qualquer simpatia por Osama Bin Laden e estou longe de sofrer da doença infantil do antiamericanismo. O objetivo desse arrazoado é outro. O ponto que me interessa abordar é aquele que, confesso, me chocou particularmente nessa história toda. É constrangedoramente emblemático que a recente operação que terminou com a execução de Bin Laden tenha se referido ao "inimigo número um da América" como Geronimo.   
 
Geronimo, para quem não sabe, foi um chefe apache de meados do século XIX que liderou o combate contra os pioneiros americanos durante a expansão territorial dos Estados Unidos. Foi considerado um "índio renegado" , expressão usada pelo governo dos EUA para definir os apaches que lutaram contra a entrega dos territórios indígenas e o confinamento dos nativos em reservas federais. Há que se considerar que os povos apaches começaram a ocupar as planícies da parte central e do sudoeste da América do Norte por volta do ano de 850 - cerca de mil anos antes, portanto, da doutrina do destino manifesto afirmar que Deus designou aos EUA o direito de conquistar aqueles territórios.
 
É mais impactante ainda perceber que o presidente dos EUA se vangloriou de ter recebido a mensagem cifrada da execução de Bin Laden com a frase Geronimo morreu em combate. O racismo explícito que marcou a postura dos desbravadores do oeste e dos governos contra os índios apaches revive na operação autorizada pelo presidente negro.
 
Benjamin Franklin, justamente considerado pelos americanos como um dos pais da nação, se referiu aos apaches em certa ocasião da seguinte maneira:
 
Se faz parte dos desígnios da Providência extirpar esses selvagens para abrir espaço aos cultivadores da terra, parece-me oportuno que o rum seja o instrumento apropriado. Ele já aniquilou todas as tribos que antes habitavam a costa.
 
Franklin, em seu puritanismo calvinista, via a eliminação dos apaches como uma tarefa de Deus confiada aos americanos e enxergava na bebida o instrumento ideal para aniquilar os nativos. Obama foi mais longe: eliminou simbolicamente, e o  território dos símbolos é o espaço poderoso onde o espírito das nações se insinua,  cada índio apache com um tiro na cabeça.
 
Abraços