quarta-feira, 20 de julho de 2011

FANTOMAS CONTRA A GALINHA PINTADINHA - A EPISTEMOLOGIA DO TELECATCH

Ando especialmente preocupado, desde que nasceu o pequeno Benjamin, com os valores que os programas de televisão  e os dvds infantis passam aos brasileirinhos. Sei que a TV vai, inevitavelmente, marcar uma parte da infância do moleque - e a absoluta ausência de programas com um viés educativo ligado a certos princípios de caráter que considero fundamentais me assusta um pouco.

Sinto falta, por exemplo, do sensacional Telecatch Run Montilla, com épicas porradarias que ajudaram a formar uma legião de homens de bem. Não há atualmente na TV brasileira um único programa que tenha metade do conteúdo pedagógico que as lutas de telecatch tinham. Vou expor minha cara a tapa e me citar como exemplo do que quero demonstrar.

Afirmei alhures que há certas coisas que o sujeito só confessa a um médium de mesa branca, após a morte. Eu, entretanto, numa espécie de imolação pública, resolvi me antecipar e comecei, faz tempo, a me psicografar em vida - sou uma espécie de Chico Xavier de minha própria pessoa. A paternidade só tem aprofundado esse desejo de me antecipar aos médiuns.

Outro dia, por exemplo, estava brincando com o meu moleque quando me recordei de um episódio dos tempos de faculdade. Alguém perguntou, numa conversa pra lá de metida [estudante de História, quando cisma, é mais metido do que dedo de proctologista] numa mesa de um boteco de quinta categoria da Praça Tiradentes, mais ou menos o seguinte: Qual foi a referência mais marcante -  pessoa, um livro ou um filme, por exemplo - para o estabelecimento de seus valores éticos e  morais e sua visão de mundo?

As respostas, todas elas, foram de uma sofisticação intelectual impactante. Só de filósofos gregos, que eu me lembre, foram citados uns doze. Um sujeito, com pinta de futuro professor doutor, mandou na lata: Minhas bases morais e, paradoxalmente, minhas angústias, estão nos fragmentos pré-socráticos. Eu, que quando entrei na faculdade achava que pré-socráticos eram os meio-campistas da seleção anteriores ao Dr. Sócrates Brasileiro,  fiquei pasmo.

Uma menina gostosinha, atriz de teatro, citou Artaud, Roland Bartes, Arthur Bispo do Rosário, Antunes Filho, Gandhi e  a Mãe Menininha do Gantois. Outro cabra, meio fresco, respondeu algo do tipo: Levei um soco no estômago ao assistir a Berlim Alexanderplatz, de Rainer Werner Fassbinder, numa maratona cinematográfica no Estação Botafogo de quinze horas de duração.

Quando perguntaram a minha opinião, mergulhei em completo silêncio por alguns segundos, fiz cara de pintura rupestre da Serra da Capivara, lembrei da Konga, a mulher gorila,  e fui ao banheiro. Consegui escutar uma frase quando levantei da mesa: - O Simas certamente se emocionou com alguma lembrança mais forte.

Voltei calado e assim fiquei até o final do tatibitate. Nunca, porém, confessei, como faço agora, o que de fato achei da indagação. Enquanto meus colegas citaram filósofos e artistas sensíveis, só consegui pensar, mas não tive coragem de revelar, que minhas bases éticas e morais foram forjadas nas lutas de telecatch que assisti, de fraldas e mamadeira [tomei mamadeira até os onze anos], na televisão. Se eu falo isso iam me achar um burraldino, um projeto de intelectual café-com-leite.

Por ser vidrado no telecatch adquiri, quero crer, alguns valores que moldam o meu caráter até hoje. Meus heróis civilizadores foram os bambas do ringue e seus algozes: Cangaceiro, Capanga, El Toro, El Duende, Leão do Líbano, Mongol, Rasputin, Tigre Paraguaio, Toureiro Cordobez, Espanholito, El Condor  e, sobretudo, o justiceiro Fantomas e o mocinho Ted Boy Marino. Eles me mostraram que o mal pinta e borda, o bem  vence no final [se não venceu é porque o final ainda não chegou],  o crime não compensa e a vida - como as lutas e os lutadores - não deve ser tão levada a sério.

O que acontecia durante as pancadarias me deixava próximo de um colapso. O vilão, aproveitando-se de algum vacilo do juiz, enchia o mocinho de porrada, com golpes baixos, chute no saco, puxão de cabelo, mordida, pedrada na cabeça e o diabo. No auge da matança, o malvado, literalmente com a macaca, espremia  limão nos olhos do mocinho e cortava o supercílio do herói com uma gillete. O sangue jorrava. O juiz tentava separar e entrava na porrada também. O público vaiava, jogava rádios de pilha, cuecas e sapatos no ringue. Garotas desmaiavam em crise histérica.  No climax, o vilão levantava o mocinho, dava cinco voltas com ele por cima da cabeça, o zunia pra fora do ringue e urrava comemorando a vitória.

Subitamente, porém, o mocinho ressuscitava, buscava forças sabe lá de onde  e, de forma sensacional, voltava ao ringue em grande estilo. Para delírio da platéia, aplicava duzentas tesouras voadoras no vilão e ganhava o combate. O locutor, com voz de dublador de filme de vampiro, afirmava: - E o bem venceu mais uma vez! Era tudo, enfim, teatro do mais alto nível (e eu, evidentemente, via tudo como a mais absoluta das verdades). Eurípedes, Shakespeare e Moliere certamente assinariam o roteiro das melhores lutas

Era isso que eu queria ter respondido naquela conversa sobre ética, moral e valores com o povo da faculdade. É esse tipo de coisa que eu quero passar para o moleque Benjamin.

Meu sonho de pai, enfim, é ver o justiceiro Fantomas, depois de uma refrega memorável, comer a Galinha Pintadinha, essa vilã cacarejante da família brasileira, ao molho pardo e vibrar com uma tesoura voadora do Ted Boy nos cornos do Pablo, o insuportável e assexuado pinguim dançarino dos Backardigans.

Abraços