terça-feira, 23 de agosto de 2011

A SÍNDROME DE MAIA (OU A PELEJA DOS PRETOS FEDIDOS CONTRA OS DE FINA ESTAMPA)

De onde menos se espera, já dizia o Barão de Itararé, é que não vem nada que preste. Lembrei disso quando soube que Wolf Maia, diretor da novela global Fina Estampa, com elenco predominantemente branco (parece que tem uns crioulos representando moradores de comunidades), foi condenado em junho último por crime de racismo. Maia, que está recorrendo da condenação, se referiu a um funcionário negro de um teatro de Campinas nos seguintes termos: "me colocaram um preto fedorento que saiu do esgoto com mal de Parkinson para operar o canhão de luz..."  ( http://www.estadao.com.br/noticias/geral,wolf-maia-e-condenado-por-racismo,730202,0.htm )

O caso não me surpreende. Está na ordem do dia, sobretudo entre certos segmentos da classe média alta e das elites endinheiradas do país, manifestar uma pedante aversão ao povo brasileiro. Chamei isso certa feita de "Mal de Neuendorf". Explico. Kevin Neuendorf, para quem não se lembra, foi o chefe da delegação dos Estados Unidos durante os jogos panamericanos de 2007, realizados no Rio de Janeiro. O Mister Neuendorf chocou muita gente ao aparecer para uma entrevista coletiva com um cartaz onde se lia: "Welcome to Congo". Alguns brasileiros ficaram profundamente ofendidos com o gringo que, cheio de arrogância, nos comparou ao país da África.

Escrevi na ocasião um texto em que, provocativamente, concordei com o mister e afirmei que somos de fato  o Congo. Alguns acontecimentos recentes, feito esse caso Wolf Maia, apenas escancaram a existência de uma elite preconceituosa, nefasta,  assustadoramente moralista e potencialmente fascista. É por isso que retomo e desenvolvo alguns argumentos que utilizei à época para afirmar, aos que sofrem do Mal de Neuendorf (ou Síndrome de Wolf  Maia, se preferirem),  que os brasileiros, pretos fedidos, somos Congo mesmo. Com muito orgulho.

Somos porque vieram de lá, da região do Congo-Angola, só no século XVII, cerca de 700 mil africanos para trabalhar nas lavouras e minas do Brasil Colonial. Nós, os brasileiros, somos, portanto, congos. Somos também jalofos, bamuns, mandingas, bijagós, fantes, achantis, gãs, fons, guns, baribas, gurúnsis, quetos, ondos, ijexás, ijebus, oiós, ibadãs, benins, hauçás, nupês, ibos, ijós, calabaris, teques, iacas, anzicos, andongos, songos, pendes, lenges, ovimbundos, ovambos, macuas, mangajas e cheuas.

Todos estes acima mencionados são grupos de africanos que chegaram nessas praias com seus valores, conjuntos de crenças, costumes e línguas - culturas, enfim - para, ao lado de minhotos, beirões, alentejanos, algarvios, transmontanos, açorianos, madeirenses e milhares de comunidades ameríndias, civilizar o Brasil.

O caso é que agora está rolando uma certa moda - que faz a alegria dos descolados iconoclastas e dos apóstolos do liberalismo mais tacanho -  de atribuir aos próprios africanos a responsabilidade sobre a escravidão. Todo mundo palpita sobre a história da África, mete o bedelho sem conhecimento de causa e, nesse rame-rame, tem gente dizendo que nós nunca fomos racistas e que Monteiro Lobato comparava Tia Nastácia a uma macaca beiçuda por uma questão de afeto. Sugiro que esses papudos leiam Silvio Romero e Oliveira Vianna, dois intelectuais respeitados em antanhos.

Silvio Romero, ao refletir sobre o problema brasileiro no início do século passado, sugeriu que a única salvação do país era torcer para que a miscigenação se fosse processando com o aumento contínuo do sangue branco. Chegou a profetizar que (se a miscigenação fosse estimulada) a superioridade do sangue branco prevaleceria e no ano 2000 não haveria mais traços negróides no nosso povo. Clarear o brasileiro, eis a solução do nobre intelectual.

Oliveira Vianna, por sua vez, escreveu um livro outrora muito respeitado, que apaixonou gerações de leitores, chamado Evolução do povo brasileiro. Segundo este autor, a salvação possível do Brasil era a nação embranquecida. Para ele, a imigração européia, a fecundidade dos brancos , maior do que a das raças inferiores (negros e índios ), e a preponderância de cruzamentos felizes, nos quais os filhos de casais mistos herdariam as características superiores do pai ou da mãe branca, garantiam um futuro brilhante e branquelo ao Brasil.

A irresponsabilidade de reacionários rancorosos e embusteiros intelectuais escancara a existência de brasileiros que sentem verdadeiro nojo do nosso povo, execram o Brasil  e guardam no fundo de suas almas o acalentado sonho que Romero e Vianna ousaram expressar. São aqueles que nutrem verdadeiro pânico de lembrar que vivem num país mestiço, em larga medida civilizado pela África e dotado da cultura mais rica e múltipla que o mundo conhece.

São brasileiros que marcharam com Deus pela liberdade em 1964, mandam os filhos para  intercâmbios nos EUA, Austrália e Europa em busca de valores supostamente civilizados,  vivem encastelados em condomínios luxuosos, acham que a empregada doméstica deve vestir uniforme branco e subir pelo elevador de serviço, não gostam de pretos, botam fogo em índios, não respeitam as religiosidades afro-ameríndias, dizem que samba é coisa de gentinha, frequentam compulsivamente shoppings centers, gastam num jantar o que pagam em um mês para os empregados, vibram quando a polícia executa moradores de favelas e criam filhos enfurecidos e preconceituosos que saem de noitadas em boates da moda para surrar pobres, gays e garotas de programa nas esquinas das grandes cidades.

Essa gente não se conforma com o Brasil que vive  nos maracatus, nos moçambiques, na taieira, na folia de são Benedito, no candomblé de angola, nas cavalhadas, no terno-de-congo, no batuque do jongo e na dança do semba.

Somos os pretos fedidos que tanto irritam os Wolf Maia. E somos porque batemos tambor, batemos cabeça, dançamos e rezamos como os do lado de lá da Calunga Grande, o mar dos tumbeiros, sepultura de tantos.

Somos o Congo e somos a África porque somos o país de Zumbi, Licutam, Ganga- Zumba, Luiza Mahin, Bamboxe Obitiku , Felisberto Benzinho, Cipriano de Ogum, Leônidas da Silva, João da Baiana, Donga , Pixinguinha, Candeia, Mãe Senhora, Mãe Aninha, Tata Fomutinho, João Candido, Osvaldão, Marighela, Martiniano do Bomfim, Solano Trindade, Silas de Oliveira e de tantos outros heróis civilizadores.

Urge afirmar, contra os preconceitos mais mesquinhos dos de fina estampa, o Brasil que acalentamos - o  nosso Congo Ameríndio de macaias, aldeias, botequins, ocas, sambas, calundus, jongos e portugueses fados. Com a  proteção de Zambiapungo, de todos os inkices de Angola e dos ancestrais do samba.

Abraços

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

CANDEIA

Veio da noite profunda e do ventre maldito dos tumbeiros. Cruzou a Calunga Grande e, das entranhas da dor, vislumbrou nos céus de Tupã a mesma estrela a anunciar o retorno à Aruanda ancestral, a terra sem males do Morubixaba, seu irmão na mesma sina e guerreiro da mesma guerra.

Com ele, por ele, Nzazi veio batendo seu tambor, Dandalunda abençoou as águas, Lembarenganga amenizou o frio e Vunji manteve na escuridão o sorriso da criança. Oxóssi lhe deu um embornal de flechas certeiras e Ogum, seu irmão, abandonou o arado e ergueu a espada de Marechal de Campo. De Logunedé, o caçador menino, pedra de rio fundo, recebeu a dádiva maior do canto. Olorun, Zambiapongo, lhe deu um samburá de melodias.

Jogou a capoeira escondido pela vastidão de um mar de sambaíbas, arrepiou São Bento Grande e deu volta ao mundo. Gritou machado pro jongueiro velho e pediu licença aos catimbozeiros encantados. Foi ferido, quase de morte, mas resistiu como junco que não quebra. Optou pela luta contra a intolerância e o preconceito e, com seus guerreiros de fé, criou o Quilombo.

Ergueu o brado de liberdade, o mesmo que cavalgou o vento desde a serra da Barriga e berra ainda nos nossos ouvidos acomodados. Sentou em trono de rei, ergueu altaneiro o olhar que até hoje desafia e morreu lutando. Não foi humilhado. Vitorioso, brilha como ancestral maior no firmamento da Grande Noite, na memória do tempo. O dia de hoje é dele.

Com a coité e a cuia no embornal, ofereço o primeiro gole ao guardião das esquinas, Homem da Rua, e deixo aqui, com as bençãos dos mais velhos, gravado o nome do Quilombola maior, mártir de todos os Palmares e vivo, profundamente vivo, em cada toque de tambor brasileiro:

- Antônio Candeia Filho.



segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O CONHECIMENTO ALUMIADO

Dia desses estava relembrando, numa mesa com gente malunga, alguns pontos de umbanda e encantaria que marcaram profundamente a infância que vivi e meu gosto musical - forjado ali, no Tempo, onde as coisas se firmam, descansam em algum canto da alma e vez por outra desadormecem.

Cantei, dentre vários, a chamada de encantaria de caboclos boiadeiros Pedrinha Miudinha. Acho que desde que me conheço por gente escuto isso e não me canso. Ultimamente tenho, inclusive, me comovido mais ainda com as curimbas que ouvi menino. Como essa.
 (eu e meu irmão, Alexandre, nos tambores da casa de encantaria da minh avó, a mãe Deda de Oxum)

Quase todos à mesa conheciam a música - das gravações de Maria Bethania e do Cordel do Fogo Encantado. Pouquíssimos sabiam, entretanto, que Pedrinha Miudinha (de Aruanda, êh!) é um ponto de fundamento da maior seriedade. É macumba, amizades. Quem viu um caboclo do Brasil dançar ao som dessa cantiga sabe que o coro come bonito... 

O trecho da letra que me comove demasiadamente é o seguinte: Uma é maior, outra é menor / A miudinha é que nos alumeia... Quer frase mais séria que essa, meu velho? O mistério está na pixototinha, como a minha avó costumava chamar as coisas e pessoas miúdas.

A pedra grande, espalhafatosa, a que ocupa demasiado espaço, é a que impressiona os homens e parece ofuscar tudo a sua volta, na imensidão de seu tamanho. Mas é a miudinha - em geral ignorada - que nos alumeia e concentra o silêncio sábio do mistério e suas respostas mais profundas. Ela tempera os tempos, como certa vez me disse um caboclo. Eu é que não duvido.

E saibam os malungos que levo isso - que eu chamo ludicamente de epistemologia da macumba - muito a sério, por exemplo, no meu ofício. Não faço e não conto, afinal, uma História de líderes marcantes, famosos generais, grandes guerras, batalhas decisivas, sistemas políticos, planos econômicos e que tais. Não alumiam o que almejo e me desencantam por demais.

Prefiro estudar as pedrinhas miúdas - foliões anônimos, bêbados líricos, jogadores de futebol de várzea, clubes pequenos, caminhoneiros, retirantes, devotos, iaôs, ogãs, ajuremadas, feirantes, motoristas, capoeiras, jongueiros, pretos velhos, violeiros, cordelistas, mestres de marujada, moças do Cordão Encarnado, meninos descalços, goleiros frangueiros e romances de subúrbio, embalados ao som de uma velha marcha-rancho que ninguém mais canta.

É pela aproximação amorosa, pelo ato de acariciar com devoção sagrada - amor, eu diria - as pedrinhas miúdas, que busco alumiar a minha terra e a nossa gente aos meus olhos brasileiros, os únicos que tenho para mirar o mundo e compreender os homens. Dessa forma busco conhecer e, mais do que isso, me reconhecer na aldeia dos meus pais e do meu filho.

Viva os caboclos do Brasil; minhas referências mais profundas para descortinar os mundos. E que eles me guardem sempre - como sempre fizeram.

sábado, 13 de agosto de 2011

A MORTE DOS HAICAIS DO POVO


Um dos sintomas mais evidentes da praga neopentescostal que invadiu o Brasil é o surgimento dos inacreditáveis caminhoneiros de Cristo. As estradas tupiniquins estão tomadas por hordas de caminhões com mensagens evangélicas nos parachoques. Eu mesmo, que não sou de viajar muito de carro, já li coisas como Esse caminhão pertence a Jesus; Cristo me guia no caminho; Dirigido por mim e guiado pelo Senhor; Jesus, tome conta do teu rebanho nas estradas; É teu, Rei dos Reis, meu caminhão e um enigmático A bíblia disse que meu caminhão pertence ao homem da quarta fornalha. Não bastasse isso, temos as sentenças de louvação familiar. Numa viagem a Parati anotei a seguinte máxima: Cristo ensinou a melhor maneira de fazer sexo seguro: o casamento.

Essa evangelização rodoviária é criminosa e representa a morte da tradição, brasileiríssima, da frase de parachoque. Era fabuloso viajar observando as máximas que os caminhões ostentavam; sentenças sobre amor, mulheres, sogras, dinheiro, política, amizades e uma cacetada de outros temas. Mais que simples brincadeiras, as frases continham verdadeiras pérolas da cultura popular. Cito:

- Restaurante que serve farofa não liga ventilador de teto.
- Esperta é a mulher do saci, que toma um pé na bunda e quem cai é ele.
- Se dinheiro fosse merda eu nasceria sem cu.
- O homem que diz que as mulheres são frígidas tem má língua.
- Em briga de saci ninguém dá rasteira.
- A cal é virgem porque o pincel é brocha.
- Aqui jaz minha sogra; descanso em paz.
- Se ruga fosse velhice meu saco era pré-histórico.
- A primeira ilusão do homem começa na chupeta.
- Se a onça morrer, o mato é nosso.
- A mulher foi feita da costela, imagine se fosse do filé.
- Adoro as rosas, mas prefiro as trepadeiras.
- Marido de mulher feia tem raiva de feriado.
- Champanhe de pobre é sonrisal.
- Coceira de rico é alergia, coceira de pobre é sarna.
- Criança e tamanco, só se faz com pau duro.
- Em baile de cobra, sapo não dança.
- Quem dorme com morcego acorda de cabeça pra baixo.
- Gato que levou tijolada não dorme em olaria.
- Merdas cagadas não voltam ao cu.
- Urubu na guerra é frango.
- Pobre que sente cheiro de flor pergunta onde é o velório.
- O diabo não se casou e Cristo morreu solteiro.

São ditados cheios de uma auto-ironia repleta de sarcasmo, bom-humor e sacanagem, verdadeiros haicais do povão. Sem autores conhecidos, as sentenças de parachoques consagram o artista popular com o maior prêmio que um criador decente ousa alcançar: o completo anonimato. O que mais pode pretender um sujeito além de se diluir nos costumes de seu povo, como se as frases existissem desde tempos remotos?

É por isso que lanço desse meu coreto um protesto contra a praga dos caminhoneiros de Cristo, verdadeiros gafanhotos da cultura das estradas, mal-humorados, chatonildos e intolerantes. Tivesse eu um caminhão, escreveria conforme li no parachoque de uma lata velha cheia de dignidade :

- Jesus pode te amar, mas eu te acho um babaca.

Abraços