sábado, 3 de setembro de 2011

O VINHO, ESSE SER HUMANO COMPLEXO E SOFISTICADO.

O Imperador D. Pedro I gostava, de vez em quando, de esquecer os burburinhos da Corte e viajar para a Real Fazenda de Santa Cruz, onde costumava benzer suas amantes com o báculo episcopal. Sobre as viagens de Sua Majestade,  Brasil Gerson escreveu o seguinte na História das Ruas do Rio :

D. Pedro I e sua comitiva paravam na fonte de pedra da igreja, para que seus cavalos bebessem água, enquanto ele buscava sofregamente a magnífica pinga do vendeiro que ficava defronte, famosa desde Campinho até Campo Grande.

É isso, senhores. O Imperador do Brasil era frequentador de uma tendinha na altura de Realengo, onde encostava o cotovelo no balcão, jogava conversa fora e tomava umas doses daquela que matou o guarda. Não duvido que jogasse porrinha com os populares.

Citei essa passagem prosaica da vida de D. Pedro pelo seguinte: a informalidade com que o Imperador tomava umas canas é diametralmente oposta à frescurite que grassa, nos dias de hoje e sobretudo durante o inverno, entre os bebedores e entendidos de vinho. Explico.

Já me declarei, alhures, impressionado com o verdadeiro ritual em que se transformou o simples ato de beber vinho em um restaurante. O garçom serve um mísero gole e aguarda, com cara de tacho, que o cliente experimente o tinto, avalie a qualidade da safra, verifique a harmonização com o cardápio, balance a cabeça e autorize, vinte minutos depois, que a bebida seja servida. Mas a coisa não para por aí.

A última moda dos especialistas é tecer considerações sobre a psicologia e os aspectos emocionais da bebida. Sim, é exatamente isso. Os vinhos agora são analisados com rigores freudianos. Há uma nova ciência na praça, a  vinhognoseterapia.

Não bastassem aqueles cabras que ficam rodando o vinho no copo, cafungando o tinto e destacando a sutileza dos aromas e da característica das uvas, mergulhamos na era das divagações existenciais sobre o tema. O camarada toma uma taça, faz pose de quem limpa bosta de galinha com colher de prata e arrisca uma análise das características emocionais da bebida:

- É um vinho que se mostra, ao primeiro gole, um tanto tímido. Aos poucos, porém, vai ganhando um toque de agressividade que o equipara aos melhores rascantes. Honra a tradição e tem personalidade. Harmoniza bem com carnes vermelhas.

O outro, sem perder a pose, faz cara de galã do cinema mudo e manda brasa:

- O vinho padece de um acanhamento excessivo. Poderia ser um pouco mais arrojado, sem perder a sensibilidade. Acho que harmoniza com carne de vitela ao molho de queijo de búfala desmamada marajoara.

O terceiro resolve entrar de sola nos adjetivos :

- As características do mosto da uva atribuem um toque de excentricidade à bebida. É , todavia, um vinho corajoso. Eu diria que tem caráter. É isso; eis um vinho de caráter. Harmoniza bem com escama de peixe espada ao molho de tamaras flâmbadas no conhaque.

O quarto dá o tiro de misericórdia:

- Talvez falte uma certa ousadia. Mas é, sem dúvidas, um vinho que tem alma. Harmoniza com a minha própria personalidade. Esse vinho sou eu.

Mais chegado ao estilo D. Pedro I de ser, ouço essas barbaridades e pergunto aos meus botões velhos de guerra. Como pode uma bebida ser tímida, agressiva, acanhada, arrojada, sensível, excêntrica, corajosa, de caráter, ousada e possuir alma ?

Soube, dia desses, de um sujeito que entrou no consultório do analista e disse pro médico da alma :

- Eu já obtive alta da análise. Quero, na verdade, que o senhor analise essa garrafa de tinto, da safra de 1937, que eu ganhei de uns amigos.

A realidade, a acreditar nessas avaliações , é que qualquer vinho é um ser humano mais complexo do que eu. Não me surpreenderei se um dia souber que algum médium incorporou uma garrafa de vinho em um centro de mesa branca e saiu dando consultas. É o caminho natural. Só não contem comigo para bater cabeça pro caboclo.

Eu sou do tempo em que harmonizar era só ajustar a relação entre o canto e a dança nos desfiles das escolas de samba.

Abraços.