quarta-feira, 30 de novembro de 2011

DEZEMBRO NA ÁREA: COMEÇOU A TORTURA


E chegou dezembro. Já é Natal na Leader Magazine e a propaganda da Globo tem Roberto Carlos cantando "hoje é um novo dia", Ana Maria Braga fingindo que é empregada doméstica, Luciano Huck de taxista, Faustão fantasiado de garçom e William Bonner bancando o carteiro.

Tenho essas e mais umas mil e duzentas razões para querer despachar o mês feito um ebó pesado na encruza. É por isso que sempre deixo aqui  minha bronca contra essa modorra natalina da moléstia. Esse espaço, enfim, tem por tradição estabelecida abrir o final do ano com um texto defenestrando o período. Aos fatos:

- Podem apostar que as redes sociais serão inundadas por frases sobre renovação, novos tempos, amizade, solidariedade e outras baboseiras, atribuídas a Fernando Pessoa, Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector - frases que, evidentemente, nenhum deles escreveu.

- Aguardemos o lançamento de mais um livro com mensagens de boas festas e reflexões sensíveis sobre a amizade, trocadas entre os filósofos de autoajuda e padres da Renovação Carismática. O perigo é alguém da firma te presentear com isso no amigo oculto e perguntar: Gostou do presente?

- Em dezembro o sujeito corre o risco de receber dezenas de emails com um poema sobre a simplicidade da vida, criminosamente atribuído a Jorge Luis Borges. O poema fala do sujeito que na velhice se arrepende de não ter andado descalço, tomado banho de chuva, amado mais, cativado crianças, comido maçãs ao entardecer, soltado os cabelos ao vento e sorrido ao nascer do sol.  Imaginem se Jorge Luís Borges escreveria uma coisa dessas...

- Toda família que se preza tem pelo menos uma tia velha que, no auge da festa de Natal, cai em prantos, anuncia que vai morrer e estraga a ceia. A frase é um clássico: Eu quero dizer pra vocês que esse é meu último Natal; ano que vem eu não estou mais aqui ... No ano seguinte lá está ela, vivinha da silva, anunciando a morte próxima e preparada, no fundo, para enterrar a família inteira.

- O sujeito  jura que nunca mais entrará em amigo oculto, que vai romper com o consumismo e os cacetes. Balela. Tem sempre pelo menos um amigo oculto de família  cuja participação é irrecusável. Para esculhambar tudo mais ainda, só mesmo a cena clássica  do parente agregador que insiste em transformar a troca de presentes em um ritual fraterno e descontraído. O parente agregador é incontornável em dezembro.

- Shoppings são sucursais do inferno e os adultos realmente acham que as crianças gostam de tirar fotos com Papai Noel. Os moleques abrem o berreiro, os pais insistem, o Papai Noel tá doido pra enfiar a porrada no capeta mas tem que manter a pose para garantir os caraminguás da santa ceia. Dezembro é o mês em  que, como diria o poetinha, "a criançada toda chega / e eu chego a achar Herodes natural".

- Acabaram com a festa de Iemanjá durante a virada do ano, nas praias do Rio. As areias não têm mais terreiros na noite do dia 31. Periga o sujeito querer bater cabeça pra rainha do mar e acabar se deparando com um show de Lulu Santos, Jota Quest e Maria Gadú, com participação especial da bateria da Grande Rio e de algum DJ moderninho e antenado com a cena musical inglesa. Eu quero de novo macumba na areia, com direito a Praianinha, charuto Índio, perfume de alfazema, leite de rosas pra mamãe sereia, cidra de macieira e barquinho comprado no Mercadão de Madureira.

- Em dezembro os namorados se sentem mais a vontade para trocar juras de amor em público; geralmente com vozes infantis de erês de umbanda. Dá vontade de chegar junto e cantar pra criança subir. Poucas coisas despertam mais os meus piores instintos do que compartilhar o espaço com casais tagarelando como crianças, berrando publicamente seus apelidos e trocando o "r" pelo "l", feito o Cebolinha.

- Não dá pra ir com tranquilidade a restaurantes em dezembro. O perigo é encontrar uma festa de encerramento de ano do pessoal da repartição. Em meia hora os bebuns amadores - os bebuns de dezembro - chamam urubu de meu louro e começam a gritar. A funcionária padrão, que passou o ano todo tímida, solta a franga, enche a cara e ameaça fazer striptease pro chefe do almoxarifado, que se revela um baiano profissional, amarra uma faixa na testa e começa a fazer coreografias de axé music. No ápice do fuzuê alguém grita que vai começar o amigo oculto. Não satisfeitos com a troca de presentes em público, os participantes ficam, aos berros, dando palpites sobre quem fulaninho tirou. Vômitos no final do furdunço estão incluídos na conta. Minha solidariedade aos músicos de dezembro, que tem que lidar com essa rapaziada e terminar a noite tocando "O que é, o que é?". 

- Eu insisto, protesto todo ano, esperneio, faço ebó, escrevo denunciando, mas não tem jeito: Dezembro é o mês em que todas as lojas do mundo colocam em promoção o cd que a Simone gravou, ao lado de corais infantis, com músicas natalinas. O destaque é Então é Natal , a versão em português de uma música do John Lennon mais desagradável do que tratamento de canal no dentista e mais melosa que pudim de guaraná Jesus. Simone, acompanhada pelos Canarinhos de Petrópolis, termina de cantar de forma apoteótica, gritando, por alguma razão que desconheço, Feliz Natal, Hiroshima e Nagasaky. O bom senso manda se cogitar o suicídio.

- Só em dezembro, enfim, um homo sapiens tem a coragem de se prestar a isso:


Janeiro já, pelo amor de Deus!


terça-feira, 29 de novembro de 2011

COLO COLO, O TIGRE DE SÃO JORGE DOS ILHÉUS


Em 1948 o Brasil vivia a expectativa de sediar a Copa do Mundo de futebol de 1950. O presidente era o Marechal Eurico Gaspar Dutra, mas havia boatos de que Getúlio Vargas estava se preparando para voltar ao cenário político de forma espetacular. O país, em breve, botaria o retrato do velho outra vez na parede.

Aquele ano de 1948, na opinião deste escriba, foi mundialmente marcado por três eventos da maior importância : A morte, na Índia, do líder pacifista Mahatma Gandhi [que como todo líder pacifista que se preze morreu de forma violenta, assassinado por um fanático] ; a aprovação da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Assembléia Geral da ONU; e a fundação, em São Jorge dos Ilhéus, na Bahia, do Colo-Colo de Futebol e Regatas, o popular Tigrão.

Como a Índia virou até tema de novela da Globo e a Declaração dos Direitos Humanos infelizmente parece mais peça de ficção, estou convencido de que o fato mais importante do mundo naquele ano foi mesmo a criação do time de Ilhéus.O Colo-Colo foi fundado com uma nobre finalidade - disputar a Semana Inglesa, um torneio promovido pelo sindicato dos comerciantes ilheenses que costumava lotar aos sábados o estádio Mario Pessoa, conhecido à época como o colosso da terra do cacau.

O fundador e primeiro presidente do clube, Airton Adami, era fascinado - e sei lá eu a razão - pelo time de futebol chileno do Colo-Colo. Depois de alguns argumentos contrários de outros fundadores, prevaleceu a admiração do presidente e o nome do time acabou mesmo sendo uma homenagem ao clube do Chile.

O primeiro uniforme e a escolha das cores do Colo-Colo tem uma origem curiosa. Um dos fundadores do novo clube, José Haroldo Vieira, era fã do futebol argentino. Meio encafifado com a homenagem a um time do Chile, torrou o dinheiro que tinha e o que não tinha numa passagem aérea, resolveu dar um pulinho na Argentina e comprou em Buenos Aires um jogo de uniformes do Boca Juniors para presentear a agremiação. Tudo bem que o nome homenageasse uma equipe chilena, mas o uniforme tinha que ser o do Boca.

A coisa acabou mesmo em pizza [de chocolate feita com cacau do sul da Bahia] : o time é de Ilhéus, tem nome de equipe chilena e joga com as cores do Boca Juniors, o azul e o amarelo.

O Colo-Colo tem uma história gloriosa : Foi o campeão ilheense de 1953; tetracampeão amador da cidade [de 1958 a 1961] ; campeão da segunda divisão profissional da Bahia em 1999; e - conquista das conquistas - campeão baiano da primeira divisão em 2006, quebrando a hegemônia da dupla Bahia e Vitória.

Em mais de cem anos de história do campeonato baiano, aliás, só dois clubes de fora da capital conseguiram triunfar; o Colo-Colo e o Fluminense de Feira de Santana, campeão do certame de 1969.

Terminarei essas mal traçadas com uma confissão, feito declaração de amor do turco Nacib para a mulata Gabriela : Acho o hino do Colo-Colo de Ilhéus um dos mais bonitos do Brasil. Ouçam a Marcha do Tigre, orgulho da terra de São Jorge.



Abraço

domingo, 27 de novembro de 2011

OS DEZ MANDAMENTOS DO FUTEBOL


E o Deus de pernas tortas, puto da vida com a destruição do templo, entregou ao profeta, em noite de tempestade às margens do caudaloso Rio Maracanã, a tábua com dez recomendações:

1- Nunca chame o craque, sob pena de blasfêmia,  de "atleta diferenciado".  Guarde o "diferenciado" para adjetivar maratonistas de patinação no gelo ou jovens cantores dos Canarinhos de Petrópolis.

2- O ruim de bola deve ser chamado preferencialmente de cabeça de bagre, pereba e quejandos.  Corno e filho da puta se admitem nos momentos mais dramáticos - passe errado, gol perdido, frangaço... Guarde o "atleta limitado" para se referir a alguém que não consegue mais despertar o bilau na hora do vuco-vuco. Atleta, aliás, é quem faz atletismo. Quem joga bola é jogador e ponto.

3- Malditos os que transformam o templo do jogo em "arena multiuso", com ingressos caros, bistrô, loja de conveniência, espaço gourmet e outras babaquices. Futebol se joga em estádios com arquibancadas de madeira, cimento ou com o público confortavelmente instalado em barrancos. Árvores frondosas também são permitidas nos campos, desde que, nos dias de grande público, se transformem  em camarotes reversíveis.

4- Jogador reserva não é "peça de reposição". A expressão - queridinha de técnicos e comentaristas - é mais adequada para se referir a escravos comprados no Brasil colonial, comumente conhecidos como peças. Admite-se também o uso em oficinas de automóveis. Um cabo de embreagem é um bom exemplo de peça de reposição.

5- Que a danação seja eterna para os que entregam taças em teatros, com jogadores e dirigentes de terno e gravata e a apresentação de atores globais que não sabem a diferença entre uma bola e uma ogiva nuclear. Taça se entrega no campo. Só será admitido fazer isso no dia em que a cerimônia de entrega do Oscar for no estádio Ítalo Del Cima, em Campo Grande.

6- É direito sagrado do torcedor invadir o campo para comemorar a conquista do clube.

7- Pai e mãe serão honrados. Abre-se uma exceção para a genitora de Sua senhoria, o juiz da partida. Recomendo aos que não querem ouvir palavrões no campo que procurem assistir aos funerais de um papa. Os cantos gregorianos são do maior respeito.

8- É direito do torcedor beber nos estádios a água benta que melhor lhe conduzir ao contato com o sagrado. Comércio informal nos arredores - com churrasquinho, cachorro quente, laranja lima e que tais - é fundamental.

9- Não profanarás a camisa do clube com propagandas de cursos de inglês, bancos, funerárias, produtos de limpeza, organismos internacionais de combate à fome  ou coisa que o valha.

10- Há que se respeitar o torcedor sobre todas as coisas - e para isso é suficiente não tratá-lo como cliente de empresa de telefonia celular ou platéia de recital de música de câmara.

Amém.