quarta-feira, 2 de maio de 2012

OS MENINOS PODEROSOS (ADULTESCENTES NO PODER)

Vivemos a praga da  infantilização do mundo e  a essa desgraça somos submetidos cotidianamente. Os tempos atuais criaram a figura do adultescente, esse híbrido medonho - perdido entre o garotão e o adulto - que se recusa a conviver com o mistério do tempo e as suas marcas físicas e emocionais. Mas quem seria o adultescente clássico?

Visual bem transado, corpinho malhado de sibarita tardio, o adultescente frequenta micaretas, fala as gírias da garotada, conhece as boates da moda, curte o som do momento e alterna momentos de arrogância absoluta com instantes de fragilidade emocional.  Vejo o adultescente, por exemplo, em certos apresentadores de televisão que, aos cinquenta anos, pulam serelepes enquanto hordas juvenis dançam ao som de uma música baiana sobre as delícias de um beijo na boca e do corpo molhado de suor. Adultescente que se preza, reparem, chama a cantora Ivete Sangalo de "a Ivete", com inequívoca intimidade

Ser adultescente é frequentar festas plocs, bailinhos e shows na praia - tentando descolar, é claro, credencial para o espaço vip. O adultescente venera a alegria[e é por isso, paradoxalmente, um deprimido em potencial] e seu maior objetivo é ser feliz, como se isso fosse lá um horizonte decente para um sujeito. A felicidade desse bípede festivo, sua busca incessante, consiste em projetos de vida entusiaticamente elaborados, como a compra de abadás para pular o carnaval em Salvador ou a participação em uma festa de música eletrônica em Ibiza com o dj da moda.

Pior mesmo são os adultescentes cheios de grana - uma malta que grassa entre alguns políticos quarentões. Pintam cabelos de acaju ou de um preto mais preto que as asas da graúna, aplicam botox para driblar as rugas, tiram onda de que entendem de vinhos caros, viajam para os destinos da moda e esculhambam a coisa pública com hábitos de hedonistas rasteiros. Jatinhos particulares, ilhas em Angra, restaurantes proibitivos, uísque misturado com energético e aventuras sentimentais com modelos e manequins fazem parte do repertório da turma.

O melhor antídoto contra esse tipo infame, enquanto a praga de gafanhotos permanece tomando conta do milharal, é abrir uma gelada, sentar num boteco simples - onde esses elementos não entram - e ouvir um samba triste do mestre Silas de Oliveira, um tango do Discépolo ou do Gardel e uma seresta do velho Silvio Caldas. Prestamos, assim, reverência ao Tempo, divindade poderosa, e nos preparamos, nas esquinas da vida, para o dia em que o canto der espaço ao silêncio da noite grande - que, afinal, é o destino que nos aguarda.

Bem longe, de preferência, dos garotos superpoderosos, musculosos e minúsculos, fantasiados de menininhos felizes, com os bolsinhos cheios e as cabecinhas ocas.


Um comentário:

N. Mazotte disse...

Demais, professor! :) Saudade das suas aulas, tão boas quanto suas crônicas.