domingo, 1 de dezembro de 2013

DELENDA DEZEMBRO!

Dezembro chegou. Tenho umas mil e duzentas razões para querer despachar o mês  feito um ebó pesado na encruza. É por isso que sempre deixo aqui a  minha bronca contra essa modorra natalina da moléstia. Este espaço, enfim, tem por tradição estabelecida abrir o final do ano com um texto defenestrando o período. Aos fatos:

- Não dá pra ir com tranquilidade a bares e restaurantes em dezembro. O perigo é encontrar uma festa de encerramento de ano do pessoal da repartição. Em meia hora os bebuns amadores - os bebuns de dezembro - chamam urubu de meu louro e começam a gritar. A funcionária padrão, que passou o ano todo tímida, solta a franga, enche a cara e ameaça fazer striptease pro chefe do almoxarifado, ao som do funk da moda. No ápice do fuzuê alguém grita que vai começar o amigo oculto. Não satisfeitos com a troca de presentes em público, os participantes ficam, aos berros, dando palpites sobre quem fulaninho tirou. Vômitos no final do furdunço estão incluídos na conta.

- Em dezembro o sujeito corre o risco de receber dezenas de emails com um poema sobre a simplicidade da vida, criminosamente atribuído a Jorge Luis Borges. O poema fala do sujeito que na velhice se arrepende de não ter andado descalço, tomado banho de chuva, amado mais, cativado crianças, comido maçãs ao entardecer, soltado os cabelos ao vento e sorrido ao nascer do sol. Imaginem se Jorge Luís Borges escreveria uma baboseira dessas.

- Toda família tem pelo menos uma tia velha e carola que, no auge da festa de Natal, cai em prantos, anuncia que vai morrer e estraga a ceia. A frase é um clássico: - Eu quero dizer pra vocês que esse é meu último Natal; ano que vem eu não estou mais aqui . No ano seguinte lá está ela, vivinha da silva, anunciando a morte próxima e preparada, sordidamente, para enterrar a família inteira.

- O sujeito jura que nunca mais entrará em amigo oculto; vai romper com o consumismo e os cacetes. Balela. Tem sempre pelo menos um amigo oculto de família cuja participação é irrecusável. Para esculhambar tudo mais ainda, só mesmo a cena clássica do parente agregador; aquele que insiste em transformar a troca de presentes em um ritual fraterno e descontraído. O parente agregador é a maior praga dezembrina. 

- O futebol entra em recesso em dezembro. Não há campeonatos no Brasil. As noites de quarta e as tardes de domingo, sem uma partidinha pra justificar a cerveja, são tão emocionantes quanto uma corrida de cágados sob efeito de Rivotril.

- Shoppings são sucursais do inferno e os adultos realmente acham que as crianças gostam de tirar fotos - pagas, diga-se - com o Papai Noel. Os moleques abrem o berreiro, os pais insistem, o Papai Noel tá doido para enfiar a porrada no capeta, mas tem que manter a pose para garantir os caraminguás da santa ceia. Dezembro é o mês em que, como diria o Vinícius, "a criançada toda chega / e eu chego a achar Herodes natural".

- Acabaram com a festa de Iemanjá durante a virada do ano, nas praias do Rio. As areias não têm mais terreiros na noite do dia 31. Periga o sujeito querer bater cabeça pra rainha do mar e acabar se deparando com um show de Lulu Santos, Jota Quest, Carlinhos Browm, Naldo, Perla e Maria Gadú, com participação especial da bateria da Grande Rio. A grande atração costuma ser algum dj fresco, moderninho e antenado com a cena musical inglesa. Eu quero de novo macumba na areia, com direito a Praianinha, charuto Índio, perfume de alfazema, leite de rosas pra mamãe sereia, cidra de macieira e barquinho comprado no Mercadão de Madureira.

- Dezembro é o mês em que os namorados se sentem mais a vontade para trocar juras de amor em público; geralmente com vozes infantis de erês de umbanda. Dá vontade de chegar junto e cantar pra criança subir. Poucas coisas despertam mais os meus piores instintos do que compartilhar o espaço com casais tagarelando como crianças, berrando publicamente seus apelidos e trocando o r pelo l, feito o Cebolinha.

- Eu insisto, protesto todo ano, esperneio, faço ebó, escrevo denunciando, mas não tem jeito: Dezembro é o mês em que todas as lojas do mundo colocam em promoção o cd que a Simone gravou, ao lado dos meninos cantores de Petrópolis, com músicas natalinas. O destaque é Então é Natal , a versão em português de uma música do John Lennon mais desagradável do que tratamento de canal no dentista e mais melosa que pudim de guaraná Jesus. Simone termina de cantar de forma apoteótica, gritando, por alguma razão que desconheço, Feliz Natal, Hiroshima e Nagasaky. Como tudo pode piorar, Luan Santana regravou a canção para as festas de 2013. O bom senso manda se cogitar o suicídio.

- Só em dezembro, enfim, um homo sapiens tem a coragem de se prestar a isso:





Um comentário:

Selma Site disse...

Muito comico, mas totalmente verdadeiro seu post! Feliz Dezembro pra vc também!