domingo, 30 de dezembro de 2012

IEMANJÁ PARA OS DEVOTOS DE OCASIÃO

Eis que chega o fim do ano e o babado se repete: muitos cariocas e turistas se transformam em devotos potenciais de Iemanjá. Mesmo aqueles que não fazem a mais vaga ideia sobre o que é um orixá, jogam flores no mar, pulam ondas, fazem pedidos, chamam, cheios de intimidade, o orixá de Mamãe Sereia e o escambau. Artistas, então, adoram a papagaiada e gostam de lançar barquinhos no reveillon da Ilha de Caras. É a folclorização - para o bem e para o mal - do rito. Há os que, sem saber cantar ou saudar a orixá, apelam logo para o refrão do samba de 1976 do Império Serrano e mandam na lata, achando que é ponto de macumba:

Ogunté, Marabô,
Caiala e Sobá
Oloxum, Inaê
Janaína, Iemanjá

Resolvi, portanto, prestar um serviço de utilidade pública aos devotos de ocasião e explicar o que é que o refrão acima significa, palavra por palavra. Ao trabalho:

Ogunté - É uma qualidade importantíssima de Iemanjá entre os nagôs. Em alguns mitos é a mãe de Ogum; em outros é a mulher de Ogum Alabedé. É uma Iemanjá guerreira, jovem, que quando dança porta uma espada. Cuidado com ela; está muito longe de ser a sereia maternal que o sincretismo consagrou. Ogunté ensinou a Ogum como se guerreia e se apresenta sempre ao lado dele. Imaginem. As filhas de Ogunté que eu conheço não são moles.

Marabô - Aqui temos um probleminha bobo. Iemanjá Marabô simplesmente não existe. Marabô é uma corruptela de Barabô, um dos nomes de Exu. A denominação vem de um famoso cântico muito executado no Brasil e em Cuba : Ibarabô, agô mojubá, Elegbara... ( algo como "Eu homenageio e peço a proteção de Elegbara" ) . O que significa, então, o Marabô no samba ?

É provável que a citação do samba a Marabô venha de um dos cânticos mais famosos do candomblé dedicado a mãe das águas. O cântico diz : Awá ààbò à yó, Yemanja ... Em geral o povo de santo canta esse início ( awá ààbò ) dizendo "Marabô a yó..." , o que não tem sentido preciso em português. A frase yorubá significa algo como "estamos protegidos, Yemanjá." Quebrei a cabeça para saber de onde saiu esse Marabô. Acho que a citação provavelmente vem do início desse canto. Justifico, portanto, o Marabô no samba dizendo que é uma adaptação para a sonoridade do português da saudação Iemanjá nos protege.

Kayala - É um dos nomes de Quissimbe, o inquice ( quase a mesma coisa que o Orixá para um nagô ) banto responsável pelos mistérios das águas. É corruptela de Nkaia Nsala, que significa literalmente "avó da vida". É uma entidade velha e maternal, cujo culto desenvolveu-se na região do Congo-Angola. Seu culto no Brasil permanece, em larga medida, graças aos conhecimentos da venerável casa de Angola Kupapa Unsaba e pelos descendentes de Tatetu Apumandezo, patriarca do culto muxicongo no Brasil. Mojubá.

Sobá - É uma das formas de se chamar no Brasil uma qualidade de Iemanjá denominada "Assabá". Orixá velho e poderoso, aparece nos mitos de Ifá mancando e fiando algodão. Sua dança é venerável e lenta.

Oloxum - É a denominação dada aos sacerdotes de Oxum, a senhora dos rios e cachoeiras. É também um dos nomes de Oxum no Xambá nordestino - culto em que minha avó foi iniciada. Achei interessante e meio fora de prumo a citação a Oxum - um outro orixá das águas ligado ao instinto maternal - no samba. Como, entretanto, é carnaval (sim, reveillon é carnaval), vale tudo, inclusive inventar essa Iemanjá Oloxum e pedir que ela, apesar de não existir, nos proteja.

Inaê - Um dos nomes da rainha do mar. Segundo Yeda Pessoa de Castro - grande conhecedora das línguas africanas no Brasil - o termo tem origem fon ( povo jeje, do antigo Daomé ) e deve vir de inon (mãe) e nawé (um título respeitoso).

Janaína - Uma das formas sincréticas de se referir as Iemanjá no Brasil. É muito citada nos pontos de umbanda.

Iemanjá - Eis a dona da festa! A poderosa orixá que, na África, comanda os rios quando estes estão chegando ao mar. Para os nagôs, o orixá ligado ao axé dos oceânos é Olokum. Como o culto a essa poderosa entidade - Olokum - quase sumiu no Brasil, Iemanjá passou a ser considerada por aqui a senhora das águas marítimas. No país Yorubá as oferendas a Iemanjá são feitas no encontro das águas do rio com o mar.

Para os que querem saudar devidamente Iemanjá, uma dica: vale pronunciar, sem dar piti e gritar a ponto de assustar a orixá,  simplesmente  Èéru Iya ! ( Mãe das espumas das águas - saudação que faz referência às espumas formadas pelo encontro das águas do rio com as do mar ).


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