terça-feira, 11 de dezembro de 2012

NATIVIDADE (NO ANIVERSÁRIO DE NOEL ROSA)

Peço licença aos caboclos, encantados e malandros deste meu terreiro carioca, minha macaia.  Do alto da colina, Nossa Senhora da Penha há de nos guardar. A vida continua na minha cidade, entre uma ou outra rajada de tiros, suspiros dos namorados e um putaquepariu bem colocado para saudar o calor da moléstia. Soltaremos balões proibidos e pipas coloridas, cantaremos uns sambas, cabaços serão apaixonadamente perdidos, alguns morrerão e outros pintarão na área neste dezembro na aldeia.

Mas eu cismo, hoje, em delirar fraseados de Pixinguinha. Comemoro gols de todos os atacantes que não vi jogar, defendo pênaltis perdidos, apoio amores desvairados, serestas ao luar, rodas de capoeira, cachaças pros santos e beijo a nobreza em mãos calejadas. Navego rios imundos, sou carpideira de suicídios das putas, brindo em copos quebrados aos beijos partidos, aos cantos dos fudidos e aos passos gingados. A cidade , emaranhada em mim, comove feito o diabo. Porque é hoje.

A estrebaria na Guanabara é um  beco suburbano; em todos os butecos, os silêncios, os sambas e as cervejas insinuam o nome de um menino, feito a profecia da natividade sussurrada pelos pastores da noite, homens benditos que fazem do balcão do bar mais vagabundo uma manjedoura. As estrelas incendiadas gritarão um "Glória a Deus" com a voz quase sumida dos tuberculosos.

Os meninos pobres operarão prodígios, driblarão feito Mané Garrincha e farão com a vida o que Jackson fez quando xaxou com Sebastiana um coco na Paraíba. Cairão estatelados, driblados pelo imprevisto, todos os escrotos, arrogantes, donos de salamaleques, doutores metidos a limpar bosta de galinha com talher de fina prataria. Porque está escrito, marcado, quizumbado, registrado nas curimbas e sacralizado na ginga maneira do Homem da Rua, que há de ser assim.

Dezembro é o mês, portanto, da Natividade. O menino nasceu para esculhambar a paz dos carolas, enlouquecer os padres, exorcizar os bispos, arranhar os caríssimos óculos espelhados, rasgar as bolsas de mil dólares, enguiçar os elevadores de serviço, transformar em manto da anunciação as roupas brancas das babás, esvaziar os discursos dos politicões oficiais de todos os matizes, rebentar as ideologias congeladas, sacanear o quepe do guarda, calar o apito do juiz, dar rabo-de-arraia no falso malandro, enguiçar os carros, gelar as bebidas e fazer uma baixaria na sétima corda do violão de todo mundo.

Porque foi anunciado que assim seria, e há de ser, no dia 11 de dezembro de 1910. Não nasceu de uma virgem e mostrou, nas andanças entre os seus, que divinas são as damas dos cabarés e todas as boas fodas. O anjo da Boa Nova tinha mesmo a pinta de um malandro maneiro, daqueles que soprou no ouvido de Ismael o bumbumpaticumbumprugurundum que nos redimiu da dor e criou o mundo.

Estava escrito e se cumpriu. Exu murmurou aos homens de boa vontade, quando a tarde caiu naquele dia, com uma leve sincopada para gingar o nome: Noel de Medeiros Rosa!



 (Texto publicado no meu livro Pedrinhas Miudinhas: ensaios sobre ruas, aldeias e terreiros)

3 comentários:

Terezinha Oliveira disse...

Excelente contextualização dos símbolos que se referem à Vida e Obra do Ícone das letras poéticas que enriqueceram a nosso cancioneiro, através do Samba carioquísssimo. Não é só quem nasce lá na Vila que sente a alma deste NOEL dezembrino

roberta montagner disse...

como gostaria deter vivido o tempo dele!

André Luiz De Souza disse...

Maravilha o seu texto :) muito obrigado... andré