terça-feira, 23 de outubro de 2012

CANJIRA CARIOCA

Canjira - conjunto de danças rituais, realizadas em um grande círculo, nos terreiros angolo-congoleses e nas casas de umbanda e encantaria. Segundo Nei Lopes, a expressão é derivada do umbundo tjila - "dançar".

As cidades falam e se revelam em suas esquinas ou na falta delas. Em geral, quando estou em uma cidade, gosto de inventá-la ao sabor do que vejo e não vejo nas ruas. Existem as cidades-shoppings, cidades-enfermarias, cidades-fábricas, cidades-cemitérios, cidades-bolsa de valores, cidades-presídios, cidades-autódromos... A minha aldeia, São Sebastião do Rio de Janeiro, é uma cidade-terreiro. E um terreiro de macumba; umbanda puxada para a encantaria, território de gira de lei.

Ando meio cismado com essa ideia: a cidade do Rio de Janeiro pode ser pensada como um grande terreiro de encantaria, encravado entre a montanha e o mar. Baixam por aqui as falanges ameríndias, européias e africanas - e se bobear dança todo mundo na mesma canjira. De vez em quando, eu diria até que muito frequentemente, os encantados de falanges diferentes saem no cacete e a curimba esquenta. Eventualmente, porém, as entidades se abraçam - e é aí que a gira (a roda ritual bordada pelos tambores) fica mais bonita e os pontos são firmados mais altos.
Os encantados, segundo a tradição, não tiveram morte física. Transmutaram-se em pedras de rio, areias e conchas de praias, troncos de sucupira, cipós de jitiranas, ondas do mar e cumes de montanhas. Imagino, portanto, um Estácio de Sá encantado no Pão de Açúcar, mil  tupinambás encantados nas praias da Guanabara e um Zé Pilintra ajuremado numa esquina perto da subida do São Carlos.

Vou mais longe na canjira: Pereira Passos está encantado numa águia daquelas do Theatro Municipal. Cartola ajuremou numa pedrinha miúda da subida do Pendura Saia. Noel encantou-se em alguma garrafa de cerveja, com maestria. Jamelão virou jequitibá do samba.  Estão todos por aí, prontos para baixar, dançar, dar conselhos, passes e o escambau. Registre-se que o terreiro também é cheio de encosto de capitão do mato, de fardas e ternos bem cortados, querendo atrapalhar a firmeza do riscado da pemba.
Para entender o Rio de Janeiro, portanto, é necessário compreender e vivenciar as giras dos encantados - e a maior delas é o Carnaval. Para esclarecer melhor: não penso o Carnaval apenas como um fuzuê determinado pelo calendário. Vejo as festas como um conjunto de ritos de inversão onde as relações tensas e intensas entre as diferentes camadas sociais disputam espaços e criam formas de vida. A cidade vira território de afeições e ódios entre batuques, meneios de corpo, beijos, furtos, comidas e cantos. Morte e vida cariocas.
Entrudos, corsos, batalhas de confetes e flores, festa da Penha, rodas de capoeira, blocos de arenga, rodas de pernada, ranchos, cordões, grandes sociedades, bailes de mascarados, escolas de samba, onças do Catumbi e caciques de Ramos dão pistas para se entender como as tensões sociais - disfarçadas ou exacerbadas em festas - bordam as histórias da cidade-terreiro; ou das cidades que formam o grande terreiro.

A festa foi espaço de subversão da cidadania roubada. Inventou-se na rua a cidade negada nos gabinetes. Disciplinar a rua, ordenar o bloco e enquadrar a festa, por sua vez, foi a estratégia do poder instituído na maior parte do tempo. Do embate entre a tensão criadora e as intenções castradoras - e o jogo está longe de terminar - a roda dos encantados continua girando enquanto o coro come.

Deixa a gira girar!

Abraços!

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

TANTAS PÁGINAS BELAS - HISTÓRIAS DA PORTELA. O PREFÁCIO

Prefácio do jornalista Vagner Fernandes - a quem agradeço profundamente - para o meu livro sobre a Portela. O lançamento ocorrerá no dia 31 de outubro, na livraria da Travessa do Leblon, às 19 horas. 
 
Não há amante do samba que não conheça e não tenha admiração pela história da maior campeã do carnaval do Rio de Janeiro.  A Portela tem a peculiaridade de despertar sentimentos que, na escala dos pecados capitais, colocaria seus admiradores e integrantes na fogueira do mais temido deles: a vaidade. Garante mestre Monarco, na célebre letra de uma de suas antológicas criações, que “a Portela enfrenta derrota como vitória” e que “só ela sabe ganhar e perder”. Não é bem assim. Como bom time de futebol e qualquer outra agremiação carnavalesca, as subtrações das frações decimais que desde 1970 vêm impedindo a azul e branco de Oswaldo Cruz a figurar sozinha no ranking da maior festa popular do Brasil têm sido motivo de polêmica e de muitos choros ao longo das quatro últimas décadas. Não poderia ser diferente, já que estamos diante de uma escola apaixonada e apaixonante.
Com maestria, delicadeza e precisão, Luiz Antonio Simas nos aprisiona neste belo trabalho sobre a história celestial portelense, resgatando personagens-ícones que revelaram para o Brasil e para o mundo que o suburbano bairro de Oswaldo Cruz é um verdadeiro relicário poético de beleza singular. Das migrações dos descendentes de escravos para a Grande Madureira, expulsos das regiões centrais do Rio pelo “surto” de modernização imposto pelo prefeito Pereira Passos, aos lendários e pioneiros Paulo Benjamin de Oliveira (Paulo da Portela) e Natalino José do Nascimento (Natal) passeamos por páginas pontuadas por uma historicidade inebriante e comovente. Saltam dela os visionários Antônio Rufino e Antônio Caetano, líderes e partícipes da fundação da agremiação; revisita-se a personalidade contestadora do genial Candeia, que, descontente com as diretrizes administrativas e estéticas da Portela, promoveu uma das maiores rupturas já ocorridas no mundo do samba, antecedendo outra cisão que golpearia a união portelense, com a criação do Grêmio Recreativo Escola de Samba Tradição; decortina-se a magia da Velha Guarda, grupo idealizado por Paulinho da Viola, que atravessa gerações, perpetuando uma obra preciosa, repleta de lirismo.
Luiz Antonio Simas não lança mão de subterfúgios para metaforizar conceitos e histórias íngremes de bastidores. Absolutamente seguro de sua narrativa envolvente, Simas reconstrói o passado para explicar o presente, sem desconfigurar cenários e alterar scripts. E ao conduzir-nos, aqui e agora, a esse desfile sem cronometragem pré-estabelecida da mais tradicional das agremiações do Carnaval carioca, acaba por se tornar cruel ao nos impulsionar ao abismo da felicidade e da paixão nesta obra, na qual revela o segredo da força motriz indelével que, em 90 anos, ilumina o panteão do samba com 21 estrelas de brilho intenso e inextinguível.

Vagner Fernandes, setembro de 2012.
Jornalista e escritor de Clara Nunes: guerreira da utopia.


segunda-feira, 15 de outubro de 2012

DA TAREFA DE SUBVERTER OS MUNDOS


Que Liberdade, Liberdade – o samba de enredo de 1989 da Imperatriz Leopoldinense – é um clássico do gênero, não se questiona. A melodia sinuosa, a cadência do ritmo, emoldura uma letra que retrata os últimos anos do Império e a proclamação da República no Brasil.

Certo trecho do samba, o que nos interessa neste momento, diz o seguinte:

A imigração floriu de cultura o Brasil
A música encanta e o povo canta assim
Pra Isabel, a heroína
Que assinou a lei divina
Negro, dançou, comemorou o fim da sina...

O verso “a imigração floriu de cultura o Brasil” sintetiza uma visão, particularmente forte nas primeiras décadas da história republicana e ainda hoje entranhada no cordial racismo brasileiro, de que a chegada do europeu ao Brasil – branco e cristão – foi, sobretudo, uma aventura civilizatória. O europeu trouxe, basicamente, cultura para uma terra de bárbaros ameríndios e africanos.

O trecho seguinte do samba atribui a libertação dos escravos ao heroísmo da Princesa Isabel. A função do negro no processo foi a de dançar para comemorar o fim da sina. Dispensa comentários.

Um outro samba clássico – Martim Cererê – da mesma Imperatriz Leopoldinense (1972), diz em certo trecho:

Tudo era dia
O índio deu a terra grande
O negro trouxe
A noite na cor
O branco, a galhardia
E todos traziam amor

Além da visão do Brasil como um paraíso racial – discurso que se adequava aos ditames ufanistas do regime militar – o samba vincula o índio (terra) e o negro (noite) aos elementos da natureza. O branco entra com a galhardia – um atributo de fidalguia vinculado à ideia de civilidade, indo além do mundo natural.

Exemplos similares não faltam, e é proposital que eu use as escolas de samba – originadas entre as populações negras - para indicar a força entranhada da ideia de missão civilizatória do branco na formação do Brasil. É evidente que, no mesmo universo das escolas de samba, encontraremos exaltações vigorosas aos africanos e – em menor escala – aos índios.

Chamar a atenção para o óbvio parece tarefa redundante, mas continua sendo necessária. Não há ambiente no Brasil – e penso nas universidades, nas escolas de ensino fundamental e médio, nos meios de comunicação, na intimidade das famílias de todas as classes – em que a ideia de missão civilizatória do europeu / cristão / ocidental não esteja entranhada como metástase daninha, muitas vezes invisível, e por isso ardilosa e mais devastadora.

Somos ensinados, nos colégio e universidades, a pensar exclusivamente com a cabeça e os cânones do ocidente. A escola brasileira é reprodutora de valores discriminatórios e inimiga radical da transgressão necessária. Não adianta a adoção de cotas para negros e índios se o ambiente escolar continuar reproduzindo apenas uma visão de mundo branca, cristã, européia, fundamentada em conceitos pré-concebidos de civilização que negam os saberes ancestrais e as invenções de mundo afro-ameríndias. Se até escolas de samba reproduzem, em sambas compostos por negros, estes preconceitos, imaginem o que acontece na maioria das escolas em que o samba não entra.

Reproduzo trechos de um texto em que abordei, em outra perspectiva, este assunto, a partir da minha criação dentro de um terreiro de Xambá e Encantaria (sou orgulhoso neto de uma analfabeta dotada de sabedoria - uma yalorixá):

Não existe redenção para as grandes tragédias, mas a vingança sublime e a única forma de transcendência dos homens ao desmazelo da vida é transformar a má fortuna e a dor em beleza, civilização e arte. Os meus heróis civilizadores não frequentaram bibliotecas, não discutiram a alta filosofia nas academias e universidades, não escreveram tratados iluministas, não pintaram os quadros do Renascimento, não escreveram romances, não compuseram sinfonias, não conduziram exércitos em grandes guerras, não redigiram leis, não fundaram empresas, não elaboraram tratados e constituições e não planejaram monumentos, edifícios e pontes.

 Os homens que me civilizaram chegaram às praias do meu país nos porões infectos dos tumbeiros e foram vendidos e marcados feito gado no mercado.

 Eu fui civilizado pelo rufar dos tambores misteriosos, pelo toque de São Bento Grande no berimbau de cabaça, pela dança desafiadora do Obá dos Obás, pelo bailado da dona do afefé - sagrado vento - e pelo xaxará do senhor da varíola, a quem reverencio e peço a calma para não estranhar o mundo - Atotô!

 Aprendi a olhar com admiração os homens ao conhecer os dribles de Mané, a ginga de Pastinha, a sabedoria de Menininha, a força de Candeia, os versos de Silas, o miudinho de Argemiro, as esculturas de Mestre Didi, as toalhas rendadas de Tia Prisciliana, o cachimbo de Dona Eulália, o canto de Anescar, o tempero da Iyá Bassê, o lamento dos vissungos, o machado do jongo, as folhas de Ossain e os cantos de evocação de Oxupá, dindinha lua.

 Quem me criou não tinha educação formal e não me deu o Dom Quixote, o Crime e Castigo, o Dom Casmurro, o Grande Sertão e outros tantos grandes livros que, como esses, eu li um dia e passei a amar. Quem me criou, porém, me contou das artimanhas de Exu, da flecha certeira de Oxóssi, dos amores de Ogum, das mulheres de Xangô, do tronco forte de Tempo e do pano branco de Lemba - e eu passei a gostar de ouvir e inventar histórias, no alargamento da vida.

 Quem me criou não me levou aos teatros, não me apresentou a grandes óperas e não me presenteou com discos de sublimes sinfonias - que dessas coisas quem me criou não sabia. Mas quem me conduziu cantou, para confortar as minhas noites, sambas, toadas, jongos, afoxés, cirandas, maracatus, alujás, calangos, xibas e xotes - e eu fui apaziguando a alma com os sons do meu povo.

 E é por isso, por essas áfricas que me fizeram como sou, que gosto da rua, do mercado, dos amigos, da gente miúda feito eu, do porre, da bola, do beijo, da troça, da raça, do sol, da cachaça, da carne, da alegria, da subversão, da insubmissão, da guerrilha, do vento, da aldeia, do mistério, da mistura, do dendê, das pernas tortas, do português torto, da língua do Congo e do pranto do banzo.

 A tarefa é, portanto, enorme. À guisa do dia dos professores, é com o olhar de um educador que faço estas colocações, até mesmo para que eu não perca a dimensão da função transgressora de mundos que o magistério deveria assumir como sua. Cada vez mais solapada por uma realidade em que o colégio é visto como empresa modeladora de condutas e visões de mundo, o aluno é encarado como cliente e o professor é um adestrador de gente, a educação precisa da subversão para ser digna deste nome. 
A educação precisa, urgentemente, assumir a única tarefa hoje digna deste nome: deseducar as crianças para libertar as mulheres e os homens.

E já que comecei com samba, nada melhor do que terminar em samba. A dupla Didi e Aurinho mandou, em Rituais Afor-Brasileiros, samba-enredo de 1971 da União da Ilha do Governador, um recado:

Quem diria
Que o negro iria
Há tempos atrás
Ver um dia
O branco escravo
Dos seus rituais.
Que se subvertam os mundos...
 
Abraços
 
 

sábado, 13 de outubro de 2012

O MEU BRASIL É O DO CÍRIO DE NAZARÉ

(Este texto, com pequenas alterações, foi publicado originalmente no domingo do Círio de 2010)
 
Não sou um homem de fé, sou homem de ritos. Minha crença é uma opção pelo encantamento do mundo e só compreendo a devoção quando ela se manifesta em reza, festa, dança, batuque, comida e camaradagem. Meus deuses são manifestações do olhar da poesia sobre o mundo que me cerca.
 
A ciência vê no fogo a oxidação de um material combustível que libera calor, luz e produtos da reação, tais como o dióxido de carbono. A poesia dos homens, na Mãe África,  viu no fogo a força de Xangô, Nzazi e Hevioso. Eu acredito na verdade da ciência, mas me emociono com o canto e a dança. Por isso, diante do fogo, bato  cabeça para Xangô e venero no rito a poesia do mundo, o encantamento dos homens e a celebração do mistério que já não há.

Escrevi certa feita que a razão, quando vê a natureza, produz ciência. A poesia, quando faz a mesma coisa, vê os deuses e orixás. A mirada da arte começa onde a ciência não consegue contemplar a aspiração dos homens pelo que não é tangível - e esses olhares, para mim, absolutamente não se excluem. Eu não acredito em deuses, mas creio nos homens que rezam e, deste modo, se integram ao todo - o conjunto de deuses sem Deus - que algum acaso provavelmente produziu.

É exatamente por isso, como homem sem fé grávido de ritos, que me comovo com a celebração do Círio de Nazaré, nesse segundo domingo de outubro, em Belém do Pará -  e também, em proporção mais modesta, mas nem por isso menos comovente, aqui no Rio, quando a comunidade paraense fecha a Rua Haddock Lobo, na minha Tijuca, para louvar a santa.

Me emociona a história de um certo Plácido, caboclo ribeirinho, que em mil e setecentos achou, à beira do igarapé Murucutu, uma pequena imagem de Nossa Senhora de Nazaré. Plácido cuidou da imagem, bastante desgastada pelo tempo, e montou um modesto altar em sua casa. Diz o povo que a imagem voltou, misteriosamente, ao local onde tinha sido encontrada algumas vezes. A santinha queria mesmo ficar no igarapé.

O caboclo Plácido viu na volta da santa um sinal divino e, por isso, ergueu uma ermida à beira do Murucutu. O povo simples, sabendo do milagre da volta da imagem, passou a visitar a ermida e reverenciar Nossa Senhora. A festa do Círio de Nazaré, até hoje, reproduz o misterioso retorno da santinha ao local onde fora encontrada.

Se me falta a fé, me sobra o apreço pelos ritos do povo. O Círio, ao longo dos tempos, se transformou em vigorosa celebração da vida em comunidade. Comidas, cantos, louvores, brinquedos, leilões, namoros, cheiros e licores bordam a festança daquilo que constitui, para mim, o verdadeiro sentimento religioso do Brasil - afeto celebrado em festa e recriação, pelo rito, da miudeza provisória da vida.

É esse Brasil ritualizado que, temo, pode estar se perdendo em meio ao desencantamento trazido pela intolerância dos fundamentalismos de tantos que, ao louvar a Deus, celebram na verdade a supremacia do mercado, a ascensão do indivíduo como máquina de consumo e a morte da coletividade. Soam tristemente, feito berrantes que chamam o gado triste, as trombetas que tangem o povo para os currais eleitorais de uma fé não ritualizada e desprovida da capacidade de reinventar os mundos. 

O meu Brasil é o do Círio do Nazaré. É, mais ainda, o do Círio reinventado, na fé do batuque, pela força do samba - ritual profano do povo e celebração do apreço entre as gentes em suas aspirações de beleza.


Abraços!




segunda-feira, 1 de outubro de 2012

NINGUÉM É TRISTE NO VENTO LESTE

Minha avó, quando veio de Pernambuco, recebeu de sua Yalorixá a permissão para abrir uma roça de santo no Rio de Janeiro. Aqui chegando, comprou uns terrenos nos arredores de Rosa dos Ventos, um bairro de Nova Iguaçu, onde plantou o axé e criou sua casa de Xambá - o candomblé do Recife - e onde se cultuavam também os encantados do Tambor de Mina.
 
Foi lá que eu, menino, convivi com algumas figuras extraordinárias. Dentre elas havia um sujeito humilde, que tomava cerveja e cachaça na birosca da encruzilhada da Rua Castor, área conhecida como Esquina do Pecado (chamada deste jeito porque era um ponto de desova do esquadrão que agia na Baixada Fluminense e assinava crimes em nome de certo Mão Branca).

Normalmente descalço, o cabra falava pouco e gostava de ver a molecada jogando bola na rua. De vez em quando assistia a curimba. Não me lembro que desse intimidade a muita gente. Era fechado. Conversava com meu avô, o velho Luiz Grosso, nordestino que, como ele, era chegado numa cana firme.
 
Trazia um olhar embaçado, profundamente triste e, para algumas crianças, ameaçador. Se sorriu alguma vez, eu nunca vi.  Lembro-me que uma velha amiga de minha avó, Maria do Carmo, parecia ser a única por ali a saber que o sujeito era artista. Ela vivia dizendo isso : - Ele é compositor; tem até músicas famosas.
 
Ninguém acreditava, até porque essa Maria do Carmo tinha fama de ser doida varrida.
 
Meus avós mantinham a casa em Nova Iguaçu e alugavam um apartamento modesto em Laranjeiras, pertinho do Catete, onde passávamos a semana. Às sextas o meu tio dirigia a Kombi da família e todo mundo ia pra macumba.
 
Foi em Laranjeiras que um amigo me chamou um dia - eu devia ter uns dezesseis anos - para ir a uma casa de música que tinha aberto na rua do Catete e era baratinha. Só tocava música brasileira, o que pra nós, docemente xenófobos, era obrigatório. Fomos.

Nesta casa - o Forró Forrado - descobri que o preto triste e zangado de Nova Iguaçu era, de fato, artista. E tinha cada música bonita de doer. Passei a ir quase toda semana ao forró, mas nunca falei pro homem que o conhecia.

Ele nunca reparou na minha existência. Continuou morando em Rosa dos Ventos, tomando as canas na mesma birosca, convivendo com os mesmos cachaças. Mas eu sabia, como a doida Maria do Carmo, que o homem era artista maior, um poeta do povo.
 
Um dia, depois de doença ingrata,  morreu à míngua, pobre de marré-de-si.
 
Hoje lembrei do cabra e tomei a primeira gelada. Escutei uns cantos bonitos que ele fazia, feito o da estrela miúda que alumeia o mar - lição que, cada vez mais desconfiado de estrelas imensas, tento aprender e reproduzir nos meus afetos e ofícios.

Às margens do rio Maracanã, o da minha aldeia, este arrazoado vai na intenção do poeta que um dia subiu nos ares e foi brincar, encantado brasileiro, na asa do vento leste. Dizem que lá ninguém é triste. Mojubá, João do Vale.



Abraços