quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

A CURIMBA DO MALANDRO

Há certos eventos que jamais se repetirão. Não podem ser reproduzidos nem como representação dramática, pois perderiam o caráter único, transformador, epifânico,  potencializador da vida. Exemplifico.
É madrugada do dia 11 de fevereiro e a Portela se prepara para entrar na avenida. O enredo contará a história do bairro de Madureira. A bateria está vestida como Zé Pelintra, o malandro seminal. A rainha dos ritmistas, Patrícia Nery, vem de Maria Padilha. As fantasias, evidentemente, fazem referência ao Mercadão de Madureira e suas inúmeras lojas de artigos religiosos ligados ao candomblé e a umbanda.
Desde o ensaio geral da escola, por alguns recados mandados pelo próprio malandro e pela Padilha, a bateria sabia que deveria pedir licença a Seu Zé antes de iniciar o desfile. Acontece, então, o momento único. As caixas, repiques, tamborins, surdos e agogôs param de tocar. Os atabaques começam a curimba e abre-se um corredor. A rainha de bateria / Maria Padilha, inicia sua dança sensual, desprovida de pecados, sacralizadora do profano e profanadora do sagrado. Sem culpas. Os diretores de bateria bailam no corredor com a ginga sinuosa, sincopada, festeira e alforriada de Seu Zé. A bateria canta, o público canta e a madrugada canta o ponto do malandro divino, o Zé das Alagoas, o do balanço da canoa.
Contemplado o malandro, a bateria retoma o ritmo do samba e a Portela se prepara para entrar na avenida. Gilsinho, o puxador do samba, vez por outra assombrará a Sapucaí com a gargalhada vital do Homem da Rua. Os tambores portelenses sustentarão o samba - para mim o melhor do ano - e a bateria sairá consagrada pelo juri oficial e pelas premiações paralelas como a melhor dos desfiles. O malandro gostou da festa e bateu tambor pelas mãos e baquetas de cada um dos ritmistas.
Aquela curimba portelense conseguiu, em menos de cinco minutos, sintetizar o que eu tento escrever há tempos, sempre de forma precária, sobre o perfil civilizador peculiar da nossa cidade. Em um texto de antanhos, ao tentar expressar que civilização é essa, escrevi mais ou menos o seguinte:
Brado louvores e toco atabaques para festejar a civilização. Sim, a civilização que João Candido, Zé Pelintra, Pixinguinha, Paulo da Portela, Cunhambebe, Cartola, Noel Rosa, Bide, o Caboclo das Sete Encruzilhadas, Tia Ciata, Meia Noite, Madame Satã, Lima Barreto, Paula Brito, Marques Rebelo, Manduca da Praia, Silas, Anescar, Dona Fia, Fio Maravilha, Leônidas da Silva, Di Cavalcanti, os judeus da Praça Onze, a pomba gira cigana, a escrava Anastácia, o Cristo de Porto das Caixas, o Zé das Couves, o vendedor de mate, o apontador do bicho, o professor, o aluno, o gari, os líderes anarquistas da greve de 1919, a Banda do Corpo de Bombeiros, a torcida do Flamengo, o pó-de-arroz, a cachorrada, a nau do Almirante, o Bafo da Onça, o Cacique de Ramos, o Domingo de Ramos, a festa da Penha, a festa na lage e a cerveja gelada, criaram nesse extremo ocidente. Com baixaria na sétima corda e uma sonora gargalhada no final.
Foi exatamente isso que aconteceu na avenida nesta madrugada recente de carnaval. A Portela, sétima colocada pelo julgamento oficial, não retornará no desfile das campeãs. Melhor assim. O momento único, epifânico, civilizador, festeiro, celebrador das alforrias do corpo, libertador da alma, encantado nos arrepiados do batuque, não podia mesmo ser repetido. É feito o desfile de 1988 da Vila Isabel, a festa da raça com a Kizomba. Naquele ano a Vila ganhou, mas um temporal impediu a realização do desfile das campeãs. Será assim com a curimba para Seu Zé e a Dona Padilha que a Portela realizou na entrada do Sambódromo. Festa de encantaria; Brasil redimido no fuzuê do tambor suburbano. Irrepetível.
É assim, meus camaradas, que a gente reinventa a vida, zomba do pecado e transforma o corpo em totem. Na ginga do malandro da Portela, no balanço dos ombros da Padilha, o silêncio é preenchido e a bateria toca na cadência do samba. Ele, o samba, essa nossa gargalhada zombeteira que alumia o mundo.


17 comentários:

luladavid disse...


Portelense que sou,achei perfeito te u texto.Lindo,me senti mais Portela que nunca!

Anônimo disse...


Que maravilha de crônica, (se assim
posso denominar seu texto). É a cul
tura brasileira condensada pelo ma
gnifico desfile da Portela e captada
pelo olhar de quem conhece a sua for
mação. A descrição do ritual passou
despercebido para muitos ou ignorado
para outros. Mas, fica este registro
que sintetiza toda magia, encanto e
beleza da nossa formação cultural.

Anônimo disse...

Quero agradecer a Luis Antonio Simas por esta materia , pela riqueza de detalhes e principalmente por mostrar em video, esta homenagem feita logo no inicio do desfile ao Zé Pilintra e Maria Padilha no setor 1(um).
Confesso que estava ancioso por ver como teria ficado esta imagem na Sapucai , e agora vejo que foi de total aceitação do publico .
Parabens pela materia e pelo varios videos da bateria , captados durante o desfile Abraço

Fabio disse...

Sem palavras para descrever o momento. Lendário!

Anônimo disse...

Divino como como Zé Pilintra, o homem da minha vida!!!!!

Vitor Straub disse...

Emocionante, sem mais.

Vitor Straub disse...

Emocionante.

Renan disse...

Se for possível responda:Qual a razão da Unidos da tijuca não ser penalizada por usar 32 tripés na ala "Floresta negra"?

Pattoli disse...

Isso é emocionante demais.

Arquivos Brasileiros disse...

Vi o vídeo e procurei algo para escrever. Impossível, você resumiu tudo...

Anônimo disse...

Luiz,
Outro grande momento do carnaval deste ano foi o magnífico desfile da Império da Tijuca. Com um samba bem bonito e o melhor enredo dos últimos anos dos desfiles, de qualquer grupo, foi emocionante ver o desfile da Escola.
Abraços,

Mauro

Luciane Tesch disse...

Que lindo texto! Como portelense e esposa, irmã e cunhada de ritmistas, fiquei emocionadíssima! Melhor que receber prêmio! Abçs, Luciane.

Janete disse...

Realmente foi um espetáculo!!! Muito Linda a apresentação da bateria da Portela com essa homenagem a seu Zé Pilintra e a dona Maria Padilha. Merecido o Estandarte de Ouro e a nota 10 dos jurados...Parabéns ao Mestre Nilo, Patricia Nery e para todos os componentes da bateria Tabajara do Samba...

Silvio Luiz Matias disse...

Lindo! Perfeito! Cada letra, cada palavra, cada frase.
Lindo, formoso, perfeito! Cada nota, cada batida, cada gingado.

Parabéns Luiz Antonio. Parabéns Portela.

Salve Salve a Malandragem, e todo povo de esquerda!, pois sem vocês...

Abraços

Cunha disse...

Muito Lindo !

Anônimo disse...

Olá, Simas,

Tens toda razão. Foi de arrepiar.
Por falar em licença, peço aqui ao seu império para falar da escola educativa da Tijuca.
Achei impressionante o vigor da bateria com as paradas, ficando apenas os atabaques, e a levada do Pixulé. O samba também é muito bom, em que pese o andamento acelerado. Só não achei melhor que o samba deles, aquele do brazingola, acho que de 2009 ou 2010. Não poderia deixar de elogiar o desfile da Império da Tijuca desse ano. Pra mim, ficava fácil entre as primeiras do especial.
Um abraço,
Jaime.

Isabella Molko disse...

Ótimo texto, parabéns !