quarta-feira, 17 de abril de 2013

O BANGU TAMBÉM TEM A SUA HISTÓRIA

O The Bangu Athletic Club, um dos clubes de futebol pioneiros na prática do esporte no Brasil, foi fundado em 17 de abril de 1904 por ingleses que trabalhavam na Companhia Progresso Industrial do Brasil, a fábrica de tecidos do bairro. Possuia no início, assim como o Paissandu Cricket Club e o Rio Cricket and Athletic Club (esse, de Niterói) , jogadores majoritariamente ingleses em seus quadros.

Em 1905 o time do Bangu era formado por cinco ingleses (Frederick Jacques, John Stark, Willlian Hellowell, W. Procter e James Hartley) , três italianos (César Bocchialini, Dante Delloco e Segundo Maffeo), dois portugueses ( Francisco de Barros, modesto guarda da fábrica conhecido como Chico Porteiro, e Justino Fortes) e um brasileiro ( o operário negro Francisco Carregal).

O jornalista Mário Filho, autor do imprescindível O Negro No Futebol Brasileiro - livro que reputo tão importante para entender o Brasil como um Casa Grande e Senzala ou um Raízes do Brasil - verificou um detalhe significativo na foto da primeira equipe banguense. Dos onze jogadores, o mais bem vestido era exatamente o negro Francisco Carregal. A beca do malandro impressionava.

O fato é que Carregal foi um pioneiro na história do futebol do Rio de Janeiro. Não há referência anterior a ele de um negro e operário - Carregal era tecelão da fábrica - praticando o violento e então elitista esporte bretão em terras cariocas. Cercado de estrangeiros, todos eles brancos, Carregal caprichava na beca para diminuir o impacto de sua condição de negro praticante de um esporte de almofadinhas, fato compreensível naquelas primeiros tempos do pós-abolição.

Creio que o traje requintado de Carregal pode ser comparado ao esmero com que se vestia, nos anos de 1930, o sambista Paulo da Portela, sempre de gravata e sapatos. Paulo sabia que, naquele contexto, o negro precisava conquistar um espaço que só viria com um comportamento firme e exemplar. O branco tinha o salvo-conduto da cor da pele. O buraco, para o negro, era mais embaixo.

Alguns meses depois de sua fundação o Bangu colocava, sem restrições, operários e negros no time, misturados aos mestres ingleses. Enquanto o Fluminense e o Botafogo não conceberiam isso tão cedo, a equipe banguense abria suas portas para outros jogadores como Carregal, a exemplo do goleiro Manuel Maia, um goalkeeper crioulo retinto. É claro que também há, nesta questão, uma estratégia patronal, que via na permissão da prática do esporte aos operários uma maneira de atenuar conflitos sociais e trabalhistas latentes.

Foi também o time da fábrica que aboliu a distinção entre os torcedores nos estádios. Na maioria dos campos de futebol, os pobres ou mal ajambrados não podiam assistir aos jogos nas arquibancadas, espaço reservado aos distintos e posudos chefes de família, jovens promissores e raparigas em flor. Ao poviléu cabia um espaço separado, logo chamado de geral, que distinguia, segundo um jornal do início do século, a platéia dos espetáculos, sempre bem trajada e ocupando o espaço nobre no field, do torcedor comum. O Bangu cometeu, desde o início, a bendita ousadia de não compartimentar o público de seus jogos em espaços separados.

Independentemente de análises sociológicas que não interessam a esse espaço, resgatar um pouco dessa trajetória do Bangu serve também para quebrar o mito de que o primeiro clube carioca a aceitar negros e operários foi, na década de 20, o Vasco da Gama. O time da cruz de malta foi, e é fato incontestável, o primeiro dos quatro grandes do Rio a aceitar em seus quadros os negros e operários. Clubes ditos pequenos, porém, faziam isso desde o início do século XX, como é o caso do pioneiro - esse sim! - Bangu de Francisco Carregal e dos suburbanos times do Esperança e do Brasil.
 
O Bangu foi, por exemplo, campeão carioca da segunda divisão em 1911 com quatro negros e seis operários na equipe. Entre 1907 e 1909 o time preferiu manter os negros no elenco e se afastar da Liga Metropolitana de futebol, em virtude de uma mensagem racista enviada ao clube que dizia o seguinte: "Comunicamo-vos que o Diretório da Liga, em sessão de hoje, resolveu por unanimidade que não sejam registradas como atletas pessoas de cor".
 
Que se louve o Bangu. O time de Moça Bonita, afinal, também tem - e como tem! -  a sua história.
 

2 comentários:

Krill, MSc. disse...

Ótimo texto! (aliás, como sempre!)

Parabéns pela postagem e pela desmistificação da história de ter sido o Vasco "o mais primeiro de que todos" a aceitar negros em seu time!

Abraço!

Alguém Estranho disse...

Hahaha

Não sou fã de futebol.

Gostei do seu blog.

Acho que vc vai gostar das minhas historias:

www.queminteressa.blogspot.com

Chega mais.