domingo, 15 de setembro de 2013

PEDRINHAS MIUDINHAS


Amigos, eis aí o convite para o lançamento do "Pedrinhas Miudinhas - Ensaios sobre ruas, aldeias e terreiros", livro que reune 41 pequenos textos que escrevi sobre as encantarias brasileiras. O desenho da capa é do André Dahmer, a orelha é do jornalista Álvaro Costa e Silva e a apresentação é do Nei Lopes. Reproduzo abaixo, integralmente, o texto que o mestre Nei escreveu.


O caminho das pedras. (Nei Lopes)
 
Quem por acaso menospreza a religiosidade africana recriada no Brasil e nas Américas, achando que ela não passa de “um amontoado de crendices e superstições sem pé nem cabeça” – como já se disse por aí –, está muito enganado. E quem, sob esse ou outro motivo, nunca se debruçou sobre o copioso acervo representado pelos relatos históricos e míticos (toda mitologia tem seu mitologema, como “todo boato tem um fundo de verdade”) dessa tradição múltipla, não sabe o que está perdendo.

O antropólogo francês Marcel Griaule, já na década de 1930, percebeu a importância das matrizes desse acervo. E, graças a essa compreensão e ao aprofundamento nesse conhecimento, tornou-se o primeiro antropólogo da Sorbonne, a excelentíssima universidade de Paris.

No livro Filosofia e religião dos negros, publicado em 1950, Griaule, afirmando a alta importância do saber e da espiritualidade africana, ressaltava: “Basta nos debruçarmos sobre esse conjunto de crenças e cultos para encontrar uma estrutura religiosa firme e digna”. E recomendava que outros o fizessem.

Na mesma linha de pensamento, no livro Cultura tradicional bantu, de 1985, o padre espanhol Raúl Ruiz de Asúa Altuna repertoriava os princípios filosóficos contidos na religiosidade dos povos bantos (de Angola, Congo etc.), como, aliás, já o fizera, na década de 1940, outro sacerdote, o belga Placide Tempels.

 

Pois o autor deste livro “fez a lição” dos padres e ouviu a recomendação do mestre antropólogo francês. Mas antes de ouvi-la, já tinha escutado e compreendido o chamado dos tambores do xambá, uma das “nações” do xangô, o “candomblé pernambucano”. E com eles aprendeu que, assim como o candomblé da Bahia procede dos nagôs e jejes dos atuais Benin e Nigéria, o xambá vem do povo Chamba ou Tchamba, do oeste do atual Camarões.

Mas, além do xambá de sua tradição familiar, Luiz Antônio Simas aproximou-se também, ritualisticamente, das tradições que sustentam o culto jeje-nagô aos orixás, o qual, por sua vez, tem como “eixo de transmissão” todo o saber concentrado nos milhares de relatos mitológicos do oráculo Ifá (, entre os jejes), através do qual fala Orumilá, o grande Senhor do saber e do destino.

 

Mestre da História e das coisas dos deuses e do samba, dedicado cientista daquela espécie de ciência histórica que emana da boca do povo, o “caboclo” Simas “sabe das coisas”, ou melhor: vive as coisas que sabe; e extrai delas o sumo, como estas Pedrinhas Miudinhas.  Nelas, que já nas páginas dos jornais prenunciavam sua sina de fascinação, o leitor vai ter o prazer e o encantamento de ver se entrecruzarem caminhos, avatares, qualidades e quantidades tão aparentemente distintos e distantes quanto Elegbara, o “dono do corpo” e Luiz Gonzaga, o “rei do baião”; Juscelino Kubitschek, o “presidente bossa-nova” e Massinokou Alapong, mãe fânti-axânti do Maranhão; o partideiro Aniceto do Império Serrano e a cabocla Mariana, “princesa da Turquia”; Seu Sete da Lira, exu músico da umbanda e Charles Darwin, pai do evolucionismo; Noel Rosa, o “poeta da Vila” e Jesuíno Brilhante, “gentil-homem do cangaço”; Círio de Nazaré e São Cristóvão Futebol e Regatas. Compondo esse fantástico-real universo e formando com eles um caleidoscópico e belíssimo painel, reina e brinca, travessa, a brasilidade de Simas, um cara que sabe.

 

Irmão e parceiro, não só meu como de todos os encantados de Aruanda, Aiocá, Ilê Aiê; do Orum, do Jurema, do São Serruê etc., compadre Simas, com estas “pedrinhas” comove. Principalmente porque mostra um Brasil feito de muitos brasis; onde mestiçagem não significa supremacia e menosprezo da identidade resultante para com aquelas que a plasmaram; nem sincretismo representa capitulação e, sim – como sabiam os exércitos da Antiguidade clássica, ao tomarem para si os deuses dos inimigos –, acréscimo de força vital.

Profissional da arte da instrução, o professor Luiz Antônio Simas sabe perfeitamente o que representou o encontro, nas Américas e no Brasil, das culturas vindas da África com as nativas e as de todas as outras procedências. E ensina, neste livro, como, do ponto de vista espiritual, esse múltiplo encontro gerou um rico patrimônio; que longe de ser desprezível ou menor, tem mais é que ser conhecido e respeitado como fonte inesgotável, que é, de saber e encantamento.

 

Last but not least, fica patente neste livro que na encantaria (vertente religiosa sincrética e mestiça, que cultua os seres encantados) um caboclo pode muito bem ser turco ou austríaco sem deixar de ser brasileiro. E disso, nem mesmo o antropólogo Griaule e os padres Tempels e Altuna imaginaram que o Espírito africano fosse capaz.

 

Nei Lopes – autor de Kitábu, o livro do saber e do espírito negro-africanos, Ed. Senac-Rio, 2005.

 

 

 

 


2 comentários:

Anônimo disse...

Querido Simas. Sou Anderson o clarinetista amigo do Bruno Ribeiro. Irei com certeza prestigiar o lançamento do seu livro. BRUNO VEM?abraçao

Luiz Antonio Simas disse...

Anderson, não pintaste na área? Bruno não veio - está cheio de trabalho. Nós vamos, todavia, viajar para o Uruguai em breve. Me manda teus contatos por email. O meu é luizantoniosimas67@gmail.com

abração!